BÖLÜM I. SOSYAL MEDYA
I.3. Sosyal Medya Araçları
I.3.5.1. Etiket ve Etiketleme
Primeiro, quero comentar que eu tinha muita vontade de trazer as experiências de Rayssa para minha pesquisa porque ela é uma tatuadora mulher, e nesses ambientes da body art há um predomínio dos homens como tatuadores. Era aquela noção defendida pelos estudos contemporâneos considerados “feministas” que trazem as mulheres como sujeitos e construtoras das suas trajetórias, e não como meras coadjuvantes. Por isso também é que na descrição de Faby eu me estendi um pouco mais do que na dos outros rapazes, numa tentativa de dar mais voz e visibilidade a essas mulheres dentro de um circuito tão masculino.
Ela também entra nesta dissertação por causa da profissionalização da
body art. Foi através da minha inserção no seu estúdio de tatuagem ( no caso, dela e de
Alexandre, como já foi mencionado) que pude ter meus primeiros contatos com a body
modification e seus seguidores na cidade de Natal. Foi através do olhar deles que me
Há mais ou menos oito anos ela trabalha como tatuadora, e ingressou nessa profissão por influência de Alexandre, “a ideia foi toda dele, ele me influenciou totalmente”. Ela também fez faculdade de Jornalismo, mas nunca exerceu a função. Suas atividades diárias são bem parecidas com as de Alexandre: cuidar da filha e da casa, ir para a academia, trabalhar durante a tarde e sair nos finais de semana com os amigos. Frequentemente eu encontrava com eles em espaços de sociabilidade em Natal.
Em uma das nossas primeiras conversas perguntei sobre o fato dela ser uma tatuadora mulher, já que a grande maioria dos tatuadores são homens. Ela disse que nunca sofreu nenhum tipo de preconceito e nem assédio, até porque seu companheiro fica todo tempo no estúdio, mas afirmou que há um diferencial das mulheres tatuadoras em relação aos homens: as mulheres têm muitas atividades para desenvolver em casa, como limpar, arrumar, fazer comida e cuidar dos filhos. E isso dificulta um pouco o seu crescimento profissional, porque, segundo ela, esse tempo poderia ser usado para desenhar e estudar novas técnicas.
Assim como Faby, Rayssa também faz parte do grupo feminista WENDOR, e seu discurso em relação à situação da mulher é bem politizado: “O negócio é que a gente tem duas jornadas, não que o homem não tenha, todo mundo era pra ter, mas acaba que fica mais pra mulher”.
Em compensação, ela diz que tem muita gente que procura seu estúdio por ter uma tatuadora. Segundo ela, dentro do universo da body art, apenas 20% dos tatuadores são mulheres e desse montante apenas 3% tatuam bem e profissionalmente.
Perguntei, então, se ela se considera feminista:
Total, desde antes de qualquer coisa eu sou feminista. O feminismo sempre fez parte da minha vida, não sou radical de achar que mulher é mais do que homem, mas que somos iguais. Eu acho que o poder físico é diferente, porque os homens têm mais força, mas acho que somos iguais na vida (Rayssa, entrevistada em dezembro de 2010).
Perguntei se ela achava que o preconceito em relação à tatuagem com as mulheres é diferente:
Talvez sim, eu me tatuei de acordo com minha profissão. Aí por isso não sei dizer muito. Eu admiro muito quem não é da profissão e que é toda tatuada, acho maravilhoso! Mas o povo deve olhar e dizer: “olha, ela deve ser bem doidona!”, devem pensar essas coisas. Acham também que não é daqui [de Natal] (Rayssa, entrevistada em dezembro de 2010).
E falou sobre as relações entre homens e mulheres que acontecem no seu estúdio:
Tens uns casos aqui que me dá vontade de mandar embora. Um dia um cara chegou aqui com a namorada pra ela tatuar o nome dele, aí quando terminou ele virou pra mim e disse: “vou trazer as outras tudinho pra tatuar aqui”. Ai que raiva! Outros que a mulher vem com o marido e o homem fica dizendo como tem que ser tatuagem, aí faz do jeito que ele quer, aí se submete (Rayssa, entrevistada em dezembro de 2010).
Num outro estúdio em que fiz campo, aconteceu um fato curioso, embora um pouco trágico, que envolve essa relação de dominação masculina. Uma mulher tatuou uma estrela na nuca e seu esposo não gostou da tatuagem, por isso foi no estúdio “tirar satisfação”. Chegando lá, deparou com a recepcionista e começou a fazer um discurso do tipo: “tatuagem é coisa de puta e minha esposa não é assim”, colocando a culpa na recepcionista, dizendo que ela tinha convencido sua esposa a se tatuar. Detalhe: foi um tatuador que realizou a tatuagem e em momento algum o marido se dirigiu a ele. Enfim, não satisfeito com o acontecido, ele voltou no estúdio e disse que eles teriam que pagar a remoção da tatuagem, e como a recepcionista disse que isso não era responsabilidade deles, o homem começou a ameaçá-la, dizendo que quando saísse de lá, ele iria “acertar as contas com ela”, insinuando que usaria de violência com a recepcionista.
Esse caso foi parar na delegacia e em seguida na justiça. A recepcionista ganhou a causa, recebendo uma indenização em dinheiro e restringindo a permanência do rapaz nas proximidades do estúdio de tatuagem. Trouxe esse exemplo porque ilustra bem o caráter relacional em que se constroem as referências masculinas e femininas ao corpo, expressando uma expectativa de domínio e pré-julgamento em relação à mulher.
Voltando as intervenções de Rayssa: ela tem várias tatuagens pelo corpo, alargador na orelha e no umbigo. Tinha também alargador no septo e piercing no mamilo e já fez uma suspensão corporal. Seu contato com a body modification tem a ver com sua profissão e com a atuação de Alexandre, ficando tudo muito interligado. Sobre o que é body modification, ela disse:
Pra mim não sei definir, antes era mais estilo de vida, hoje tem mais a ver com o profissional. Eu acho massa, você usa seu corpo pra isso, é
uma forma de se realizar. Mas a modificação corporal tem uma questão de escolha, você é totalmente ativo dessa escolha (Rayssa, entrevistada em dezembro de 2010).
Perguntei se existe uma diferença entre tatuagem e body modification:
Se for uma tatuagem grande você também modifica o braço. Mas tem que ser significativo, grande. Uma estrelinha no braço não é, é um acessório, mas não é uma modificação (Rayssa, entrevistada em dezembro de 2010).
Foi através dessa descrição feita por ela que trouxe para este trabalho a expressão “tatuagem-acessório”. Na fala anterior ela também comenta a ideia da escolha pessoal como uma característica importante dentro do processo das modificações corporais. Podemos, então, retomar outras discussões já realizadas no decorrer desta dissertação, como originalidade, ousadia, estilo e o conceito de ser ativo nas suas escolhas pessoas e corporais. Características essas bem valorizadas socialmente no contexto contemporâneo atual.
Em relação à suspensão, Rayssa foi uma das únicas com quem conversei que fez apenas uma vez. Ela não gostou tanto e por isso não fez mais:
Eu fiz pelas costas, foi só uma vez e faz tempo. Eu nunca mais fiz porque eu não gostei muito, porque doeu. Dói pra caralho! Eu não aguentei não, não aproveitei. Talvez até faça de novo pra ver como é, mas eu não tenho mais muito tesão, não (Rayssa, entrevistada em dezembro de 2010).
- A dor tem que fazer parte?
De tattoo tem, de algumas modificações não. Suspensão sem dor é igual a chupar bala sem papel. Se você for olhar pelo lado dos índios e os ancestrais, é algo que você suportando a dor você amadurece. Porque se você for puxada por ganchos pela sua pele e consegue superar, esse é o seu prêmio (Rayssa, entrevistada em dezembro de 2010).
- A pessoa fica mais forte?
Acho que sim, porque se você faz uma suspensão e depois faz outra é porque você subiu de nível, você sempre faz uma que é pior, é como se fosse uma graduação (Rayssa, entrevistada em dezembro de 2010).
- Uma vez você falou que sua mãe, quando viu a foto da sua suspensão, pensou em qual droga você tinha tomado pra aguentar a dor:
O povo faz essa relação de que cheira cocaína, que tá muito doido. Mas a gente mostra o contrário que não pode usar isso, tem que está consciente, que você quer fazer aquilo. Eu lembro até que quando começamos a fazer, a gente dizia: tem que passar 3 dias sem beber e sem usar drogas, tem que se preparar, dormir bem. Quem vê a foto não sabe o que tem por trás! A primeira imagem é de que é muito doido (Rayssa, entrevistada em dezembro de 2010).
- O que sua mãe disse te influenciou pra não fazer mais?
Eu entendo a opinião dela, mas não foi por isso não. Depois ela vai percebendo que não é bem aquilo, ela vê nossa relação com nossa filha. E se alguém do lado dela fala mal da gente, ela é a primeira a defender. Ela é nossa defensora (Rayssa, entrevistada em dezembro de 2010).
Nesse trecho da entrevista, mais uma vez, percebemos alguns elementos já comentados por outros sujeitos desta pesquisa: o não usar drogas, negociar com os familiares, a relação com os índios, a ideia da dor como integrante do ritual da suspensão e a noção de que com a suspensão o sujeito passa a ter mais essa experiência na vida e com isso é visto como um indivíduo mais “elevado” no universo da body art.
Aconteceu um episódio durante o meu campo que considero bastante significativo não só pra descrever Rayssa, como também para pensarmos os outros sujeitos desta pesquisa. Ela tinha um cabelo bem comprido, chegando na altura da cintura, e extremamente liso, sendo esse estilo de cabelo uma de suas marcas pessoais. Um certo dia cheguei pra fazer campo no estúdio e fiquei surpresa quando vi seu novo visual: ela havia cortado o cabelo bem curto e ele estava cacheado. Perguntei sobre a mudança, e ela então respondeu: “cortei o cabelo pra marcar uma fase ruim da minha vida que passou”. Acredito que não só Rayssa como os outros atores desta pesquisa transferem para seus corpos suas sensações, desejos, vontades, gostos e experiências e assim vão marcando sua pele de acordo com o momento em que estão vivendo, tendo a mudança como fator impulsionador dessas transformações corporais.
3º Capítulo – Suspension Day
Para quem entende, nenhuma palavra é necessária. Para quem não entende, nenhuma explicação é possível91.
O Suspension Day92 entra na discussão deste texto como um caso coletivo da prática da suspensão corporal. Foi por meio desse encontro que pude ver ao vivo o ritual da suspensão e visualizar como os sujeitos atuam diante de uma situação como essa, em que estão diante dos seus “iguais”. Consegui, também, observar um maior número de praticantes e de diversas localidades do Brasil93 e com isso reforçar ou não certas características que já havia percebido através do contato com os sujeitos de Natal.
Os participantes desse encontro tinham entre 18 e 30 anos. O evento, que reuniu aproximadamente 50 pessoas (esse número variava porque alguns foram passar apenas um dia), aconteceu em Brasília/DF durante um final de semana do mês de setembro de 2011.
Fiquei sabendo do encontro através da internet, mais especificamente por uma página na rede social do facebook, além disso, Faby, uma das minhas informantes em Natal, também iria participar do evento. Entrei em contato com o organizador Eduardo Bez dizendo que era antropóloga e que minha dissertação de mestrado era sobre body modification e que, portanto gostaria muito de participar. Ele respondeu o e- mail afirmando que como eu era antropóloga não haveria problema, mas se eu fosse jornalista seria um pouco diferente. Eles têm uma certa desconfiança com a impressa e com alguns jornalistas, pois algumas matérias que já foram publicadas sobre modificação corporal depreciaram muito essas práticas e seus praticantes, e que eles pagam um preço alto por isso. Por esse motivo, eles não fizeram uma grande divulgação do “Suspension Day”, com receio de que a imprensa aparecesse por lá querendo fazer reportagens sensacionalistas, e que no caso da suspensão corporal seria um prato cheio
91 Página do facebook do Suspension Day.
92 É interessante reforçar que esse encontro se fez e se refez, mas que as relações entre os participantes
continuaram através da internet. Esse foi um espaço de identificação e aproximação entre os sujeitos que praticam a suspensão corporal no Brasil.
93 A maioria das pessoas era de São Paulo e Brasília, mas havia participantes de Minas Gerais, Paraná,
para esse tipo de matéria. Enfim, tentei explicar rapidamente minha pesquisa e ele ficou empolgado com a minha abordagem, e disse então que seria um prazer me receber.
Cheguei em Brasília na sexta-feira que antecedia o encontro, fui para o estúdio de tatuagem onde trabalha Eduardo Bez, ele estava preparando e esterilizando os materiais que seriam usados para as suspensões. Fiquei impressionada com a organização desse estúdio, o profissionalismo dos que trabalham nesse local, como também o preço das tatuagens, bem diferente dos valores cobrados em Natal. À noite fomos para a fazenda onde seria realizado o encontro, era um pouco distante da cidade, cerca de uma hora e meia. Apesar de não ser de fácil acesso, era um lugar bonito, grande e aprazível. Ao chegarmos, os participantes armaram suas barracas de camping, deixando o ambiente com um clima de acampamento. Alguns participantes também levaram seus filhos.
Logo na sexta à noite, quando eu estava me preparando para dormir, um rapaz me perguntou: “vamos voar?”, esse então seria o início das suspensões corporais, mesmo ainda não tendo começado “oficialmente” o encontro, já que estava marcado para iniciar no sábado, ou seja, eles estavam com muita vontade de se suspender. Na frase desse rapaz notamos um duplo sentido, o primeiro, que seria um sentido mais literal, pois no momento da suspensão o sujeito fica como se estivesse voando, e o outro seria um sentido mais associado com a liberdade, já que voar está um pouco associado com a ideia de estar livre, de ter liberdade.
Durante todo o encontro eu percebia uma certa ambivalência relacionada com esse ambiente da suspensão. Estamos diante de uma atividade predominantemente urbana, mas naquele momento os sujeitos estavam inseridos num contexto “natural”, ou do campo. A noção da estética toma conta dos discursos e das intervenções realizadas por esses sujeitos, em contrapartida, essas modificações são vistas como não estéticas por um grande número de pessoas que não fazem parte desse universo. A própria consequência física da suspensão corporal também produz essa ambivalência. Ela é temporária, pois os ganchos são colocados e retirados na hora da “subida”, mas também é permanente, pois a cicatriz, embora pequena, fica marcada na pele, assim como as lembranças, experiências e as fotos, que “eternizam” essa prática.
Eu estava diante também de um encontro “alternativo”, e isso não só pelas suas características, como também pela forma como os modificados se percebem. De acordo com Soares (1994: 192), podemos identificar as práticas alternativas como contrárias às seguintes concepções: “competição predatória, consumismo, violência,
negligência ética e impunidade recorrente”, além de ter o trinômio corpo-espírito-
natureza presente nas suas intervenções e realizações. No entanto, o autor também traz
a discussão sobre a impossibilidade de se enquadrar certas práticas e sujeitos como total ou rigorosamente “alternativos”, pois vivemos num contexto em que as instituições tradicionais não são claramente estruturas convencionais, fazendo com que as pesquisas com grupos alternativos tornem-se complicadas porque “a realidade que se pretende esclarecer não corresponde ao modelo formulado” (SOARES, 1994: 207).
Dessa forma, podemos perceber que os modificados estão próximos do universo chamado alternativo, mas também observamos certas características nas suas práticas que lhe enquadram socialmente dentro de valores considerados tradicionais. A construção de um corpo que foge aos padrões corporais, a ligação com a natureza e alguns valores reivindicatórios, são as características que aproximam esses grupos de modificações corporais dos segmentos alternativos.
De uma forma geral, a maioria dos participantes eram homens, e das suspensões que aconteceram, apenas quatro mulheres “subiram”. Se no universo da tatuagem predominam as mulheres, na suspensão corporal, os homens são maioria. Podemos pensar na tatuagem como uma prática de embelezamento corporal, por isso a predominância feminina. E a suspensão, como uma prática mais relacionada com a ideia da superação, força e dor, valores associados com a construção da masculinidade.
No entanto, o que percebi foi que essas mulheres, em especial duas delas, se destacavam em relação aos homens. Uma delas realizou três suspensões, sendo estas as que exigiam um maior esforço e superação. Antes de “subir”, elas faziam toda uma preparação cuidando do visual, trocavam de roupa, arrumavam o cabelo, se maquiavam, e até patins duas delas usaram.
O visual dessas mulheres apresenta algumas semelhanças, muito embora elas não se pareçam entre si. Uma das características em comum são os pelos das sobrancelhas, todas raspadas, e o desenho de uma nova sobrancelha feita com lápis de maquiagem94. Outra marca compartilhada entre elas é o corte de cabelo, das quatro mulheres que participaram, três tinham o cabelo grande com um dos lados raspado, e a outra tinha o cabelo bem curto, todo raspado. Acredito que essa decisão de raspar a sobrancelha ou o cabelo tenha a ver com as mudanças no visual, que é tão presente nas
94 Encontramos também essa transformação em algumas travestis e drag queens. Além das pessoas que
fazem a chamada “sobrancelha definitiva”, na qual se desenha um novo formato de sobrancelha através da mesma pigmentação usada nas tatuagens.
práticas desses sujeitos, além de sinalizar para um embaralhamento nas construções de gênero.
O clima entre os participantes era bem amistoso. A maioria das conversas girava em torno dos temas relacionados à body art, como tatuagem, piercings e modificações corporais. Era nessas conversas que eu buscava entender um pouco mais sobre tais práticas, porém devo confessar que, como já havia feito um bom tempo de campo em Natal, já havia entrado em contato com a maioria dos assuntos que eles tratavam. Nesse encontro eu não descobri nada de tão inédito, o mais importante para mim era ver uma suspensão ao vivo (até então eu só tinha visto pela internet e televisão).
Tentei, por algumas vezes, conversar sobre alguma intervenção que eles tenham feito que não tenha dado certo, os rapazes não falaram de nenhuma experiência negativa. No entanto, duas meninas me contaram que já desistiram na hora da suspensão porque não estavam bem preparadas. O interessante desses dois relatos é que ambas me falaram que estavam perto de menstruar e que, portanto não estavam tão bem. É como se a menstruação dificultasse ou limitasse suas estruturas físicas e fizesse com que elas não suportassem a suspensão corporal.
No texto de Cecília Sardenberg (1994) A menstruação numa perspectiva
socioantropológica, ela aborda esse tema trazendo dados etnográficos de como em
diversos contextos culturais, inclusive o nosso, a menstruação é vista como um “não poder”, período no qual a mulher passa por algumas privações, associadas à “prática de tabus alimentares, proibições sexuais, isolamento ou rituais de purificação [...] em que o sangue é visto como um agente poluidor, dotado de impurezas e/ou possuidor de poderes mágicos” (SARDENBERG, 1994: 21).
Tomando essa problematização desenvolvida no referido texto e dialogando com a justificava das duas meninas, percebemos que nesse caso também a menstruação entrou como um fator de privação e de debilitação diante da suspensão corporal.
Em uma outra conversa, um rapaz de São Paulo comentou que lá existem outros grupos que também realizam suspensão corporal, porém, de uma maneira um pouco diferente daquelas do Suspension Day. Um dos grupos é organizado por Heitor Werneck, que produz festas fetichistas, nas quais também acontecem suspensões corporais. Já o outro grupo, que é liderado por T. Angel, se utiliza da suspensão corporal de uma forma mais artística e performática, usando roupas, objetos e cenário
para produzir uma suspensão com outros sentidos e significados, como uma forma de intervenção artística. E os sujeitos que estão relacionados com o Suspension Day se apropriam da suspensão corporal como uma forma de sociabilidade, em que através dessas intervenções corporais os sujeitos se encontram, se reúnem e estabelecem relações de amizade e também profissionais, já que quase todos os participantes estão