Os problemas da mobilidade urbana estão mais evidenciados quando áreas distintas possuem grande distanciamento físico e socioeconômico (SANTOS, 1979). A procura diária, as facilidades e tecnologias que existem nos centros urbanos geram movimentos pendulares, os quais são mais frequentes no início da manhã e no final de tarde. Uma grande parte da população desloca-se dos bairros periféricos que, na maioria das vezes, são bairros dormitórios, em direção às localidades centrais, as quais, via de regra, são mais bem estruturadas contando com serviços privados e públicos, tais como, comércio diversificado, hospitais, escolas, bancos, entre outros.
Corrêa (2000) considera que este padrão dos movimentos pendulares demonstra a forte segregação existente entre as classes sociais com a elite mais próxima ao centro, com os pobres ocupando a periferia. Essa tendência foi representada graficamente pelo geógrafo alemão J. G. Kohl em 1841, com base na distribuição das classes sociais nas cidades europeias numa época, salientada por este autor, em que “[...] os efeitos do capitalismo sobre a organização espacial não se faziam sentir plenamente: tratava-se, em realidade, da cidade pré-industrial.” (CORRÊA, 2000, p. 66) A explicação para a ocorrência desse padrão de segregação residia no fato de que:
[...] a mobilidade intra-urbana era muito limitada e a localização junto ao centro da cidade constituía uma necessidade para a elite porque ali se localizavam as mais importantes instituições urbanas: o governo, através do palácio, a igreja, as instituições financeiras e o comércio a longa distância. A localização central da elite se devia, pois, a uma questão de acessibilidade às fontes de poder e de prestígio (CORRÊA, 2000, p.68).
A segregação é um processo dialético, já que à medida que há a segregação de uns, há também, ao mesmo tempo e pelo mesmo processo, a segregação dos outros. Assim, quando as camadas de alta renda se segregarem numa determinada área da cidade, automaticamente, segregam as demais camadas no que restou dela.
As capitais regionais e suas zonas de influência caracterizam-se respectivamente como localidades centrais e bairros suburbanos. Lacoste (1985) denomina as localidades suburbanas de “bairros subintegrados”, que se compõem de poucos equipamentos urbanos. O autor ainda afirma que, na maior parte do terceiro mundo, os habitantes dos bairros mais ou menos “subintegrados” formam uma boa parcela da população total, sendo quase incomum que esses ocupem uma grande área da superfície urbana. Com efeito, são os bairros mais ricos e os bairros de habitação de classe média que cobrem, com densidades relativamente baixas, os espaços mais vastos (SOUSA; SOUSA, 2009).
Ainda, Lacoste (1985) relata, quanto mais as cidades crescem territorialmente, mais tornam-se o lugar de um crescimento econômico importante, provocando a valorização imobiliária e, mais as classes populares se estabelecem confinadas nas piores áreas que se encontram dentro do perímetro urbano. Para Corrêa (1997) a complexidade na hierarquia das localidades centrais surgem como resultante também da localização diferenciada das classes sociais no mesmo espaço, ou seja, aparece como fruto da segregação socioespacial. Assim, a dinâmica de fragmentação do espaço reforça o surgimento de novas centralidades, enquanto que o crescimento das cidades de forma desordenada favorece o surgimento das periferias, dos bairros suburbanos que necessitam se auto sustentar, criando-se assim, os novos centros que atendem a demanda de determinadas áreas periféricas. Portanto, o centro geográfico passa a ser provisório, surgindo novos centros a cada momento e gerando novas demandas por transporte e trânsito, alterando a dinâmica urbana. Sposito (1996, p. 14) interpreta a centralidade da seguinte forma:
O centro de uma cidade não está necessariamente no centro geográfico, e nem sempre ocupa o sítio histórico onde esta cidade se originou, ele é antes de tudo ponto de convergência/divergência, é o nó do sistema de circulação, é o lugar para onde todos se dirigem para algumas atividades e, em contrapartida, é o ponto de onde todos se deslocam para a interação destas atividades aí localizadas. Assim, o centro pode ser qualificado como integrador e dispersor ao mesmo tempo.
As localidades centrais são avaliadas de maneira empírica ou por meio do estudo dos mapas urbanos possibilitando, por exemplo, identificar tipos de segregação social e territorial. Adicionalmente, aspectos como o afastamento físico, social, político e cultural das populações de baixa renda também podem ser
verificados (DEL RIO, 1990). Como reportado por Santos (1996) e ressaltado por Sousa e Sousa (2009), as zonas periféricas nas grandes cidades são as materializações de mecanismos de exclusão/segregação, tais como: habitações insuficientes e de má qualidade, inexistência de infraestruturas básicas, baixa possibilidade de acesso rápido e confortável aos lugares de trabalho, malha viária e equipamento de transporte coletivo deficientes.
Sposito (2000) e Sousa e Sousa (2009) relatam ainda que a estrutura espacial das cidades de países em desenvolvimento pode apresentar-se de maneira monocêntrica ou policêntrica e essa diferenciação pode causar a proliferação de dois circuitos de produção, distribuição, circulação e consumo. Esses circuitos são arranjados nas seguintes disposições: o circuito superior surge em meio aos espaços centrais da cidade, representados por lojas de alto nível e pessoas com alto padrão socioeconômico, enquanto o circuito inferior apresenta-se em bairros periféricos, em sua maioria, com comércio mais simples e infraestrutura mais debilitada. Para os autores, os dois circuitos não podem ser vistos como constituindo um dualismo ou uma dicotomia urbana.
Correa (1997), ressaltado por Sousa e Sousa (2009), acrescenta que os atores do segmento social com maior poder aquisitivo e mobilidade espacial podem deslocar-se à procura de bens e serviços que não são oferecidos localmente, dirigindo-se às localidades centrais de maior nível hierárquico. Por outro lado, para aqueles de baixa renda, com pouca mobilidade espacial, a hierarquia urbana não existe, pois a hierarquia de localidades centrais existe apenas em função da população de médio e alto status.
Para Milton Santos, a rede urbana é o resultado de um equilíbrio instável de massas e de fluxos, “cujas tendências à concentração e à dispersão, variando no tempo, proporcionam as diferentes formas de organização e de domínio do espaço pelas aglomerações”. (SANTOS, 1989, p. 165). Assim, na análise do autor, os dois circuitos da economia interferem na rede de localidades centrais, estruturando-a de modo que cada centro atue simultaneamente nos circuitos, dispondo de duas áreas de influência. Ademais, o circuito inferior é composto por atividades que não dependem de capitais de modo intensivo e possui uma organização primitiva, tal como a fabricação de bens, algumas formas de comércio e serviços que não exigem especializações e atendem, principalmente, à população de baixa renda. Por outro lado, o circuito superior é resultado da modernização tecnológica, constituído pelos
bancos, comércio e indústria moderna, voltados para exportação e vinculados ao mercado interno pelos serviços modernos, empresas atacadistas e de transporte.