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Durante o percurso para a realização desta pesquisa, dediquei-me às leituras das obras literárias de SARTRE: A náusea (1938), O muro (1939), A idade da razão (1944), Sursis (1945), Com a morte na alma (1949), Entre quatro paredes (1950), As palavras (1963); CAMUS: O estrangeiro (s/d); CALVINO: O castelo dos destinos cruzados (1973); DOSTOIEVSKI: Crime e castigo (1866); SARAMAGO: A bagagem do viajante (1973), A caverna (2000), A jangada de pedra (1986), As intermitências da morte (2005), Ensaio sobre a cegueira (1995), Todos os nomes, (1997); KAFKA: Carta ao pai (1919) e PIRANDELLO: Um, nenhum e cem mil (1926), que ilustram este estudo.

As obras literárias estudadas são permeadas por narrativas da vida cotidiana, aparentemente sem grandes acontecimentos extraordinários. No entanto, um fato, um acidente ou um incidente remetem o personagem a trajetórias não previstas, tampouco imaginadas, muito menos planejadas.

Nas narrativas, novos caminhos se desdobram, ocorrem reviravoltas inesperadas, os personagens tornam-se interessantes e detalhes requintados da realidade são narrados.

Perceber e refletir a respeito de quem somos, o que somos e o que fazemos de nós mesmos é uma “provocação” constante na obra de Camus, Sartre, Pirandello e Dostoievski.

O pensamento sartriano afirma que o homem está condenado à liberdade. O que se projeta não é concebido externamente, o homem é livre, é o que faz de si próprio.

A obra desses autores remete àquilo no que estamos cotidianamente mergulhados. São abordadas questões nas quais o homem se vê implicado: liberdade, condenação, angústia, culpa, alienação, vida, morte, desejo, sexo, suicídio, impotência, doença, crime, vergonha, medo, prazer, felicidade, infelicidade, solidão, casamento, separação, agressão, homossexualismo, despedida.

Inevitavelmente, nas experiências diárias, alguns desses aspectos impulsionam ou paralisam, aprisionam ou libertam o viver humano.

O importante é reconhecer o quanto se está sujeito às situações súbitas que cotidianamente podem emergir e que podem provocar mudanças significativas. Por não perceber os indícios, pode-se ser acometido pelo medo, medo do que virá.

Em muitos momentos da vida o homem se pergunta: “Quem sou eu?”. As respostas são muitas e ao mesmo tempo insuficientes, são coerentes e incoerentes; são questões que levam a pensar sobre o sentido da existência ou da não existência.

Foram essas reflexões que me fizeram por um tempo interromper as leituras e me dedicar a um trabalho de recolhimento e introspecção para produzir a escrita autobiográfica. Esse procedimento refere-se ao primeiro princípio metodológico apresentado por Pineau (2005) e Josso (2002) aos pesquisadores que realizam estudos por meio de histórias de vida.

O registro configurou-se em um procedimento metodológico necessário para a pesquisadora ouvir-se e posteriormente ouvir o outro. Embora faça parte do processo de elaboração da pesquisa, não faz parte da exposição deste estudo.

Vivenciar a escrita autobiográfica possibilitou organizar as lembranças da infância, das primeiras experiências sociais, acadêmicas e profissionais, vivenciadas ao longo dos 43 anos vividos em circunstâncias constitutivas da identidade e dos projetos de vida.

Trata-se de um texto escrito na primeira pessoa, em que coexistem pessoas com as quais convivi e convivo em circunstâncias familiares, sociais e profissionais. Ao assumir a autoria e protagonismo da narrativa da própria vida, a escrita torna-se viva, dinâmica, na qual a emoção é presença constante, tanto para quem escreve quanto para quem lê.

Apesar de a escrita ocorrer em um momento individual, muitas vezes meus irmãos tiveram a função de auxiliar minha memória para lembrar o esquecido. Ao informar datas e idades em que alguns fatos aconteceram, relatavam um pouco

de si, um pouco de nós; portanto, considero-os co-autores, já que suas vozes e emoções foram incorporadas à escrita.

Em uma escrita autobiográfica, apesar da tentativa de manter-se fiel às lembranças das situações e das pessoas, há, além do esquecimento, assuntos que são omitidos, o que faz com que ocorram lacunas no registro escrito.

Além do diálogo com meus irmãos, as lembranças das experiências, boas e ruins, foram desencadeadas pela leitura dos sete diários escritos durante a adolescência e a juventude.

Frente ao que foi rememorado, muitas vezes fui acometida pela inquietação, pelo desassossego, ao lembrar das pessoas e fatos que desempenharam papel importante no itinerário percorrido.

Esse processo possibilitou reviver cenários, pessoas apresentadas em monotonia; ora parecia tudo igual, uma repetição sem fim. Para Sartre (2005), viver é isso, a sucessão diária, monótona e interminável; no entanto, quando se propõe a realizar a narrativa da vida ocorrem mudanças, embora não necessariamente se perceba.

Ao rememorar, foram eleitas experiências vividas em circunstâncias que influenciaram as escolhas que ao longo da vida se configuraram em projetos de vida. Em 2001, enquanto analisava as histórias de vida dos sujeitos da pesquisa de mestrado, senti a necessidade de refletir sobre minha trajetória de vida pessoal, acadêmica e profissional. Dessa reflexão organizei álbuns temáticos com fotografias. Foi um trabalho cansativo, pois as rememorações por vezes mobilizavam sentimentos que desencadeavam alegrias e tristezas. O resultado dessa atividade introspectiva está guardado, não foi socializado.

No momento em que me dedico à escrita da tese de doutorado, considero necessário o registro autobiográfico que foi desencadeado após a leitura do livro “Carta ao Pai”, de Franz Kafka, quando me senti instigada a escrever uma carta aos meus irmãos.

Foi o caminho encontrado para a aproximação do passado com o presente. Não se pode esquecer, muito menos ignorar o passado; é preciso organizá-lo por meio das lembranças e das recordações contidas nas fotos, bilhetes, cartas, cartões de aniversário, de natal etc. Como diz Sartre (2005, p. 157), “é aproveitar o adquirido e capitalizar a experiência, o presente se enriquece com todo o passado”.

Ao pensar em meus familiares, seguindo a ordem cronológica de meus irmãos, um a um foi apresentado, ressaltando os momentos significativos. Dia a dia essas lembranças tornavam-se vivas e saltitantes. É possível que eles nem tenham lembranças dos momentos relatados ou os percebam diferentemente.

Lembrei-me do que ouvi e vi de cada um deles: irmãos, pai e mãe. Foi um entrelaçamento de vozes, gestos, cheiros, risos, lágrimas, alegrias, tristezas e muita saudade. Concordo com Sartre (1944/1963, p. 116), quando diz: “Ah!, a família é como a varíola, a gente tem quando criança e fica marcado para o resto da vida”.

Por se tratar de um texto constituído por um mosaico das histórias familiares, procurei ser cautelosa, pensei o contexto de cada palavra para que as particularidades das vidas relatadas não fossem expostas.

Entreguei a carta a cada um dos meus irmãos. Era visível a emoção; cada um sabia o que encontraria naquela carta, nossos olhos marejados se entreolharam e nada precisou ser dito. Estavam apreensivos e curiosos, foi quando me perguntaram: “Por que você escreveu isso?”, expliquei que é um momento importante para a escrita da tese e que a leitura e aprovação deles também era importante, para além da tese.

Informei que o conteúdo da carta apresentava minhas impressões sobre tudo o que ouvi, vi e senti a partir do meu ponto de vista; eles poderiam não concordar, poderiam interferir no texto, poderiam escrever uma carta-resposta.

Aguardei apreensivamente pelo próximo encontro; foi necessário distanciar-me para que diminuísse a ansiedade e que eles tivessem o tempo necessário para a realização das leituras. Aprovaram o conteúdo da carta e até sugeriram que fossem incluídas informações que preferi evitar, dado que sua exposição traz situações carregadas de sentimentos.

Cada um de nós, apesar de convivermos sob as mesmas circunstâncias, percebemos e apreendemos as situações vivenciadas a partir da singularidade e da subjetividade, o que faz com que atribuamos valores distintos ao que o outro fala e faz. É essa maneira singular e subjetiva de interpretar as falas e ações que pode expressar a identidade e, de certa maneira, também participar de sua constituição.

Em uma escrita autobiográfica narra-se o que se apreendeu das relações estabelecidas na trajetória de vida de um sujeito localizado em espaços: temporais, geográficos, sociais, culturais e históricos, que revela a singularidade do narrador. Nas palavras de Benjamin (1935/1985, p. 69), “a narrativa revelará sempre a marca

do narrador, assim como a mão do artista é percebida, por exemplo, na obra de cerâmica”.

A narração, nesse caso autobiográfica, é um momento que proporciona uma reflexão individual marcada pelo entrelaçamento das histórias ouvidas e faladas, que remetem ao passado, ao presente, ao futuro e suscita interrogações sobre a maneira singular de viver e de realizar livremente as escolhas frente às circunstâncias que possibilitaram ou não a concretização dos projetos de vida.