BÖLÜM I. SOSYAL MEDYA
I.3. Sosyal Medya Araçları
I.3.3.3 Bir Sosyal Medya Aracı Olarak Video
No decorrer da pesquisa e da realização das entrevistas, pude perceber que Alexandre é o grande “causador” da cena de suspensão na cidade de Natal, não só por dominar as técnicas como também por exercer uma certa influência nos demais sujeitos desta pesquisa. “Eu acho legal essa história da influência, é o mínimo que eu espero dessa galera, é que eles digam que começaram por minha causa, porque eles não vão tá mentindo” (Alexandre, dezembro de 2010).
Ele tem 32 anos começou a trabalhar nessa área há uma década, seus primeiros contatos profissionais com os piercings foram através de André Fernandes, que trabalha nessa área em São Paulo e foi um dos atores da pesquisa de Camilo Braz (2005). Ele é casado com Rayssa, com quem tem uma filha. O casal trabalha na mesma loja, a Xtreme Tattoo e Piercing, ele como body piercer e ela como tatuadora. Foi por incentivo dele que ela começou a tatuar profissionalmente. Os dois são religiosos, se casaram na Igreja Católica e todo domingo frequentam a missa.
No seu visual, o que mais chama a atenção são as orelhas alargadas e os três implantes subcutâneos em cada antebraço. Em algumas situações ele usa moleton, o que não é uma vestimenta muito adequada para o clima de Natal, mas ele diz que é para proteger as tatuagens do sol, no entanto, podemos pensar também que isso é um mecanismo encontrado para não mostrar seus implantes em todos os lugares. Em determinados contextos ele fica um pouco incomodado com a curiosidade e as perguntas sobre aquela intervenção. Sua filha de sete anos de idade, quando percebe que
alguém está olhando insistentemente para os implantes do seu pai, fala de uma forma irônica: “é de silicone”.
Na entrevista, ele comentou que queria muito fazer várias outras intervenções no corpo, inclusive os implantes na testa. Porém, não faz porque teme a reação das pessoas ligadas a sua filha, ele acha que os amigos dela e seus familiares podem estranhar e se distanciarem dela em função das modificações corporais dele. Alexandre também disse que se sente muito sozinho em Natal e que por isso não tem mais modificações:
Se eu vivesse numa sociedade mais “modificada”, tipo em São Paulo eu teria meu corpo mais modificado. Eu me sinto muito sozinho aqui em Natal, na época que eu e Fabiana andávamos direito juntos era diferente, mas agora tá cada um prum canto (Alexandre, entrevistado em dezembro de 2010).
Através dessa fala, notamos como o contexto social da cidade, e os olhares, vão interferindo na construção corporal do sujeito. É inegável que em Natal o cenário da body modification é pequeno, como também é incontestável que em São Paulo existe mais esse tipo de prática. Nesse caso, então, voltamos para a noção de contextos complexos e heterogêneos (BARTH, 2000), de que quanto mais diversificadas forem as identidades dos sujeitos na cidade, mais espaços para as subjetividades dissidentes se mostrarem e serem aceitas ou respeitadas. O “andar juntos” ou em grupo, faz com que o sujeito se sinta menos “diferente” diante dos outros e dos seus olhares.
Alexandre já realizou quase todos os tipos de modificações corporais: escarificação, implante, língua bifurcada e suspensão, estão no seu currículo. No entanto, ele também possui seu limite enquanto profissional: “mas eu não curto muito essas histórias de tirar alguma coisa do corpo não, tipo um dedo. Mas tem doido pra tudo, mas eu respeito, mas não é minha praia” (Alexandre). Ele disse também que sonha com o dia em que as pessoas vão entrar num estúdio de body art e pedir para transformarem seus corpos, assim como acontece com as cirurgias plásticas. Ele então irá analisar a estrutura física do sujeito e propor algumas modificações, utilizando os
piercings, implantes, alargadores ou escarificações. No entanto, ele mesmo afirma que
nessa área da body modification porque a procura é muito pequena, não compensando o investimento de tempo e dinheiro.
A maioria das intervenções ele aprendeu vendo alguém fazer, porém, segundo ele, é preciso muito estudo para fazer esse tipo de trabalho:
Eu já vivi tantos anos de teoria que na prática eu fico tranquilo, e olhe que eu faço tudo sozinho, não tem nenhum profissional pra me ajudar. Eu estudei tanto, tanto e tanto. Eu passei tanto tempo estudando implante que eu já sabia o que ia rolar, e a internet é importantíssima porque é o contato que a gente tem. Até as complicações eu já sabia, mas tem que ir atrás (Alexandre, entrevistado em dezembro de 2010).
Além disso, ele fez curso de técnico em enfermagem e afirmou que isso facilita muito sua vida. André Fernandes também fez esse mesmo curso, isso deve auxiliá-los em relação a alguns cuidados com assepsia, manuseio de alguns instrumentos e também com as próprias intervenções no corpo do futuro modificado. Sobre sua entrada nesse universo profissional, ele fez o seguinte comentário:
Na verdade eu sempre gostei dessas coisas, quando eu tinha 12 anos um amigo meu furou a orelha e eu furei também, depois vi umas pessoas numa revista com brinco no nariz e achei massa, isso há muito tempo atrás, era bem diferente de hoje. Aí furei minha orelha em casa, totalmente caseiro. Meus pais diziam que era coisa de doido, mas me deixavam fazer. Por aqui não tinha nada, só pras bandas de São Paulo. (Alexandre, entrevistado em dezembro de 2011).
Ouvi de outros profissionais e praticantes da body art esse mesmo comentário, que “desde pequeno”88 gostam de acessórios diferentes, como brincos ou
tatuagem de “chiclete”89. Essa seria também uma forma de justificarem suas práticas e,
de uma certa forma, provarem que essas preferências não são passageiras. Relacionando os piercings e as tatuagens com sentimentos infantis, provoca-se uma espécie de “purificação” ou “naturalização” dessas escolhas.
Ele, assim como Rayssa, fazem diariamente atividade física, ou seja, se preocupam com o visual. Os dois também são vegetarianos, inclusive ele é desde os 15
88 Fazendo uma alusão de quando eram crianças.
89 Em alguns chicletes poderíamos encontrar tatuagens momentâneas, em que colocava-se uma espécie de
adesivo na pele, molhava-se com água e então estava fixada a tatuagem. Elas duravam pouco tempo, porém, faziam o maior sucesso entre as crianças.
anos. Disse que primeiro foi por influência da irmã e depois porque ele era do movimento punk/hard core90:
A gente é do hard core, que tem a visão política sobre isso. É difícil explicar, mas o hard core, de todos os movimentos, é o que tem uma visão mais política de todos, aí influencia no comportamento: sobre libertação animal, marcas que exploram as crianças, aí incentivam a gente. É o estilo de vida hard core. Também tem o movimento straight edge, que é livre de drogas e é vegetariano. Mas antes de tudo era quem era livre de drogas aí com o passar do tempo incorporou o vegetarianismo. É um movimento punk, mas não é aqueles punk de moicanos não (Alexandre, entrevistado em dezembro de 2010).
Percebemos a influência tanto do movimento punk quanto do estilo musical hard core nas suas vivências e no fato de ser vegetariano. Notei que eles usam o termo “cair” quando o sujeito por algum motivo comeu carne: “Herbert caiu esses dias”, ou seja, Herbert comeu carne. É interessante essa metáfora, porque tanto podemos pensar no “cair em tentação”, no caso a tentação seria a carne, como também o cair de não segurar a sua posição enquanto vegetariano.
Perguntei então se ele influenciou Herbert nessa prática:
Rapaz, ele começou a conviver com a gente e viu que era o certo, ele é um cara inteligente. Mas de uma certa forma sim, indiretamente sim. A gente não prega o vegetarianismo não, mas as pessoas percebem isso na gente (Alexandre, entrevistado em dezembro de 2010).
Devo confessar que durante a pesquisa de campo me senti um pouco afetada por esse discurso vegetariano, mas logo em seguida desisti da ideia. Nesse caso, percebemos o poder das trocas que existem nos grupos sociais: a irmã influenciou Alexandre, que influenciou Herbert e Rayssa e que, de uma certa forma, também me afetou. Notamos, também, como cada sujeito internaliza os acontecimentos sociais, se apropriando ou não de determinadas práticas, tomando ou não para si as experiências.
Existe um consenso entre todos os sujeitos desta pesquisa sobre o fato de perceberem tanto as suas tatuagens como as modificações corporais como arte. Isso
90 Um estilo musical de punk rock, caracterizado inicialmente por tempos extremamente acelerados,
canções curtas, letras baseadas no protesto político e social, revolta e frustrações individuais, cantadas de forma agressiva (Fonte: Wikipédia. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Punk_rock>. Acesso em: nov. 2011).
chamava minha atenção, primeiro, porque todos eles compartilham essa mesma ideia e segundo porque no campo da tatuagem, aquela tatuagem comercial ou vista como um acessório, pouco se escuta falar sobre arte, mas sim sobre seus significados. E então, eu me perguntava: porque os sujeitos envolvidos com a body modification significam suas práticas através da arte?
Primeiro, temos que considerar que os atores desta pesquisa possuem o corpo quase todo tatuado, ou seja, eles precisariam ter um discurso muito vasto para significar todos os desenhos do seu corpo. Olhando por um lado mais objetivo, a arte socialmente é reconhecida como uma forma de linguagem ou expressão, e dessa forma, as modificações corporais transmitem alguma mensagem, representando, assim, uma linguagem corporal. Outro aspecto interessante é a questão de transcender, que também está associada às expressões artísticas e está presente nas falas de alguns sujeitos sobre a prática da suspensão corporal. A arte é algo que dificilmente podemos descrever em palavras, entendemos a arte como uma sensação, sensação essa bem particular e subjetiva, havendo então mais uma convergência entre as modificações corporais e a arte.
É comum as pessoas perguntarem: “mas porque eles se suspendem? Qual o motivo? Pra que fazem isso?”. Essas perguntas não são feitas somente para mim, como pesquisadora dessas práticas, mas para os modificados também. Minha impressão em relação às possíveis respostas para esses questionamentos é que dificilmente eles possuem uma resposta mais concreta. Eles falam sobre experiência, sensação, superação da dor, mas o que eu observei é que fica complicado traduzir em palavras quais os reais motivos da suspensão. Essa cobrança acontece porque a todo tempo estamos tentando dar uma funcionalidade às nossas práticas cotidianas. É como que se para existir determinada vivência, ela precise necessariamente ter uma função social que corresponda a interesses objetivos, como trabalhar, dormir, comer ou mesmo sobreviver.
Bourdieu, no texto Gosto de classe e estilo de vida (1983) traz a discussão sobre a noção de arte, dizendo que a mesma se configura como uma “prática sem função prática” (1983: 87) e que através do seu conhecimento se produz também uma distinção social, os que apreciam e os que não apreciam a arte. “Na medida em que cresce a distância objetiva com relação à necessidade, o estilo de vida se torna sempre, cada vez o produto de uma ‘estilização da vida’” (BOURDIEU: 87).
Dessa forma, quanto mais longe de abarcar uma necessidade objetiva for a prática, mais estilizada será a vivência e as experiências do sujeito, é como se o gosto pela arte fosse algo refinado e estilizado. Notamos essa característica na prática da body
modification, já que a não praticidade objetiva desse segmento produz propriedades bem
específicas, diferenciadas e performatizadas pelos seus atores. Ou seja, trata-se de um produto extremamente estilizado que poucos (majoritariamente os modificados) compreendem e apreciam.
Suspensão e seus significados
Alexandre só realizou uma suspensão, que foi em São Paulo, e André Fernandes quem furou: “Eu era doido pra fazer e queria fazer com alguém que eu conhecia. Eu até quero fazer mais, mas eu preciso ter confiança no profissional” (Alexandre, entrevistado em dezembro de 2010). No caso dele, o foco da entrevista não foram as sensações em torno da suspensão, mas sim, no seu lado como “perfurador”, portanto, não tenho muito que comentar sobre suas sensações enquanto praticante.