Quero enxergar as coisas sem feitio.
(BARROS, 2000, p.63)
A rua é um dos campos de ação onde o sujeito interage com a coletividade. Elevar a rua à condição de questão gera frutos na forma de manifestos e demandas por políticas públicas; onde são definidas prioridades administrativas e a comunidade exige que a lei reflita suas demandas específicas. A verdadeira política só pode ser gerada em relação às necessidades específicas de um âmbito local. (ŽIŽEK, 2011, p. 399). Disciplinando o agir pela regulação dos
procedimentos, o exercício do direito colabora com a prática política para, juntos, conferirem aspecto e significado ao espaço onde a vida pública acontece.
A questão por ruas mais seguras, atraentes e agradáveis nunca foi mais importante. As ruas são elementos-chave para a criação de ambientes onde se possa caminhar e otimizar a qualidade de vida em toda comunidade. Seu papel é indispensável:
na redução das emissões de carbono;
na conquista por uma condição melhor de saúde;
na redução dos engarrafamentos;
no processo de reconectar as pessoas às suas comunidades locais;
na melhoria da qualidade de vida;
no suporte às economias locais sustentáveis.
Living Streets acredita que é preciso fazer viverem as ruas dando mais prioridade às pessoas. Queremos ver todas as comunidades aproveitando suas ruas e que as melhores condições possíveis sejam criadas no sentido de fazer da caminhada a escolha mais natural.131 (LIVING STREETS, 2011)132
O caminhar é prescrito como instrumento importante a serviço do trabalho psíquico, do condicionamento cardíaco, do combate à obesidade. Os médicos são incentivados pelas políticas públicas de saúde a prescrever as caminhadas como terapia preventiva e de combate a doenças (LIVING STREETS, 2011). James Hillman133, psicólogo americano, dedicou estudos à relação entre cidade e caminhar: "Quando é necessária uma prescrição para nos lembrar de caminhar, significa que vivemos mesmo em um novo mundo estranho, onde algo fundamental foi esquecido." (HILLMAN, 2001).
131
The case for safe, attractive, enjoyable streets has never been greater. Streets are key to creating a walkable
environment and improving quality of life for every community. Their role is indispensable in reducing carbon emissions, improving health, reducing congestion, reconnecting people to their local communities, improving quality of life and supporting sustainable local economies. Living Streets believes we need to bring our streets to life by providing greater priority for people. We want to see all communities able to enjoy their streets, and the best possible conditions created to make walking the natural choice. Tradução da autora.
132
"Manifesto escocês por ruas vivas".Tradução da autora.
133
A retórica da caminhada, arte de moldar percursos, define um fenômeno pelo qual um sistema de comunicação oferece maneiras de expressar singularidades. Esse sistema de comunicação do sujeito consigo mesmo e com o âmbito público é uma poderosa ferramenta para a ampliação da consciência. Por meio do caminhar, o pedestre percebe potencialidades, nele e no espaço em que se insere. "Caminhar é ter falta de lugar." (CERTEAU, 1994, p.183). É estar alternadamente presente e ausente; é ser privado de lugar e ao mesmo tempo ter múltiplos lugares de onde observar o mundo e a si mesmo. O caminhar fornece ao indivíduo espaço e tempo para elaboração da visão crítica e definição da posição a ser tomada no campo coletivo de jogo. Uma das tarefas do âmbito político consiste em resgatar as virtudes de uma postura coletiva e consciente frente aos acontecimentos e circunstâncias que constituem sua realidade. "Nas condições presentes de transição, a atenção deve ser concentrada na capacidade de ver o formal no informal e o informal no formal."(SANTOS, 2010, p.109).
O PDDI-RMBH agrega chamadas a diversas políticas, entre elas a "Política Metropolitana de Direito ao Espaço Cotidiano: Moradia e Ambiente Urbano". Consiste de um conjunto de programas, projetos e ações interdependentes que podem criar condições para a autonomia da produção do espaço cotidiano na escala local (MINAS GERAIS, 2011, p. 358)134. Um aspecto
fundamental seria, segundo esse Plano, programar medidas que ponham limites à atuação do setor imobiliário privado sobre o território. "Trata-se de facilitar o engajamento da população na produção do espaço micro local. Os esforços de cada prefeitura devem confluir com esse engajamento, respeitando o contexto específico do município e suas potencialidades." (MINAS GERAIS, 2011, p. 361)135. Mais uma vez constata-se a licença para que as sociações trabalhem na definição de suas necessidades e na implementação de medidas que lhes possibilite o atendimento. A postura dos particulares de sempre esperar que o "Outro" faça por ele - seja o governo ou qualquer outra instância instituída pelo poder da democracia representativa - demanda ser substituída por uma postura ativa de sujeitos que praticam a democracia no cotidiano. Essa é a "política emancipatória radical", de que fala Žižek (2011, p. 306). "Não somos livres para propor ou adiar a questão: ela nos é proposta, ou melhor, imposta pelas próprias coisas, pelos fatos, pelas necessidades do viver." (DURKHEIM, 2010, pag. 73). 134 PDDI-RMBH. 135 PDDI-RMBH.
Partidário dessa política emancipatória radical, Carlos Nelson Ferreira dos Santos preocupava-se em registrar as especificidades sócio-espaciais das áreas de intervenção em que trabalhava. Procurava mostrar o lugar público urbano, em especial as ruas das cidades produzidas pouco a pouco no desenrolar da história. Para ele, esse lugar era imprescindível à vitalidade da vida pública. Ele considerava a rua um meio fundamental de elaboração de cidadania e civilidade (ABRAHÃO, 2008).
Centros urbanos são fontes abertas e inesgotáveis de idéias que saltam de seu simbolismo escancarado e são todos os dias decodificadas, absorvidas e reelaboradas nas ruas, nas praças, nos meios de transporte, nos locais de trabalho, em todo o canto. (SANTOS, 1988, p.46).
Está em campanha em Londres a definição do limite máximo de 20mph (aproximadamente 32Km/h) para os veículos transitarem nas ruas. A justificativa apresentada pela população é de que, acima desse limite, a rua torna-se insegura e deixa de exercer seu poder de atrair e bem recepcionar as pessoas, agindo como pouco mais que corredores para o tráfego. Evitando priorizar o papel de ligação em detrimento do papel de lugar, o bairro de Islington - que pertence a Westminster e faz limite ao norte com a City - foi o primeiro a instituir e adotar a regulamentação desse limite de velocidade: "Ao introduzir o limite de 32Km/h nessas ruas, procura-se torná-las mais seguras, vibrantes e atraentes em torno das quais prosperem tanto as comunidades quanto os negócios locais"136. (CITY..., 2011). Importante salientar, contudo, que
Islington é um bairro amplamente atendido pelo sistema de metrôs e trens urbanos; o que
significa que a decisão de limitar a velocidade praticada nas ruas não compromete o acesso rápido dos cidadãos aos endereços a que se destinam. Medidas que interfiram na velocidade ou na quantidade de veículos137, se não acompanhada por um sistema digno de transporte público coletivo, é hipócrita e demagógica; inserindo-se mais na esfera do subterfúgio que de uma contribuição efetiva para o processo de desenrolamento.
O levantamento de questões é um instrumento que precisa ser elaborado artesanalmente e seu incentivo primeiro ocorre por meio da educação. O âmbito tangível do espaço público da rua não é resultado sem que seja também instrumento desse processo de formação da consciência. O manejo de suas questões e da diversidade de sua materialidade constitui ferramenta
136
Introducing 20mph on these streets would immediatey make them safer, more vibrant and more attractive
streets around which communities and local business could thrive. Tradução da autora.
137
O acesso de carro a uma área específica do centro de Londres submete o proprietário do veículo a uma tarifação por uso do sistema viário, chamada Congestion Charging. É por meio dessa tarifa que o proprietário ressarce a coletividade do aumento na frequência e intensidade dos congestionamentos que o uso de seu veículo provoca.
pedagógica valiosa tanto para a formação cívica quanto para o treinamento técnico de profissionais diretamente relacionados à elaboração de seus princípios e de sua produção (FIG 55 e 56).
FIGURA 55 - Rua no bairro Jardim Canadá Fonte: foto da autora, 2010.
FIGURA 56 - Avenida Luiz Paulo Franco
Próximo ao BH Shopping, Belvedere, Belo Horizonte Fonte: foto da autora, 2012.