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Como mostrei até aqui, o ano de 1978 foi delicado para Pinochet. Para evitar as sanções dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, ficar longe da pressão de oficiais descontentes por conta do caso Letellier, o general optou por deixar a CNI de lado, ocupando um papel secundário.

Com a condenação internacional do caso Letellier, os militares permitiram a entrada dos delegados da ONU para verificação da situação dos direitos humanos no Chile, em julho de 1978. O relatório inconclusivo da Organização deixava claro para a diplomacia americana que os chilenos trataram a visita da delegação como um evento para promover Pinochet.251

A partir de setembro de 1978, a CNI começou a orquestrar a nova onda de terrorismo de Estado no Chile. Os relatos começaram a ser divulgados nos Estados Unidos justamente após a saída da delegação da ONU no Chile, o que mostra o compromisso do governo militar em tentar manipular a opinião pública de seu país. Foi a própria ONU, no entanto, que fez a denúncia formal sobre os assassinatos e torturas que estariam ocorrendo na região metropolitana

249 HUNEEUS, Carlos; MARTÍN, Jorgelina. El Régimen de Pinochet. Santiago: Sudamericana, 2000, p. 99. 250 Ensalaco (2010,p. 130) ainda oferece mais um motivo para o rompimento. Leigh foi a principal voz contra a

ideia de retornar fazer uma transição lenta à democracia.

251 Além de ter reestruturado as casas de tortura, o governo chileno fez questão de publicar no jornal El Mercúrio

a chegada dos delegados da ONU na primeira página do jornal. No acordo original com os Estados Unidos, ambos os governos deveriam garantir a privacidade da missão para proteger a integridade física dos estrangeiros, fato descumprido na medida em que o Chile utilizou a grande mídia para explorar a imagem da ONU e autoproclamar como o primeiro governo a receber de bom grado uma delegação específica para direitos humanos. Para mais, ver Cavallo (1990, p. 221- 224).

de Santiago. O um relatório assinado pelo jurista Niall McDermott, representante da Comissão Internacional de Direitos Humanos, relata o resgate de três corpos que foram encontrados em uma vala localizada a cem quilômetros de Santiago. Duas pessoas estavam com marcas brutais de tortura, e seus dedos foram arrancados para evitar a identificação das digitais.252 Tal relato

fez a Anistia Internacional abrir um novo processo contra o Chile por violações aos direitos humanos internacionalmente reconhecidos.253

A série de assassinatos de setembro de 1978 foi confirmada pela CIA após um grupo de ativistas de direitos humanos ligados à ONU descobrir trinta corpos em estado severo de decomposição. O governo do Chile defendeu-se das acusações citando que grupos marxistas organizaram uma grande armação ao violar corpos de cemitérios e criar uma grande vala aberta para chamar a atenção da mídia. A Vicaría de la Solidaridad, principal instituição católica contra o regime de Pinochet, sofreu ameaças do governo ao divulgar que os mortos poderiam ser membros do MIR envolvidos na Operação Retorno.254

A Assembleia Geral da ONU de 1978 decidiu criar um fundo de ajuda para auxiliar as vítimas e familiares envolvidos na violação dos direitos humanos por parte do governo chileno. O relatório proposto para publicação no 20 de dezembro, que traria elogios aos avanços do governo Pinochet na área dos direitos humanos, foi atualizado para contemplar as denúncias da nova onda de terrorismo de Estado no Chile. Ainda foram feitas uma série de recomendações: o fim do estado de emergência, que, segundo a ONU, dava poderes para os oficiais da CNI violarem dos direitos humanos e ficarem impunes; a reestruturação da unidade democrática chilena, com eleições direitas para presidente da república; a garantia ao habeas corpus; o fim do poder de detenção pelos serviços de inteligência – algo que foi respeitado pela CNI desde sua criação até setembro de 1978, como forma de agradar os diplomatas americano; e, por fim, a garantia de anistia para todos os chilenos que foram deportados ou que fugiram para o exterior. Apesar de não recomendar nenhuma punição ao Chile, o relatório deixava clara a posição da

252 Embaixada dos Estados Unidos em Santiago do Chile. Further Assassinations in Chile. 30 de novembro de

1978.

253 Dentre as várias revelações do relatório produzido pela Anistia Internacional, destaco a que mais me chamou a

atenção: todos os torturados entrevistados citaram que o torturador do local era um brasileiro com sotaque carregado. Seguindo o exposto pela Comissão da Verdade chilena, este é um exemplo de que a cooperação entre as forças de inteligência das ditaduras estava em seu auge. Embaixada dos Estados Unidos em Santiago do Chile.

Amnesty International VS. Colonia Dignidad. 18 de outubro de 1978.

254 CIA. GOC/Bishops fire. 11 de novembro de 1978. Para mais sobre a Vicaría de la Solidaridad, ver: Fernandéz

entidade contra a ditadura. Assim como em 1977, a redação final foi recebida com protestos dos diplomatas chilenos.255

A administração Carter mandou um ofício para a Suprema Corte chilena pedindo a reconsideração do caso Letellier, em dezembro de 1978, requisitando que o princípio de imparcialidade fosse devidamente respeitado, já que estava claro que Pinochet utilizou seu capital político para proteger Manuel Contreras e de seus agentes. Apesar de Santiago concordar com o pedido, a decisão final, de maio de 1979 surpreendeu a Casa Branca, após Israel Montero, Presidente da Suprema Corte chilena, acusar o governo Carter de ter comprado uma confissão de Michael Townley para desestabilizar a soberania política do Chile.

Com este afronte vindo de Santiago, pela primeira vez desde o início de seu governo, a oposição a Jimmy Carter pode ser notada dentro de seu próprio partido. Além dos problemas internos decorrentes da crise de energia, da alta taxa de inflação e do crescente desemprego, a falta de iniciativa da Casa Branca no caso chileno se tornou uma arma para seus adversários políticos. O senador Edward Kennedy mostrou-se chocado com passividade do presidente americano no Chile, pedindo a seus colegas de Congresso uma atitude urgente. Se a Câmara americana esperou dois anos pelos resultados da política externa dos direitos humanos baseada no diálogo surtir efeito – optando por respeitar o presidente e não interferir diretamente no Chile – aos poucos ficava cada vez mais claro que Pinochet jamais aceitaria seguir as regras impostas pelos Estados Unidos. Além do desfecho negativo do caso Orlando Letellier para os americanos, os crescentes relatos de assassinatos, torturas e mutilações feitos pela CNI a partir do último trimestre de 1978 deixava claro para os diplomatas, para o Congresso e para a Casa Branca que apenas restava um recurso na manga: as sanções econômicas.