No início da década de 70, outra corrente migratória se apresenta com suas peculiaridades. Uma procura por terras, oriundas de empresários de outros estados, que foram chamados genericamente de “paulistas”. Dentre os fatores que se destacavam para essa procura, estavam os incentivos fiscais, criados exclusivamente para atrair investimentos para o desenvolvimento da região, como parte do plano de valorização econômica implantados à época19
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DUARTE (1986) avalia que mesmo com pouquíssimos projetos agropecuários aprovados com recursos da SUDAM para o Acre, até 1980, os estímulos fiscais e creditícios foram um forte estimulo para o capital investir em terras acreanas. Talvez um empecilho que dificultou e explica a quantidade reduzida de projetos tenha sido a confusa situação jurídica das terras, diante do grave problema de regularização fundiária. A autora segue em sua análise:
Nos apelos feitos pelo governador Wanderley Dantas (1971/74), ao empresariado do centro-sul, os incentivos fiscais do Decreto-Lei 291/67, bem como a adoção da agropecuária como atividade econômica básica a ser desenvolvida, foram os argumentos principais utilizados em sua política de abrir as porteiras do Acre. (DUARTE, 1986, p.55)
No governo de Wanderley Dantas (1971-1974) houve uma intensa campanha publicitária, principalmente no sul e sudeste do país, visando divulgar as potencialidades das terras acreanas, enaltecendo as facilidades de sua aquisição e as vantagens de se investir no Acre. Certamente, isso foi um fator importante de atração dos “paulistas” para o Acre. Ao que nos consta, foi uma campanha bem sucedida, pois ao terminar o seu
19 No seu “pacote” de projetos agropecuários que visava o desenvolvimento econômico, na década de 70, inicio dos anos 80, consta que a SUDAM dentre seus326 projetos, 91,72% ficaram com os estados de Mato Grosso, Goiás e Pará, pois o interesse dos investidores inicialmente eram voltados para as regiões mas próximas as regiões mais povoadas. Assim, as demais unidades federativas que fazem parte da Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Rondônia, Roraima e parte do Maranhão), totalizaram apenas 8,28% dos projetos aprovados.
mandato, já havia concretizado a venda de pelo menos um terço das terras acreanas aos sulistas.
No processo e transferência da propriedade a presença dos seringueiros tornou-se obstáculo, pois à medida em que iniciou o processo de regularização jurídica das propriedades, e mesmo antes disso, pois estava claro que a população residente tinha direitos que os próprios órgãos públicos reconheciam. Iniciou então a expulsão dos seringueiros, que haviam se tornado posseiros, com direito à terra. Para isso vários mecanismos foram utilizados, alguns através de indenizações irrisórias de suas benfeitorias, outros pela intimidação, sem qualquer indenização e para muitos usando violência ou tentativa de expulsão pela violência20
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A este trabalhador já tão sofrido restava agora somente duas alternativas: tornar-se peão nas áreas de desmate e derrubadas, ou migrar para a cidade na busca de novas oportunidades de trabalho, morando em áreas urbanas periféricas, geralmente alagadiças, degradadas, assim começam as ocupações urbanas. A tabela abaixo permite visualizar o movimento da população da zona rural para a zona urbana do estado.
TABELA 01 – Evolução da população, taxa de urbanização e crescimento populacional.
ANO TOTAL HABITANTS POR LOCALIZAÇÃO URBANA RURAL (%) TAXA DE URBANIZAÇÃO
1940 79.768 14.138 65.630 17,72 1950 119.755 21.272 93.483 18,54 1960 158.852 33.534 125.318 21,11 1970 215.299 59.439 155.860 27,61 1980 301.276 131.930 169.346 43,79 1991 417.718 258.520 159.198 61,89 1996 483.593 315.271 168.322 65,19 2000 557.526 370.267 187.259 66,41 2010 733.559 532.279 201.280 72,56
Fonte: Acre em Números 2011.
Como se pode observar, até o inicio da década de 70 tinha-se uma população majoritariamente rural, esse quadro vai recebendo uma nova ‘paisagem’ exatamente no final da década de 70 início dos anos 80. No momento em que muda as diretrizes da
20 O Varadouro foi um jornal alternativo, veiculado nos anos de 77 a 81 que tinha sua linha editorial voltada para apoiar os movimentos sociais, índios, seringueiros e colonos. Com cunho de forte oposição ao poder local, retratou as inúmeras violências sofridas pelas populações tradicionais.
economia do Estado, grandes fazendas começam a ser implantadas, modificando a paisagem como também novas formas de organização familiar e comunitária. Seringueiros foram desalojados das suas atividades extrativistas, além dos inúmeros conflitos e consequentemente o aumento do êxodo do campo para as cidades que também contava com uma péssima infraestrutura.
Inicia-se também na década de 70 uma organização intensa dos movimentos sociais no Acre. Conduzidos inicialmente por indivíduos ou pequenos grupos, existia as lutas de resistência dos posseiros e seringueiros que evoluiu para grandes mobilizações em torno dos sindicatos rurais.
Seguramente os debates feministas não estavam totalmente ausentes nesse período, mesmo nas décadas anteriores, como vimos no capítulo I em que o feminismo de Berta Lutz conseguiu reunir mulheres representantes de todos os estados da federação, porém não se tem registro de como tal movimento se articulava localmente, arriscaria dizer que pela conjuntura política e cultural de um estado pequeno e conservador, pouco efeito teve esse debate nas primeiras décadas do século XX.
A partir da década de 70 com o movimento social se organizando, as lutas se intensificaram. Nas cidades recentemente povoadas em que a capital do estado foi mais penalizada com a ocupação desordenada surgiram novos bairros, junto a isso inúmeros problemas sociais agora mais expostos. Assim como houve um movimento organizativo dos trabalhadores rurais, como também na área urbana surgem inúmeras organizações. As que já existiam nos anos 70 se fortalecem estimuladas em grande parte pelas Comunidades Eclesiais de Base – CEBs21
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Sobre a importância das CEBs principalmente nos anos 70 e 80, KLEIN (2009), relata:
21 Comunidades e grupos de pastoral da Igreja Católica, que tinha como fundamentação teórica a Teologia da Libertação, uma visão católica do marxismo. Formavam pequenos grupos que entre seus traços destacava-se a territorialidade, ou seja, se reuniam por proximidade geográfica e que a partir das reflexões sobre os problemas da família, do trabalho, do bairro, ajudaram a criar movimentos sociais para organizar sua luta: associações de moradores, luta pela terra e também o fortalecimento do movimento operário. Durante a luta contra a ditadura militar, deram uma importante contribuição à redemocratização do país, era o que se podia chamar de a esquerda da igreja católica.
[...] em meio a uma sociedade excludente, uma instituição do porte da Igreja Católica, que se colocava contra as violências do Estado e dos investidores econômicos, logo se tornava uma referência, um ponto de apoio. Muitos outros grupos sociais se aliaram às lutas dos seringueiros. [...] Essa articulação de grupos sociais demonstra que havia uma certa coordenação de ações que visavam a um entendimento comum. O que une diversos grupos não é uma consciência unificadora e geral sobre um projeto político, mas a articulação consensual em torno de um ideal conjunto, nesse caso a resistência contra os pecuaristas e seus investimentos. (KLEIN, 2009, p. 48).
É importante lembrar que do ponto de vista organizativo e reivindicativo, as lutas e debates eram em torno de problemas mais coletivos, comunitários. Os considerados do espaço doméstico como a violência conjugal, por exemplo, enfrentava resistência e era pouco discutido. Mesmo entre os militantes e lideranças dos movimentos comunitários, esse era um tema que continha um debate mais restrito, ou seja, era uma discussão mais específica a feministas ou ‘simpatizantes’, provavelmente não consideravam temas importantes e de caráter público ou talvez apenas um assunto desconfortável. Esse debate entra com mais vigor no movimento para que efetivamente fossem implementadas políticas públicas a partir do final dos anos 80 e inicio dos anos 90, como veremos a seguir.