Considerando que o objetivo deste estudo é investigar as articulações entre a constituição identitária e os projetos de vida de diretores de escola pública, optou-se pela combinação de vários instrumentos para a obtenção ampla de dados, que pudesse enriquecer e permitir o aprofundamento da análise.
1ª etapa: observação participante na escola e em situações de trabalho 2ª etapa: entrevista não-diretiva com foco na história de vida
3ª etapa: análise de fotos significativas do arquivo pessoal dos sujeitos.
Na primeira etapa para obtenção dos dados, foi utilizada a observação participante nas reuniões periódicas que aconteciam na Secretaria Municipal de Educação, coordenada pela assessora Cecília, para discutir projetos que envolviam a formação dos pais conselheiros, eleitos para o Conselho Escolar de cada uma das unidades de ensino, da Rede de Ensino na qual as duas diretoras atuavam: Marta e Deusa.
Como pesquisadora, tornei-me parte da situação observada. Para interagir com as diretoras durante as reuniões, inicialmente foram esclarecidos os objetivos da pesquisa. Absolutamente necessária do ponto de vista ético, tal esclarecimento também pode contribuir para acessar informações, desde que o pesquisador considere o que o grupo permite tornar ou não público pela pesquisa.
As diretoras investigadas foram informadas a respeito do tempo provável de permanência da pesquisadora nas reuniões e que posteriormente a observação participante aconteceria na escola onde atuam. Também foi comunicada previamente a possibilidade de registrar a situação observada no momento em que os fatos ocorressem. Após consentimento de cada uma das diretoras e da assessora Cecília foi feito o registro escrito no caderno de campo, que os sujeitos podiam ler, acrescentar ou retirar informações.
Em momento posterior à permanência nos encontros periódicos realizados na Secretaria Municipal de Educação, foram observadas e registradas as ações que Deusa e Marta realizam cotidianamente na escola em que atuavam como diretoras.
Essa etapa da pesquisa, realizada em 2007, foi interrompida por 3 meses, decorrente à intervenção cirúrgica a qual foi submetida a pesquisadora.
Ao retornar ao campo de pesquisa, Deusa estava em férias; portanto, foram observados e registrados dados a respeito da ação cotidiana de Marta no papel de diretora de escola pública. Com a proximidade do exame de qualificação, optou-se por organizar e apresentar somente os dados relacionados a Marta.
A banca examinadora sugeriu que, além de mantê-la como sujeito, também fosse solicitado a Marta a indicação de um diretor ou diretora que fora referência em sua vida profissional. A banca sugeriu que apenas Marta e a diretora por ela indicada, se disponível para a pesquisa, fossem mantidas.
Ao indicar Silvana, que se tornara referência profissional em sua vida, Marta informou os números dos telefones para que a pesquisadora pudesse estabelecer o primeiro contato; em seguida apresentou-se, informou a respeito dos objetivos da pesquisa e disse que ela fora indicada a participar como sujeito deste estudo e o porquê da indicação. Prontamente Silvana aceitou, agradeceu o convite e assim foi agendado dia, horário e local de melhor conveniência para ela. Desta forma teve início a coleta de dados a respeito de sua história de vida.
Na segunda etapa para a obtenção de dados da história de vida dos sujeitos, optou-se pela entrevista, por ser um instrumento que permite apreender aspectos da singularidade do sujeito que contribui para responder às perguntas: Como me tornei o que sou? Como me transformei? O que será de mim? Quais foram as escolhas que fiz ao longo de minha vida?
O tipo de entrevista escolhida é a não-diretiva (Thiollent, 1982), que possibilita apreender a história de vida, por meio do relato de um narrador sobre sua existência através do tempo, com ênfase nos acontecimentos que contribuíram para a constituição da identidade e que originou seu projeto de vida.
Antes de se proceder à entrevista que possibilitou o acesso à história de vida dos sujeitos estudados, fez-se necessário compreender as quatro condições que estruturam a carta da Association Internationale dês Histoires de Vie em Formation (ASIHVIF), apresentadas por Pineau (2005) e Josso (2002), que apresentam um conjunto de princípios que explicitam as possibilidades e limitações que são estabelecidas contratualmente com os sujeitos das pesquisas.
1. ter feito sua própria história de vida antes de acompanhar os outros nessa tarefa.
2. estabelecer um contrato com a pessoa.
3. a produção permanece propriedade do produtor, embora não seja exclusiva, pode ser partilhada desde que seja a sua decisão.
4. a interpretação determina os sentidos do trabalho, deve ser abordada
5. em uma perspectiva prospectiva e retrospectiva (Pineau, 2005, p.56).
Para proceder à gravação das entrevistas, além de solicitar autorização, as entrevistadas foram informadas que a identificação seria mantida sob sigilo e que, após a transcrição, elas as receberiam, só sendo considerados os dados por elas liberados.
Em cada encontro buscou-se a reconstituição da trajetória individual das entrevistadas, que narraram acontecimentos, sob sua perspectiva, significativos e que se relacionavam com a família de origem, família constituída, processo de escolarização, vida sentimental, amigos, profissionalização e formação docente.
Nos momentos destinados à transcrição e organização dos dados percebeu-se que algumas informações eram ocultadas; foi necessário manter respeito ao tempo e disponibilidade do sujeito para evitar constrangimentos em revelar e esclarecer o que não ficou muito claro.
Desde o primeiro encontro dedicado à entrevista, o sujeito foi quem determinou o que narrar, estabelecendo sua própria sequência.
Para a pesquisadora, todo conteúdo narrado é importante; portanto, deve ser considerado tudo que se articula para expressar a identidade do sujeito. Neste sentido, até mesmo diálogos mantidos durante o contato telefônico para agendamento dos encontros e o que era dito nos cumprimentos de boas vindas e despedida nos encontros pessoais foram registrados no caderno de campo (e posteriormente submetidos a elas).
Além de manter-se atenta e aberta a todo conteúdo que emergia, as interferências durante os diálogos e entrevistas foram reduzidas, com a intenção de captar as informações possíveis originadas das falas e gestos das entrevistadas em sua própria perspectiva. É o que Thiollent (1982) denomina de “atitude flutuante”, que significa acompanhar o relato do entrevistado sem questionamento previamente estruturado.
Ao narrar, o sujeito pôde organizar as ideias, avançar, recuar, não seguir uma cronologia, reconstituir acontecimentos da história pessoal por meio de uma revisão, reconstrução livre do passado e do presente.
A versão narrada, baseada em fatos reais da própria vida, foi tecida em uma dimensão temporal: infância, juventude e idade adulta.
Na terceira etapa para obtenção dos dados foram solicitadas aos sujeitos fotografias de seu arquivo pessoal que lhes fossem significativas.
As fotos selecionadas pelas diretoras provocaram o desencadeamento de lembranças que contribuíram para apreender aspectos constituintes da história de vida, que foram incorporadas aos dados obtidos por meio da observação participante e da entrevista não-diretiva.
As fotografias trouxeram à lembrança pessoas, fatos que retratavam as vivências pessoais e profissionais nos mais distintos cenários e tempos da
convivência dos sujeitos deste estudo: reuniões familiares, comemorações de aniversários, casamentos, festas natalinas, eventos sociais, religiosos, políticos, acadêmicos, ambiente de trabalho, viagens, momentos de lazer.
Bogdan & Biklen (1994) ressaltam que a utilização das fotos em combinação com outras técnicas de coleta de dados além de acrescentar outros dados, pode revelar aspectos até então não percebidos pelo pesquisador ou que não foram expressos pelos sujeitos.