Em algum momento da vida, descobrem-se artistas: as dores e delícias de ser o que é.
Belos depoimentos de SALTOS, de atirar-se. Como num salto de asa-delta, vidas ao vento “vibrando em comunhão com o ritmo do universo” (no limiar da morte) – o belo “pulo do gato”. E a radicalidade das transformações: nas falas, as
expressões são sempre físicas, e envolvem “a suspensão do espaço-tempo” (e um risco primordial intrínseco), como no “saltar” ou no “atirar-se”. A certeza de “caminhos de vida”: consciência, auto-conhecimento, maturidade.
Às vezes, a coragem (e o sofrimento) para mudar de vida, enfrentar famílias, escolherem uma vida “mais incerta”, autônoma, sem emprego fixo. Pela sinceridade, profundidade e beleza desse depoimento (que me marcou muito), além da intensidade das transformações descritas, transcrevo abaixo um longo trecho de uma das entrevistas.
[...] nunca passava pela minha cabeça que um dia eu seria ator, bailarino, sei lá. Porque era uma coisa muito inimaginável, inatingível. Aí eu cresci sempre com essa idéia que eu ia ser médico, veterinário, cuidar da fazenda do meu pai – médico como ele, é a profissão dele. Então isso também me fechou, era meu caminho pré-determinado. Aí eu fui. Eu não passei no vestibular e fui fazer cursinho em Campinas. Aí foi que o mundo se abriu pra mim. Com os professores do cursinho é que eu comecei a conhecer poesia mesmo, conhecer artistas, ir no cinema e ver filmes que realmente tocavam. Eu dizia: “meu deus, o que é isso?” Eu não queria saber de estudar nada; queria ir no cinema todos os dias, saber de ficar lendo, de falar , de trocar essas coisas que eu nunca tinha vivido. Então foi um momento de nenhum estudo pro cursinho, das matérias (risos), de matemática, biologia..., mas foi um momento muito importante na minha vida porque lá eu, realmente, fui tocado. Foi a primeira vez que eu disse “meu deus”!!! [Estudou Rádio e TV e começou a trabalhar]. Aí, quando eles já tavam mais acostumados com isso, eu comecei a não ficar bem comigo: “tem alguma coisa e eu preciso ter essa coragem agora pra mudar”, mas também ainda não imaginava ser ator. Aqui em São Paulo, comecei a viver muito isso, de assistir peças, ir ao cinema, vivenciava muito, adorava [...] eu comecei a não ficar bem comigo: “tem alguma coisa e eu preciso ter essa coragem agora pra mudar”, mas também ainda não imaginava ser ator [...] Aí a primeira coisa que eu fui fazer foi com a Fátima Toledo, uma diretora de atores [...]. Uma maneira de me aproximar desse mundo, porque eu não tinha nenhum canal pra me levar. Não tinha nenhum amigo, nenhum conhecido, nenhum parente, nada, ninguém que trabalhasse com arte. Então ainda era assim, inatingível.(...) Só que o curso não era pra dirigir atores, era pra ATUAR. Então, lá, fazendo as coisas, eu tinha que atuar. E aí eu falei “Nossa, é bom, isso é bom” [...] E comecei, claro, a me empolgar muito era o primeiro curso que eu ia fazer realmente de teatro. Não era um curso de iniciação... Era um curso pra quem já era iniciado. E aí foi mais uma rodada de explosões, porque era um curso MUITO DENSO, MUITO DENSO, muito... Mexia em tudo. Não sei se era pelo momento que eu tava vivendo, ou se realmente era assim, muito forte. Eu sinto a diferença de hoje, fazendo um curso com a Quito e como era antes. E foram duas semanas, dia inteiro. Então era muito intenso. Eu lembro, não só eu, todo mundo ficava muito mexido. E agente ali, começando. Bom, fiquei três dias sem dormir, medo, achava que não ia mais voltar lá, maior tensão. E aí falei: “‘bom, é isso mesmo, não tem jeito”. Mas eu ainda trabalhava na produtora... E aí, a coisa foi ficando mais forte e “meu deus do céu, é um mundo imenso esse daqui, que eu nunca tive acesso. Então eu vou ter que correr atrás disso, se é realmente o que eu quero fazer. Porque e fui vendo que é trabalho, é muito trabalho... não é só você subir lá e só falar. Aí chegou um momento decisivo: se é isso que eu quero, eu tenho que parar o que eu to fazendo. Porque lá na produtora era trabalho o dia inteiro, editar vídeo, entrar na madrugada editando. Aí eu tive que tomar essa decisão, sair desse emprego que me pagava bem, eu era
registrado, essas coisa todas que dão tranqüilidade. Pra desespero do meu pai, que nesse momento tava mais tranqüilo [...] E aí eu disse “vou sair do SENAI e vou fazer teatro”. Foi mais um choque pra ele..mas pra mim, na época, apesar “deu” já ser adulto e poder refletir sobre isso, na época eu nem pensei. Falei “é isso”, saí do emprego e fiquei dois anos sem ganhar nada, sobrevivendo do dinheiro que eu já tinha, do dinheiro guardado que eu tinha. Se eu pensar, hoje, será que eu teria essa coragem de fazer? Porque eu sempre fui muito racional em tudo, pensava umas três vezes antes de fazer qualquer coisa. Cada ato meu fica refletindo, “é isso, não é”...E esse não teve esse tempo. Eu fui e fiz... Foi o primeiro Quer dizer, eu acho que começar os cursos foi uma ato de coragem que eu tive, pra poder sair daquela vida que eu tava preso lá. Esse foi o segundo desse impulso que me levou a esse SALTO [...]. Então eu tive que começar a conhecer um outro tipo de gente, outro tipo de pensamento, outro tipo de atitude... E aprender tudo sobre dança, sobre corpo, sobre atuar. Então foi um momento que eu me livrei de tudo que eu tinha antes, eu terminei um relacionamento de 8 anos...Os amigos da faculdade, a gente era muito unido. E, de repente, eu me isolei de todo mundo, porque eu não tinha mais dinheiro e não tinha mais tempo nenhum, nem pra ver, nem pra ligar pra ninguém. Então, e eles sentiam... Mas foi um tempo que eu precisei, de mergulho profundo em alguma coisa. Porque eu não tinha muito mais tempo, eu tinha trinta anos: “é agora ou nunca mais”. Então tinha que ser desse jeito. (ICb, grifos meus)
Mesmo os que hoje olham para trás e vêem em si muitas das características “essenciais à arte que fazem”, como se fosse “o caminho natural”, narram saltos, pulos, ocasiões em que se atiraram de cabeça e de experiências bombásticas (explosivas).
E eu lembro que foi um processo corporal super profundo [...] De extrema sensibilidade, de você estar ali, rompendo mesmo camadas. E ali eu dei um SALTO de consciência, de maturidade, de ultrapassar limites, de fortificar, de ser eu. E aí eu falei, “gente, isso, mais do que pro palco, é pra vida”. (ICg, grifo meu)
Aí, quando eu vi isso, eu resolvi que eu ia fazer aquilo. Aí eu fui pro Nova Dança no dia seguinte, falei que eu ia me matricular em todas as aulas deles. Então eu experimentei todas as aulas nessa semana e no semestre seguinte – era junho – em agosto, comecei a fazer. Aí em 6 meses fazendo aula das 10 da manhã às 10 da noite, todos os dias Aí eu larguei tudo e fui direto. Eu sabia que ia dar certo... quando você vê uma coisa boa, você tem que largar tudo e se atirar; aí é rápido, né? O resultado de quando vocÊ se entrega é muito mais rápido do que todo mundo imagina. (ICe, grifo meu) Éramos 10, 13, sei lá... Era muita gente e todo mundo completamente inexperiente. E essa mistura... Porque nós, as meninas, a gente era classe média, umas com mais grana mesmo, pais ricos...Foi um ano muito louco, vários conflitos de classe, de tudo. Mas era um vai ou racha também. Um ano do ou vai agora ou não vai mais. E foi assim pra varias outras amigas, naquele ano pararam de dançar e nunca mais voltaram. E as que continuaram foram também [...] foi uma coisa bombástica...AAAHAAA....a gente se envolveu, de cabeça....Porque foi tudo muito intenso, tudo pareceu anos, mas deve ter sido, cada fase dessas, 10 meses, 1 ano...mas era tudo intenso e rápido. (ICf , grifos meus)
Aí eu vi eles se aquecendo e eu fiquei de BOCA ABERTA, assim, porque era uma coisa muito parecida com a capoeira e, ao mesmo tempo, muito
diferente..na intenção, não era luta, era suave, era cooperativo...aí depois eles dançaram no palco e eu lembro muito bem dessa performance, até hoje (o que é raro, eu sou ruim de memória) e lembro que eu a-do-rei...Era uma performance de Contato, com um requinte de pensamento de dança contemporânea, não era só contato. Mas era primordialmente de Contato. Aí eu olho pra isso e fiquei louca, comecei a chorar, chorar. Olhei e falei: “nossa, é isso que eu quero fazer” Quando eu vi os dois dançando, eu me apaixonei: “quero fazer isso”, mas daí a entrar numa faculdade de dança... Não tava preocupada se era dança, se era teatro; era alguma coisa nessa linha capoeira-dança. Era alguma coisa meio por aí, movimento de corpo, era DANÇA. (ICa, grifo meu)