No transcorrer da história, mais precisamente com o desenvolvimento do processo civilizatório, diferentes sistemas familiares foram construídos com formas e atribuições adequadas a cada tempo. Para esta dissertação, iniciaremos com o estudo sobre as famílias burguesas e proletárias europeias, pois entendemos que o período no qual emergiram foi marcado pela maior transformação já ocorrida em âmbitos social e econômico. Ademais, a opção por esses dois modelos justifica-se pelo poder de influência que ainda possuem na contemporaneidade, principalmente a família nuclear burguesa.
O marco histórico ao qual nos referimos, é a Revolução Industrial, que se produziu inicialmente na Inglaterra, na segunda metade do século XVIII. De acordo com Marx e Engels (1998, p. 104),
A Revolução Industrial foi provocada pela invenção da máquina a vapor, das diversas máquinas têxteis, do tear mecânico e de toda uma série de outros dispositivos mecânicos. Tais máquinas, que eram muito caras e, por isso, só podiam ser adquiridas pelos grandes capitalistas, transformaram completamente o antigo modo de produção e suplantaram os antigos trabalhadores, já que as máquinas forneciam mercadorias melhores e mais baratas do que as que os trabalhadores podiam fabricar com suas rocas de fiar e seus teares imperfeitos.
Esse processo de industrialização, que se repetiu ao longo dos anos nos demais países, consolidou o modo de produção capitalista, o qual foi responsável por uma metamorfose no modelo de sociedade vigente. Além de intensificar a divisão social do trabalho e a noção da propriedade privada, esse sistema criou duas classes antagônicas: a burguesia e o proletariado.
A produção mercantil capitalista se peculiariza, pois, porque põe em cena dois sujeitos historicamente determinados: o capitalista (ou burguês), que dispõe de dinheiro e meios de produção (que, então, tomam a forma de
vender, como mercadoria, a sua força de trabalho – o proletariado (ou operário). As classes fundamentais do modo de produção capitalista, assim, determinam-se pela propriedade ou não dos meios de produção: os capitalistas (a classe capitalista, a burguesia) detêm essa propriedade, enquanto o proletariado (o operariado, a classe constituída pelos produtores diretos) dispõe apenas da sua capacidade de trabalho e, logo, está simultaneamente livre para – compelido a vendê-la como se vende qualquer mercadoria; no modo de produção capitalista, o capitalista é o representante do capital e, o proletariado, do trabalho (NETTO; BRAZ, 2012, p. 97, destaque dos autores).
O capitalismo desenvolveu uma ideologia baseada na mercantilização de tudo e de todos. Não somente objetos, mas relações sociais estavam, igualmente, submetidas à lógica de compra e venda, e a principal delas era a mão de obra do proletariado. Destituída dos meios necessários à produção, a essa classe restou apenas a sua força de trabalho, a qual era vendida à burguesia em troca de um salário minimamente necessário para a sua subsistência.
Na mesma proporção em que a burguesia se fortalecia econômica e socialmente, o proletariado era submetido à situação de miséria. As cidades cresceram desordenadamente, visto que, com o aumento da produção nas manufaturas, o êxodo rural foi uma necessidade à expansão comercial.
Para Marx e Engels (1998, p. 109) “a Revolução Industrial concentra ao mesmo tempo burgueses e proletários em grandes cidades”. E o capitalismo, por conseguinte, instaura duas formas antagônicas e desiguais de se viver, as quais exerceram significativa influência na formação das mais variadas instituições sociais, sobretudo a família.
No âmbito de todas essas transformações, a burguesia, na condição de classe dominante, desenvolve o seu modelo de família, o qual, até os dias de hoje, vem sendo propagado como uma representação ideal dessa instituição. A família nuclear burguesa surge, portanto, em meio ao processo de industrialização e urbanização da sociedade europeia.
Composta essencialmente por pai, mãe e filhos, as relações entre seus membros são estabelecidas por laços de aliança e consanguinidade. De acordo com Fávero (2001, p. 122),
Esse modelo pressupõe a família nuclear monogâmica, formada por pai, mãe e filhos, vivendo juntos num mesmo espaço – de intimidade. O pai é o provedor, vinculando-se ao mundo do trabalho (espaço público). O lar e a família são “naturalmente” espaços da mulher/mãe. Esta, preferencialmente, não trabalha fora dele, sendo responsável pelos cuidados da casa e dos
filhos (espaço privado). Esse grupo vive harmoniosamente, num ambiente alegre e bem cuidado, provido de meios materiais e laços afetivos capazes de proporcionar-lhe um desenvolvimento saudável e, assim, garantir que, futuramente, reproduza esse modelo. É um modelo que vai ser veiculado como “o certo, o bonito, o desejável”.
Essa cisão estabelecida entre espaços público e privado, assim como o papel atribuído ao homem e à mulher, em cada um deles, são fenômenos decorrentes da divisão sexual do trabalho. O desenvolvimento do capitalismo dependia que as relações familiares funcionassem da seguinte maneira: ao marido cabia a provisão econômica por meio do trabalho e da esposa esperava-se atuação restrita aos afazeres domésticos e criação de filhos.
Podemos considerar que as desigualdades de gênero, ainda mantidas em nossa sociedade, tornam-se resultados dessa tradição coletiva. Os padrões de comportamentos ideológicos em torno do masculino (racionalidade) e do feminino (afetividade) diferenciam e reafirmam a posição de ambos nos contextos macro e microssocial.
Não demorou muito para que essa forma de se pensar a família fosse reproduzida socialmente, a ponto de o modelo nuclear assumir uma condição hegemônica de normalidade. As outras formas de organização familiar vigentes, que não seguiam essa lógica, eram consideradas desestruturadas e disfuncionais.
Assim como a burguesia, o proletariado também desenvolveu o seu modelo de família, fortemente influenciado pelas péssimas condições de vida às quais estava submetido. No mesmo contexto capitalista, a família proletária encontrava-se marginalizada social, econômica e culturalmente. Segundo Iamamoto e Carvalho (2001, p. 128) “[...] os operários e suas famílias amontoavam-se em bairros insalubres junto às aglomerações industriais, em casas infectadas, sendo muito frequentes a carência – ou mesmo a falta absoluta – de água, esgoto e luz”.
Nesse contexto, os papéis desempenhados pelos membros da família proletária nada tinham em comum com as relações familiares burguesas. Em decorrência dos baixos salários, a sobrevivência somente era garantida mediante a inserção de todos: pai, mãe e até filhos no processo de industrialização.
Quanto menos habilidade e força exige o trabalho manual, quer dizer, quanto mais a indústria moderna se desenvolve, mais o trabalho dos homens é suplantado pelo das mulheres e crianças. As diferenças de sexo e de idade não têm mais valor social para a classe operária. Ficam apenas
instrumentos de trabalho, cujo custo varia conforme a idade e o sexo (MARX; ENGELS, 1998, p. 73).
Inseridas no mundo do trabalho, as mulheres das classes populares desempenhavam dupla ou até mesmo tripla jornada. Além de trabalharem nas indústrias elas cuidavam também das atividades domésticas e da criação e educação dos filhos. Essa situação intensifica-se ainda mais com a divisão natural do trabalho na família, à qual, segundo Marx e Engels (1982, p. 47), atribui os papéis sociais masculinos e femininos na sociedade capitalista.
[...] na divisão natural do trabalho na família dá-se ao mesmo tempo a distribuição, e com efeito a distribuição desigual, tanto quantitativa como qualitativamente, do trabalho e de seus produtos; ou seja, a propriedade, que já tem seu núcleo, sua primeira forma, na família, onde a mulher e os filhos são escravos do marido. [...] Com efeito, desde o instante em que o trabalho começa a ser distribuído, cada um dispõe de uma esfera de atividade exclusiva e determinada, que lhe é imposta e da qual não pode sair; o homem é caçador, pescador, pastor.
De acordo com José Filho (1998) ao longo dos anos, a família proletária passa por três estágios de desenvolvimento. No primeiro deles, as relações estavam baseadas na ajuda mútua e na organização em rede. A condição de miséria vivenciada por essas famílias exigia a permanência dos laços comunitários para garantir a sobrevivência.
A partir do século XIX, o segundo estágio é marcado pela interferência da burguesia, com a finalidade de moralizar e higienizar as classes operárias. “Nessa fase a mulher passou a ficar mais tempo em casa cuidando dos filhos e os homens se estabelecem nas fábricas” (JOSÉ FILHO, 1998, p. 30).
De acordo com o mesmo autor, somente no século XX, fase correspondente ao terceiro estágio, é que o modelo burguês de família passa a ser incorporado pelo proletariado. “A partir daí romperam-se os vínculos com a comunidade; a mulher afasta-se das redes femininas, ficando isolada no lar e o homem passa a valorizar a domesticidade e a privacidade” (JOSÉ FILHO, 1998, p. 30).
Apresentamos esses dois modelos de organização familiar por entendermos que ambos representam o embrião das diferentes configurações instituídas na contemporaneidade. A evolução desse instituto, associada às transformações estruturais na sociedade, nos permite considerar que a multiplicidade engendra diferentes formas de relação entre seus membros.
O modo como as famílias na atualidade se organizam para o enfrentamento de diversas situações, dentre elas a proximidade da morte, por exemplo, estabelece relação com o papel socialmente atribuído ao homem e à mulher. Além disso, o conceito que as instituições de saúde concebem sobre essas famílias, sobretudo no que diz respeito à sua capacidade de proteção, ainda encontra-se enviesado pelo modelo nuclear burguês.