detalharemos mais à frente, o materialismo cultural busca elucidar as especificidades da cultura como produção material no interior de um modo de vida global. Não surpreende, pois, que o autor galês tenha dedicado especial atenção, ao longo da construção de seu projeto intelectual, às complexas relações entre economia, política e cultura. Tais relações, que configuram um complexo campo de questões teóricas inter-relacionadas, encontram na obra do teórico e líder revolucionário Vladimir Ilitch Ulianov, o “Lenin”, espaço privilegiado de pesquisa e reflexão.
Primeiro dirigente do Estado soviético — experiência pioneira de poder proletário
—, Lenin expôs em sua obra, mais especificamente nos pouco conhecidos textos do
período pós-Revolução de 1917, algumas das mais intrigantes questões acerca do relacionamento entre forças econômicas, poder político e potências espirituais. Revisitar o pensamento leninista é, portanto, iniciativa de fundamental importância quando se trata de situar o pensamento de Raymond Williams no conjunto da tradição marxista. Pois foi ali, na Rússia do imediato pós-revolução, que se colocaram de maneira aguda, pela primeira vez, muitos dos problemas que, abordados então de maneira embrionária, ganhariam mais tarde, com teóricos como Gramsci e Raymond Williams, tratamento mais desenvolvido, preciso e acabado.
Muitas das questões abordadas por Lenin entre os conturbados anos de 1917 e 1923 não são repetíveis nas condições contemporâneas, pelo menos na forma estrita em que se colocaram naquele momento. Contudo, foi ali, sob a pressão dos terríveis dilemas colocados pelo contexto pós-revolucionário, que noções como a de “revolução cultural” — entre outras igualmente essenciais a uma teoria cultural marxista — foram pela primeira vez abordadas. Naquelas generalizações primordiais, elaboradas no que seriam os últimos anos de vida do líder russo, observa-se a crescente preocupação com temas de natureza cultural e ideológica. Instado pelos complexos problemas práticos colocados pelo avanço do processo revolucionário, Lenin viu-se impulsionado, naquele contexto, a enfatizar os aspectos subjetivos da revolução. Emergiria desse esforço uma abordagem revolucionária dos problemas da cultura e da produção-reprodução da vida social.
Ambicionamos revisitar, ao longo deste capítulo, as teorizações leninistas construídas naquela voga. Perseguiremos a construção de um painel amplo, embora não
exaustivo, sobre o tratamento conferido pelo pensador e líderrevolucionário a importantes problemas de natureza ideológica e cultural. Destacaremos, em primeiro lugar, a coerência de sentidos guardada por Lenin em seu percurso teórico. Postulamos, além disso, que dita coerência deriva, antes de tudo, do progressivo amadurecimento de sua postura filosófica materialista — marca indelével do pensamento leninista. Pretendemos, ao fim e ao cabo, demonstrar que muitos dos elementos da nova concepção materialista da cultura, desenvolvida por Raymond Williams em tempos e contextos outros, encontravam-se já presentes, ainda que de maneira menos sistemática, no contexto dos esforços pela edificação do primeiro poder proletário da história da humanidade.
A “terceira tarefa”
Entre os anos de 1917 e 1923, que compreendem o imediato pós-Revolução Russa, a liderança comunista viu-se diante da pressão esmagadora engendrada pelos dilemas que ameaçavam a sobrevivência do nascente regime socialista. Os desafios pós-revolução multiplicavam-se a cada dia, enquanto os recursos necessários para enfrentá-los, fossem eles humanos ou materiais, mostravam-se bem pouco à altura da tarefa.
É nesse contexto complexo e desafiador que Lenin começa a sistematizar as primeiras lições extraídas da experiência em curso, voltada à construção de um novo modelo de Estado e de novas relações sociais. Na brochura “As tarefas imediatas do poder
soviético”, de 1918, Lenin teoriza que a Revolução havia enfrentado, até aquele momento,
três grandes tarefas. A primeira, cuja efetivação culminara em outubro de 1917, compreendia “a união dos esforços contra os exploradores para o seu derrubamento” (LENIN, 1981b, p. 583). A realização da segunda tarefa configurou uma etapa de forte agitação, visando ao despertar político dos estratos economicamente inferiores da sociedade russa. Sua face mais visível apresentava-se na realização massiva de comícios de trabalhadores, os quais preparavam a adesão das massas à perspectiva revolucionária. Por meio desse esforço instaurava-se em todo o país o modelo soviético de organização.
A terceira tarefa, segundo Lenin, seria a mais difícil: consolidar o já conquistado, lutando pelo estabelecimento de uma disciplina do trabalho diária, estável e permanente. Só a resolução dessa tarefa poderia abrir caminho à consolidação da nova ordem socialista.
Seria necessário, argumentava Lenin, “aprender a conjugar o democratismo dos comícios
das massas trabalhadoras, tempestuoso, que corre como a cheia primaveril, que transpõe todas as margens, com a disciplina férrea durante o trabalho” (Id. Ibid.).
Pautada desde os primórdios de 1918, a terceira tarefa não pôde, contudo, ser abordada de maneira consequente antes de 1921. Nesse interregno o novo poder soviético teve de enfrentar cruenta guerra civil movida pelas antigas elites tzaristas, que, contando com apoio externo, tentavam a restauração. A contenda se estenderia até 1922, embora já em fins de 1919 fosse evidente a vitória bolchevique nas principais frentes de batalha.
Em todo o período de guerra civil, a resistência militar em defesa do poder político conquistado e contra a ameaça iminente de restauração assumiu proeminência frente às demais tarefas do novo poder soviético. Naquele momento, sacrifícios inauditos foram realizados. Ao final de dois anos de guerra civil — aos quais se devem somar outros três, decorridos anteriormente, de participação russa na Primeira Guerra Mundial —, o país encontrava-se em situação falimentar, de quase completa destruição. Uma nova tarefa colocava-se, então, na ordem no dia. Após a vitória completa no front militar, era necessário trazer para o primeiro plano a reconstrução econômica. No Relatório do Comitê Central ao IX Congresso do Partido Comunista Russo afirma LENIN (1982, p. 270):
“Temos agora perante nós uma tarefa muito complexa: depois da vitória na frente sangrenta, a vitória na frente sem sangue. Esta guerra é mais difícil”.
A luta havia mudado de forma. Suas armas agora eram outras: a retomada da produção e do comércio, a estruturação do controle contábil nas empresas, a elaboração de metas e estímulos factíveis, a reorganização das instituições políticas e da vida civil. A construção da nova sociedade galgava uma fase por assim dizer negativa para alcançar
uma etapa positiva. Em “Uma grande iniciativa”, texto de 1919, LENIN (1982, p. 149)
abordaria a questão da seguinte maneira:
“É natural e inevitável que durante os primeiros tempos depois da revolução proletária nos preocupe acima de tudo a tarefa principal e fundamental: superar a resistência da burguesia, vencer os exploradores, reprimir as suas conspirações (...). Mas, ao lado desta tarefa, surge também inevitavelmente — e cada vez com maior força — a tarefa mais essencial da edificação comunista positiva, da criação das novas relações econômicas, da nova sociedade.”
Pela primeira vez na história moderna e contemporânea, forças renovadoras não burguesas logravam concluir, em seus contornos mais óbvios, a obra da conquista do poder com a derrota dos exploradores. Era necessário, dali em diante, abordar a tarefa da administração, fazer retornar a vida às condições da normalidade. Para tanto, vencer no terreno militar deixava de ser a diretiva principal. Agora era preciso convencer, mobilizar pela força das ideias, colocando imensos contingentes a serviço da organização prática do
novo sistema. A tarefa se mostrava hercúlea, pois se tratava de reorganizar as bases mais profundas, as econômicas, da vida de milhões de cidadãos russos. Apenas depois de alcançar a resolução dessa tarefa, assegurava LENIN (1981b, p. 563), poderia dizer-se
“que a Rússia se tornou não só uma república soviética, mas também socialista”.
Era necessário, portanto, “girar as baterias”, evocar uma nova atitude política.
Dever-se-ia, antes de mais, compreender a peculiaridade do novo momento. Tratava-se não mais de empreender uma tarefa “destrutiva” — a expropriação dos expropriadores. O novo momento exigia a abordagem da tarefa construtiva de edificação da nova sociedade e do
novo modo de vida. Era necessário entender, nas palavras de LENIN (Id. Ibid. p. 562), “as particularidades da transição” de uma tarefa — a de unir politicamente o povo e derrotar
militarmente os exploradores — para uma nova missão principal: administrar o país. LENIN (Id. Ibid. p. 585) explica a mudança de situação da seguinte maneira:
“Existem momentos históricos em que o mais importante para o êxito da revolução consiste em acumular a maior quantidade possível de escombros, isto é, fazer saltar o máximo de instituições velhas; existem momentos em que, depois de ter feito saltar o suficiente, se coloca na ordem do dia o trabalho ‘prosaico’ (‘aborrecido’ para o revolucionário pequeno- burguês) de limpar o terreno de escombros; existem momentos em que o mais importante é tratar com solicitude os germes do que é novo, que crescem por entre os escombros num terreno ainda mal limpo de entulho. Não basta ser revolucionário e partidário do socialismo ou comunista em geral. É necessário saber encontrar em cada momento particular o elo particular da cadeia a que temos de nos agarrar com todas as forças para reter toda a cadeia e preparar solidamente a passagem para o elo seguinte.”
O materialismo terrenal de tais proposições chama atenção. A questão resumia-se,
como define LENIN (Id. Ibid. p. 565), em alterar o “centro de gravidade” do trabalho
revolucionário. Se até aquele momento as medidas de imediata expropriação da burguesia e dos latifundiários tinham composto o primeiro plano da luta revolucionária, era necessário priorizar agora a retomada da atividade econômica e sua construção em novas bases. Em 1918 esses objetivos foram descritos por Lenin por meio de consignas como
“nova fase da luta contra a burguesia”, “luta por um registro e um controle [das atividades econômicas] nacionais”, “elevação da produtividade do trabalho” e “organização da emulação”, entre outros. Para dar conta desses objetivos Lenin lançaria mão, a partir de 1920, do conceito de “construção econômica pacífica”.