3. MATERYAL VE YÖNTEM
3.6. Analizler, Ölçümler, Görüntülemeler ve Hesaplamalar
Encomendado pelo então prefeito Pires do Rio, o Estudo de um Plano
de Avenidas para a cidade de São Paulo, ou Plano de Avenidas, foi elaborado
em 1930, por Francisco Prestes Maia, na qualidade de engenheiro da Diretoria de Obras e Viação da Prefeitura do Município de São Paulo, da qual era funcionário93.
O Plano de Avenidas é considerado o primeiro plano compreensivo feito para São Paulo, ou seja, o primeiro plano elaborado a partir da consideração da cidade como um todo94. Ainda assim, o estudo não correspondia a um plano regulador da cidade nem o substituía. De acordo com o texto de apresentação, assinado pelo engenheiro Arthur Saboya, não se tratava de um plano urbanístico completo para a cidade, mas sim de um plano de estruturação viária da capital95.
O sistema de estruturação viária proposto no Plano de Avenidas era composto por 17 vias radiais que partiam do centro em direção aos bairros urbanos e por 3 anéis perimetrais concêntricos que distribuíam o fluxo de circulação, dentre os quais destacava-se o Perímetro de Irradiação. Além disso, o Plano previa algumas obras essenciais: a retificação e a canalização dos rios Pinheiros e Tietê, além de avenidas, pontes, túneis e obras de drenagem.
O Ibirapuera aparece indicado no capítulo “Parques”, como parte do conjunto de espaços livres articulados ao sistema viário proposto96. As restrições para a compreensão do parque inserido em um sistema de espaços livres são claras: o capítulo “Parques”, além de estar localizado no apêndice do Plano, tratava de elementos de urbanização que deveriam ser destacados “em
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Maia, F. P. Estudo de um Plano de Avenidas para a cidade de São Paulo. São Paulo: Cia. Melhoramentos, 1930.
94
Essa consideração foi feita pelo próprio Prestes Maia, e analisada por Leme, M. C. Op. cit., 1990 e Meyer, R. P. Metrópole e Urbanismo. São Paulo anos 50. São Paulo: FAUUSP (doutorado), 1991.
95
“O trabalho ‘Plano de Avenidas’ para a cidade de São Paulo, como o seu próprio título o indica, trata simplesmente do estudo de um plano de avenidas para completar o sistema de viação da cidade de São Paulo”. Saboya, Arthur. “Advertência de Arthur Saboya”, In: Maia, F. P. Op. cit., 1930, p. III. Saboya era o diretor de Obras e Viação da PMSP na época da publicação do Plano de Avenidas.
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função de sua articulação com o sistema viário proposto”, e não em seus atributos em si 97.
O capítulo referente aos “Parques” previstos para a cidade parece ter sido incluído no Plano de Avenidas sobretudo a título de incorporar no Plano as obras e projetos do então prefeito, em sua relação com a proposta de estruturação viária de São Paulo:
Só nos interessa no momento os grandes parques por suas relações (de estética e de tráfego) com o plano arterial. Do mesmo modo, porém em menor escala, os jardins interiores, playgrounds, etc., por concorrerem indiretamente para a facilidade de circulação, pois nos bairros populosos desviam das ruas a criançada98.
Prestes Maia indicou que foi Pires do Rio quem “iniciou” a implantação do parque. Arthur Saboya, na advertência que fez na abertura do Plano, corroborou essa idéia. Inicialmente, Saboya explicou que
por ter sido levado a efeito e publicado quando Prefeito da capital o
Exmo. Sr. Dr. J. Pires do Rio, cuja ação vem sendo assinalada por grandes e reais serviços à nossa cidade, foi de minha justiça nele inserir alguma documentação acerca das vultuosas obras e importantes empreendimentos que caracterizam seu brilhante período administrativo.
Apontando, em seguida, que
o parque Ibirapuera, com os seus dois milhões de metros quadrados, está em formação. Dessa avultada área, um milhão e quinhentos mil metros quadrados foram reivindicados, após tenaz e inteligente esforço administrativo. Em moeda sonante a ação enérgica e patriótica do Dr. Pires do Rio pode ser traduzida pelo valor de 22.500 contos de réis, correspondente à área reincorporada ao patrimônio público. Se isso não fora suficiente para avultar-lhe a iniciativa, bastaria a circunstância de ficar o parque ao pé do centro da cidade, entre bairros residenciais e prósperos99.
97
Uma análise do modo como são tratados os parques públicos no Plano de Avenidas é feita em Bartalini, V. “Os parques públicos nos planos para São Paulo”. In Anais do IV Seminário de
História da Cidade e do Urbanismo, Rio de Janeiro: ANPUR/PROURB, Volume II, novembro
de 1996, pp. 1106-1117. A análise de Bartalini baseia-se em uma perspectiva histórica, enfocando o tratamento dos parques públicos em três momentos: no período que chama de “primeiras iniciativas”, no Plano de Avenidas e no Programa de Melhoramentos Públicos para São Paulo, de 1950, desenvolvido por Robert Moses.
98
Idem, p. 339.
99
Prestes Maia dividiu os parques considerados no Plano em duas categorias: grandes parques, Cabeceiras do Ipiranga e Ibirapuera, e parques médios, Ponte Grande, Pary, Moóca, Tatuapé, Lapa, Butantã e Aclimação. A classificação dos espaços livres era proposta a partir de uma tipologia baseada no tamanho e nos tipos de equipamentos oferecidos em cada categoria. Essa divisão pode ser considerada uma tentativa incipiente de estabelecer uma hierarquia de espaços livres urbanos, contribuindo para a consolidação de um sistema de espaços livres para a cidade.
Maior destaque no Plano recebeu o Parque das Cabeceiras do Ipiranga, cuja descrição ancorava-se em sua estética, programa e acessos. Destacava-se o circuito de avenidas e parkways previstos no Plano que garantiriam o seu acesso. Sobre o Parque Ibirapuera, o Plano apresentava uma pequena descrição e uma perspectiva do projeto do arquiteto Dierberger100. O parque previsto tinha 2.000.000 m2. O autor destacava ainda que o parque localizava-se no interior da cidade101. O destaque no Plano foi dado às parkways de acesso ao parque e aos quarteirões de bairros-jardins onde está inserido, bairros mais “fidalgos” que “concorrerão para estabelecer essa ligação estética” 102.
Em seguida, o capítulo referia-se também aos Parques da Cantareira, do Alto da Serra, do Pary, da Moóca, da Ponte Grande, do Tatuapé e da Lapa, os últimos indicados como parques esportivos na beira do Tietê, do Butantã e da Aclimação. A apresentação desses parques se restringia apenas a relacioná-los com os projetos existentes para a cidade no âmbito estadual e municipal, sem estabelecer hierarquizações ou articulações entre as diversas áreas. A maioria desses parques seria instalada em áreas livres existentes ou reaproveitadas.
Finalmente, apresentava-se também a proposta de espaços para
playgrounds, que poderiam ser entendidos como o terceiro nível de uma
incipiente hierarquização dos espaços livres. Aos playgrounds, Prestes Maia
100
Maia, F. P. Op. cit., 1930, p. 343.
101
Nesse aspecto, a comparação feita no Plano era com Paris, cujos parques estavam fora dos limites da cidade. Ver tabela comparativa de parques urbanos nas cidades do mundo, na p. 344 do Plano. Com o mesmo intuito, Prestes Maia citava a conferência de Victor Freire publicada na revista Polytéchnica no. 33, de 15 de fevereiro de 1911. Na conferência, Freyre apresentou uma relação de habitantes por hectare de parques e jardins. A relação melhorava com a construção dos Parques Ibirapuera e das Cabeceiras, superando a situação de Paris, porque Freyre não computava o Bois de Boulogne e o Bois de Vincennes, que estavam localizados fora da cidade.
102
dedicou uma atenção especial, em vista do “papel educativo dos jogos e esportes” 103. De acordo com o autor, esses playgrounds deveriam ser tratados em conjunto com a escola e ser instalados “no interior ou na vizinhança imediata das quadras densamente habitadas” 104. Nesse sentido, a proposta de criação de um sistema de playgrounds distribuídos pelos bairros da cidade apontava para um projeto de controle do adensamento da capital.
Na apresentação ao Plano, texto chamado “Duas Palavras”, o autor traz um quadro das “despesas extraordinárias” realizadas durante a gestão de Pires do Rio como prefeito de São Paulo (de 1926 a 1930), constando gastos com desapropriações, obras e despesas especiais105.
Destaca-se, ainda, a terminologia adotada para a descrição dos parques da capital, e especialmente o Parque Ibirapuera, no Plano de Avenidas. Semelhante a outras fontes do mesmo período e prevalecendo até a década de 50, os parques da cidade eram denominados “espaços livres”, ainda que concorressem também outras denominações, como “áreas livres”, “parques e jardins”, “áreas ajardinadas”. Quando Prestes Maia tratava de um “sistema”, referia-se mais à articulação dos espaços à estrutura viária da cidade que aos espaços livres em si. A estética vislumbrada para esses parques era a estética pitoresca, com espaços monumentais, projetados para serem contemplados, no sentido do embelezamento da cidade, diferentemente do padrão estético que se proporia nos anos 50, voltado para o lazer ativo, como veremos no Capítulo 4.
103 Idem, p. 389. 104 Idem, pp. 346-347. 105
O gasto previsto para a implantação do parque somava 147.492:900$271. O item desapropriações somava 34.867:884$178, dos quais 787:202$000 foram utilizados no Parque Ibirapuera (cerca de 2,25% do valor gasto com desapropriações e 0,5% do total de gastos públicos municipais do período), indicando que parte das áreas que constituíam o parque haviam sido desapropriadas ainda na gestão de Pires do Rio.