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2.4. Değer Öğretimi Yaklaşımları
A expansão do mercado financeiro recente leva economistas, acadêmicos de diversas áreas e jornalistas a discutirem a formação de uma nova economia que se concentra no processo de financeirização mundial. Para isso, foi realizado um recorte teórico entre os principais expoentes acadêmicos da sociologia econômica e das finanças para esboçar o significado sociológico do termo24.
De modo geral, Thrift, um dos principais representantes da vertente ligada a aspectos econômicos e geográficos, explica que essa “nova economia” é difundida principalmente por investidores, que estão preocupados com o avanço dos mercados, principalmente, no que se refere às questões sobre informação e proteção, constituindo o “circuito cultural do capital” (Thrift, 2008). Esse circuito é divulgado pelas escolas de negócios, consultores administrativos e gurus que têm por objetivo disseminar uma nova cultura de mercado, da qual todos podem participar (Thrift, 2008: 264).
O avanço da “nova economia” conta primeiramente, com o intermédio da mídia, que leva informações aos investidores; depois, com a forte divulgação da literatura sobre finanças para leigos; com o crescimento de diversos serviços e produtos financeiros; com o surgimento de analistas como o personal trainer advisor (planejador financeiro); e com a expansão dos negócios relacionados com o sentimento do investidor, como a medição do shareholder value (Thrift, 2008; Ho, 2009). O sucesso desse novo contexto é reforçado por fórmulas e métodos de análise do mercado, no qual a tecnologia está fortemente presente e pode ser constantemente modulada e redefinida como vantagem para os acionistas. Nesse sentido, vale ressaltar a importância de intelectuais do mercado que ascendem nesse cenário como Robert Shiller, já mencionado anteriormente.
Dentro desse contexto, o conceito de financeirização ganha centralidade. Para Erturk et al. (2008), ele é diferente de outras formas que aparentemente existiram com propósitos semelhantes de expansão das práticas financeiras. Nesse caso, tal conceito se distingue na estrutura, porque há uma massificação da economia, um crescimento espantoso de intermediários financeiros e uma reação dos acionistas tanto institucionais como individuais, que são induzidos pelos ideais da governança corporativa e que, por
24 Vale enfatizar que, optei por esse recorte teórico como uma tentativa de contornar a retórica existente nos trabalhos sobre cultura econômica, que perpassam por uma análise exaustiva das obras de clássicos, principalmente, Karl Marx. Os estudos sobre a financeirização, entretanto, buscam explicar a construção cultural recente dos mercados e seus principais protagonistas.
sua vez, buscam estabelecer direitos e igualdade entre todos os acionistas de uma empresa.
Outro exemplo de estudos sobre a financeirização é a vertente explicativa, ligada à questão cultural da economia, que vai além da observação da formação e da complexidade dos processos econômicos. “Cultural economic adds a new core
proposition about how discourses of finance, along with the qualification that performativity with discrepancy and infelicity, is the norm in the empirical cases so far
examined” (Erturk et al. 2008: 36).
Nesse sentido, segundo Crotty (2003), para garantir que as empresas não financeiras sobrevivessem no money manager capitalism, nos Estados Unidos da década de 1990, a alta hierarquia dos gerentes das corporações não financeiras passaram a ser recompensadas pelos movimentos dos preços do mercado financeiro em curto prazo, ao contrário, da remuneração do modelo anterior, relacionado com o sucesso da firma em longo prazo. Assim, o autor argumenta que a financeirização teve um impacto negativo nas operações das empresas não financeiras nos Estados Unidos, e que a demanda dos mercados financeiros por maiores rendimentos e rápida elevação dos preços das ações ocorreu ao mesmo tempo em que se deu a estagnação do crescimento econômico e o aumento da competição dos produtos no mercado, conjuntura que representa, segundo Crotty, um “paradoxo neoliberal”.
Por outro lado, Martin (2002) aborda a financeirização por meio das narrativas construídas pelo próprio mundo das finanças. Baseado em livros sobre o assunto para leigos, ele observa que essas narrativas induzem a performatividade da ação dos indivíduos. A pesquisa de Martin também abrange a questão do risco como uma característica que ganha centralidade na vida cotidiana dos indivíduos com o avanço da financeirização. Estes, de certa forma, inundados pela cultura econômica que prega a busca desenfreada pela acumulação de riquezas, são coagidos a se engajarem no mundo financeiro para proteger a si e suas famílias das contingências da vida diária. Dessa forma, o referido autor, apoiado na análise das transformações culturais da economia, fornece instrumentos para o estudo da financeirização como uma construção de sentido, a partir da ressignificação de seus valores morais e econômicos.
Desta forma, segundo Martin, pode-se afirmar que o avanço das finanças está conectado a uma lógica ontológica, exigindo que o indivíduo desenvolva, conforme as palavras de planejadores financeiros, um apetite saudável para o risco, para maximizar os retornos e as recompensas das práticas sociais enquadradas como decisões de
investimento. “One key outcome is that the priority given to including workers fully in
the labour market yields to the primacy of the investor as the way to orient domestic
policy and ideas of citizenship” (Martin, 2002: 21).
De acordo com Bryan et al. (2009), o processo de financeirização atual procura afrontar algumas configurações já estabelecidas no pensamento social, principalmente as categorias marxistas, já que tal processo não tem apenas como objetivo mudar o equilíbrio de poder entre as classes e gerar volatilidade econômica, mas sim reconstituir a noção de trabalho como uma forma de capital fluído. Assim, Martin (2002) aborda a “financeirização da vida diária” com o intuito de apresentar o fenômeno de forma provocativa, em vez de desenvolver exaustivamente possíveis desfechos sobre o processo em questão.
A financeirização não apenas se refere às mudanças econômicas que o mundo está vivenciando, mas também induz à reflexão sobre as relações econômicas do cotidiano, isto é, como e com qual frequência as pessoas pensam sobre economia/dinheiro em suas próprias vidas, levando-as subjetivamente a entender e participar do funcionamento dos mercados. Assim, a vertente da análise cultural tem por objetivo questionar a economia como modelo autônomo e natural (Pryke, 2006; Aitken, 2005), a partir dos caminhos pelos quais as práticas dadas ou definidas como “cultural” frequentemente constituem o mundo econômico.
Cultural economy attempts to avoid reified notions of culture or the divide between culture and economy, preferring instead to train attention to the empirical, practical and diverse ways in which culture and culture/economy have been used and defined in particular institutional, historical or political contexts. Hesitant to define culture in advance, cultural economy seeks instead a ‘nominalistic’ notion of culture and interrogates precisely the diverse ways in which ‘culture’ has been mobilized and named in order to pursue diverse ends as part of shifting rationalities and programs of government. Although it refuses to accept a fixed conception of ‘culture’ and ‘economy,’ cultural economy does not necessarily render the divide between the two categories analytically invisible. Rather, it investigates the ways in which the divide between the two has been the artifact of particular rationalities of government (Aitken, 2005: 339)
Aitken (2005b), por sua vez, aborda a interface entre razões geopolíticas e a economia e demonstra que o centro conector entre as duas esferas é frequentemente
traçado entre o risco econômico do indivíduo e o perigo da condição da posição geopolítica. Portanto, a questão risco/perigo torna-se central para a definição de nação e de cidadania econômica, que estabelece formas identitárias, relacionando os indivíduos e suas posições geográficas.
Esses estudos recentes que abordam as questões aqui tratadas apresentam uma preocupação com a cultura material em termos de linguagem, discurso, narrativa, mito, símbolo ou ideias que figuram no mundo financeiro (Pryke, 2006) 25. De acordo com Allon (2010), nos dias de hoje, uma variedade de práticas econômicas estão conectadas às redes financeiras, como fundos de pensão e aposentadoria, compra de imóveis, carros, viagens, bens de consumo, pagamento de contas, cartão de crédito, empréstimo e hipoteca. Isso é consequência do avanço dos processos de securitização, pois tais atividades são transformadas em títulos que, por sua vez, são negociados nos mercados financeiros. Dito de outro modo, as operações econômicas são transformadas em produtos de investimento para garantir segurança/retorno no futuro. Para Lee e Lipuma (2010), a financeirização integra mercados que eram aparentemente separados, como bancos comerciais e consumidores, ou mercados imobiliários e de seguros, assim, os indivíduos são convidados a assumir riscos e pensar como capitalistas: “The magic of
finance is its ability to take by giving, to spread growth while denying to those who
might partake of it the very wealth it puts in view” (Lee e Lipuma, 2010: 12).
De maneira geral, Palley (2007) reforça que a financeirização opera por meio de três formas diferentes: mudança na estrutura e operação dos mercados financeiros; modificação dos comportamentos das corporações não financeiras e mudança na política econômica global. No entanto, ao analisar as consequências e condições do movimento da “democratização das finanças”, a partir dos pressupostos da “economia cultural”, Erturk et al. (2005) também elabora três precondições que suportam tal ideal de “democratização”, que para os entusiastas do mercado, esse processo também pode ser visto como uma “democratização dos riscos financeiros” (Shiller, 2003). Entretanto, a primeira enfatiza o inevitável resultado dos efeitos da riqueza sobre o ciclo de vida individual e da economia doméstica; a segunda foca o nível básico tanto do consumo de literatura financeira como das competências adquiridas pelos indivíduos para selecionar produtos e serviços financeiros; e a terceira é voltada para o desenvolvimento de
25 Vale ressaltar que os estudos apresentados adotam uma noção de cultura mais próxima da tradição sociológica norte-americana. No Brasil, a maioria dos estudos realizados na área das ciências sociais se aproxima de uma análise mais antropológica e cognitiva.
produtos e serviços financeiros em que os riscos e retornos são calculados por diversos métodos, ditos científicos. Esses pressupostos estabelecem que a democratização das finanças, vista apenas como benefício para indivíduos e sociedade, muitas vezes, não é “concretizada” e as consequências recaem sobre várias promessas exuberantes.
The promise of democratised finance can only be realised if enough citizens in the relevant socio-economic groups have the calculative competence to appraise different financial services and products. Indeed, the requirements are more onerous than this because the services and products on offer will often not consist of propositions with fixed, easily comparable characteristics as with, say, two savings accounts which differ only in interest rates offered and rules about access to funds. In many cases, there will be risk and uncertainty attached to different products, as well as rules about the timing and conditions of entry and exit, and therefore consumers must have some capacity for decision making under conditions of uncertainty in addition to basic financial literacy. The problem here is that the evidence on these points is alarming: the general level of financial literacy is very low; the middle classes in the UK have delusions about their competence to choose financial services products; and, under conditions of uncertainty, consumers are likely to focus on reward and ignore risk. (Erturk et al., 2005:16).
Os estudos sobre financeirização, de certa forma, apresentam em comum análises a respeito da massificação das atividades financeiras, como também o mapeamento de diversas práticas e instrumentos criados por intermediários financeiros. Assim, Erturk et al. (2008), a partir de um survey, constata que entre os anglo-saxões, a literatura de finanças foi responsável pela introdução da temática da educação financeira como fator chave, que contribui para difundir conhecimentos relacionados aos investimentos, aos serviços e aos produtos financeiros para amplos setores da sociedade.
Preda (2006) reforça o argumento apresentado pelos autores acima citados, pois assevera que, historicamente, a difusão de manuais e guias sobre o funcionamento do mercado financeiro foi fundamental para a transformação das percepções sobre as formas de especulação que passaram a ser vistas como investimento, contribuindo para o desenvolvimento econômico e social do país. Portanto, com base em tais estudos, é possível afirmar que o campo de produção de textos sobre finanças para leigos é um ponto chave para a análise do avanço do mundo das finanças entre os teóricos que tratam dessa questão.
O setor de literatura sobre finanças pessoais no Brasil, como será mostrado ao longo deste trabalho, é composto por vários tipos de serviços e produtos financeiros, mas o que chama a atenção é a expansão do número de consultores que crescem vertiginosamente e comercializam livros, palestras, cursos, métodos de análises, softwares, entre outros. Esses serviços e produtos focalizam a educação financeira, a qual procura capacitar os indivíduos a planejar, empreender, poupar e investir. O setor referido ganha cada vez mais destaque no Brasil e tem por objetivo atingir a população em geral, pois não está reservada apenas a uma parcela da sociedade aparentemente apta a poupar e/ou investir.
De maneira geral, é possível ressaltar que o país também está adentrando em um processo de financeirização. Para Grün (2009), dado que os mercados são entidades internacionais, pode-se dizer que, por meio deles, a maior parte das pressões da globalização é internalizada na sociedade brasileira. Entretanto, cabe enfatizar que o procedimento de importação das finanças no Brasil é formado por um movimento às avessas. Segundo Grün (2007), o país é considerado um exemplo extremo de financeirização, pois as taxas de juros e os spreads bancários são os mais altos do mundo. Entretanto, mais recentemente, o governo de Luis Inácio Lula da Silva também apresentou uma aparente submissão aos ditames do “mercado”, essa aproximação ficou evidente com a “Carta aos Brasileiros” e a visita de Lula à Bolsa de São Paulo, durante o período da campanha presidencial (Grün, 2003) 26. Dessa forma, o autor alerta que, no Brasil, esse processo de importação das finanças representa muito mais que uma simples assimilação da lógica da financeirização; há uma dominação cultural das finanças, que impõe sua maneira de enxergar a realidade brasileira e enquadrar os problemas do país (Grün, 2007).
Diante desse quadro, também é possível afirmar que as finanças transcendem as divisões de classes, pois apresentam serviços e produtos para diversos setores da população (Martin, 2002; Grün, 2009). No Brasil, podemos incluir, entre os produtos oferecidos pelo mercado financeiro, a ampliação do setor de crédito, que caminha em paralelo com o fortalecimento do ideário do empreendedorismo e, a expansão das casas de financiamento, que são sustentadas por programas desenvolvidos pelo governo Lula,
26 Silva, Luiz Ignácio Lula da. 2002. “Carta ao povo brasileiro”. In: http://www. pt.org.br/site/assets/carta_ao_povo_ brasileiro.pdf: Partido dos Trabalhadores, 22/06/2002.
como exemplo, o Programa Nacional de Microcrédito Orientado, dentre outros, de inclusão econômica e social.
A financeirização, contudo, é um estado, um processo que envolve valores morais, culturais, políticos, simbólicos e sociais presentes no mercado e que se configuram e reconfiguram, corroborando a transformação cognitiva da sociedade. Assim, a variedade teórica apresentada poderá colaborar para deixar a presente análise mais rigorosa e próxima da realidade empírica encontrada, além de evitar que caiamos na armadilha de abordar a financeirização como um simples produto do interesse de uma elite econômica, o que pode desembocar em teorias da conspiração de difícil verificação, como afirma Grün (2009). Portanto, estes trabalhos fornecem argumentos para o delineamento de um arcabouço teórico que vai da imagem negativa do especulador à ascensão da figura do investidor, chegando até as análises sobre o processo de financeirização e as vertentes acadêmicas preocupadas com a presente questão.