Esse capítulo tem o objetivo de explicar o feminismo enquanto uma corrente teórica e um movimento político de caráter organizativo que tomou corpo na efervescência das lutas pela igualdade embalada nos refrãos da Revolução Francesa. Analisar em como foi absorvendo ao longo do tempo novas lutas e demandas situadas no contexto político, cultural e econômico nos quais estava inserido.
Seguirei com um movimento de idas e vindas, me referindo ora ao feminismo internacional, ora ao feminismo brasileiro na tentativa de explicitar que não seguiu necessariamente a uma uniformidade e periodicidade, dada ao contexto político, econômico e cultural de cada país.
Parto do principio que desde a sua gênese, o interior do movimento já compunha suas contradições, dado a isso, podemos falar de vários ‘feminismos’ e, portanto ainda em constantes (re) formulações seja no campo teórico, como no campo da ação prática. Sobre essas contradições BESSE (1999) se refere que ser “feminista” no Brasil do final da década de 10 até a década de 30 do século XX era um tema muito controvertido:
[...] as que se definiam como feministas iam desde “feministas católicas”, que pregavam que “sem Deus, Pátria, Honra e Família não há feminismo possível”, até as mulheres profissionais solteiras que buscavam modelos na Europa e nos Estados Unidos e consideravam que o emprego assalariado era o pré-requisito mais essencial para a emancipação feminina. Além dessas, muitas mulheres que os outros rotulavam como “feministas anarquistas e libertárias”, rejeitavam totalmente o rótulo de “feminismo”, que acusavam de ser “burguês”. (BESSE, 1999, p.182).
A autora aponta que ao longo da história, sempre houve mulheres rebeldes, que o feminismo no Brasil tem suas raízes no século XIX, porém era um grupo muito pequeno de mulheres de classe média, isoladas e tiveram repercussão social reduzida, insuficiente para se constituírem enquanto movimento político e organizado. Cita um estudo sobre a vida da classe baixa discutido por CHALOUB (2001), que mostra que as mulheres pobres não tinham aptidão nem disposição para viver conforme o modelo de feminilidade
burguesa. Ainda sobre as contradições do movimento feminista brasileiro das primeiras décadas do século XX diz:
[...] Até mesmo no interior do movimento feminista organizado, a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), coexistiam opiniões muito divergentes. À medida que a organização aumentou de tamanho, durante a década de 1920 e o inicio da de 1930, passou a reunir sob o mesmo teto um grupo diversificado de organizações femininas, sufragistas, profissionais, cívicas e de caridade, de todos os Estados do Brasil. E suas associações repartiam-se entre as que lutavam por assegurar às mulheres direitos sociais e políticos e as que se preocupavam principalmente em exaltar e louvar os papeis domésticos das mulheres. (BESSE, 1999, p.182).
No campo internacional a ideia central se dava em defender a igualdade entre os sexos e foi além de lutas no campo reivindicativo, o esforço maior dos movimentos feministas foi fundamentar teoricamente, isso ainda na segunda metade do século XIX e primeiras décadas do século XX.
A ideia que fundamentava o discurso da igualdade como direito ao voto, à educação, à participação cidadã etc., na avaliação desses movimentos dos anos 60 do século XX, resultou numa luta de mulheres liberais em busca de sua igualdade com os homens e não na verdadeira libertação feminina que pressupunha muitos elementos que estavam aquém dessa pauta de discussões.
A partir dos anos 70 do mesmo século, o feminismo ocidental, para sair do isolamento em que estava, passa a criar vários espaços específicos, em forma de grupos autônomos. A partir do auto reconhecimento de suas experiências, esses grupos contribuíram para dar voz coletiva ao desconforto das mulheres e estimular uma consciência crítica que permitiu procurar respostas sociais e teóricas sobre os problemas entendidos como coletivos, penetrando na esfera do político com a consciência de que o privado e o pessoal é político. É nessa perspectiva que nasce na concepção de algumas mulheres que estavam à frente do movimento, a existência de uma bandeira comum, uma fraternidade universal de mulheres contra a supremacia e dominação masculina.
A partir dessa concepção de uma bandeira comum, surgem várias lutas que entram na pauta dos debates, como: a despenalização do adultério, a luta pela criação de abrigos para mulheres violentadas, à denúncia de maus tratos no ambiente familiar e conjugal e a mobilização frente às situações de abuso sexual e de todas as violações que acontecem no âmbito das relações conjugais. Entra na pauta também a necessidade de dar visibilidade ao trabalho doméstico não remunerado, não valorizado, exercido pelas mulheres em relação de submissão, sobre o que ou no qual se sustenta o trabalho produtivo.
Sabe-se que historicamente, as mulheres isoladas ou em grupos sempre foram protagonistas de lutas, no que se refere ao feminismo especificamente, alguns autores como HEYWOOD (2010) diz que como termo político, é uma criação do século XX e só passa a ser utilizado no dia a dia a partir da década de 60 (a palavra “feminista” foi usada pela primeira vez no século XIX, como termo médico para descrever tanto a feminização de homens como a masculinização de mulheres). No uso moderno, “feminismo” é invariavelmente associado ao movimento feminino e ao esforço para fortalecer o papel social da mulher.
O termo feminismo, mesmo tendo origem recente, como ressalta o autor, no entanto muitas de suas ideias já estavam presentes em várias culturas e até nas antigas civilizações da Grécia e da China, cita como exemplo o livro A cidade das mulheres, de Christine de Pisan, publicado em 1405 na Itália. Para esse autor, essa obra já sinalizava muitas das ideias do feminismo moderno, pois a obra descrevia as façanhas de mulheres célebres do passado e defendia o direito a educação e a influencia política.
Ao longo da história as mulheres sempre tiveram um papel ativo, lutaram das mais diversas formas e em contextos sócio-político-cultural diversificado, o que nem sempre a história contou, por isso não se pode atribuir a luta das mulheres ao surgimento do feminismo, já que o inverso também não se aplica, no entanto, pode-se concordar que enquanto movimento com abrangência política organizada e reconhecida surgiu no século XIX, principalmente nos Estados Unidos e Europa e seguindo essa categorização, no Brasil foi a partir do inicio do século XX.
A ideologia feminista se sustenta em duas premissas básicas: a desvantagem a que as mulheres vivem por serem mulheres e a de que essa desvantagem não só pode como deve ser abolida. Assim, sustentam que a superioridade dos homens e a sujeição das mulheres na maioria das sociedades, ou se poderia arriscar que em todas, é uma relação política entre os sexos. Sendo assim, desafiam a mobilização dessa relação política, tida como um conjunto de crenças, mitos construídos social e culturalmente, por meio das quais diversas gerações de pensadores do sexo masculino, não dispostos a rever os privilégios e poderes do próprio sexo, mantiveram o papel da mulher fora da agenda política.
O esforço é o de situar a dinâmica deste com outros movimentos sociais, sobretudo articulando o contexto político e histórico em que as lutas ligadas à condição da mulher se interligam com questões de opressão, classe e raça, e na medida em que incluo a realidade amazônica, incorporo a etnia como mais uma categoria de análise a partir da violência sofrida por mulheres indígenas.
É importante lembrar que não há uma unidade de pensamento quanto à exatidão desses períodos. O importante a ser destacado são as lutas ocorridas e a sua contribuição para o processo de amadurecimento do movimento feminista e não vincular a inclusão desses fatos em períodos demarcados, haja vista suas diferenças nos estudos apresentados, por exemplo, por GARCIA (2011) e HEYWOOD (2010).
Ao fazer uma breve descrição do feminismo enquanto movimento político e teórico, optei pela caracterização em ondas, primeiramente porque uma vasta literatura existente assim o classifica, segundo, por considerar que facilita a compreensão dos vários contextos em que se deu. Fazendo uma analogia a Michelle Perrot que diz “... o feminismo age em movimentos súbitos, em ondas. É intermitente, incorpado, mas resurgente...” Assim o compreendo, pois mesmo nos períodos em que houve uma aparente calmaria, uma descontinuidade, ou mesmo um enfraquecimento, tal como ondas, ele ressurge, com vigor, vinculado ao contexto político, social e econômico ao qual está inserido. A partir dessa caracterização, veremos a seguir: