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H7 e M7 são filhos de pais com pouca escolaridade, pessoas simples, com histórias familiares de luta e trabalho intensos e muito dedicados às famílias. Na família de H7, os seus pais tinham por característica ser mais fechados, com pouco diálogo e a dificuldade de manifestar carinho. Os seus pais não lidavam bem com as diferenças, havia brigas e discussões, o que é repetido por ele na relação conjugal. Sua origem conta com valores religiosos católicos, porém ela tem o pai protestante, tendo aderidoà religião católica com o casamento.

H7 trata os pais com carinho e descreve a relação entre eles:

[...] ele (o seu pai) teve uma dificuldade muito grande de demonstrar carinho [...] (o

pai dizia) ‘quer estudar?’ Estudar é por sua conta!’[...]. Era incapaz de pegar para

dar um abraço, um beijo [...] eu não tenho esta lembrança dele [...] se eu falasse que eu briguei na escola, chegava em casa eu apanhava por ter brigado [...] eu tinha que ter ido resolver as coisas por lá e nem ter comentado com ele [...] muitas vezes eu apanhei do meu pai sem razão [...] ele tinha esse hábito de demonstrar força, de querer ser educador com a cinta [...] mas ao mesmo tempo ele era carinhoso, só que do jeito dele, jeito que herdou da roça [...]. (Grifo nosso)

H7 considera que o casamento dos pais é feliz, apesar de seu pai não ter tratado a mãe afetuosamente e ter dependência de álcool, mas mesmo assim a mãe mantinha o respeito:

[...] sempre uma relação de respeito [...] meu pai bebia bastante [...] até nos momentos de bebedeira dele a minha mãe sempre o respeitou, sempre tratou ele com muita dignidade [...] mas eu acho que o saldo é felicidade, de respeito mútuo [...] ele demostrava pouco em relação aos filhos, pouco em relação a ela [...]. Era raro ver meu pai beijando a minha mãe [...] eu acho que a gente (o casal) é mais carinhoso [...]. (Grifo nosso)

Na família de origem dele havia violência física e verbal por parte de seu pai. Ele diz que aguentava “as pancadas”. Diz que o seu pai foi também vítima de violência física perpetrada pelo seu avô. H7 tem no pai uma figura contraditória, era generoso, bom, honesto, bom coração, dedicado à família, mas agressivo (ambiguidade). Ao mesmo tempo, era rígido, autoritário, pouco afetuoso e fechado, queria demonstrar e medir a força dele com a de H7, de quem não ouvia as decisões ou desejos. H7 diz que sempre foi humilhado:

[...] meu pai é uma pessoa um pouco contraditória [...] pessoa honestíssima, dedicada à família, extremamente responsável [...] ele teve uma dificuldade muito grande de demonstrar carinho [...]. Era incapaz de pegar para dar um abraço, um beijo [...] eu não tenho esta lembrança dele [...] na adolescência eu me sinto como um rival do meu pai,por ser um, a pessoa masculina no lar [...] junto com ele [...] parece que ele tinha que estabelecer uma certa rivalidade [...] a gente não se dava bem [...] eu acho que ele se sentia meio desafiado [...] meu pai não fala muito [...] no fundo ele sabe que não foi um cara legal especificamente comigo [...].

A relação com o pai melhorou ao longo dos anos e atualmente seu pai o valoriza pela posição que ocupa: “[...] o fato de eu ter formado em advocacia, de ter sido relativamente bem-sucedido, passar em concurso público [...] reconhecido assim em termos de saber, em casa acho que a referência sou eu. [...] eu comecei a me dar bem com meu pai nos últimos anos como solteiro, que eu fui descobrir a riqueza do meu pai [...]”. Ambos se consideraram pessoas com “costas largas”, ou seja, quem acaba aguentando os problemas da família. Ele considera que seu pai demonstra carinho por meio de cuidado, preocupação e valorização das pessoas.

Ele era preterido pelo pai e tinha “espaço emocional” restrito:

[...] meu irmão tinha o agravante de ter problemas de convulsão [...] ele virou o centro das atenções, e minha irmã era o xodó [...] pra mim não sobrava espaço nenhum de carinho, era espaço de rivalidade, era como se incomodasse para ele ter um outro homem dentro de casa[...] a gente tinha uma relação muito difícil [...] era cheio de paparico por causa dessa doença aí, então, os presentes [...] tudo era para ele(o irmão com convulsão), tudo, tudo ele era o centro das atenções [...]. (Grifo nosso)

Em termos intergeracionais, H7 carregou o legado de seu avô: “Pelo o que ele fala (o pai dele) foi muito espancado pelo pai, ele reclamava de cansaço e o pai batia nele com cabo de enxada. [...] mas o meu pai é uma pessoa assim, um coração maravilhoso. [...] é pura contradição [...]”. O pai gerou diferenças no tratamento dos filhos, e ele diz que viveu em um

ambiente de rivalidade com o pai, que dava atenção para os irmãos e disputava o poder com ele. A rivalidade entre ambos gerou “saldos negativos”:

[...] no fundo, ele sabe que não foi um cara legal especificamente comigo [...]. Uma atenção para ele é como se ele tivesse um pé atrás pensando que talvez não tenha dado esta atenção toda para comigo [...] é como se ele soubesse que tem um saldo negativo [...] a minha revolta com meu pai era isso: primeiro ele ser passado para trás pelo pai, e depois ele também não aproveitar as oportunidades que ele teve porque se ele recebesse em terras (o pagamento por desmatar áreas), o que os ingleses pagavam para ele, ele seria um homem rico [...]. (Grifo nosso)

O modelo de gerenciamento do dinheiro tem princípio conservador e na família de origem dele, era seu pai que fazia escolhas financeiras focando o curto prazo, além de deixar de construir patrimônio. Sua mulher acaba assumindo ocontrole. H7 repete o padrão do pai de gastar tudo e com visão de curto prazo e faz um antimodelo na permissão do controle feminino:

[...] eles eram bem resolvidos, eles conversavam, eles são extremamente conservadores, neste sentido de investimentos. [...] lembro, a minha mãe falava: ‘não, nós não podemos entrar em dívidas, tudo o que a gente conseguiu na vida foi comprando em dinheiro e não vamos entrar em dívidas, não!”. [...] eles conversavam, chegavam a uma decisão. [...] minha mãe tinha mais influência, fosse na questão financeira, no resto. [...] o meu pai era o cabeça efetivo da casa, eu acho que a única coisa que ele não sentia confortável em decidir sozinho é em relação ao dinheiro, sobre dinheiro ele conversava bastante com ela,no mais, ele tomava a frente de tudo. [...] eu acho queé meio desequilibrada essa relação em casa, eu acho que ela decide muito mais coisas do que eu. [...] (em relação ao dinheiro) a gente vive em mundos paralelos. [...] via de regra eu decido. [...] eu decido o que eu faço como meu dinheiro. (Grifo nosso)

A introversão e o fechamento são características que aproximam pai e filho, inclusive a generosidade reconhecida em seu pai: “[...] por altruísmo. [...] eu acho que ele gosta de cuidar das pessoas. [...] ajuda sem esperar retribuição [...].” É provável que a generosidade de H7 possa ser apreciada pelo fato de ter aceitado a proposta de sua esposa de adotar três filhos, um com problemas de convulsões. Por outro lado, há ambiguidades, pois seu pai era impermeável às suas vontades ou necessidades, aspecto que ele acaba por repetir com a esposa em momentos de maior tensão: “[...] a gente tem uma certa dificuldade de se falar, sim, mas eu acho que entre nós o que [...] é muito benéfico é que a gente se reconcilia muito fácil, porque eu peço perdão a ela, e ela pede perdão a mim [...].

Ela se posiciona:

[...] ele acha que pode resolver tudo sozinho, não quer dividir comigo [...] falei: ‘[...] passa a senha [...] eu tenho certeza que você vai se controlar mais [...] ele não passou [...] não, não é uma irresponsabilidade não, é uma fraqueza[...] duas posturas sobre como deve ser administrado o dinheiro, o patrimônio de formas diferentes,então qual vai prevalecer? É um debate [...] isso dá o principal debate entre a gente, no resto não sinto tanto [...].

A religião é uma bússola que indica caminhos para resolver os problemas que ambos não conseguem. Isso se aplicou aos pais dele e se aplica ao casal, especialmente para as mulheres que “se ajoelham e rezam” quando as coisas ficam difíceis, padrão repetido por ela:

[...] lembro que teve uma época [...] falavam sobre diálogo na igreja, desta questão do casal dialogar, eu falei: ‘diálogo?’ [...] o que eu faço é rezar” [...] eu penso uma coisa, ele pensa outra, eu me ajoelho e rezo, porque Deus tem que resolver o problema, porque eu não cedo, ele não cede [...].

No casamento M7 repete a disputa de poder e a forma de não guardar ressentimentos, e sim apagá-los. Ela diz:

[...] Dois orgulhosos, um querendo favorecer o seu lado [...] cada um querendo prevalecer os seu lado [...] existem dois deuses buscando seu espaço, talvez, fazendo prevalecero seu entendimento, sobre as coisa, sobre a administração [...] ele faz prevalecer o entendimento pelo silêncio [...].

Como aprendeu a resolver guardando as coisas para si desde a infância, H7 repete os comportamentos no casamento, inclusive quanto à oniomania. Ele repete o pai, procurando ser provedor e não faltar nada para sua família, até mesmo exagerando. Seu comportamento de compras é justificado por comprar as coisas pensando na família. Por outro lado, ele não repete a violência física com a esposa ou os filhos.

O provável padrão de interação de seus pais é complementar rígido, com submissão da mulher.

Na família de origem de M7 há histórico de abandono da sua mãe pela sua avó materna. Os seus pais tinham bom relacionamento, não brigavam, o que é reconhecido como “carinhoso” por ela: “[...] me envergonha muito brigar com o (H7), porque eu não via isso nos meus pais. [...] todas as dificuldades pelas quais eles passaram nunca vi nenhum julgamento [...]”. A mãe fazia sua opinião se sobressair com o marido: “Então, esse negócio de assumir as

rédeas da casa eu acho que tem a ver com o perfil tanto da minha mãe, quanto, e eu acho que a minha sogra gostou de mim por causa disto também [...].”

O pai de M7 sofreu um acidente que o incapacitou, era honesto, cuidadoso com as finanças e era quem a orientava na vida, dizia que ela deveria casar com H7 por ser “homem” e um “bom moço”. E diz: “Era bom, equilibrado, tinha os pés no chão e disposição”. Ela repete o padrão de “pé no chão” e garra de seu pai no casamento.

O pai dela não deixou nenhuma dívida para os filhos quando morreu. M7: “[...] eu tenho a ambição de não ter dívidas [...] meu pai morreu, não deixou um centavo devendo pra ninguém [...] se meu pai morre hoje, ele não tem nenhuma dívida [...].”

Os pais dela viviam disputas de posições no casamento, quando o foco era dinheiro:

[...] o acordo não tinha, meu pai tinha um perfil parecido com o pai dele, com o avô dele, né? Ganhava e gastava, então, a minha mãe tinha um outro perfil, mas ela não tinha condições de pôr em prática isso, de comprar uma propriedade ou outra casa [...] gastava vivendo a vida em passeios, minha mãe falava que ele gostava de passear [...].

Ela faz o antimodelo feminino ao cuidar de sua carreira e não focar no trabalho domésticoe o repete ao tentar controlar o dinheiro na relação. Ambos mantêm contas e despesas em separado. Na relação a dois, ele considera não ter espaço para a opinião dele, entretanto, diz que é a razão dela que prevalece, aspecto que repete a experiência familiar de desqualificação entre os seus pais.

Os pais dela demonstram ter um padrão de interação complementar rígido, em queo homem se submete.

A autoridade nas duas famílias de origem estava nas mãos dos homens, porém eram as mulheres que decidiam sobre o dinheiro e adquiriam poder. H7 não permite que a esposa cuide da sua conta e mantém padrão distinto de seus pais. Ela tentar epetir o modelo materno, aspecto que ele rejeita, por acreditar que a mulher não pode ter poder sobre o dinheiro dele (antimodelo). O casal se mantém disputas, pois, por outro lado, M7 é autoritária e ele, por sua vez, repete a mãe se calando inicialmente para não brigar e depoisexplodir e usar estilo brusco.