• Sonuç bulunamadı

No nível de relação interpessoal, logo no início da relação havia aceitação e tentavam lidar com as diferenças. H8 almejava casar e ter filhos. Mesmo com as diferenças de ideias, valores, e talvez de idade, os dois se casaram, ele acreditando que poderia mudá-la e ela mantendo-se distante das diferenças. Ela diz: “[...] gostava de tá com ele, a gente, apesar

das críticas, tudo, a gente tinha alguns momentos bons [...] o sexo era uma coisa que sempre segurou muito a gente [...]”. Ele rejeitou os comportamentos de M8 que não fossem os sociais e afetivo-sexuais. Ambos sabiam que as diferenças sobre valores em relação ao dinheiro eram claras, inclusive quanto ao nível econômico de cada um, ela com mais condições que ele. Ambos se viam como dois que conversavam e tinham bom papo, mas com a morte do primeiro filho mudou a relação. Ela diz: “[...] eu acho que o que é conversa pra mim não é conversa pra você (o marido). O que eu entendo como uma boa conversa é diferente do que você entende como uma boa conversa”. (Grifo nosso)

Atualmente ela diz que se sente desqualificada:

Eu, eu a [...] eu me vejo como uma pedra no sapato do (H8) [...]. Eu acho que ele, ele põe em mim um peso de que eu faço tudo errado, tudo errado não, que eu faço muitas coisas erradas e que eu prejudico o bem-estar dele, eu prejudico o bem-estar da nossa família [...] ah [...] sou uma coisa ruim, mais do que boa. É assim que eu me vejo, é uma coisa, é [...] um mal-estar pra ele [...]. Acho que o (H8) sempre viu que eu tinha mais qualidades que defeitos. Hoje os meus defeitos incomodam ele de um jeito, entendeu? Por exemplo, eu interrompi aqui enquanto ele tava falando, ele fica irritadí... é, assim, transtorna ele, então eu não posso ser como eu sou na minha casa que isso irrita ele muito. Das coisas mais básicas às coisas mais sérias e eu não sei. [...] a gente fazia as coisas juntos e depois dos filhos a gente não faz mais as coisas juntos. [...] meu pai, acho que absorvia [...] minha mãe não absorvia nada, bate e [...] eu era sempre muito espaçosa, eu incomodava todo mundo em casa [...].

Ele corta a frase dela e diz:

Você respondeu o que ela perguntou? M8: Sim. P: Estamos indo devagarzinho,

estamos indo devagarzinho. M8: Por que você quer que eu explore mais o assunto?. H8: Não, não é uma questão de explorar. P: O que você gostaria de falar? Pode falar. H8: Não, eu acho que ela permanece exatamente como ela descreveu que o

irmão descreve ela, ela continua sendo espaçosa, desestruturada, desorganizada, as coisas são largadas assim até hoje, até hoje [...]. M8: [...] não é que eu não vejo as coisas [...] acho que ficar parado pensando nas coisas também não resolve [...].

(Frase incompleta) (Grifo nosso).

A interrupção da fala do outro é forma de discórdia e que ela confirma:

[...] tão simples quanto isso, eu não posso ser uma pessoa que [...] nunca intromete a pessoa na fala. Eu sou meio assim atirada, é meu jeito [...]. Nosso maior problema no casamento é a falta de conversa [...] ele não lembra das coisas que eu falo. A nossa relação melhorou desde que existe e-mail. É incrível isso, porque tá no e-mail. [...] é assim, por exemplo, ele tá olhando uma coisa, ele precisa terminar, raciocinar sobre aquilo pra ele estar disponível pro próximo assunto [...]. Às vezes eu não percebo que ele não terminou um assunto, eu já tô no outro e acho que ele registrou.

A rejeição e a desqualificação têm sido a forma utilizada para se comunicarem. M8 diz:

[...] me sinto um incômodo [...] eu preciso ter um tato [...]. Ele até vira o rosto pra me beijar [...]. Ele não me beija mais, ele vira o rosto fisicamente, emocionalmente [...] ele quer distância de mim [...]. Mas ele acha que eu sou importante pras crianças [...]. Triste, muito triste, muito sozinha, muito, sempre com muita responsabilidade, mas muito sozinha [...] ele me critica em tudo que eu faço [...] eu me vejo muito apagada [...] eu fico evitando criar problema, tem hora que eu solto [...] e ligo o dane-se você, eu só posso ser quem eu sou [...] fico nesses dois opostos. [...] P:

desde quando? “Acho que esse ano. [...] os dois estavam toreando (Grifo nosso).

Assim, eles repetem o modelo de desqualificação mútua de seus pais, ele por meio do

estilo brusco, cuja comunicação facilita a confusão entre o conteúdo e a forma, sendo que a

forma define a relação. Ele não responde à pergunta e mostra analogicamente a rejeição e ela

tangencia e não chega ao que lhe incomoda. Por outro lado, expressa seus sentimentos de

forma direta e com uso do estilo brusco. H8 diz: ”[...] eu não sinto prazer de estar com ela [...]. Eu tenho, assim, enorme gosto, prazer, curto estar com as crianças [...]”. A tensão aumenta e ele diz: “[...] meu processo de propor, de induzir, enfim, o casamento, de que foi precipitado e foi prematuro. [...] e eu construí dentro de mim uma fantasia [...] expectativa [...] percebendo que isso não ia se concretizando e eu fui ficando cada vez mais frustrado [...]”. A

escalação simétrica, a impermeabilidade e a pontuação da sequência aumentam ao ponto de

interromper a própria entrevista. Os ataques e brigas com disputas são modelos da família de origem deles e reproduzidos no relacionamento. Na entrevista em questão, ela diz:

Ninguém faz tentativa dez anos, vive infeliz dez anos [...]. Como é que pode ficar dez anos numa relação. [...] é horrível você ouvir um negócio desse. Eu joguei dez anos no lixo, é isso? É assim que ele coloca, dez anos que ele tá se torturando? [...].

H8: Aí a descoberta (escalação) [...]. M8: “Então, tá bom. Então pra mim chega. H8: Ela...num se deu conta do que é que [...]. M8: Pra mim chega (impasses) [...]. H8: [...] se estava tentando. M8: Não, eu me dou conta já. H8: O que que é que

tava rolando. M8: Eu não sou uma pessoa que não se dá conta. Você que às vezes precisa ver como você fala. Ter que ouvir meu marido que tá há dez anos comigo infeliz desse jeito. Chega, não tem nem mais o que conversar, chega [...]. Eu não preciso, tenho que ter um pouco de autoestima, senão num dá.

Acho assim, o fato dela ser uma pessoa batalhadora, uma pessoa que, é [...] sempre quer ver as coisas boas, quer ver as coisas andando bem [...]. Principalmente que ela sempre me dá algum presente, uma forma de reconhecer alguma coisa que ela via talvez em mim e que era a maneira dela expressar, trazer alguma coisa, comprar alguma coisa, tudo fora de hora, não tinha um, não tinha um motivo especifico [...] ela é uma pessoa de boa índole, é uma boa pessoa, pessoa do bem, não tem má-fé [...]. Não me preocupei muito em ficar pensando no que tá me segurando, eu fui vivendo [...]. Ela tem uma preocupação em ser bem-sucedida e a gente torce, todo mundo torce evidentemente por isso, acho isso um bom movimento que ela tem [...] muito saudável que ela luta, ela vai, batalha, batalhadora, proporciona um padrão em casa, pôr as crianças numa boa escola [...]. P: Isso ajuda você ficar? H8: Ajuda,

com certeza, com certeza, sim. Acho que é, se preocupa em ter um bom padrão, proporcionar um bom padrão, acho que isso é um fato importante também [...] (Grifo nosso).

Aqui há outro momento de incoerência, pois um dos motivos de tantas dificuldades para ele é o quanto ela se dedica ao trabalho e tem pouco tempo para a família e para ele. O trabalho dela traz insumos para casa e ele diz que esse padrão que vive o fez, e faz, ficar com ela.

Eles usam a interpretação errônea como forma de desqualificação. H8 diz

Algumas coisas eu realmente faço questão e bato o pé, e bato o pé mesmo, porque isso aí é fundamental e tem que ser mesmo. Exemplo, sou eu que faço questão de que nas sextas-feiras a gente jante junto. É um hábito judaico, tem sua razão de ser, pra ela é um incômodo, só atrapalha o trabalho dela, atrapalha, chegarem casa pra jantar com a família na sexta-feira [...] é um esforço sobre-humano pra ela [,..].

Ela não confirma que atrapalha ou se é incômodo, e sim que não era fácil chegar em casa no horário. Outra forma de interpretação errônea vem da parte dela, pois ele não disse que foi errônea a decisão de se casar, e sim precipitada:

Você chegou a uma conclusão depois de uma profunda terapia e que você casou com a pessoa inadequadamente, certo? Não é isso? Você casou com uma pessoa que você não devia ter casado, não é isso? [...] que ele tá casado comigo por engano. [...] eu não vou ficar com uma pessoa que tem certeza que tá comigo por engano [...]. Ou a palavra não é essa? Ou tá comigo porque é um equívoco? Evita estar comigo há seis meses! Eu tô na mesma casa que uma pessoa que evita estar comigo!. Ah, não, desculpa, não precisa fazer esse esforço! Eu não sou tão ruim assim. [...] desculpa, mas eu não sou essa pessoa. Eu não quero que você faça esse esforço, não quero mesmo, eu não quero, isso não faz sentido [...].

O sintoma comunica a incapacidade de controle tanto dela quanto dele, além da

[...] eu comecei a me endividar. [...] As coisas que eu queria comprar, sempre eu que paguei para mim [...]. Até porque ele, não, não [...] se ele tivesse dinheiro, até nem concordaria, porque não é coisa que ele investiria [...]. E continuei comprando, e comecei a me endivida [...]. Com o cartão [...]. Antes disso eu continuava comprando, mas eu conseguia pagar tudo”.

Ele diz: “Eu entendia que era um problema, mas que ela iria resolver sozinha [...] ela comprava exageradamente, mas que ela tinha que saber controlar as contas dela [...]. Sempre tinha dinheiro. Ela não tinha reservas, ela tinha dinheiro.”

Ambos não conversam sobre esse comportamento, porém ele fez tentativas que ela reconhece: “[...] ele foi tentando me ajudar muito nisso, tentar criar datas, tipo: ‘ah, você comprou, mas não dá agora. Tenta dar numa data mais adequada.” Ele diz: “Sempre apontei que ela tem um ritmo de consumo exagerado, mas que ela era dona do nariz e que ela fizesse como ela achava certo.”

O sintoma comunica a distância do casal, a falta de comunicação e de planejamento a dois. Ele diz:

Quando um objetivo de um tá lá, quase obsessivo [...] sem [...] harmonização de propósitos ou projetos, nesse aspecto tem com certeza (tem a ver com a família de

origem dele), tendo a me pautar por aquilo que eu consigo fazer, o que eu consigo

realizar [...] sem [...] um sacrifício [...] da convivência [...] não se entra em acordo sobre um propósito comum [...] cada um puxando pra um lado. P: como os pais? (ele gagueja e reponde). H8: “É. Não tem conversa. [...] P: parecido com seus pais? H8: Exato [...].(Grifo nosso)

Ela diz:

[...] o que eu lembro, assim, essa coisa de em casa ter um que fala não e outro fala sim [...] sou o sim, ele (o marido) é o não [...] a questão financeira [...] que pra mim é um valor muito importante para ele [...] é menos importante, não é que não é importante, e essa coisa da minha mãe ter um período sustentado a casa, assumido a casa, financeiramente [...]. H8: Eu vejo uma relação próxima, bem próxima [...] da

relação dela com o pai e a relação que ela tem comigo [...] de não conversar, de não relatar, não compartilhar, planejar [...]. M8: O que eu vejo, ele é muito parecido

com o meu pai, que eu acho que ele é uma pessoa muito boa, mas às vezes ele é mais preocupado com os outros do que comigo, com a esposa [...]. M8: [...] a gente não tem momentos leves de conversar. Não que você tem que sentar, ter um assunto pra conversar [...] se estamos nós dois sem criança pendurada, sem gente pendurada. [...] a gente não sai nós dois pra ir jantar, a gente não sai nós dois pra fazer uma viagem de fim de semana [...]. H8: [...] não foi construído isso [...] então não é surpresa que a gente nunca viajou, porque a gente nunca sentou pra dizer assim: ‘puxa, vamos tentar fazer assim uma vez por mês, sair, vamos fazer’ [...] explicava, tentava, mas num ia, era visto o tempo todo como uma invasão [...]. (Grifo nosso)

Sintoma mantém o nível de relação interpessoal com uso de desconfirmação. Ela diz:

Eu acho que cada um decidia sozinho e dizia para o outro o que fez. Apesar de que nessa época eu acho que a gente conversou, mas eu não vou ficar falando a mesma coisa toda vez [...] a gente conversou sim sobre essas despesas, e a gente saiu cada um lutando para conseguir fazer as suas coisas.

O sintoma comunica a vulnerabilidade emocional e questões da conjugalidade, pois depois de uma cirurgia bariátrica dela, M8 diz que:

[...] comecei a ter vontade de me vestir. [...] isso me ajudou um pouco com relação às crianças. Mas eu acho que eu não tenho uma constância [...]. Às vezes me arrependo, às vezes não [...] estou comprando bastante. De novo. Principalmente essa situação toda nossa aqui. P: Qual situação? M8: Nossa. Ele e eu, né? P: Você vê uma relação entre o você comprar e a relação sua e dele? M8: Eu estou bem

descompensada [...]. (Grifo nosso)

Assim há comunicação impermeável e distanciamento construindo ao longo do tempo. Ela diz:

Sempre foi uma coisa meio: o meu dinheiro é meu, e o dele é [...] não tem um dinheiro do casal [...]. Eu falava: ‘vamos fazer junto’, e ele falava: ‘não, o que é seu é seu, o que é meu é meu’. ‘Não, mas a gente é um casal’ [...]. ‘Não, mas é importante, eu não quero o seu’ [...] a gente não é um casal nessa parte [...]. H8: Eu não sabia que era tanto. Eu sabia que era muito, nunca soube qual era o valor. Nunca, nunca soube, e ela nunca dividiu, informou, ou coisa que o valha. Ela simplesmente disse: ‘olha, os meus irmãos estão me dando uma mesada, porque eles cobriram o buraco’. Eu não sabia. E não sabia o montante também. M8: Eu convidei você para vir na reunião, não é?. (Mudança brusca de assunto, ele não responde e muda de assunto). H8: “Eu tive algumas despesas, depois

eu tive uma diminuição na minha renda. Eu ia consumindo a minha reserva, e acabei tendo a dívida mais ou menos na mesma época. (Grifo nosso)

Acreditar um no outro, que já era difícil, fica mais latente, pois o sintoma de comprar compulsivamente apenas acrescentou mais descrenças. Ele diz:

[...] quando surgiu o projeto do HC, eu disse assim: ‘bom, esse pode ser um caminho que pode despertar para algum resgate, algum propósito, um objetivo, um compromisso. Algum comprometimento’ [...]. Vai que mostre algum sinal [...]. Mas depois de quatorze anos, eu estou cético [...]. Eu só acredito vendo. [...] eu não tenho

no que acreditar, a não ser ver. Não é quatorze dias, ou quatorze semanas, ou quatorze meses. São quatorze anos.

Assim repete o mesmo ceticismo aplicado ao seu pai, e demorou anos para acreditar nele.

As compras compulsivas podem ter relação com o sentimento de perda e humilhações vividas na sua família de origem, e ela faz o antimodelo ao comprar em exagero, oposto à carência que viveu:“[...] eu só comprei a partir do momento que eu tinha o meu dinheiro para comprar [...] eu não comprava com o dinheiro dos meus pais. [...] se eu queria comprar, eu tinha que ganhar dinheiro [...]. O poder se dava pelo dinheiro na minha casa [...]. Eu fui atrás da minha grana [...]”. Conforme as famílias de origem, as questões financeiras foram tratadas sem compartilhamento entre os parceiros, portanto há um modelo independente do uso do dinheiro que aponta para disputas de poder.

O padrão de interação do casal era inicialmente complementar rígido, com a submissão de um:

Sou muito conciliadora, eu não gosto de confronto, não gosto [...]. Essa pressão em cima de mim, eu me recolho, eu não consigo. Alguém pula em cima de mim, reajo com ato, ou eu pulo de volta ou eu me recolho [...] como eu não gosto de pular de volta, porque eu posso me arrepender, então eu me recolho a maioria das vezes [...]. A raiva que eu sinto dentro de mim que, se eu falar, eu vou falar muito. [...] vai ter ruptura.

Ele diz:

[...] eu expressava isso, eu não escondia, não engolia [...] dizia: ‘olha, tem assim, assim, nós não tamos nos comunicando, não temos clareza’ [...] eu era mais enfático, porque ela não passava recibo (o que para ele é a responde resposta dela: e “mas é

o meu jeitinho”). [...] eu tava tentando dar de mim pra uma relação e ela tava

flanando [...]. Toca pra frente [...]. Eu absorvo, guardo. [...] me deixa triste, preocupado [...] não vai render, não vai se trabalhar [...] fica guardando. (Grifo nosso)

Passou para simétrico com disputas e brigas:

Ele quer do jeito dele. [...] a gente tá numa fase que a gente já não conversa. [...] como ele não concorda com as coisas que eu falo, ele desfaz o que eu falo e faz o dele valer, ele tem entrado muito na educação das crianças e tem me tirado um pouco desse processo. Assim, ele vai me empurrando pra fora [...] não há um consenso nas decisões, elas são de um lado ou de outro e a mesma coisa, eu tomo

decisões com outras coisas porque ele tem um ritmo pra fazer as coisas [...] eu sou exageradamente rápida e ele é exageradamente lento [...] um esperar o outro [...] pra mim é um esforço sobre-humano [...].

Ao longo do tempo e depois de terem filhos, eles saem de um ponto em que não há diálogo para a escalação simétrica e criação de impasses. Ela usa o tangenciamento para se comunicar com ele e diz: “[...] se estamos nós dois sem criança pendurada, sem gente pendurada, a gente não sai nós dois pra ir jantar, a gente não sai nós dois pra fazer uma viagem de fim de semana [...]”.Neste aspecto ele concorda:

Acho isso que ela falou. É uma dificuldade de comunicação, e eu já tinha dito isso antes também. Ela é ausente [...]. A gente se informa, a gente não se comunica [...]. Eu acho que a gente não tem momentos a dois pra poder conversar sobre as coisas. [...] sempre com um monte de gente em volta.

Ela diz que:

A gente começou a se agredir e num é legal, e eu tenho medo de que isso vai acabar [...] ele é uma pessoa muito profunda [...]. Muito elaborada. [...] e eu sou uma pessoa pouco elaborada [...]. Ele acha que eu sou superdesorganizada [...] generosa, mas acha que até essa generosidade eu gasto muito em coisa que não precisa [...] educo errado as crianças. [...] sou desorganizada [...] acha que eu não vou fundo nas coisas, acha que eu não dou atenção a ele, nem às crianças, acha que eu não ligo pras coisas que são importantes na vida, como saúde, como disciplina, como ter momentos em família definidos, tipo refeições [...]. Acha que não vale a pena talvez trabalhar tanto, embora eu não sei de onde que ele imagina que a gente vai educar os filhos [...].

Em seguida, ele responde sentindo também a rejeição por parte dela, usando estilo

brusco:

[...] um enfeite [...]. Um reprodutor de alguma necessidade dela. [...] que tem um marido, expor ele de vez em quando em alguma situação . [...] P: desde quando está

assim?) H8: “Acho que desde o nascimento da J. [...]. A gente não senta, não

conversa, e ainda o dia que o último bastião a cair foi a questão sexual [...] depois de ser rejeitado algumas vezes na cama, etc., eu disse: ‘ah, chega, não vou mais ser palhaço, chega’. Só quando convém, quer dizer, só quando tá a fim [...]. Se é lido como crítica, não adianta a gente mudar e tentar justificar. Não, não estou fazendo crítica, tô tentando dizer que precisa ser trabalhado, etc. [...] ela rejeita por princípio trabalhar a si própria [...]. Ela não tem problema, ela não precisa se trabalhar por mais que se procure sinalizar. [...] não foi construído isso, um espaço de conversa. [...] então não é surpresa que a gente nunca viajou, porque a gente nunca sentou pra dizer assim: ‘puxa, vamos tentar fazer assim uma vez por mês, sair, vamos fazer’ [...] (Grifo nosso).

O sintoma surgido desde a adolescência comunica a impossibilidade de controle e de se desprender de padrões comunicacionais e de interação disfuncional vividos em suas famílias de origem. Comunica o poder da mulher, já visto nas duas mães, e a dificuldade do homem para lidar com esta diferença. Além da repetição da própria incoerência que ela viveu por parte de seus pais, ou seja, comprar mesmo sem poder.

Quanto ao nível de relação interpessoal, nenhum dos dois se interessa pelo outro e eles negam a realidade de cada um, configurando a impermeabilidade:

Ele tem esse jeito [...] tem algumas coisas que ele não quer saber o contexto, ele vai naquela batida e é [...] reunião de escola é importante, não importa o contexto, reunião de escola é fundamental, não mas existe contexto, pra ele não existe contexto, e o que ele quer que eu seja [...] não cabe [...] eu não sou essa pessoa que você quer, eu não consigo trabalhar o que eu trabalho pra proporcionar as coisas que eu consigo proporcionar e ser a mãe que você quer que eu seja, não dá. Simplesmente eu não consigo. Não consigo. E ele fala: ‘mas você tem que, as crianças precisam’. ‘Mas eu não consigo, eu não consigo, não dá’ [...] eu montei três empresas do zero em cinco anos [...] pode ser até que eu exagero mais pra um lado, eu realmente no trabalho tenho uma obsessão, quero que as coisas funcionem, mas também acho que as coisas vão melhorando [...] eu acho que a vida não é assim, mas ele planejou desse jeito, tem que ser desse jeito. Então eu não vejo problema nenhum ele ir na escola [...]. É impossível, eu não consigo [...] quero ter uma condição financeira pra poder viajar, pra poder ter uma escola boa pras crianças [...] é importante e eu batalho por isso e eu gasto uma energia muito grande nisso e eu acho que ele faz o papel complementar, não precisa de mim nas coisas [...].

A pontuação da seqüência pode ser vista quando os pontos de vista não se encaixam.

Ela diz:

[...] assim, mesmo que teve uma briga, uma discussão [...] uma coisa ruim, eu puxo um assunto. [...] tento recolocar as coisas sem mágoa, sem rancor [...]. Eu vou conversar sobre as coisas. [...] eu não vou tocar [...] na dor dele e na minha dor [...] vou conversar sobre as coisas que apareceram [...]”.

Ele diz:

[...] eu percebo o movimento de querer fazer alguma coisa, mas ao mesmo tempo de não querer aprofundar, passou um band-aid na situação e fica nisso. Toca pra frente [...]. Eu absorvo, guardo [...] me deixa triste, preocupado [...] não vai render, não vai se trabalhar [...] fica guardando [...] fica uma superficialidade [...]

[...] ele fala do problema, ele não chega pra mim e fala assim: ‘agora eu quero uma vez por semana, a gente vai sair pra jantar, pra conversar, não, faço questão, é importante’, ele vai falar que a gente não conversa, que a gente não sei o quê, ele