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A contextualização da família dá-se a partir da sua relação com o meio social no qual está inserida. Suas características, funções e seus modos de organização estão condicionados à evolução da história da humanidade, desde a sua origem até os dias atuais.

Nesse processo, as diferentes configurações que foram assumidas pelas famílias constituem-se como meios de adequação às condições naturais, sociais, econômicas, políticas e culturais que lhes eram impostas. Engels (2012, p. 47), em referência a Morgan19, afirma que a família “[...] é o elemento ativo; nunca

permanece estacionária, mas passa de uma forma inferior a uma forma superior, à medida que a sociedade evolui de um grau mais baixo para outro mais elevado”.

Ao ser passível de transformações, a família pode ser considerada uma instituição dinâmica, dialeticamente mediada pelo movimento da trama social. Essa premissa, na concepção de Sarti (2010, p. 21),

[...] dificulta sustentar a ideologia que associa a família à ideia de natureza, ao evidenciarem que os acontecimentos a ela ligados vão além de respostas biológicas universais às necessidades humanas, mas configuram diferentes respostas sociais e culturais, disponíveis a homens e mulheres em contextos históricos específicos.

Ao considerá-la um fato cultural historicamente condicionado, Mioto (1997), apoiada em diversos estudos contemporâneos sobre família, também questiona esse conceito alicerçado exclusivamente na essência biológica do homem. Para chegar a esse entendimento, foi preciso reconhecer as mais diversas formas de organização familiar instituídas, inclusive aquelas inerentes à pré-história da humanidade.

A forma mais antiga e primitiva de família está fundamentada justamente no seu traço biológico. Engels, na obra A Origem da Família, da Propriedade Privada e

19 Lewis Henry Morgan, autor da obra A Sociedade Antiga, de 1877, em que apresenta estudo sobre

do Estado, considera a consanguinidade a primeira característica assumida por essa instituição.

Nela, os grupos conjugais classificam-se por gerações: todos os avôs e avós, nos limites da família, são maridos e mulheres entre si; o mesmo sucede com os seus filhos, quer dizer, com os pais e mães; os filhos destes, por sua vez, constituem o terceiro círculo de cônjuges comuns; e seus filhos, isto é, os bisnetos dos primeiros, o quarto círculo. Nessa forma de família, os ascendentes e descendentes, os pais e filhos, são os únicos que, reciprocamente, estão excluídos dos direitos e deveres (poderíamos dizer) do matrimônio. [...] O vínculo de irmão e irmã pressupõe, por si, nesse período, a relação carnal mútua (ENGELS, 2012, p. 54).

Nos chamados povos selvagens e bárbaros, até o início da civilização, diferentes sistemas de organização familiar foram se constituindo, na medida em que a relação do homem com a natureza foi sendo aprimorada20. A superação de

uma forma de família, em detrimento de outra, estabelece relação com o grau de desenvolvimento assumido pela organização social vigente. Na concepção de Engels (2012), essa instituição evoluiu em quatro estágios progressivos: família consanguínea, punaluana, sindiásmica e monogâmica21.

De modo geral, as características mais significativas das três primeiras etapas das famílias são as uniões conjugais por grupos, o incesto e a poligamia. Umas com maior, outras com menor intensidade, todas adotaram alguns desses atributos como meios de adaptação aos tempos pré-históricos.

Segundo Engels, a proibição, gradativa e natural, do casamento entre consanguíneos, foi, certamente, o fenômeno que transformou, de maneira considerável, os outros modos familiares subsequentes. Da união entre um casal não consanguíneo, surgiria uma raça mais forte.

Essa determinação natural interferiu diretamente na formação do círculo fechado consanguíneo, destituindo, por completo, o caráter coletivo específico das configurações familiares primitivas. Até então, não existiam fronteiras entre o público

20 Engels (2012, p. 43), a partir dos estudos de Morgan, classifica o desenvolvimento da humanidade

nas seguintes etapas: “Estado Selvagem: período em que predomina a apropriação de produtos da natureza, prontos para ser utilizados; as produções artificiais do homem são, sobretudo, destinadas a facilitar essa apropriação; Barbárie: período em que se aparecem a criação de gado e agricultura, e se aprende a incrementar a produção da natureza por meio do trabalho humano; Civilização: período em que o homem continua aprendendo a elaborar os produtos naturais, período da indústria propriamente dita e da arte”.

21 A presente pesquisa não tem como objetivo principal descrever, de maneira minuciosa, essas

diferentes fases assumidas pelas famílias ao longo dos tempos. Para tal, indicamos os estudos de Engels, que culminaram no livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado.

e o privado; na verdade, sequer existia a noção de privacidade. Essa começou a se delinear a partir da edificação das famílias cuja monogamia era sua principal característica.

A evolução da família nos tempos pré-históricos, portanto, consiste numa redução constante do círculo em cujo seio prevalece a comunidade conjugal entre os sexos, círculo que originariamente abarcava a tribo inteira. A exclusão, progressiva, primeiro dos parentes próximos, depois de parentes distantes e, por fim, até das pessoas que se tornam parentes pelo casamento, torna impossível na prática qualquer matrimônio por grupo; como último capítulo, não fica senão o casal, unido por vínculos ainda frágeis – essa molécula com cuja dissociação acaba o matrimônio em geral (ENGELS, 2012, p. 66).

A transição da família sindiásmica para a monogâmica alterou, de maneira definitiva, os papéis desempenhados pelo homem e pela mulher na sociedade como um todo. Muito embora na chamada comunidade patriarcal (modelo vigente nesse ínterim) o cultivo do solo fosse comum, a figura do chefe de família ostentava o poder, não somente sobre a sua terra, mas sobre todos os que nela habitassem: esposa, filhos, escravos, comunidade e animais.

O primeiro efeito do poder exclusivo dos homens, desde o momento em que se instaurou, observamo-lo na forma intermediária da família patriarcal, que surgiu naquela ocasião. [...] O que caracteriza essa família, acima de tudo, é a organização de certo número de indivíduos, livres e não livres, numa família submetida ao poder paterno de seu chefe. Na forma semítica, esse chefe de família vive em plena poligamia, os escravos têm uma mulher e filhos, e o objetivo da organização inteira é o de cuidar do gado numa determinada área (ENGELS, 2012, p. 78).

O advento da monogamia, por sua vez, está associado ao processo de transformações social e econômica, diferentemente dos outros sistemas familiares, cuja condição natural apresentava-se com mais intensidade. De acordo com Diacov e Kovalev (1982), o estreitamento da produção coletiva de bens materiais, o desenvolvimento da força de trabalho e a consequente evolução da propriedade privada, deram sentido à chamada “família individual”.

O aumento da produtividade do trabalho contribui para individualizar a produção. [...] A produção individualizada é o princípio econômico que origina a propriedade familiar e a acumulação de riquezas nas mãos de particulares. [...] A produção individualizada tem por efeito a concentração dos excedentes nas mãos das famílias, chegando algumas à opulência (DIACOV; KOVALEV, 1982, p. 77).

Nos sistemas familiares mais primitivos, onde imperava a poligamia, a filiação e o direito hereditário eram determinados pela figura materna. Com o aumento e concentração da riqueza, o homem passa a assumir uma posição mais centralizadora, com vistas à garantia da fidelidade da mulher e, principalmente, da paternidade dos filhos.

A evolução da propriedade privada faz desaparecer gradualmente o costume de dispersar os bens e consolida os direitos hereditários dos filhos. Daí resulta que a pequena família ou família individual se baseia na preponderância do homem e visa ao nascimento de crianças cuja origem paterna seja indubitável (DIACOV; KOVALEV, 1982, p. 80).

Segundo Engels (2012), a família monogâmica baseia-se no predomínio do homem e a principal finalidade da união é a procriação dos filhos, cuja paternidade seja indiscutível em função da sucessão dos bens do pai. Nesse sistema, os laços conjugais já não podem ser rompidos com facilidade, todavia, ao homem lhe é reservado tanto esse direito quanto o da legitimação das relações extraconjugais, o chamado heterismo22. Essa situação confirma a tese de que a monogamia, é, então,

exigida somente da mulher e que a sua posição de submissão não é natural, mas, sim, construída historicamente.

Quanto à mulher legítima, exige-se dela que tolere tudo isso, e por sua vez, guarde uma castidade e uma fidelidade conjugal rigorosas. [...] A existência da escravidão junto à monogamia, a presença de jovens e belas cativas que pertencem, de corpo e alma, ao homem, é o que imprime desde a origem um caráter específico à monogamia só para a mulher, e não para o homem. E, na atualidade, conserva-se esse caráter (ENGELS, 2012, p. 84, destaques do autor).

Esse período, que compreende o início da civilização, traz consigo marcas que a sociedade carrega até os dias atuais, sobretudo no que diz respeito aos desníveis de classe e gênero. Ao mesmo tempo em que a sociedade estabelece regras para a sua manutenção, e, com base nessa justificativa, institui a monogamia, contraditoriamente, acentuam-se as desigualdades nas suas mais variadas formas de manifestação.

22 Para conceituar heterismo como instituição social, Engels recorre às obras de Morgan, o qual o

define como “relações extraconjugais – existentes junto com a monogamia – dos homens com mulheres não casadas, relações que, como se sabe, florescem sob as mais variadas formas durante toda a época da civilização e se transformam, cada vez mais, em aberta prostituição” (ENGELS, 2012, p. 88).

[...] o primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino. A monogamia foi um grande progresso histórico, mas, ao mesmo tempo, iniciou, juntamente com a escravidão e as riquezas privadas, aquele período, que dura até os nossos dias, no qual cada progresso é simultaneamente um retrocesso relativo, e o bem-estar e o desenvolvimento de uns se verificam às custas da dor e da repressão de outros (ENGELS, 2012, p. 87).

O processo de desenvolvimento da sociedade civilizada é caracterizado pelo surgimento do Estado (com seus instrumentos repressores), pela introdução da moeda, da propriedade privada e do trabalho como forma predominante na produção mercantil. Como consequência, outro fenômeno que particulariza a civilização é a edificação da monogamia nos sistemas familiares como forma de regulação das relações sociais entre homens e mulheres.

Segundo Engels (2012), a monogamia não se revestiu em todos os lugares e épocas em sua forma clássica. A mistura dos povos atenuou a supremacia masculina e deu às mulheres uma posição mais livre (aparentemente). Como consequência de sua evolução, a esse regime também é atribuída a noção de amor sexual individual moderno, anteriormente desconhecido no mundo.

No decorrer dos séculos, as famílias passaram a assumir diferentes configurações, fortemente associadas à evolução do processo histórico e às transformações da sociedade. Ariès (2012) demonstra que até o século XV a família era caracterizada por seus valores moral e social, muito mais do que o afetivo.

A partir do momento em que a relação interna com a criança assume novo significado, essa instituição inicia importante processo de transformação. Por meio de um texto italiano do século XV, Ariès (2012, p. 154) demonstra como se constituía a família medieval.

A falta de afeição dos ingleses manifesta-se particularmente em sua atitude com relação às suas crianças. Após conservá-las em casa até a idade de sete ou nove anos (em nossos autores antigos, sete anos era a idade em que os meninos deixavam as mulheres para ingressar na escola ou no mundo dos adultos), eles as colocam, tanto os meninos como as meninas, nas casas de outras pessoas, para aí fazerem o serviço pesado, e as crianças aí permanecem por um período de sete a nove anos (portanto, até entre cerca de 14 e 18 anos). Elas são chamadas então de aprendizes. Durante esse tempo, desencumbem-se de todas as tarefas domésticas. Há poucos que evitam esse tratamento, pois todos, qualquer que seja sua fortuna, enviam assim suas crianças para casas alheias, enquanto recebem em seu próprio lar crianças estranhas.

Nesse período, a extensão da frequência escolar, especificamente, é o fenômeno motivador para que a realidade e os sentimentos das famílias assumam novo formato. Até então, o processo de aprendizagem era executado com os adultos, além do mais, o afastamento da criança de sua família de origem era uma prática habitual naquele tempo. Do século XV em diante, a escola

[...] deixou de ser reservada aos clérigos para se tornar um instrumento normal da iniciação social, da passagem do estado da infância ao adulto. [...] Essa evolução correspondeu a uma necessidade nova de rigor moral da parte dos educadores, a uma preocupação de isolar a juventude do mundo sujo dos adultos para mantê-la na inocência primitiva, a um desejo de treiná-la para melhor resistir às tentações dos adultos. Mas ela correspondeu também a uma preocupação dos pais de vigiar seus filhos mais de perto, de ficar mais perto deles e de não abandoná-los mais, mesmo temporariamente, aos cuidados de uma outra família (ARIÈS, 2012, p. 159).

A formação do sentimento familiar ampliou-se e, gradativamente, assumiu a noção difundida até os dias atuais. Para Ariès (2012, p. 159), “o clima sentimental era agora completamente diferente, mais próximo do nosso, como se a família moderna tivesse nascido ao mesmo tempo que a escola, ou, ao menos, que o hábito geral de educar as crianças na escola”. Vale ressaltar que essa escolarização não se estendeu por completo a toda a população em todas as classes sociais. Meninas, sobretudo aquelas provenientes das camadas desfavorecidas, passaram a ser beneficiadas por essa prática, alguns séculos adiante.

A partir do século XVIII, a sociabilidade foi retraída e, com ela, a família se recolheu à vida privada. De acordo com Ariès (2012, p. 191),

[...] as pessoas começaram a se defender contra uma sociedade cujo convívio constante até então havia sido a fonte da educação, da reputação e da fortuna. Daí em diante, um movimento visceral destruiria as antigas relações entre senhores e criados, grandes e pequenos, amigos ou clientes. Esse movimento foi retardado em certos casos pelas inércias do isolamento geográfico ou social. [...] Ele seria mais rápido entre as burguesias do que nas classes populares. Em toda a parte ele reforçaria a intimidade da vida privada em detrimento das relações de vizinhança, de amizades ou de tradições. [...] A vida profissional e a vida familiar abafaram essa outra atividade, que outrora invadia toda a vida: a atividade das relações sociais.

Na modernidade, então, foram estabelecidos os limites entre o público e o privado, e perpetuada, até os nossos dias, a noção de intimidade familiar.

Todas essas transformações, em termos sociais, econômicos, políticos e culturais, serviram de base para a constituição de diversas formas de organização

familiar nos mais variados estágios da civilização. Influenciam sobremaneira a sociedade atual, especialmente no que diz respeito às configurações e atribuições das famílias contemporâneas e à posição de seus membros, tanto dentro como fora dela.

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Benzer Belgeler