Um estudo que tem como intenção a construção do conhecimento científico, mediatizado pelo referencial teórico que guia a análise e a interpretação dos dados requer procedimentos criteriosamente estabelecidos. Enquanto observa e obtém depoimentos dos sujeitos, o pesquisador entrecruza a teoria por meio de um método.
Considerou-se necessário, portanto, relatar o caminho percorrido para superar a explicação não sistematizada que temos da realidade observada no cotidiano.
Durante os anos de 2007 e 2008, os dados obtidos foram organizados com base na sucessão lógica e cronológica dos fatos ocorridos na família de origem, família constituída, escola, trabalho, relações sociais durante a infância, adolescência e fase adulta, na vida sentimental e profissionalização.
Muitas vezes os fatos narrados configuravam-se como encruzilhadas que dificultavam encontrar a saída; é o que justifica, metaforicamente, recorrer à idéia do labirinto.
A primeira versão mitológica apresentada por Brandão (1926/1991), Teseu, jovem heroi de Atenas foi lançado no Labirinto para lutar com o insaciável Minotauro, que com cabeça de touro e corpo de homem se alimentava de carne humana de sete moças e sete rapazes sacrificados como pagamento da dívida de tributos a Creta.
Se não bastasse enfrentar o terrível monstro, havia a dificuldade do percurso formado por caminhos que se entrecruzavam constituindo-se em um labirinto. Muitos dos que o enfrentaram não encontraram a saída, foram derrotados pela fera ou se perderam nas armadilhas do caminho.
Ariadne, filha de Minos e Pasífae, enamorada por Teseu, temendo pela vida do amado, com a ajuda de Dédalo, criativo arquiteto e cúmplice no amor de Ariadne e Teseu, pensaram em uma forma de ajudá-lo a chegar ao centro do labirinto, enfrentar o Minotauro e retornar pelo mesmo caminho.
Foi quando Ariadne entregou lhe um novelo de fios para que ao adentrar o labirinto pudesse desenrolá-lo, demarcar o percurso e retomar o caminho de volta. Ao derrotar o monstro, Teseu enrolou o fio e, em companhia dos outros treze jovens, libertaram-se da encruzilhada. Acompanhado por Ariadne, velejaram até à Grécia. O navio fez escala na ilha de Naxos, onde Teseu a abandonou.
Bem como no mito de Ariadne, desde o primeiro contato com os sujeitos deste estudo, foi a pesquisadora quem ofereceu o fio, já o caminho, o percurso narrado foi de cada uma das entrevistadas.
O vínculo, a amizade, a parceria estabelecida com os sujeitos facilitou acessar depoimentos, inclusive confidências que possibilitaram desenrolar o fio da narrativa que se desenvolve na dimensão temporal; no presente, dirige-se aos momentos vividos no passado, retorna ao presente com vistas ao futuro. Concordo com Bosi (2003, p. 60), quando diz:
A entrevista ideal é aquela que permite a formação de laços de amizade; tenhamos sempre na lembrança que a relação não deveria ser efêmera. Ela envolve responsabilidade pelo outro e deve durar quanto dura uma amizade. Da qualidade do vínculo vai depender a qualidade da entrevista.
A vivência interacional nos momentos em que a narrativa foi relatada, tanto durante a entrevista não-diretiva quanto no relato a partir das fotografias, não foi ignorada; contudo, quando a relação entrevistadora e entrevistada apresentava indícios de que poderia converter-se em situação terapêutica, coube à pesquisadora perceber a demanda do sujeito e com atitude de respeito e cordialidade, manter certo distanciamento, que se configurou em pausas silenciosas sem que o sujeito se sentisse abandonado.
Os fatos narrados constituem um mosaico de histórias e personagens que se entrelaçam e revelam a identidade e os projetos de vida dos sujeitos investigados; neste caso, diretoras de escolas públicas da educação básica.
Compreender o sujeito-narrador é mais que ouvir o que diz e reflete sobre si, é descrever as ações cotidianas ao longo da trajetória de vida que não ocorrem
de forma isolada. O conjunto de fatos dos diferentes campos sociais transcorre ao longo da biografia, imbricados um ao outro, que, se alterando se modificando, se entrecruzam tecendo-se.
Com os dados em mãos, coube à pesquisadora dedicar tempo para sistematizar e interpretar o caminho temporal do sujeito.
Foram muitas idas e vindas, pois no depoimento oral o sujeito move-se no tempo, em uma ordem que alterna o passado e o presente. Fez-se necessário organizar a sequência lógica e cronológica para reconstruir sucessivamente os fatos que conduziram à singularidade do sujeito desde a passagem da infância vivida em família, o ingresso na escola, a vida juvenil, o namoro, casamento, nascimento e a perda de pessoas queridas e a profissionalização.
Cada expressão, cada gesto, constituíram-se em dados relevantes e significativos para identificar e compreender as articulações entre a constituição identitária e os projetos de vida de diretores de escola pública.
Entre o encontro dedicado à gravação do relato oral dos sujeitos, transcrição e sistematização dos dados foi necessário tempo e concentração para que não ocorressem equívocos na interpretação dos dados. A necessária distância temporal foi dialogada com as entrevistadas que compreenderam o caminho metodológico de um estudo científico.
Nos encontros individuais destinados à devolutiva do depoimento transcrito, os sujeitos dedicaram-se à leitura silenciosa e introspectiva, quando puderam concordar, discordar e até mesmo modificar o conteúdo narrado. Ao transcrever, por mais que houvesse esforço em manter-se fiel a cada palavra, ainda ocorrem interferências que podem comprometer a clareza do relato oral do sujeito.
As leituras possibilitaram a aproximação compreensiva dos fatos que se constituíram para os sujeitos num momento de reflexão a respeito da sua própria vida. Bem como no mito de Ariadne, a pesquisadora ofereceu o novelo de fios que possibilitou ao sujeito ir e vir na própria história, ver sua vida. No presente, eram evocadas experiências que transcorreram da infância até o momento do relato oral. Cada palavra, cada gesto, demonstrava carinho e respeito pela complexidade do fato narrado.
A devolutiva do depoimento ao seu autor gradativamente fez com que o sujeito assumisse a autoria da própria história, em especial quando se tornou inevitável a reflexão a respeito das questões: Quem sou? O que fiz da minha vida?
Ao olhar para si, o sujeito voltou-se ao próprio passado e reconstituiu fatos que contribuíram para a construção de sua vida. Quando deparou-se com a própria imagem, que refletia sua maneira única de ser, ver e viver, tomou consciência do estar-no-mundo.
Marta, no momento presente, ao olhar retrospectivamente sua trajetória com vistas ao futuro, disse para si: