1. BÖLÜM
2.1 SPĐNOZA’NIN AHLAK ANLAYIŞI
A partir da caracterização da alma de Peronella e do mundo exterior retratado no conto boccacciano, a seguinte pergunta pode ser feita: a heroína consegue a reconciliação com esse
mundo exterior, ou seja, ela se adapta ao conflito vivenciado por ela? De que maneira isso
ocorre? Buscamos responder a estas perguntas ao longo deste subtópico.
Podemos dizer que a heroína boccacciana Peronella é construtora de seu próprio destino, pois ela possui certa liberdade para colocar em ação o seu demonismo. Para tanto, ela precisa utilizar algumas estratégias para adaptar-se ao mundo exterior que quer aniquilar a sua
alma. Desta forma, podemos dizer que ela se adapta ao mundo hostil que a impediria de
concretizar as suas vontades. A maneira que Peronella encontra para se reconciliar com esse
mundo exterior é através do uso de algumas estratégias que lhe possibilite pôr em prática as
suas vontades. Desta forma, temos que a heroína busca persuadir o marido sobre o seu ponto de vista, evitando assim que as suas ações, incompatíveis com o mundo exterior, sejam descobertas. Sendo assim, ela utiliza a chantagem e um discurso irônico como forma de esconder os seus atos e opiniões, sem deixar de agir em conformidade com os seus valores, a exemplo dos desejos sexuais. A heroína em seu discurso repudia, estrategicamente, o fato de outras mulheres terem amantes e condena, de modo irônico, tal comportamento. Por isso,
podemos considerar que esta atitude de Peronella a enquadra no terceiro tipo de personagem lukacsiano, já que ela consegue se adaptar ao mundo exterior através da astúcia e do uso do discurso irônico no qual ela expõe uma opinião que satisfaz aos Valores e estereótipos religiosos e sociais que estão inseridos em um ambiente patriarcal trecentista. Nesta perspectiva, a heroína consegue manter-se, embora aparentemente, em harmonia com o
mundo exterior, porém concretizando a sua alma. Observamos que esta discrepância entre o
dizer e o fazer da heroína resulta da totalidade do texto que é construído para denunciar o sistema patriarcal e religioso ilustrado na narrativa.
Com relação aos Valores religiosos retratados na narrativa e à identificação dos personagens do conto, podemos observar três possibilidades na relação entre os personagens e estes Valores. A primeira delas ocorre quando o personagem possui Valores religiosos através da assimilação, colocando-os em prática; na segunda, o personagem apenas convive com estes
Valores religiosos; e, na terceira possibilidade o personagem se adapta aos Valores religiosos
e os reproduz mecanicamente. Estas possibilidades, no entanto, não se excluem, ou seja, não são estanques. E a consequência disso são as contradições dos personagens, no caso específico da heroína. Porém, estas contradições aparentes servem para mantê-la no mundo
exterior, ou seja, em uma posição cômoda para ela.
A partir do que apresentamos no tópico 2.2.2, podemos caracterizar o mundo exterior do conto boccacciano como um ambiente que apresenta dois aspectos:
1) Valores religiosos, pois os personagens utilizam expressões que referenciam a religião católica; e
2) Valores de uma sociedade patriarcalista, já que a heroína “repudia”, através de um discurso reprovador, a traição de outras esposas e ironiza ao dizer que sabe tratar de assuntos tipicamente masculinos, como a negociação de compra e venda de objetos (a exemplo, do tonel que está na sua casa).
Para o primeiro aspecto, a exemplo dos Valores religiosos retratados no conto, podemos citar o momento em que o marido da heroína retorna para casa e encontra a porta fechada a chave. Ele, demonstrando resignação pela vida que tem, se configura como um personagem que possui alguns Valores religiosos através da assimilação, já que tudo para ele é obra de um Ser superior. O marido de Peronella, embora se lamente pela vida modesta que possui, agradece a Deus pelo fato de ter se casado com uma mulher honesta.
A heroína, por sua vez, se dirige ao marido colocando-se sempre na posição de vítima e de mal compreendida, o que resulta em uma estratégia para conseguir obter êxito nas suas
ações, ou seja, ela consegue convencer o marido através de seus argumentos e de sua chantagem. Desta forma, podemos dizer que a heroína boccacciana neste conto, mesmo estando isolada em sua casa, no seu ambiente doméstico, consegue sobressair das imposições do patriarcalismo no qual ela está inserida. Portanto, podemos dizer que ela busca adaptar-se aos Valores religiosos que fazem parte de seu mundo exterior, convivendo assim com tais
Valores, porém sem colocá-los privadamente em prática. A utilização de expressões que
referenciam Deus sugere que os personagens também reproduzem mecanicamente os Valores religiosos, sobretudo a heroína.
A personagem tem consciência do papel que a sociedade patriarcalista lhe atribui, porém, pelo que podemos perceber através de suas ações, ela não segue os padrões femininos preconizados pelo patriarcalismo do trecento, a saber: a maternidade, a fidelidade e a castidade. Ao mesmo tempo em que Peronella “quer”, ela tem consciência de que “não pode”, disto resulta então o seu conflito (conceito lukacsiano), que ela busca solucionar através da sua astúcia, ou seja, da omissão de informações sobre os fatos ao marido, abstendo-se de expor publicamente as suas vontades e os seus valores. Realizando estas ações, portanto, podemos perceber que a heroína consegue concretizar os seus anseios, enfrentando indiretamente o mundo exterior que poderia aniquilar o seu “demonismo”. Desta forma, fica evidente que a heroína, ao tomar estas atitudes, consegue adaptar-se a esse mundo hostil sem ferir os seus princípios.
Acreditamos reunir aqui alguns componentes para a análise da heroína Peronella à luz do conceito lukacsiano de maturidade. O objetivo deste capítulo foi a análise do segundo conto narrado na settima giornata do Decameron de Giovanni Boccaccio que apresenta Peronella como a heroína do conto. Nesta análise tivemos como foco principal a verificação do conceito lukacsiano de maturidade – correspondente ao terceiro tipo de personagem – com a identificação do conflito entre a alma e o mundo exterior da protagonista.
Desta forma, conseguimos demonstrar que a heroína boccacciana, neste conto, consegue dissimular o seu demonismo como forma de reconciliar-se com a “exterioridade” de um mundo que para ela é hostil e que não lhe permitiria concretizar os seus objetivos, caso ela não criasse estratégias para adaptar-se a ele. Porém, vimos que Peronella cria condições para sobrepor-se, mesmo que indiretamente, diante da hostilidade que é o mundo exterior caracterizado como patriarcal e que apresenta uma moral eclesiática trecentista. Além disso, identificamos a heroína boccacciana como uma personagem feminina que “luta silenciosamente” pelos seus ideais através do uso da ironia em seus discursos, o que torna a
sua configuração, portanto, compatível com o conceito de personagem idealizado por Georg Lukács. Embora ela tenha consciência de que o mundo exterior jamais corresponderá aos seus anseios, ela, através da atividade reflexiva, percebe que é possível mesmo assim realizar os seus anseios adaptando-se a este mundo.