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O enquadramento dos corpos de água em classes, segundo os usos preponderantes, é um dos instrumentos incluídos na Lei nº 9.433/1997 com a finalidade de assegurar às águas qualidade compatível com os usos mais exigentes a que forem destinadas e diminuir os custos de combate à poluição das águas mediante ações preventivas permanentes (BRASIL, 1997).

sua finalidade é assegurar que todos os rios, trecho de rio, lagoa ou água subterrânea seja classificado atendendo à qualidade. A qualidade necessária será definida avaliando o uso mais restritivo presente ou futuro que se vai dar nesse corpo de água.

A lei também indica que as classes de corpos de água serão estabelecidas pela legislação ambiental. Nesse âmbito, a Resolução CONAMA nº 357, de 2005 (alterada e complementada posteriormente quanto às condições e padrões de lançamento de efluentes pela Resolução nº 430 de 2011 do mesmo Conselho), fixa a classificação segundo seus “usos preponderantes”. Para cada corpo, define uma meta de qualidade que dependerá do seu uso dominante, de jeito que as demandas existentes e as futuras não comprometam os usos de qualidade mais estrita. Uma vez definida uma classe, deve se manter ao longo do tempo. A Resolução acima diferencia entre águas doces, águas salinas e águas salobres e, a partir de cada uso preponderante, estabelece os padrões de qualidade para o enquadramento em 5 classes.

O enquadramento é referência para os demais instrumentos de gestão de recursos hídricos (outorga, cobrança, planos de bacia) e instrumentos de gestão ambiental (licenciamento, monitoramento), sendo, portanto, um importante elo entre o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos e o Sistema Nacional de Meio Ambiente – SISNAMA (ANA,2007b).

O enquadramento dos corpos d´água é um tema complexo, que nem sempre experimentou os avanços pretendidos. Em 1999, segundo o estudo do SRH/MMA, “O estado das águas no Brasil; perspectivas de gestão e informações de recursos hídricos”. Segunda a ANA (2007b), a implementação deste instrumento ainda era muito pequena. Apesar do enquadramento dos corpos d’água existir no Brasil há trinta anos (o primeiro sistema de enquadramento dos corpos d’água na esfera federal foi a Portaria no 013, de 15 de janeiro de 1976, do Ministério do Interior). Nesse momento, as dificuldades para ampliação dos enquadramentos, conforme o mencionado estudo, eram a falta de capacidade técnica, falta de metodologia, falta de ações de gestão, falta de recursos e falta de coordenação de medidas. Para sanar essas dificuldades, o informe destacava uma série de medidas que deviam ser tomadas.

A publicação de 2007 (ANA, 2007b) destacava que nas bacias de Domínio Estadual apenas 10 das 27 Unidades da Federação (Alagoas, Bahia, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo) possuíam instrumentos legais que enquadram total ou parcialmente seus corpos d’água. Nas bacias de Domínio Federal, na década de 1980, a partir da implementação dos Comitês Executivos de Bacias Hidrográficas e da definição de Projetos Gerenciais de várias bacias para

fornecer elementos aos futuros trabalhos de planejamento da utilização integrada destes recursos, resultaram enquadrados os rios federais das bacias do Paranapanema, Paraíba do Sul e São Francisco, segundo diversas normativas em vigor naquele momento (ANA 2007b). Nas figuras 27e 28 do anexo pode-se observar o panorama do enquadramento dos corpos d’agua estaduais e federais com indicação da legislação utilizada

Em 2009, a ANA (2009) publicou uma completa metodologia para a efetivação do enquadramento dos corpos hídricos. Nesse texto, destaca que geralmente, os recursos (financeiros, humanos etc.) necessários para a efetivação do enquadramento excedem os recursos disponíveis. Portanto, devem ser estabelecidas prioridades para concentrar os recursos disponíveis na solução dos problemas mais urgentes e importantes. Em última análise, o processo de estabelecimento de prioridades requer decisão política, baseada em considerações sociais, econômicas e ambientais.

No estudo da conjuntura de 2017 (2017), destaca-se que diversos corpos d'água brasileiros não apresentam qualidade compatível com a classe em que foram enquadrados. O Índice de Conformidade ao Enquadramento (ICE) permite avaliar simultaneamente vários processos físico-químicos e biológicos da água em função de valores de referência. Assim, o ICE pode auxiliar na avaliação do quanto se está aproximando ou distanciando dos objetivos de qualidade de água almejados no enquadramento e no processo de acompanhamento de medidas estabelecidas para o controle e mitigação da poluição, para que sejam feitos os devidos ajustes nessas ações. Como se pode observar na figura 29, no Brasil existe maioria de pontos com ICE péssimo.

Passadas duas décadas da publicação da Lei nº 9.433/1997, explica Maria Luiza Machado Granziera (2015), o enquadramento não foi feito. No estado de São Paulo, que ditou legislação específica, os corpos foram classificados, mas existem conflitos entre a estrutura da norma deste Estado e as resoluções Conama, o que dificulta ainda mais a compreensão da matéria em São Paulo. Nos demais estados, se não possuem regras específicas, vigoram as normas Conama. Neste caso, também estudos têm ressalvado que nas regiões áridas existem conflitos entre as normas que dispõem sobre o enquadramento e a Portaria 2.914/11 do Ministério da Saúde, que estabelece o padrão de potabilidade da água, sendo que em caso de escassez hídrica a Resolução CONAMA 357/05 é, para determinados parâmetros, mais restritiva que a Portaria MS 2914/11 (PESS; DANTAS; MEDEIROS, 2013).

Atualmente, destaca Granziera (2015), o uso deste instrumento legal pode parecer adequado para garantir os recursos hídricos cada vez mais escassos, mas nada mais longe da

realidade. A dificuldade de fixar as metas e efetivar o enquadramento depende de diversos fatores como a necessidade de indicar a fonte de financiamento para as medidas obrigatórias e progressivas imprescindíveis para conseguir e manter o enquadramento. Neste sentido, deve-se ter em consideração que uma vez efetivado o enquadramento, a transparência do processo pode supor uma cobrança por parte da sociedade, e sem recursos não há como responder ao processo de enquadramento. Outro aspecto relevante é que o processo de enquadramento vai condicionar indiretamente o uso e a ocupação do solo; nas zonas próximas a corpos de classes mais rigorosas, as atividades realizadas não poderão gerar poluição que comprometa o processo de enquadramento.