Como vimos no capítulo I, o feminismo se constituiu enquanto corrente teórica e movimento organizativo no final do século XIX na Europa e Estados Unidos inicialmente marcados pelos valores de igualdade. No Brasil no mesmo período, de acordo com a literatura consultada havia lutas isoladas pelo direito ao voto. O feminismo enquanto movimento de ação prática tomou fôlego somente nas primeiras décadas do século XX, liderado por algumas mulheres inspiradas nas experiências americana e europeia. Enquanto isso no Acre, no final do século XIX, a luta era ainda pela conquista do território e estava distante de lutar por direitos individuais.
Retomando o período do século XIX, a Europa e Estados Unidos em que pese à luta no campo político pelos direitos liberais e o bem estar individual e social das pessoas, no campo econômico e industrial esses países precisavam da borracha da Amazônia para suas indústrias automobilísticas. A Amazônia estava em plena colonização por nordestinos pobres que vinham em busca de condições de vida melhores enquanto ser humano, castigados pela seca14.
No Acre, diferentemente de outros Estados, sua ocupação foi mais tardia, talvez a própria localização geográfica tenha contribuído para esse isolamento de outros centros, pois é um dos estados menos povoados do país e foi o último a ser efetivamente ocupado. O estado está situado no sudoeste da região norte e tem como limites os estados do Amazonas a norte, Rondônia a leste, Bolívia a sudeste e o Peru ao sul e oeste. É composto por 22 municípios e sua capital é a cidade de Rio Branco.
A ocupação do território do Acre inicia-se por volta de 1878, com a chegada de brasileiros, a maioria nordestina, numa área ainda indefinida quanto aos limites com a Bolívia e o Peru, com o objetivo de exploração econômica da borracha. Os brasileiros
14 Os horrores da seca e a concentração fundiária tiraram os nordestinos de suas origens, aliado a isso, a ilusão e a perspectiva que vindo para a Amazônia, em pouco tempo poderiam adquirir capital suficiente para retornar para o nordeste e comprar um pedaço de terra. Assim iniciaram a ilusão de um futuro promissor na Amazônia. “A construção desse imaginário da Amazônia como um paraíso, terra de abundância, onde as árvores, as seringueiras, davam ‘leite’ que virava ‘ouro’, fez com que milhares de nordestinos (cearenses, paraibanos, potiguares, piauienses, pernambucanos e outros), deixassem para trás o inferno da seca.” (BEZERRA, 2006, p. 24).
criam um território independente e exigem sua anexação ao Brasil, devido à riqueza gerada pelo comércio da borracha15
.
A demanda mundial, impulsionada pelo desenvolvimento da indústria automobilística, garantia o aproveitamento de toda a borracha produzida no Acre. Nas palavras de BEZERRA (2006) a economia do Acre vivia os seus tempos de prosperidade, de euforia, considerando que a região possuía uma grande reserva de borracha natural e tinha o domínio do mercado. Entretanto essa fase de prosperidade estava chegando ao fim, pois para garantir maior produtividade e ampliar o lucro, inicia-se o plantio de seringueiras nas colônias asiáticas.
A ocupação se deu majoritariamente por homens, embora também não tenham sido poucas as mulheres que também se aventuraram nessa saga, vindo dos vários estados do nordeste, era o sonho de uma vida melhor. No entanto em relação aos homens, eram poucas as mulheres, os seringueiros pediam a seus patrões que lhes enviassem mulheres, pagando por elas como se fossem mais um tipo de mercadoria. Vale ressaltar que enquanto mercadoria era mais um produto que o seringalista utilizava para expropriar o seringueiro em troca de sua mão de obra. Segue a citação clássica que melhor representa essa relação:
Os seringueiros encomendavam aos patrões, e estes as casas aviadoras, mulheres como encomendavam gêneros alimentícios, utensílios, roupas. Verdadeiras mercadorias entravam nas contas escrituradas pelo guarda-livros como qualquer outro objeto de uso diário. (REIS apud SOUZA, 2010, p. 77)
Enquanto mercadoria, era um privilégio de poucos, fazia-se necessário merecê-la, e ainda assim, como relata LIMA (2009), o seringueiro encomendava a mulher no barracão e além de pagar pela ‘mercadoria’, ainda tinha que arcar com todas as despesas de transporte. O processo de composição da família nos seringais, no período de
15 Em 1899, a Bolívia ocupa a área, começa a recolher impostos na tentativa de assegurar o domínio das terras, na época com o reconhecimento do governo brasileiro. Os brasileiros se revoltam e os conflitos só terminam com a assinatura do tratado de Petrópolis, em 17 de novembro de 1903. Pelo tratado, o Brasil recebe a posse definitiva da região em troca de áreas no Mato Grosso, o pagamento de 2 milhões de libras esterlinas e do compromisso de construir a estrada de ferro Madeira-Mamoré.
ocupação do Acre em grande parte foi construído por essa mediação perversa do seringalista, pois na medida em que comercializava mulheres, atendia a um duplo interesse – vinculava o trabalhador em suas colocações e garantia a reposição da mão-de- obra -, aumentando assim, seu lucro.
Se a colonização do Acre foi marcada desde o início pela exploração e sofrimento de trabalhadores pobres em busca de melhores condições de vida, não se pode deixar de citar também a violência e crueldade a que foram submetidas às populações nativas (indígenas). Foi uma verdadeira matança que tinha o nome de “correrias”. Segue um resumo do tamanho dessa violência publicada no jornal O Varadouro com o título:
[Correrias] As mulheres corriam e eram fuziladas ou capturadas16. Como
segue abaixo um resumo da matéria:
Os grupos de jagunços rumavam então para as aldeias, com suas armas possantes e assassinas, caminhavam a passos largos, primeiro pelos varadouros17
, e estradas de seringa, depois entrando na mata bruta. Só paravam quando percebiam sinais dos ‘cabocos’ nas pisadas, nos galhos quebrados. [...] Os índios morava em casa grande, de forma oval, fechada de palha até o chão, só tinha duas portas, um jagunço cuidava da bagagem da expedição, os outros se dividiam nas duas portas, quem saísse era fuzilado.
As mulheres corriam mais violentamente para fora da casa grande, gritando e puxando os cabelos, em sinal de terror e desespero. Eram derrubadas, uma a uma, ou laçadas e amarradas. As crianças também eram capturadas para que ‘virassem gente’ depois de educadas nas famílias dos brancos. Os índios homens deviam está tomando banho em algum rio ou igarapé próximo, um costume deles que já era conhecido pelos jagunços. Preparavam-se ciladas e seu sangue tingia as águas em que se banhavam. [...] Podia durar muitas horas o tiroteio e a mortandade, entre gritos pavorosos de mães índias inocentes. Às vezes os matadores não se continham e praticavam crueldade desmedida: lançavam crianças para o alto e aparavam no facão, diante do olhar suplicante e estarrecido da mãe, que petrificava a tragédia nas memórias para sempre angustiante. Depois eles retornavam, arrastando suas presas vivas. As crianças levavam numa
16 Resumo do artigo publicado com esse título no jornal local O Varadouro (s/d), para ilustrar a barbaridade cometida com a população indígena. Essas, em forma de episódios planejados e repetidos durante décadas, batizados com o nome de “correrias”. O que não minimiza outras atrocidades cometidas contra os seringueiros, indígenas e mais especificamente as mulheres ao longo da história de ocupação desse pedacinho da Amazônia chamado Acre.
17 Varadouro era o nome dado pelos seringueiros para os atalhos que abriam mata adentro entre uma estrada de seringa e outra para a extração do látex.
estopa, às costas com suas mãos atadas. Se mordiam, recebiam coronhadas de rifle ou golpes de facão. Morriam com esses golpes e eram lançadas fora como caça imprestável.
Em todo o Acre, desde o final do século XIX, aconteceram essas guerras desiguais contra os índios chamadas ‘correrias’. [...] Segundo testemunhos, o período mais cruel e violento dessa matança ocorreu nos anos de 1936 a 1954, talvez porque houve uma guerra mundial nesse meio e o país pediu borracha quantas pudesse ser produzidas. Precisava atender a sede de látex da indústria norte americana que não podia comprar o produto de uma Malásia hostil.
No Alto Envira, no Purus, no Alto Acre e no Iaco, assim como no Juruá outros seringalistas procederam da mesma forma. A prática disseminava-se como uma praga incontrolável, e cada região fazia a fama de um matador que sobrepunha os outros pela habilidade de ser facínora. No rio Jordão, Felizardo Cerqueira, que teria liquidado milhares de Kaxinauwas, colocava suas iniciais “FC”, a ferro incandescido no peito dos índios que ‘amansava’.
[...] O produto das ‘correrias’ era o índio violentado, escravizado e oprimido, que perdia a condição de lutar pelos seus valores e pela sobrevivência cultural de seu povo. A vida nas sedes dos seringais era torturante para eles, considerados menos que seres humanos. Deles os brancos só queriam a força para a engenhoca, a habilidade para a caça, a preparação de roçados e suas mulheres para os prazeres sexuais. Em troca não mereciam mais que a permissão para permanecerem vivos. As drogas que existiam nos armazéns os fascinavam, não podiam ser obtidas a não ser que fosse um instrumento de trabalho, como enxada e facão. (Jornal O Varadouro, s/d).
Quanta violência e crueldade, enquanto em outras regiões do Brasil se discutia emancipação, inclusão, se debatiam sobre as ondas do feminismo, no Acre como se pode ver, a luta por direitos para as mulheres passava tão distante da vida desses povos, quantos seus sonhos por uma vida melhor. A luta era pela sobrevivência de homens e mulheres iludidos por falsas promessas que nunca se concretizaram, e no caso das populações indígenas, a luta era para permanecer vivos.
No cenário mundial, uma nova guerra estava em vista, estava prestes a iniciar um novo conflito mundial. Para BEZERRA (2006), enquanto o nazifacismo ameaçava a paz mundial e a integridade dos países europeus, os Estados Unidos e a Alemanha, em ascendência econômica, buscam “fincar suas raízes” na América Latina. A autora segue expondo que com a eclosão da segunda guerra, desencadeia por pressão norte americana a batalha da borracha. Cabia ao Brasil integrar-se ao esforço de guerra, fornecendo matéria prima a indústria bélica americana.
Motivada principalmente por interesses econômicos, inicia-se um período de interesse nacional e internacional pela a Amazônia. É nesse contexto político e econômico mundial que no inicio da década de 40, chegam às primeiras levas de nordestinos - do que se chamou de segundo ciclo da borracha - em grande parte cearenses expulsos pela estiagem, são recrutados para serem ‘soldados’ da borracha para o esforço de guerra. Assim, deslocam-se para a capital, Fortaleza para posteriormente migrarem. Diferentemente da anterior, esta foi uma migração familiar em que mulheres nordestinas vieram através dos laços de parentesco e de família. Estas, contrariamente à “cabocla”, se encaixavam melhor no modelo de ‘respeitabilidade’ existente, o que garantia às mulheres que vinham do nordeste acompanhando seus homens, sejam companheiros, pais, irmãos, uma respeitabilidade maior, pois havia o desejo do nordestino de encontrar uma terra para viver, já que a seca não lhe dava outra opção. Embora as dificuldades de adaptação fossem maiores, eram os que tinham as menores chances de retornarem para seus estados de origem.
Por outro lado, com a demanda da borracha para suprir a necessidade da segunda guerra mundial, para as autoridades brasileiras e norte-americanas um problema grave que se colocava era ausência da mão de obra para retomar a produção que o mercado exigia. Estava posta as condições para o novo ciclo18
da borracha, chamada por MARTINELLO (2004),como batalha da borracha.
É importante destacar que as lutas, os debates não se deram no mesmo momento e nem no mesmo ritmo nos diversos contextos políticos e históricos das sociedades. O esforço foi o de confirmar que na medida em que se discutiam direitos políticos iguais entre homens e mulheres nos Estados Unidos e Europa, por exemplo, a Amazônia estava em plena colonização por nordestinos pobres que vinham em busca de condições de vida melhores enquanto ser humano, castigados pela seca, onde a discussão por direitos das mulheres estava muito distante da realidade amazônica.
18 Não coube nesse trabalho explorar o processo de recrutamento, aliciamento e deslocamento dos trabalhadores nordestinos para a Amazônia, assim como a exploração que essas pessoas foram submetidas, autores como BECHIMOL (1984), MARTINELLO (2004), OLIVEIRA (1982), retrataram esse processo.
É importante lembrar que a população que chegava em busca de um pedaço de terra, era pessoas pobres, sofridas, oriunda de um nordeste dominado pelo latifúndio. Quando se fala que em torno dessas mulheres pairava certa ‘respeitabilidade’, estamos falando que a elas estava reservado um papel secundário nesse novo modo de organização familiar, cujo papel social era o de reprodutora da força de trabalho.
Pouco se sabe como viviam as mulheres dentro dos seringais e entre estas como se davam as relações familiares e comunitárias, pode-se dizer que na historia do Acre, assim como em grande parte de outros locais, as mulheres sempre foram vítimas da opressão masculina. Sofriam a violência dos maridos, dos patrões e tinham que suportar as dificuldades que a floresta continha como as doenças, à falta de assistência entre outros.
Em que pese essa nova organização familiar em que os homens em grande parte chegam do nordeste trazendo suas famílias, isso de certa forma gerava outras responsabilidades que dificultavam ainda mais seu retorno se assim o almejasse. Sobre essa suposta fixação de raízes, MORAIS (1993) diz:
A mulher é nesse momento um elemento fixador. No entanto, a nordestina seguia seu companheiro com desgosto e desânimo, resistindo à adaptação, chegando mesmo a abandonar os seringais em busca de melhores condições de vida. Na cidade, frente à fome e a miséria, ocasionadas pela falta de emprego e despreparo para atuar em outras atividades, habitaram os arredores de bairros empobrecidos como o Papouco. Muitas vezes, não tendo opção, prostituiam-se nas casas noturnas destinadas a proporcionar prazeres para os trabalhadores rurais em suas raras visitas a cidade. [...] bem como atender às diversas camadas sociais urbanas adeptas a boêmia. (MORAIS, 1993, p. 41)
O esforço aqui é situar como as relações de gênero estão intrinsecamente relacionadas com a história de ocupação do estado do Acre, para uma melhor compreensão do momento presente a partir de suas particularidades, que sinalizam as desigualdades nas relações entre homens e mulheres.