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5. MALİ TABLOLAR

5.3. Temel Finansal Tablolar

5.3.3. Gelir Tablosu

Na compreensão sobre como foram as primeiras experiências na terra conquistada, procurei desvendar o surgimento de novos dilemas cotidianos, enfrentados como desafios. Partindo da narrativa de Maria Eleusa Mota na composição do enredo desse processo, é possível conhecer o que é necessário, em sua opinião, o trabalhador ter em mente se pretender viver no/do campo:

[...] Ah, seis anos, né, eu chuto seis anos. [...] Por exemplo, eu agora estou muito tranquila, porque eu entendi isso, não adianta você pensar que vai conseguir as coisas de um dia pro outro, porque parece que esse processo de reforma agrária lento, burocrático já é pra isso mesmo, pra desestimular, pra você desanimar [...] você tem que

adquirir essa sabedoria de entender esse processo, aceitar, ou você cai fora, senão você fica louco, fica doente, entendeu? Porque tudo é muito lento, tudo é muito burocrático. Então, é por isso que as pessoas

optaram, pararam de espernear, de chorar, de reclamar que isso está demorando, que isso não vem, e resolveram arregaçar as mangas e

trabalhar fora, aí nas fazendas vizinhas. Nem todos trabalham o

tempo todo fora. Nos picos das colheitas corre lá e trabalha uma semana, duas, um mês e depois volta pra fazer suas coisas do lote, pra isso, né, porque já entenderam que não adianta ficar agoniado,

angustiado, esperando que vai resolver nosso problema, que não vai, entendeu? [...] nós temos que inventar um jeito de sobreviver aqui na terra.218

217

Maria Eleusa Mota, assentada no PA Emiliano Zapata, por exemplo, no mês de janeiro e fevereiro de 2012 iniciou a primeira de quatro etapas de um curso de Pós-Graduação ministrado na Escola Florestan Fernandes do MST em Guararema (SP). Juarez Moura dos Santos, Flaviana Dias junto com Aguinaldo S. Batista coordenaram uma atividade de extensão com alunos da Universidade Federal do Triângulo Mineiro de Estágio de Vivência no assentamento Emiliano Zapata e de estudo sobre o MST no mês de fevereiro de 2012.

218

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CAPÍTULO APÍTULO APÍTULO APÍTULO 2222:O ASSENTAMENTO DE REFORMA AGRÁRIA 148 Essa fala traz indícios dos resultados das vivências e de como as transformações no jeito de encarar os desafios da luta estão intrinsecamente ligadas à história e à cultura desses trabalhadores, ou seja, aos modos de pensar, agir e de viver a luta. No caso, Maria Eleusa conseguiu fazer parte de um grupo coeso, juntos desde 1999, enfrentando treze anos entre ocupações, acampamentos, oito despejos, violência física, emocional, moral, mortes de outros companheiros, intrigas e discordâncias entre os próprios trabalhadores, ao mesmo tempo participando de cursos de formação política, acadêmica e técnica. Experimentando práticas e um Movimento que é construído em meio a tendências e propostas variadas na correlação de forças, sob um processo histórico carregado de disputas que são internas e externas ao grupo de que faz parte (Cf. KHOURY, 2004).

Segundo Mota (2010), a partir da terra conquistada, “[...] a dificuldade continua no processo de assentamento. Enquanto na condição de acampado seu maior desejo é o pedaço de terra, enquanto assentado é a difícil luta pela sobrevivência na terra, a busca de créditos para a produção, habitação e infraestrutura” (MOTA, 2010, p. 33). Os trabalhadores do PA Emiliano Zapata, desde 2004 até 2006, viveram sob a condição do que eles definem como “pré-assentados”, tal como os do PA 21 de Abril, que desde 2005 até, segundo João Pedro, novembro de 2010 não haviam sido contemplados com a conclusão do processo de parcelamento da área desapropriada, ou seja, o INCRA não tinha demarcado os lotes e, até dezembro de 2011, por exemplo, os assentados do PA 21 de Abril não tiveram acesso ao crédito habitação, isto é, à modalidade Material de construção dentro do Crédito Instalação concedido pelo INCRA. Segundo o INCRA,

O Crédito Instalação, concedido desde 1985, consiste no provimento de recursos financeiros, sob a forma de concessão de crédito, aos beneficiários da reforma agrária, visando assegurar aos mesmos os meios necessários para instalação e desenvolvimento inicial e/ou recuperação dos projetos do Programa Nacional de Reforma Agrária. [...] Com o objetivo de suprir as necessidades básicas, fortalecer as atividades produtivas, desenvolver os projetos, auxiliar na construção de unidades habitacionais e atender necessidades hídricas das famílias

dos projetos de assentamento [...].219

219

BRASIL. Crédito Instalação. I CRA, 12 Dez. 2011. Disponível em: <http://www.incra.gov.br/index.php/reforma-agraria-2/projetos-e-programas-do-incra/credito-

Interessante observar que todos os trabalhadores entrevistados, quando falaram sobre a atuação do INCRA, usaram as expressões morosidade e burocracia para definir as ações desse órgão no que se refere à legalização do assentamento e a sua efetivação. Ou seja, chegar e viver o novo tempo da produção e da manutenção da vida no/do campo é uma realidade que impõe a invenção e reinvenção cotidiana de meios para aquisição de renda monetária, como, por exemplo, sair e trabalhar nas fazendas do entorno. Isso significa que a vida desejada como assentado ainda estava por se efetivar.

Nessa questão, trata-se de um processo que envolve o órgão público (INCRA) responsável pela reforma agrária e assentamentos rurais e que se fundamenta, como todos os outros, por um sistema burocrático regente do Estado Moderno. E foi possível observar que o termo burocracia é concebido e usado pelos assentados como algo pejorativo que evidencia a administração do INCRA como falha devido aos seus procedimentos, os quais, para os trabalhadores, são desnecessários ao pleno e ágil funcionamento do assentamento de reforma agrária.

Nesse sentido é que procurei investigar e desdobrar as falas dos assentados para além de desabafo, dando ênfase aos significados que, no mínimo, denotam sua indignação com o processo em que estão inseridos, homens e mulheres que na realidade lidam com a intervenção do Estado brasileiro via INCRA e as políticas públicas agrícolas e de créditos rurais enredados pela burocratização no processo de reforma agrária no Brasil. Ou seja, os assentados estão lidando com a burocracia que, embora necessária, ultrapassa seus limites em órgãos públicos que revelam resistências e interesses políticos internos, já que o gerenciamento do INCRA insere-se no campo das disputas políticas.

Portanto, busquei compreender como as falas revelam não só a denúncia da morosidade dos processos de assentamento, mas também um aprendizado dos assentados sobre esse processo e como lidam com ele.

Este estudo tem claro que os entrevistados nem sempre narram exatamente o que fazem e como vivem, pois são lembranças trazidas pela memória, mas é possível apreender os significados dos modos como vivem e interpretam a realidade mediada na relação de forças. Sobretudo, pode-se apreender como desejam que se conheça essa realidade. Dessa forma, é possível conhecer, pela fala de Maria Eleusa Mota em fevereiro de 2011, em qual etapa do processo de assentamento as famílias do Emiliano Zapata se encontravam. Sobre os primeiros passos dessa luta diz ela:

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CAPÍTULO APÍTULO APÍTULO APÍTULO 2222:O ASSENTAMENTO DE REFORMA AGRÁRIA 150

É! Primeiro a burocracia, ela está constante em tudo, né, vem lá do processo de como o INCRA adquire as terras: vem, faz vistoria, vê todos [os] laudos, depois faz levantamento de preços, faz a negociação, faz desapropriação, aí depois faz emissão de posse. [...] O INCRA aí vai fazer a legitimação das famílias que vão ser assentadas e aí depois tem todo esse processo de cadastramento. [...] das famílias [que] vão ser assentadas, porque aí pega toda documentação e faz toda uma pesquisa. Se você tiver nome sujo em qualquer coisa que você comprou e não pagou, se tem problema com a justiça, pensão alimentícia, qualquer problema que você tiver, você é impedido, entendeu? Então tem gente que fala assim: “ah, assenta bandido e tal”, mas o bandido tem que estar em dia! [risos]. Porque, se constar qualquer problema, não tem como. E parece que [...] eles já conseguiram fazer a integração dos cadastros [das famílias do Emiliano Zapata], das informações. Quem já foi assentado alguma vez, ou vendeu lote não consegue mais ser assentado, porque antes ainda enganava, quando não estava, antes deles fazerem essa questão de informações de outros contadores da rede, agora isso já não é mais possível [...] aí depois que eles vão te dar um papel, e nós recebemos Termo de Compromisso, agora já não vem mais [...] não! Agora já vem CCU [Contrato de Concessão de Uso]. [...] É, sei que significa que você tem a permissão para usufruir da terra, você não é o dono da terra. Entendeu? Você não é o dono do lote [...] é morador ali dessa parcela [...], que é o único documento que você tem [de] que você é pré-assentado, assentado. Aí depois vem o processo do PDA, né, que

você conhece.220

A trabalhadora ainda explica outros procedimentos aplicados pelos funcionários técnicos do INCRA para legalizar um assentamento:

[...] os técnicos vão fazer levantamento da área, vê aonde [...] que tem as APPs [Áreas de Preservação Permanente], vê toda a estrutura da fazenda, eles fazem uma mapeação da fazenda todinha. Levantamento de onde tem água, de onde é possível fazer lote. Porque existem alguns assentamentos aqui que vai ficando numa área que não tem água, que é impossível de fazer lote, aí ela [a área do lote] fica aí um condomínio, por exemplo. [...] Faz todo esse levantamento, aí depois

vê como é que vai fazer o parcelamento [dos lotes], [...] que aí entra toda negociação, se vai ser coletiva, se individual [...] do que que é o desejo das famílias. E sempre deixa a área comunitária, que

geralmente tem dentro do MST a sede [da fazenda desapropriada], fica pra área comunitária pra fazer reunião, depois se quiser fazer alguma coisa [...] é nessa área. [...] [O] quê que nós achamos, [...] que não era justo beneficiar uma família só com a sede, porque as outras demais teriam que continuar debaixo de lona até o lento processo do crédito

habitacional. Aí, então, geralmente a sede, pelo menos do Movimento

[MST], fica pra área comunitária, que aí serve pra todo mundo. E esse

processo também é lento, né, como tudo, no processo de reforma agrária, nesse processo de mapeação, depois [...] vem o mapa geral, aí tem o mapa individual de cada lote, a equipe técnica traz isso. E

220

depois, só depois disso, é que faz o parcelamento [dos lotes], é que você pode correr atrás dos créditos.221

Há uma trama de apreensões que vai se engendrando no processo e, diante o desejo das famílias, isso significa para elas lentidão. Existem etapas para poder se estabelecer nos lotes, que podem ser dificultadas, entre outras razões, pelo insuficiente número de funcionários do INCRA para atender a demanda em vários cantos do Brasil. Apesar da criação de Superintendências Regionais (SRs) desse órgão, ao todo são 30,222 o processo evidencia-se precário, levando-se meses ou anos para a conclusão de um assentamento. Isso quer dizer passos que são vividos e sentidos de diferentes modos quando a satisfação de se tornar um assentado contrasta com as dificuldades e morosidade do processo de assentamento, podendo traduzir, por um lado, angústia, desespero, cansaço e descrença. Por outro, vão no dia a dia vivendo esses sentimentos e apreendendo-os como desafio diante dos percalços, a vontade e a necessidade constante de ter o lote em plena atividade.

No combate à ineficácia do INCRA em assentar plenamente as famílias Sem Terra, o MST denuncia a lentidão e cobra reformas desse órgão. Faz dessas questões uma de suas muitas bandeiras e que fica muito clara em suas históricas Marchas pela

Reforma Agrária, como as de 1999 e de 2005, essa última partindo de Goiânia (aonde

chegaram pessoas de 23 estados brasileiros) até Brasília e aglomerando aproximadamente 12 mil pessoas.

Os pontos da pauta de reivindicações da Marcha Nacional pela Reforma Agrária de maio de 2005, mobilizada pelo MST, CPT, Via Campesina e Grito dos Excluídos, diziam respeito ao fortalecimento do INCRA e à situação, naquela conjuntura, dos acampamentos e assentamentos por todo o Brasil. A pauta foi entregue ao ministro do Desenvolvimento Agrário Miguel Rosseto e ao presidente nacional do INCRA Rolf Hackbart. Com relação ao INCRA, o documento reivindicava:

O QUE PRECISA SER FEITO PARA AVANÇAR NA REFORMA AGRÁRIA:

• Reestruturação e fortalecimento político do INCRA: Vincular o INCRA à Presidência da República; Contratação de novos servidores (mínimo: 4.500); Mudanças das Instruções Normativas do INCRA,

221

Maria Eleusa Mota, entrevista concedida à autora em 2011.

222

Segundo informações no site do INCRA além dessas 30 SRs existem 45 unidades avançadas, órgãos descentralizados, de caráter transitório, subordinados às superintendências.

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CAPÍTULO APÍTULO APÍTULO APÍTULO 2222:O ASSENTAMENTO DE REFORMA AGRÁRIA 152

visando: Ampliar a capacidade operativa e autonomia do INCRA (Presidência e superintendências). Reestruturar o INCRA permitindo melhoria e agilidade na capacidade operativa interna e autonomia na execução da reforma agrária; Diminuir a autonomia interna das divisões, visto que trazem lentidão no processo de agilização da reforma agrária; Os recursos da reforma agrária não devem ser contingenciados; Subordinar a Procuradoria à Presidência e

Superintendências do INCRA.223

Em sintonia com essas reivindicações, os entrevistados desta pesquisa discorrem sobre e identificam a lentidão do processo. Como apontou Maria Eleusa Mota nas páginas anteriores, a lentidão se dá não somente após o assentamento, mas desde como o I-CRA adquire essas terras, evidenciando a complexidade histórica da efetivação da reforma agrária no Brasil sob a correlação de forças políticas e econômicas que vêm impedindo atacar o âmago da questão: a estrutura fundiária concentradora estabelecida historicamente no Brasil.

Para a interpretação das falas anteriores de Maria Eleusa Mota e as reivindicações dos trabalhadores em “Marcha”, chama a atenção e é preciso ressaltar que o sentido do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA)224 foi,

223

PAUTA DE REIVINDICAÇÕES da Marcha Nacional pela Reforma Agrária/maio de 2005. MST, site oficial, maio de 2005. Disponível em: <http://www.mst.org.br/book/export/html/79>. Acesso em: 30 maio 2005.

224

O INCRA é uma autarquia federal da administração pública brasileira responsável pela questão agrária. Criado pelo Decreto nº 1.110 de 09 de julho de 1970 com a tarefa prioritária de realizar a reforma agrária, manter o cadastro de imóveis rurais e administração das terras públicas da União. Atua no território nacional por meio de 33 Superintendências Regionais. Um breve histórico de criação de órgãos governamentais ligados ao campo pode ser iniciado em 1954 com a Lei nº 2.163, que criou o Instituto Nacional de Imigração e Colonização (Inic), que absorveu as atribuições do Conselho de Imigração e Colonização/Departamento Nacional de Imigração do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e a Divisão de Terras e Colonização/Ministério da Agricultura. Em 1955 a Lei nº 2.613 criou o Serviço Social Rural (SSR), autarquia vinculada ao Ministério da Agricultura. Passando ao ano 1962, a Lei Delegada nº 11, de 11 de outubro, criou a Superintendência de Política Agrária (Supra), absorvendo as atribuições do Inic e do SSR. O ano 1964 é emblemático por conta da Lei nº 4.504, de 30 de novembro, quando se criou o Estatuto da Terra, o Instituto Brasileiro de Reforma Agrária (Ibra) e o Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário (Inda). Em 1970, com a criação do INCRA, este órgão absorveu as atribuições do Ibra e do Inda. Em 1982 criou- se o Ministério Extraordinário para Assuntos Fundiários (Meaf) com o Decreto nº 87.457. Em 1984 a Lei n° 7.231 transferiu competências do INCRA para o Ministério da Agricultura (Desenvolvimento Rural). Autarquia em Regime Especial de Pessoal. Nesse ano ainda o Decreto nº 90.697 estabeleceu a alteração na Estrutura Organizacional do INCRA. Em 1985, com o Decreto nº 91.214, criou-se o Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário (Mirad). Em 1987 o Decreto-lei nº 2.363, de 21 de outubro de 1987 extinguiu o INCRA, passando suas atribuições para o Mirad e houve a criação do Instituto de Terras (Inter). Em 1987 o Mirad sofreu alterações na estrutura organizacional via Decreto nº 95.074, de 21 de outubro de 1987. O ano de 1988 também é emblemático por conta da promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil, no caso, o Título VII – Da Ordem Econômica e Financeira – Capítulo III – Da Política Agrícola e Fundiária e da Reforma Agrária (artigos 184 a 191). Em 1989 a Medida Provisória nº 29, de 15 de janeiro extinguiu o Mirad e o Decreto Legislativo nº 02, de 29 de março de 1989 rejeitou os termos do Decreto-lei nº 2.363/87, ficando o INCRA

desde seu início no governo ditatorial dos militares, de controle e regularização da posse da terra, entre outros, de administração de questões da reforma agrária e suas ações sempre penderam muito mais a favor do capital financeiro, seja ele nacional e/ou estrangeiro. Portanto, representa um modo de controle sobre as ações dos trabalhadores pobres do campo, os quais, no projeto de reforma agrária de governo, que, a meu ver, é uma política de assentamento, sempre terão “[...] a permissão para usufruir da terra, você não é o dono da terra [...] é morador ali dessa parcela [...]”.225

Com relação às reivindicações de reestruturação do INCRA colocadas entre os sete pontos da pauta da Marcha Nacional pela Reforma Agrária de maio de 2005, o governo federal havia assumido o compromisso de atender os Sem Terra. Contudo, encerrado o mandato do governo de Luis Inácio Lula da Silva, os compromissos não se efetivaram, como fica claro nas respostas articuladas por João Batista de Oliveira, coordenador nacional do MST, a uma entrevista:

Como você analisa as experiências de Reforma Agrária durante o governo Lula?

João Batista: No governo Lula não teve um programa, um projeto estruturado de Reforma Agrária. Houve, no início do governo, uma proposta, um plano, um projeto de realização de Reforma Agrária. Esse plano não foi cumprido, se perdeu no meio do caminho. O governo assumiu metas, que não foram cumpridas. Como houve muito diálogo com o Movimento nesse governo e abertura para discussão, nós cobramos em vários momentos. No segundo mandato, inclusive, como não tinha um plano, nós fizemos uma discussão com o governo sobre algumas ações importantes. Algumas eram compromissos que o

governo assumiu com relação à Reforma Agrária na nossa marcha de 2005. [...] -ós não tivemos um plano estruturado com relação à Reforma Agrária assumido pelo governo. -ão concluíram a atualização dos índices de produtividade, não assentaram todas as famílias acampadas, não construíram escolas nos assentamentos, não elaboraram um programa estruturado de agroindústria dentro dos assentamentos e não deram assistência técnica para os assentamentos. Estamos encerrando o governo e esses compromissos não foram cumpridos.

Qual o papel do INCRA durante o governo Lula?

João Batista: O INCRA é um órgão importante na realização da Reforma Agrária, é para isso que ele existe. Agora, ele não conseguiu se adequar às necessidades. Inclusive, o I-CRA não conseguiu

cumprir com o próprio papel que teria de assumir um compromisso do governo ou do Estado e agilizar o processo de Reforma Agrária. O

restabelecido. Fonte: BRASIL. Histórico do INCRA. Ministério do Desenvolvimento Agrário, INCRA, 30 Nov. 2011. Disponível em: <http://www.incra.gov.br/index.php/institucionall/historico- do-incra>. Acesso em: 2 dez. 2011.

225

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CAPÍTULO APÍTULO APÍTULO APÍTULO 2222:O ASSENTAMENTO DE REFORMA AGRÁRIA 154 I-CRA, por exemplo, continua com poucas unidades de verificação de terras improdutivas, de destinação para os assentamentos. Continua limitado por falta de orçamento. Ou seja, hoje se tem muitas áreas, o próprio I-CRA diz que tem muitas áreas prontas para serem destinadas ao assentamento e não tem orçamento para destinar essas áreas aos acampados. Então, o I-CRA continua limitado.226

Nessa entrevista, a coordenação do MST coloca como questão central e urgente a necessidade de fortalecer e mudar as estruturas do INCRA, apesar de reconhecê-lo como um órgão importante no processo de reforma agrária, o que demandaria a existência real de um plano nacional de reforma agrária. Nesse sentido, o governo federal, via Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), lançou em 2003 o II Plano Nacional de Reforma Agrária, porém não o executou. Os apontamentos de João Batista de Oliveira sugerem que são extremamente parcos os recursos orçamentários destinados ao INCRA para que ele atue de maneira eficaz.

Observa-se ao analisar a realidade que na perspectiva política de governantes da União sobre assentamento, questão e os conflitos agrários, pautada por interesses e compromissos de diferentes partidos e governos, sempre predominou a representação do capital financeiro configurado pelas forças do agronegócio. O MST há tempos aponta que a política de assentamento tem sido muito mais uma tentativa de abafar conflitos pontuais (em muitos casos esses conflitos têm ganhado dimensões de massacres e