O PA criado na antiga fazenda “Santa Luzia” foi nomeado de Emiliano
Zapata170 por vontade das famílias beneficiárias da reforma agrária e, após a conquista, suas ações direcionaram-se para outros sentidos e necessidades. Talvez a primeira delas e a que traga impactos mais diretos em sua vida diga respeito ao modo como se dispõem e se organizam as famílias no assentamento e a segunda, como distribuem e delegam trabalhos e funções dentro do coletivo.
Esse momento é importante porque a distribuição socioespacial da área significa a organização da nova vida no coletivo, considerando-se que, quanto mais próximos os lotes, maior facilidade de convivência e encaminhamento de projetos, decisões e reuniões entre os trabalhadores. Sobre esse aspecto, tanto os militantes, quanto as coordenações e as lideranças, por exemplo, as do MST, deixam a cargo das famílias a escolha de quais ficarão próximas uma das outras e sob qual modalidade de organização, apesar de orientarem para que seja nuclear e/ou coletiva. Entretanto, o Movimento entende que isso é uma decisão dos trabalhadores, considerando seus sentimentos e modos de convívio.
De acordo com João Moura dos Santos, a organização de núcleo e por afinidade é importante na medida em que “[...] tem muita discussão dentro desses
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Vale lembrar que, no caso do PA Emiliano Zapata – MST, de início foram assentadas pelo INCRA vinte e quatro famílias na fazenda Santa Luzia, sendo em média 15 hectares para cada.
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CAPÍTULO APÍTULO APÍTULO APÍTULO 2222:O ASSENTAMENTO DE REFORMA AGRÁRIA 120 grupos, por exemplo, quando nós reúne esses grupo, nós vai [...] nós bater em cima disso aí [...] colocamos proposta [...] vai ouvindo as pessoas, as propostas das pessoas e vai colocando e a gente vai estudando um meio até achar uma forma melhor”.171 Por
meio dessa fala, pode-se entender que o modo de organização social que encaminha decisões políticas após a conquista do assentamento é mediada por laços criados ou não pelos trabalhadores.
Segundo Juarez Moura dos Santos,
[...] a primeira coisa, quando a gente chega na fazenda é andar, tem uns que anda pra cima e pra baixo e já tem noção, já tinha o caseiro que [ali] já estava, então, [ele] já tinha noção. [...] Desenhou-se o mapa sobre a visão do assentado, do povo que estava lá naquele local. Com esse mapa, com essa imaginação do mapa e do que que era, aí começou-se a parcelar a fazenda, aonde que podia ficar a reserva, aonde se podia criar os lotes, aonde era terra melhor e aonde era as terras mais ruim. Aí, criando esse mapa, a gente, as famílias passaram para um debate, criou o que era predeterminado pelo INCRA, então, eram as 24 [famílias] nessa época, eram 24 lotes [...] jogou com esses 24 lotes, e a fazenda, pela geografia dela, ela tem um córrego no meio, depois tem mais dois córrego, então, nós dividimos em 4 partes: o Panga e mais dois corguinhos que desce pro Panga. Então, acabou
surgindo 4 partes certinhas.172 Essas 4 partes, como nós já tinha uma
discussão, então, nesse momento, como já tinha os núcleos de base, aí, rediscutindo os núcleos de base, e criou-se os núcleos do assentamento pela afinidade [...] os núcleos que já tinha lá no tempo de acampamento, mas aí rediscutiu e recriou eles pra assim colocar as pessoas mais próximas, parentes, né, ou compadre, comadre, essas coisas todas pra agradar todo mundo nos núcleos. Aí se formou o núcleo de nove, um de oito e um de sete [...] Terra e Vida sete,
Esperança nove e Santa Luzia oito.173
Por meio da narrativa de Juarez Moura dos Santos é possível observar como os assentados expressam seus conhecimentos e desejos ao mapear a fazenda na busca do melhor modo de se organizarem dentro dela. A divisão em partes, como indicou Juarez, conduziu à criação de três núcleos de afinidades com os nomes de Santa Luzia, com oito famílias, Esperança, com nove e Terra Vida, com sete.
Todos os assentados entrevistados destacaram a importância dos núcleos de afinidade e Maria Eleusa Mota ressaltou algo interessante: o nome atribuído ao núcleo,
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João Moura dos Santos, assentado no Emiliano Zapata – MST. Entrevista concedida à autora em março de 2005.
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Quatro partes, duas das quais ficaram próximas e compuseram um núcleo, por isso o assentamento tem três núcleos de afinidades, mesmo tendo sido dividido em quatro partes.
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por exemplo, de Santa Luzia, se associa diretamente à religiosidade das famílias e ao fato de ser também o nome da área antes da desapropriação. Isso, na concepção dos assentados, facilita a localização e a referência do assentamento perante a sociedade local, principalmente favorecendo a comercialização da produção no mercado próximo. Ainda segundo a assentada, nominar o núcleo e, consequentemente, cada lote174 de terra é necessário para que os assentados possam inserir-se na dinâmica e exigências formais da vida rural no que se refere aos créditos, financiamentos e produção do pequeno agricultor. Contudo, é possível perceber que procuram inserir-se como produtores rurais, mas registrando suas memórias e valores, criando uma identificação arraigada em suas crenças e costumes, principalmente procurando manter os valores sociais construídos em anos de vida no acampamento: como Sem Terra.
O sistema de nucleação é emblemático ao revelar valores e sociabilidades construídos dentro do movimento social e político de luta pela reforma agrária, fundamentando-se em diferentes sentidos. Seja o sentido de afinidade entre famílias que vivem próximas desde a época de acampamento, cultivando o valor da vizinhança construído no cotidiano. Seja o de parentesco: os trabalhadores sentem a necessidade de ficar próximos dos parentes, como é o caso das famílias Mota e Moura, pois sentem-se mais seguros para empreender projetos de produção econômica.
Sobre a iniciativa dos trabalhadores de organizar o assentamento planejando o que queriam e como queriam, Juarez Moura dos Santos continuou sua explicação:
[...] Então, criando esses núcleos, aí falamos: vamos fazer o parcelamento tentando agregar os núcleos [...] onde conseguiu criar tal núcleo escolhe aquela parcela de lá, outro núcleo escolhe aquela parcela, e outro de cá [...]. Nessa discussão sem fazer o sorteio, sem pressionar e foi uma demanda da comunidade pro pessoal da equipe
do PDA.175 Aí falamos: vamos tentar criar os lotes respeitando essa
questão do uso do solo, onde dá pra usar mais, a pessoa pega menos, e onde dá pra usar menos, ele pega mais terra, tentando obedecer a esse critério que é o de terra boa e terra ruim [...]. Então demos por democraticamente decidido. Dentro dos núcleos também não houve sorteio em nenhum núcleo, [foi] eu quero aquele lote lá, o outro eu quero pegar perto do meu pai, eu quero pegar perto do meu sogro,
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Cada lote de terra tem um nome. Por exemplo, a opção de Maria Eleusa Mota foi registrar o seu como “Santa Luzia”, que, além de homenagear a santa conhecida por esse nome, homenageia também, segundo ela, sua tia falecida de parto. O lote de Francisco Jubiano de Freitas é “São José”, o de Jonas Batista Nunes e Teresinha Gomes Nunes é “Flavinha” em homenagem à filha falecida.
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Plano de Desenvolvimento do Assentamento (PDA), que é elaborado, segundo os depoentes, pelo serviço de assistência técnica do INCRA junto às famílias, para definir, entre outras coisas, onde cada família será instalada, assim como os tipos de cultura a serem exploradas.
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meu pai tem que ficar debaixo, meu sogro tem que ficar de cima, meus irmãos ficou pra lá, o outro [disse] ah! Eu quero ficar perto do meu compadre, ficar perto do fulano lá, que nós conversa bastante e pela convivência distribuiu [os lotes pelos núcleos]. Então no PA
Emiliano Zapata não houve nenhum questionamento.176
De forma geral, a prática de trabalhadores Sem Terra organizarem os núcleos de afinidades ou grupo de famílias acampadas e assentadas é importante na medida em que se descentralizam poder, funções e trabalho em prol do coletivo dentro do território sociopolítico criado por eles.
Flaviana Dias ressaltou que, na recriação dos núcleos de afinidade dentro do assentamento Emiliano Zapata, os trabalhadores preocuparam-se com diferentes aspectos, por isso tentou-se “[...] colocar também o número de famílias [24 beneficiárias] por região. Foi o caso do núcleo ‘Esperança’, ficava muito longe do núcleo de cá [Terra Vida] e do núcleo ‘Santa Luzia’, que era o último de lá, então aumentou o núcleo, aumentou o número de famílias dentro do núcleo que estava mais próximas”.177
Entre as produções acadêmicas sobre a luta pela terra no Triângulo Mineiro, há as de Guimarães (2002, 2005). Essa pesquisadora, ao analisar o processo de conquista da desapropriação de outra fazenda, a Santo Inácio do Ranchinho, no município de Campo Florido, onde se constituiu o PA -ova Santo Inácio Ranchinho,178 observa, na maneira de se organizarem, que os assentados estão “[...] ligados entre si por relações de contiguidade, ancorada numa identidade territorial e apoiada no sentimento de pertencer a uma localidade” (GUIMARÃES, 2005, p. 04). Essa disposição em grupos de afinidades é considerada pelos entrevistados da referida autora “como uma experiência
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Juarez Moura dos Santos, 31 anos de idade na época da entrevista (2012). Entrevista concedida à autora em fevereiro de 2012.
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Flaviana Dias, 28 anos de idade na época na entrevista (2012), natural de São Simão – GO, entrou para o MST em 2001 quando, junto com o pai, acampou no acampamento Canudos do MST no município de Santa Vitória (Triângulo Mineiro). É assentada no Emiliano Zapata e esposa do Juarez Moura dos Santos. Entrevista concedida à autora em dezembro de 2011.
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Este assentamento atualmente tem expressiva participação e referência do Movimento Terra, Trabalho e Liberdade – MTL, mas iniciou-se com a intervenção do MLST, o qual, de acordo com conversas com militantes da luta pela terra, se retirou da área devido aos rachas e desavenças políticas e ideológicas.
positiva de organização interna no assentamento” (GUIMARÃES, 2005, p. 04),179 avaliação que coincide com a dos sujeitos em análise na presente tese.
Portanto, apesar de Guimarães (2005) tratar de Sem Terra da região com trajetória em outros movimentos sociais e diferentes experiências de assentamento, há semelhanças entre eles e os entrevistados do PA Emiliano Zapata e do PA 21 de Abril que ampliam nosso campo de visão sobre o fato de que vivências na/da luta no momento de se pensar concretamente a instalação das famílias no assentamento se sobrepõem a qualquer outra decisão que não parta dos aspectos da afinidade, da amizade construída. Também se mostra relevante na luta pela terra o valor família, que estimula, cria expectativas positivas e dá segurança e estímulo para superar os desafios cotidianos. Vale ressaltar o trecho da entrevista do depoente de Guimarães (2005) Zé Maria, observando como sua narrativa aproxima-se daquelas dos trabalhadores objeto de nossa análise:
Essa proximidade, essa afinidade foi construída na época do acampamento. Porque, incrusive, pra eu tá perto do meu sogro, perto do meu cunhado, perto da minha avó... Isso dependeu duma discussão em grupo, duma discussão em assembreia... que o assentamento devia sê dividido em grupo. E existia os individuais, na época, que queria que o assentamento fosse espalhado! Nós levamo isso em assembreia, aí 75% das pessoa decidiram que... tinha que respeitá as afinidade, sê em grupo, vizinhança... Incrusive, isso reflete até lá fora! Porquê as pessoas que vem no assentamento... as pessoa comenta que, parte de cá do assentamento, o povo é mais humilde, o povo é mais amigo, o povo é mais diciprinado, o povo tem mais solidariedade... (GUIMARÃES, 2005, p. 04-05).
Essa narrativa indica semelhanças na organização dos núcleos de afinidade por parte dos trabalhadores inseridos no Movimento do MLST. Contudo, não foi possível observar a mesma ênfase dessa prática pelos trabalhadores do MLST vinculados ao PA 21 de Abril. O que se constatou ali é que se basearam em uma divisão por grupos, como afirmou Joversina Alves Rodrigues Barbosa:
[...] dez e de quinze quantos nós quiséssemos de grupo pra ir esparramar [pela fazenda], aí o [presidente da Associação do Assentamento], então, saiu engrupado e, ao sair engrupado, o [presidente] perguntou pro INCRA: é, pessoal aqui está pedindo pra esparramar, pra cada um ter voz ativa pra criar uma galinha e um porquinho. O INCRA aceitou e isso aqui ficou muito bonito, que Deus me perdoa, quando antigamente num existia cemitério, ficou marcado
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A versão desse artigo obtida na internet não está paginada, e os trechos mencionados situam-se na quarta página do texto.
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de sacolinha, é, ficou marcado! Você chegava e você levantava uma bandeira: opa! Se outra pessoa viesse você [dizia] não! Esse aqui já
está assinalado, o meu é aí, o lote meu aí!180
Como se nota nessa narrativa, Joversina, ao selecionar na memória quais foram as escolhas dela e de seus companheiros na distribuição da terra desapropriada, narra como ela gostaria que fosse conhecido esse momento da história. É possível observar um desejo entre eles de ter maior privacidade, onde cada um pudesse ter o seu pedaço de chão e viver de forma autônoma.
No que se refere aos assentados do PA Emiliano Zapata, a decisão de se organizarem a partir dos núcleos de afinidade, ou “de base”, pôde ser compreendida e apreendida por eles por ser resultado das experiências vividas e compartilhadas na dinâmica social e política criada pelo MST no seu cotidiano de lutas. Assim como também o foi a decisão dos trabalhadores do PA 21 de Abril: arquitetada pela história de organicidade forjada sob influência das prioridades do MLST. Vale ressaltar que no PA 21 de Abril há menos famílias unidas por parentesco, se comparado ao PA Emiliano Zapata.
A importância das experiências organizativas forjadas via Movimentos pode ser melhor compreendida por meio da narrativa de Juarez Moura dos Santos:
Leandra: De onde veio isso, pra organizar o assentamento dessa forma?
Juarez: A gente já veio [com isso em mente], porque a gente foi muito calejado no processo de acampamento, então, foram sete anos de luta e acampamento [...] isso acabou fortalecendo muito a formação de grupos, ainda mais nos últimos dois anos, que estava muito naquela questão de pré-assentados, da expectativa real de ser assentado. Então, foi se consolidando no sentido de materializar o que se tinha feito lá atrás, então, acabou que praticamente dois anos [no acampamento] ficávamos discutindo assentamento, no tempo de acampamento houve muito debate de assentamento.
Leandra: E quem faz o debate ou o promove?
Juarez: O MST pelas suas lideranças e pelas suas próprias lideranças que estavam dentro do acampamento, então, isso puxava sempre o debate, e teve um momento que o Movimento dos Sem Terra estava no processo muito de formação e muito preocupado com os assentamentos, então, a gente pegou todo esse debate, que era o novo modelo de assentamento, [...] a gente debateu ele, imaginando o que era possível fazer na região, o que podia ser feito no assentamento, como se criava um assentamento modelo. Nós num podemos nos
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queixar, houve muito debate, muita preparação, às vezes isso criou até um pouquinho de estresse pela demora [da efetivação do assentamento], a gente ficou com muito debate, muita proposta e as famílias com muita expectativa de ser assentada realmente e a gente não conseguia materializar os assentamentos. Desde lá da FERUB a gente vinha discutindo, criando, a gente criou [imaginou] assentamento até em fazenda que a gente não ganhou, que era a Estivinha, a Paciência [essas fazendas foram denunciadas e indicadas por esse grupo para desapropriações para fins de reforma agrária]
[...].181
A organização dos núcleos de base/afinidade no PA Emiliano Zapata vem colocar e rememorar para os(as) trabalhadores(as) a vivência de forma cooperada aprendida com a pedagogia de trabalho, estudo, enfim, de luta do MST, que é pautada no diálogo com os trabalhadores e no enfrentamento dos poderes públicos e ruralistas do período 1990 e primeira década do século XXI. É bom lembrar que o governo federal (FHC) desse tempo implementava a perseguição e a criminalização dos movimentos sociais de luta pela terra (Cf. FERNANDES, 2008). Por isso, a dedicação e preocupação do MST com a organização de suas áreas, como indica Juarez, tentando fortalecer a coletividade nesse processo de conquistas.
Juarez M. dos Santos, na seleção do que lembrar e como narrar, revela para nosso conhecimento questões que dizem respeito às relações e aos valores sociais que, para outros trabalhadores, podem tornar-se desafiadoras, quiçá impensáveis, mas que ao mesmo tempo trazem como possibilidade o aprendizado. Sobre esse ponto, ao comparar essa narrativa com as ponderações da pesquisadora Roseli Salete Caldart, é possível ampliar a compreensão dos significados das experiências dos assentados:
[...] olhar para a formação dos sem-terra é enxergar o MST também com sujeito pedagógico, ou seja, como uma coletividade em movimento, que é educativa e que atua intencionalmente no processo de formação das pessoas que a constituem. [...] Essa intencionalidade não está primeiro no campo da educação, mas sim no próprio caráter do MST, produzindo em sua trajetória histórica de participação na luta de classes em nosso país. É através de seus objetivos, princípios, valores e jeito de ser que o Movimento ‘intencionaliza’ suas práticas educativas, ao mesmo tempo que, aos poucos, também começa a refletir sobre elas, à medida que se dá conta da sua tarefa histórica: além de produzir alimentos em terras antes aprisionadas pelo latifúndio, também deve ajudar a produzir seres humanos ou, pelo menos, ajudar a resgatar a humanidade em quem já a imaginava quase perdida. (CALDART, 2004, p. 315-316, grifo da autora).
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No caso do MST, as atividades forjadas dentro dos núcleos de base, entre tantas possibilidades de transformação das relações sociais, por exemplo, podem ser um processo em que se questiona e procura mudar o olhar e a postura conservadora de alguns diante a participação política da mulher na luta e em outros aspectos da vida. Teresinha Gomes Nunes expressou os ganhos adquiridos pela possibilidade de militância dentro do MST e, no diálogo com a análise realizada por Roseli S. Caldart, é possível aprofundar a reflexão sobre a questão:
[...] valeu a pena vim, a ter se tornado aqui, vim morar na fazenda e se tornar uma militante. Porque eu viajei muito, isso aí fez parte também, cheguei até a coordenação estadual, sabe? Já fui até coordenadora estadual, então tive em vários setores no Movimento, que eu fui setor de saúde, setor de alimentação, então isso tudo. Agora eu estou sendo fiscal da Associação [...] eu estou feliz, estou achando bom. Foi muita coisa que aconteceu, desenvolvi muito, participei muito, aprendi muita coisa que eu não sabia. Aprendi no Movimento, as normas, mesmo as leis, muitas coisas da lei eu aprendi no Movimento, foi muito bom!
Então fiquei muito feliz [...].182
A condição de feliz é atribuída por Teresinha ao fato de hoje sentir-se mais esclarecida sobre leis e normas inseridas nas relações sociais e políticas do mundo capitalista e na complexidade da luta pela terra no país. A pesquisa apontou que essas elucidações muitas vezes emergem da organização e do exercício dos debates e questões planejadas inicialmente nos núcleos de base, lugar onde a orientação do Movimento é a pedagogia que promova e/ou rompa, por exemplo, com o universo de exclusão da mulher na vida política. E isso é possível, entre outras práticas, de que modo? Estimulando que os coordenadores sempre sejam dois, um homem e uma mulher, com voz ativa por um período determinado de dois anos, os quais são eleitos pelos seus pares pelo sistema de votação de todos os membros do núcleo. Essa perspectiva deixa evidente que a mulher é uma militante da reforma agrária e que não deverá ficar dentro do barraco de lona preta ou em sua casa, mas sim inserida no debate político e intelectual, quando participa de cursos de formação política, de escolaridade básica (EJA) e de graduação (via convênios com universidades). Enfim, mulheres que são estimuladas a expor e a pôr em prática seus pontos de vista sobre a realidade vivida.
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