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2. KURAMSAL ÇERÇEVE VE İLGİLİ ARAŞTIRMALAR

2.3. Sosyal Medya Araçları

A densidade simbólica das Marchas das Vadias é um dos traços essenciais para compreender esta forma emergente de expressão do feminismo e das ações coletivas cujas lutas se processam no terreno da cultura. A persistência no emprego do termo vadia como estratégia discursiva central demonstra que a informação posta na luta das Marchas das Vadias dirige-se, fundamentalmente, para um plano simbólico, que se quer transformar. Este plano simbólico é dialeticamente forjado pelos sentidos sociais, formas de significar e apreender a realidade, que estabelecem normas sociais legal ou tacitamente reconhecidas e que, por isso, são confrontadas e disputadas constantemente pelos atores em contextos estruturados e através das dinâmicas da história.

A informação, como forma simbólica que articula discursivamente sentidos sociais no “mercado simbólico da comunicação” se apresenta, deste modo, como um elemento importante para incidir luz sobre as expressões das ações coletivas que reivindicam a “posse do poder simbólico”, o “poder de fazer crer e fazer ver”, conforme postulado por Bourdieu (2001).

Ao terem como principal horizonte a alteração das relações sociais pela transformação dos modos de representar e conceber as mulheres, as Marchas das Vadias não apenas utilizam informações para sustentar suas ações, como fazem da informação a sua própria ação.

Neste sentido, a informação pode ser apreendida não apenas pela lógica de um “conhecimento que gera a ação”, conforme defendido por perspectivas que têm vista a solução de problemas práticos pelo uso dos recursos informacionais, mas como o próprio fundamento da ação.

É propriamente no questionamento dos significados que estruturam de modo reificante o senso comum, no desvelamento de sua particularidade, que as informações das Marchas das Vadias operam, tendo em vista, a construção de novos significados e de um novo mundo. Isto porque, sendo os sentidos termos pelos quais se significam, fixam e se nomeiam dialeticamente a realidade, o controle sobre sua produção e circulação se constitui como o próprio alvo na disputa pela hegemonia, compreendida como a prevalência de certos significados particulares que se metamorfoseiam em universais (MARTINS, 2013).

É no teor simbólico da ação das Marchas das Vadias que reside, portanto, uma de suas principais forças transformadoras. A ação pela informação permite a instauração de descontinuidades na vida social que podem levar a novas matrizes de significação, de interpretação e de valores que, por sua vez, podem vir a sedimentar-se e desdobrar-se em regras socialmente aceitas (MENDONÇA, 2007).

Pode-se, assim, conceber as Marchas das Vadias analisadas de um modo ampliado, não apenas pela perspectiva do grupo ou coletivo, mas de uma ideia alçada, de uma utopia que pode ser constantemente reformulada no percurso do movimento feminista independente do grau formal de vinculação dos sujeitos ao movimento. É certo que os mecanismos de vinculação ao movimento, como o grau de reconhecimento da opressão e as expressões identitárias, não são subsumidos pela ideia de horizontalidade defendida pelo movimento, fato que pode ser levantado embora a pesquisa não tenha proposto uma investigação neste sentido. Talvez seja por isso que as Marchas prescindam de uma estrutura formal, com distribuição de tarefas, cargos e atividades, pois o alvo de sua luta não se atinge por meio de um decreto ou uma lei. Ele está no substrato simbólico produzido pela cultura que define, ao cabo, a realidade e que é descontruída por elas.

A pontualidade das ações em torno da Marcha e do plano simbólico não retira, pois, a sua força transformadora.

As formas por meio das quais se apresentam as informações das Marchas evidenciam os conflitos entre a ideia igualdade e da diferença como horizontes de ação.

Se o termo “vadia” busca localizar e ressaltar em um mesmo sistema de opressão um ponto convergente que atravessa as experiências das mulheres, seu questionamento indica a impossibilidade de quaisquer universalizações destas experiências, na medida em que elas são atravessadas e definidas, também, por outras categorias para além do gênero.

As particularidades, neste sentido, são ressaltadas por uma informação que privilegia terminologias específicas consideradas “autorizadas”, que demarcam as particularidades em termos de gênero, raça e classe, e por outras de cunho “narrativo”, que privilegiam a experiência e valorizam a linguagem “desautorizada” utilizadas por diferentes grupos.

Ao nomear as identidades de gênero, a informação divulgada pelas Marchas das Vadias revela também o complexo desafio de a ação se desvincular do aparato normativo de definição de identidades previamente estabelecidas pelo discurso e de assumir a mulher como sujeito instável, conforme propõe Butler.

Assim, se por um lado é possível que a nomeação das identidades dê visibilidade e legitimidade no âmbito do processo político, por outro, ela pode ter uma função normativa vinculada ao mesmo sistema de produção e reprodução de significados que se questiona, de modo a alimentá-lo. Neste sentido, a identificação universal das mulheres como vadias acaba por estruturar uma identidade que localiza como vadias mulheres determinadas mulheres, com práticas semelhantes (especialmente as sexuais), deixando de fora, geralmente, as que não se identificam conforme os preceitos abarcados por essa definição, como as rurais, donas de casa ou mulheres idosas.

As informações analisadas por esta pesquisa também indicaram que a variação do repertório simbólico das Marchas é bastante limitada no que diz respeito à diversidade de formas de abordagem e representação dos temas. Isso é revelado na repetição excessiva de frases e slogans que se convertem quase em “mantras”, revelando inclusive, a possibilidade de fetichização destes discursos.

Embora as redes virtuais permitam a produção de conteúdo informacional de modo mais autônomo, o poder elevado de “contaminação” (memes) pode influenciar na pasteurização das mensagens que, em movimento contínuo, transitam das ruas para as redes e das redes para as ruas. O constante uso das mesmas frases coloca em xeque a representatividade das mulheres no movimento.

Por outro lado, a subversão dos códigos “autorizados”, que organizam os sentidos hegemônicos, tem terreno fértil nos espaços virtuais, o que intensifica a possibilidade de intervenção sobre a dinâmica de produção de significado pelas forças hegemônicas.

Os confrontos simbólicos protagonizados pela Marcha das Vadias têm como interlocutores, além do público geral, as igrejas, o Estado e os meios de comunicação de massa, responsáveis por reproduzirem os significados que sustentam e legitimam a violência historicamente dirigida às mulheres.

A dimensão performática assumida pelas informações não significa que a política tenha se tornado inconsistente, mas que seus agentes precisam atuar de modo diferenciado, mobilizando todos os recursos comunicacionais e estéticos disponíveis neste mercado simbólico.

Uma compreensão mais aprofundada da informação no cerne das formas emergentes de intervenção social pode ser possibilitada pelas teorias pós-estruturalistas, que oferecem um referencial significativo com foco na linguagem, permitindo vislumbrar de modo mais próximo os arranjos de sentidos mobilizados pelos movimentos sociais.

A necessidade de intervenção sobre os sistemas simbólicos para a diminuição das opressões sociais demonstrada pelas Marchas das Vadias torna premente a discussão sobre os modos pelos quais a informação constrói a realidade.

Ao enfrentar este caminho teórica e metodologicamente tortuoso, a Ciência da Informação pode ampliar não apenas o entendimento que se faz acerca do papel da informação nas sociedades contemporâneas, mas alargar, de modo considerável, as fronteiras que constrangem as lutas daqueles e daquelas que reivindicam um mundo mais humano e justo para se viver.

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