Flandrin (1986) observa que a relação entre homens e mulheres, uma vez que produto de um mal necessário organiza-se no desenvolvimento de uma dívida entre os cônjuges; seria então, a relação entre homens e mulheres produto de uma experiência religiosa que observando a necessidade de cometer um pecado justificado produz um modelo de relação organizado segundo o eixo dos objetos. Isso significa que “o corpo da mulher pertence ao marido e ele pode dispor dele à sua vontade, com a condição de não transgredir uma proibição grave. O mesmo acontece com o corpo do marido para a mulher” (FLANDRIN,1986, p.144). Com esse argumento objetificador da união carnal retira-se o prazer do lugar privilegiado. A relação sexual nada mais é do que o pagamento da dívida centrada no matrimônio. Dívida que ameniza os pecados da vontade.
Esse debate só pode encontrar sentido num entendimento singular para o que seja amor. Na perspectiva dos teólogos o amor é tido não como uma necessidade da relação conjugal, mas, de uma licença perigosa que coloca em risco o sentido e o entendimento daquilo que seja a conduta correta dos casados. Observe-se o seguinte texto citado por Flandrin (1986, p.144, grifo nosso):
“no que tange à esposa de outrem, todo amor é vergonhoso; no que tange à sua própria, vergonhoso é o
amor excessivo. O homem sábio deve amar sua mulher com discernimento, não com paixão. Que ele domine o impulso da volúpia e não se deixe levar com precipitação à copulação. Nada é mais infame do que
amar uma esposa como uma amante... que eles não se apresentem às suas esposas como amantes, mas como maridos”.
Podem-se observar aqui alguns elementos importantes para a compreensão da relação amorosa entre homens e mulheres num período da história não tão distante de nós. O primeiro dele é a consolidação da “sexualidade” estóica, que diz respeito ao confinamento do sexo às relações legítimas. Isso significa que o pensamento cristão de fato apropriou-se de alguns elementos desta moral, e o organizou segundo processos significativos do cristianismo, como o controle da carne. Pode-se também, chamar a atenção para os possíveis tipos de intimidade entre os casados que estavam descritos em boa parte dos manuais teológicos. Uma minuciosa descrição das condutas é organizada como tentativa de não permitir que os indivíduos se descolem das práticas sociais. O amor apaixonado é um risco para o convívio social, à medida que desenvolve o embotamento dos indivíduos envolvidos. Assim, uma vida sexual regrada ocorre como expressão do entendimento do que seja a vida e que produz um sentido santificador de seu espírito. É significativo observar que Foucault (1985), ao tratar do cuidado de si, afirma que no início de nossa era um argumento utilizado para desestimular a prática sexual desenfreada entre os casados é, exatamente, compreender que uma vez que se ensinam tais práticas às mulheres, em outros momentos estas poderão tornar-se um elemento perigoso na organização do vínculo conjugal (FLANDRIN, 1986).
A sabedoria do homem que ama corretamente sua esposa acaba por ser reificada com a manutenção de sua posição na relação conjugal. Outro elemento que justifica o temor
dos teólogos com a liberação das práticas amorosas entre os cônjuges está no medo de que esse vínculo dissolva o elo entre o homem e Deus. Como afirma Flandrin (1986, p.145), observa-se “uma rivalidade possível entre o amor conjugal e o amor de Deus”. Fica assim, claro o motivo que levam os escritos teológicos desde o século XVI a observar com certo ar de desaprovação as relações tidas como ardentes, as relações conjugais que transpiram erotismo. Um motivo decorre de um possível estado de isolamento do homem de suas obrigações sociais, o outro a ausência de disponibilidade dos cônjuges para viverem no tempo sagrado.
Como se pode observar são as mulheres os atores sociais que representam um papel significativo. Nessas relações, é sua reputação que está em questão nas relações sexuais. Assim, se o homem sábio não deve amar sua esposa como uma prostituta, do mesmo modo, ela, a esposa, não deve deixar dúvida de sua integridade moral e seu distanciamento da ordem dos prazeres. Se o desejo da mulher casada deve ser interpretado pelo marido e dele decorre o restante da ação, parece ser bastante tensa a compreensão do limite que separa a sexualidade da mulher do poder do homem. Ela é compreendida como objeto que sofre a ação, o seu sujeito, e, portanto, produtor de discursos de poder, encontra-se no masculino. Esse limite da divergência e convergência entre os dois papéis, puta e santa, é claramente expresso no filme de Bruñel, O alucinado.42
O filme se passa na primeira metade do século XX, dentro de um modelo cultural mediterrâneo. Sua história é a seguinte: uma mulher é envolvida sentimentalmente por
um homem católico, mais velho, de posses e amigo de seu atual namorado. Esse homem, arrebatado pela paixão proporciona diversos acontecimentos para que ela desista de seu namorado e venha com ele se envolver. Todas as estratégias são válidas para realizar sua vontade. Ao arrebatar a jovem moça para uma relação honrosa e socialmente desejada – tanto em termos econômicos como religiosos -, uma relação possessiva e, como diz o título do filme, alucinada é desenvolvida pelo marido no sentido de reforçar seu lugar de domínio sobre sua esposa e ao mesmo tempo colocá-la no lugar de um potencial risco para o convívio familiar. Ele um homem honrado, reconhecido publicamente pela caridade, pela educação aristocrática, por sua riqueza e serviços prestados à igreja. Ela uma mulher jovem, bonita, que pertence a uma geração diferente a de seu marido. Não se deve esquecer de um elemento importante, ela casou- se com esse homem em imediata substituição de seu antigo namorado. Rapidamente, o marido caridoso, preocupado com as vontades e desejos honestos de sua esposa é tomado pela incerteza do comprometimento dela com os votos – fundamentalmente de recato, pudor e fidelidade -, proferidos no altar. Inicia-se aí uma série de desencontros de expectativas desencadeando, cada vez mais, a estigmatização da esposa. Seus olhares, sua educação, suas roupas, seu cheiro são a partir desse momento compreendidos como estratégias de luxuria e, conseqüentemente, de uma mulher leviana.43 Lentamente, o descontentamento com o comportamento dessa esposa foi se alargando para esferas menos privadas, como a mãe da noiva, os amigos e o padre. O marido, certo do perigo da esposa, instalou um consenso público sobre as atitudes de
43 Parece que nesse ponto pode-se construir uma crítica semelhante a que Schwarz (1997) produziu sobre a percepção preponderantemente masculina das ações de Capitu, em Dom Casmurro. Segundo ele, um processo histórico de compreensão do romance foi elaborado ao assumir a narrativa de Bentinho como a única presente no texto. Assim, é o olhar masculino de Bentinho que observa a lascividade de Capitu. Todavia, o que Schwarz observa é a necessidade de se olhar para esta história com outros olhos, novas indagações e que levem em consideração a dimensão de gênero na construção da narrativa de bentinho.
sua esposa. Violência psicológica e física são os resultados dessa interpretação. A mulher, como objeto do homem, é qualificada como dissimulada e produtora de desregramentos dos mais diversos. Nesse filme, pode-se observar a difícil situação da mulher, o sentido de seu self pode ser completamente alterado com a interpretação masculina. As esposas sempre estão na tênue linha que separa a santidade da perdição. Tudo parece não passar da condição dos humores masculinos.
Pode-se observar que a condição de casado – e fundamentalmente, das mulheres casadas -, é vista com zelo pelo pensamento católico. Como vimos, o perigo do sexo consiste exatamente na possibilidade da corrupção da carne e, por conseguinte, na dissolução da relação com o tempo sagrado. Quanto às mulheres, afirma Flandrin (1986), possuem na relação matrimonial o mesmo status do marido, são tanto credoras como devedoras do debitum instaurado na relação conjugal; todavia, essa simetria é dissolvida no cotidiano das relações sociais: o homem, “era sempre o cabeça da mulher. E no próprio ato sexual ele era supostamente ativo, portanto superior à mulher, que, supunha-se, devia se submeter aos seus assaltos com passividade” (FLANDRIN,1986, p.140).
O que se quer observar é a formação das práticas sexuais entre casais, e a percepção que se faz dessas na efetivação da relação entre homens e mulheres. Para observar essa questão é necessário que estabeleçamos um entendimento, quanto à condução do ato sexual com relação à mulher que se ama e as demais mulheres. Trata-se do “amor” no casamento e do “amor” fora do casamento.
A esposa não deve conceder ao marido, ou a quem quer que seja a sua dignidade. A esposa é observada como vetor de dignidade de um nome que se honra. Como pode ela, portanto, conhecer as licenças que as amantes ou messalinas concedem aos homens? Uma esposa honrosa deve ser virgem até o casamento e, mesmo que tenha perdido essa condição moral através da cobrança do debitum, deve manter sua castidade em termos espirituais – Áries (1986, p.156) chamou isso de “vontade de pudor da mulher”. Assim,
“fecundidade, reserva da esposa e da mãe, dignidade de dona de casa são características permanentes que, até o século XVIII, opuseram o amor dentro do casamento e o amor fora do casamento. Essa importância relativa tem variado no decorrer do tempo, mas dentro de estreitos limites, quer nos fatos, quer nas idéias e no imaginário”.