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Desde 1948, a comemoração do IV Centenário de fundação da cidade de São Paulo era uma preocupação do poder público municipal. Em 1950, foi designada por Lineu Prestes, prefeito da capital, uma primeira comissão para dirigir as comemorações, presidida por Armando Arruda Pereira228. Mas em 1951, Pereira assumiria o próprio cargo de prefeito da cidade, abrindo mão da presidência da comissão.

228

A comissão contava ainda com Gumercindo Pádua Fleury, Oscar Reinaldo Muller Caravellas, José Pedro Leite Cordeiro, Christiano Stockler das Neves, Otávio de Andrade e Armando Leal Pamplona.

Em ofício de 26 de junho de 1951, o governador do Estado de São Paulo, Lucas Nogueira Garcez, apoiado pelo novo prefeito, Armando de Arruda Pereira229, designou Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccillo (1898-1977), “para exercer as funções de coordenador geral das atividades relativas à exposição nacional e internacional, industrial e agrícola e artística” do IV Centenário230.

Sobrinho do Conde Francisco Matarazzo, imigrante que fez fortuna no Estado de São Paulo diversificando os ramos de atividade de suas empresas – de produtos de utilização doméstica, como o sabão e a farinha, até linhas de produção sofisticadas, como a metalurgia e a tecelagem –, Ciccillo Matarazzo era, na época, um dos mais bem-sucedidos industriais de São Paulo231. Na ocasião do convite para presidir a Comissão do IV Centenário, porém, Ciccillo suspendeu temporariamente todas as suas atividades para dedicar-se exclusivamente ao novo cargo232.

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Ver carta de Lucas Garcez a Armando Arruda Pereira, de 08 de maio de 1951, fundo “IV Centenário” do AHMWL, caixa 43, processo no. 98. Lucas Nogueira Garcez (1913-1982) era engenheiro formado pela Escola Politécnica e foi eleito governador para o mandato de 1951 a 1954. Como engenheiro, sobressaiu-se no ramo da construção de hidrelétricas, do saneamento e da saúde pública. Sua gestão foi marcada pela autonomia com que se desvencilhou da proteção política de Adhemar de Barros. Armando de Arruda Pereira (1889-1955),também engenheiro, foi prefeito da capital entre 1951 e 1953. Foi também diretor do Instituto de Engenharia de São Paulo, presidente emérito da CIESP e presidente do SESI. Foi o próprio Garcez quem nomeou Arruda Pereira como prefeito, no dia de sua posse como governador.

230

Fundo “IV Centenário” do AHMWL, caixa 85, processo no. 173.

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Imigrante italiano, o Conde Matarazzo chegara ao Brasil em 1881, com 27 anos, instalando- se em Sorocaba, onde começou como pequeno comerciante. Em 1900, inaugurava seu primeiro moinho de trigo e logo no ano seguinte já tinha empresas em quatro ramos industriais diferentes. O complexo Matarazzo foi um dos grupos de empresas característicos da primeira fase industrial de São Paulo, produzindo uma gama extremamente variada de bens, sobretudo de consumo não-durável, voltados para o mercado interno. O grupo continha dentro de si todas as etapas da divisão social do trabalho, desde o beneficiamento das matérias-primas até a distribuição das mercadorias finais, passando inclusive pela produção dos próprios bens de capital. Nesse sentido, o complexo Matarazzo era uma imensa empresa que não apenas cresceu junto com a metrópole, como foi agente de seu crescimento. O Conde Matarazzo foi também um dos fundadores da FIESP, juntamente com Roberto Simonsen. Para sua biografia, ver Cunha Lima, J. E Humberg, M. E. Matarazzo 100 anos. São Paulo: CL-A Comunicações Ltda., 1982, livro feito em comemoração aos 100 anos das Indústrias Reunidas F. Matarazzo, editado pela própria empresa. Jorge da Cunha Lima escreveu o prefácio do livro, comentando que Francisco Matarazzo Jr. inaugurou a modernidade industrial brasileira. Outra biografia do Conde, mais recente e menos comprometida, foi feita por Couto, R. C. Matarazzo. 2 volumes. São Paulo: Planeta, 2004.

232

Almeida, F. A. O fransciscano Ciccillo. São Paulo: Pioneira, 1976. A data da publicação, um ano antes da morte de Ciccillo, sugere que tenha se tratado de uma homenagem para o mecenas, ainda em vida. A editora Pioneira dizia-se satisfeita e orgulhosa de publicar a “vida e a obra de um homem excepcional”, “o maior mecenas que o Brasil já teve”. Fernando Azevedo de Almeida, jornalista do Diário de São Paulo na TV e Repórter Esso, mostra admiração e respeito por seu biografado. Essa admiração emana não apenas do próprio texto, como ela é enaltecida no prefácio, de Paulo Nathanael Pereira de Souza.

Para o aniversário da cidade, estava prevista uma série de comemorações, festas, atividades, apresentações, congressos e feiras internacionais de indústria, agricultura e artes. Um convênio celebrado entre a municipalidade e o governo estadual, firmado em 25 de janeiro de 1952, dividiu o orçamento estimado para os festejos, de Cr$ 600.000.000,00, entre as duas instâncias do poder público233. Esse convênio viabilizaria, finalmente, em 1954, a realização do parque.

Ciccillo nomeou e comunicou a composição da Comissão por meio de ofícios, em 27 e 28 de fevereiro de 1952, dirigidos aos governadores e ministros de Estado, acrescentando que “os festejos e comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo visam de maneira primacial a afirmar o sentido de superior brasilidade que preside ao esforço de todas as comunidades da Nação” 234.

Nessa época, Ciccillo já havia dado início ao seu projeto pessoal de promover o apoio e a divulgação das artes e da cultura modernista no cenário brasileiro. O projeto era encampado juntamente com sua esposa, Yolanda Penteado, sobrinha de Olívia Guedes Penteado, protetora das artes modernas em São Paulo. Anos antes, em 1948, Ciccillo desempenhara um papel fundamental na criação do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1951, veio a desembolsar uma pequena fortuna pessoal para os preparativos da primeira Bienal de Artes de São Paulo, tornando-se assim o mais importante patrono das artes no Brasil235. O nome de Ciccillo à frente da Comissão do IV Centenário conferia um grande prestigio ao evento. Além disso, transformava a celebração em uma oportunidade de divulgar o modernismo brasileiro para uma população cada vez maior.

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Ciccillo sugeriu ao secretário da Presidência da República, Lourival Fontes, que a União contribuísse com uma parcela não menor que a contribuição do estado e do município, mas o pedido lhe foi negado. Fundo “IV Centenário” do AHMWL, caixa 35, processo no. 410, 1952, fls. 02-09.

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Idem, caixa 35, processo no. 340, 1952. A Comissão, autarquia definida pela lei municipal no. 4.166 de 29 de dezembro de 1951, ficou assim composta: Francisco Matarazzo Sobrinho (presidente), Carlos Alberto de Carvalho Pinto, João Pacheco Fernandes, Joaquim Canuto Mendes de Almeida, José de Mello Moraes, Mário Bens e Oscar Pedroso Horta. O conselho consultivo era composto por José Ermírio de Moraes (presidente), Fernando Edward Lee (secretário), Fábio da Silva Prado, Nicolau Filizola e Odilon de Souza.

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A Bienal era organizada pessoalmente por Yolanda Penteado, em viagens pela Europa para realizar os acordos de participação dos países e dos artistas, assim como os trâmites para viabilizar a presença de obras significativas da vanguarda internacional. Para tanto, Yolanda contava com o apoio dos mais prestigiados representantes do Brasil, inclusive do próprio presidente Vargas. Ver Penteado, Y. Tudo em cor de rosa. São Paulo: edição da autora, 1977.

Ciccillo foi o grande responsável pela escolha do local onde seriam realizados os festejos. Foi ele quem pressionou para que os eventos comemorativos se concentrassem no Ibirapuera, dando assim o argumento que faltava para que, em cerca de um ano e meio, o primeiro parque metropolitano da cidade fosse implantado e aberto ao público236. Outros lugares eram cogitados, como o Anhembi, na zona norte, e o futuro campus da Universidade de São Paulo, a oeste. Uma espécie de disputa estava sendo travada entre aqueles que defendiam que as comemorações deveriam acontecer no novo

campus universitário e os que queriam um novo espaço construído

especialmente para o evento237.

Mas o patrono das artes no Brasil também se esforçou para que a construção desse novo espaço público se adequasse a um programa formal de cultura e lazer para as massas urbanas. Nesse sentido, em vez de se investir em pavilhões temporários para as feiras e exposições do parque, ele propôs que os pavilhões fossem construídos e mantidos em caráter permanente. Por trás da proposta, havia seu interesse pessoal em obter um novo edifício para sediar a Bienal de Artes de São Paulo, projeto que decolava naquele momento. Conseguindo sediar sua Bienal em um edifício público, Ciccillo poderia institucionalizar definitivamente seu projeto, disseminando assim a arte moderna para o público de São Paulo.

Em ofício de 21 de janeiro de 1952, Ciccillo demandava ao prefeito a remoção da favela existente no terreno do Ibirapuera, situada entre as ruas Padre Manoel da Nóbrega e Abílio Soares238. A solução do problema veio através de carta informando ao presidente da Comissão os “serviços procedidos no Parque Ibirapuera, no sentido de reaver, inteiramente livre, o terreno situado entre as ruas Abílio Soares e Manoel da Nóbrega, que estava ocupado por favelas”: 186 barracos e 204 famílias, sendo 180 deslocadas para terrenos

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A Comissão foi instaurada em 20 de dezembro de 1951. Como vimos no Capítulo 1, parque já estava previsto por lei desde 1928, e já tinha projeto aprovado desde 1932, mas apenas em 21 de agosto de 1954 o Ibirapuera foi efetivamente entregue à população como parque.

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Para as disputas envolvendo a decisão de onde seria celebrado o aniversário da cidade, ver Oliveira, F. L. Op. cit., 2003. Oliveira mostra como o cargo de presidente da Comissão foi disputado entre o Ciccillo e Christiano Stockler das Neves, que defendia outra idéia de modernidade, apoiada nos valores tradicionais das Beaux-Arts e manifesta como arquitetura através do ecletismo.

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próprios e 06 para a favela do Canindé. A remoção dos barracões foi feita pelo Departamento de Obras e pela Divisão de Parques e Jardins239.

Em 22 de março de 1952, à Divisão de Patrimônio e Almoxarifado da Prefeitura, Ciccillo requisitou as plantas de todos os terrenos públicos com mais de 3.000 m2 existentes na cidade, “acompanhadas de esclarecimento com respeito a sua ocupação por entidades públicas ou particulares, ou destinação reservada” 240. Finalmente, em carta de 24 de março de 1952, o presidente da Comissão solicitava ao prefeito a área do Ibirapuera, “apesar de todas as controvérsias”, bem como a suspensão de projetos da municipalidade para áreas nas imediações do futuro parque241.