• Sonuç bulunamadı

A constante troca de correspondência entre Lisboa, Goa e Madrid permite-nos entender que os “muitos inconvenientes que se seguiam (…) ao bom governo do Estado da Índia, e dos mais Ultramarinos” tornavam cada vez mais necessária a criação de uma política unificada e o tratamento dos negócios do império por um pequeno conjunto de pessoas informadas, capazes de “ordenar e prover tudo o que convier ao bem daqueles Estados e ao seu acrescentamento e bom governo”112, integradas num circuito fechado

de circulação de informação. Além disso, aos problemas advindos desta situação de

110 Joaquim Romero Magalhães, “D. Sebastião”, in José Mattoso (dir.), História de Portugal, Volume 3,

Lisboa, Circulo de Leitores, 1993, p. 542.

111 D. Fernando de Meneses, História de Tânger durante la dominacion portuguesa, Tânger, Tipografia

Hispano-Arabiga de la Mision Católica, 1940, p. 124-126. O sublinhado é nosso.

112 Regimento do Conselho da Índia, in Francisco Mendes da Luz, O Conselho da India .... op. cit., 1952,

38 aumento da concorrência no Índico, há que juntar também “dinâmicas internas muito relacionadas com os descaminhos da administração colonial”113.

A dispersão associada aos negócios ultramarinos portugueses tornava cada vez mais difícil garantir respostas informadas, ponderadas, e capazes de chegar ao destino em tempo útil. Além de que a rota da burocracia se encontrava ela própria pouco definida, em consequência desta dispersão administrativa. Cristóvão de Moura enquanto vice-rei de Portugal queixa-se por não saber para onde dirigir os assuntos que despachava sobre o império português nem de que forma o poderia fazer de forma a que pudessem receber resposta com a brevidade necessária. Afirma: “Tenho começado o despacho da Índia e não sei aonde hei de mandar estas consultas, nem acabo de entender como hão-de tornar a tempo para se fazer provisões e assinar por S. Mg.de”114. Do

mesmo ano é datada uma carta enviada por Don Juan de Borja ao duque de Lerma, alertando para a necessidade da existência de “um conselho que tratasse particularmente das coisas da Índia”, uma vez que a descentralização a que estavam sujeitas impediam a resolução dos negócios “como convem ao serviço de Vmgd”115.

Além de uma inequívoca necessidade que aponta para a criação do Conselho da Índia, devemos também ter em conta a tradição de governo por conselho, fortemente inculcada na monarquia castelhana, e que vinha sendo oficializada desde os Reis Católicos.

Como nos mostram as palavras de Edgar Prestage, “quase todos os reis do mundo, e particularmente os de Europa nas provisões, cartas, e despachos que faziam, não usavam da palavra “Eu mando, Eu resolvo”, senão “Nós mandamos, Nós rezolvemos”, nomeando-se sempre em plural por mostrar que não eram eles sós os que resolviam os negócios, senão eles, e os do seu conselho”116. De facto, inculcando-se no

espírito da época, a teoria corporativa faz com que os monarcas se façam desde cedo rodear por diversos homens da sua confiança, em quem procuravam conselho sobre os

113 Graça Almeida Borges, Um império ibérico integrado? A união ibérica, o Golfo Pérsico e o império ultramarino português, 1600-1625, Tese de Doutoramento apresentada à Universidade Europeia, Florença, 2014, pp. 60-61.

114 Carta de Cristóvão de Moura para Pedro Álvares Pereira, datada de 25 de Janeiro de 1601, citada por

Francisco Mendes da Luz, O Conselho da India .... op. cit., 1952, p. 99.

115 Carta de Don Juan de Borja ao Duque de Lerma, datada de 2 de Janeiro de 1601, citada por Guida

Marques, L’invention du Bresil entre deux monarchies .... op. cit., 2009, p. 257.

116 Citado por Maria Luísa Marques da Gama, O Conselho de Estado no Portugal Restaurado - Teorização, Orgânica e exercício do poder político na corte brigantina (1640-1706), Tese de Mestrado apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2011, p. 13.

39 mais variados assuntos. Ligado a um processo gradual de complexificação e burocratização dos negócios, este aconselhamento torna-se cada vez mais institucionalizado, com a criação de organismos que deveriam cumprir esta função, processo por sua vez associado a um número crescente de funcionários, tendencialmente letrados e especializados, que deveriam auxiliar o rei na sua função coordenadora do corpo da monarquia.

A obra de Feliciano Barrios, Los reales Consejos: el gobierno Central de la

Monarquia en los escritores sobre Madrid del Siglo XVII, na qual faz um esforço de compilação dos escritos de espanhóis e estrangeiros sobre a capital e o governo da Monarquia hispânica no século XVII, mostra-nos que raro é o viajante que não insira os conselhos nos seus escritos, faça-o com maior ou menor rigor e detalhe117 ao falar de Madrid. A atenção dispendida aos conselhos do rei nestas obras dos anos de seiscentos pode mostrar-nos que, em maior ou menor grau, o sistema conciliar da monarquia hispânica constituía alguma novidade. De facto, quando estabelecida a comparação com os reinos de França, Portugal ou Inglaterra, a polissinodia espanhola apresentava algumas características ímpares, chamando particularmente a atenção o grande número de Conselhos, definidos como “organismos pluripessoais, de carácter consultivo, que por expressa delegação do monarca se encontram investidos de uma série de competências administrativas, actuando também, alguns deles, como órgãos jurisdicionais”118, com funcionamento diário junto do rei ou dos seus mais imediatos

representantes. Chegados ao ano 1604, encontramos em funcionamento onze conselhos, sete destes de cariz territorial e os restantes designados como temáticos119.

Para entender esta particularidade do sistema administrativo hispânico é preciso encontrar as suas particularidades territoriais e políticas. O elevado número de conselhos em funcionamento na corte dos reis castelhanos pode de facto ser explicado pela vastidão de territórios associados aos monarcas que o tutelavam. A verdade é que nos encontramos perante um império onde o sol nunca se punha, que tornava necessário desenvolver um sistema que permitisse a salvaguarda dos foros, liberdades, privilégios,

usos e costumes – como aliás se faria ler no Pacto de Tomar – de cada reino anexado e,

117 Cf. Feliciano Barrios, Los reales Consejos: el gobierno Central de la Monarquia en los escritores sobre Madrid del Siglo XVII, Madrid, Edições da Faculdade de Direito, 1988, p. 19.

118 Ibidem, p. 45.

119 No primeiro grupo inserem-se os Conselhos de Castela, Aragão, Itália, Flandres, Índias, Portugal e

40 dessa forma, promover a manutenção da paz no seio da monarquia. Por outras palavras, era necessária uma ponte de comunicação entre os centros e periferias do império, e essa ponte era encontrada nos conselhos territoriais.

Tanto assim era que, mesmo perante todos os conflitos jurisdicionais latentes entre o sistema conciliar e o favorito de Filipe III, e ainda que alguns defendessem que só uma diminuição do grau de partilha do poder do rei e o consequente aumento do poder do valido e das juntas de governo poderia permitir inverter a crise que se vinha fazendo sentir, os conselhos não perdem a sua importância, nem cedem o seu lugar na hierarquia do poder tempo suficiente para que as mudanças cheguem a consolidar-se. Como refere Arrigo Amadori, ainda que os validos tenham logrado introduzir-se na rede institucional e nas práticas políticas, e ainda que as alterações que advieram deste seu surgimento tenham marcado a política e os modos de governo, prolongando-se no tempo, não conseguiram nunca consolidar-se de forma suficientemente sólida, que permitisse a substituição do método tradicional de governo120.

A provar o mesmo surge uma relação Sobre a precedência que se deve entre os

mais conselhos e tribunais deste reino, aparentemente elaborada pelo Conselho da Índia, na qual se faz ler que para o bom governo da monarquia, “importando mais a experiência que a ciência”, e “sendo as coisas muitas e a vida humana tão breve para poder alcançar esta experiência”, o sistema ideal seria aquele composto por muitos, tornando possível que “todos juntos, e comunicando o que cada um tiver alcançado, venham a formar um juizo e resolução acertada”121.

Face ao que acima foi exposto, podemos avançar com uma proposta de interpretação para a criação do Conselho da Índia.

Qualquer momento da história é passível de ser promovido e condicionado por diversos factores, sejam desejos pessoais, motivações económicas, ou necessidades políticas. A criação de um instrumento administrativo como o que nos ocupa não terá sido excepção.

120 Arrigo Amadori, Política americana y dinámicas de poder durante el valimiento del Conde-Duque de Olivares, Tese de Doutoramento apresentada à Faculdade de Geografia e História da Universidade Complutense de Madrid, 2011, p. 41.

41 Contem-se em primeiro lugar as necessidades específicas e crescentes da monarquia hispânica e do império português. Portugal insere-se, a partir de 1581, numa monarquia que contava já anteriormente com um território muito vasto e com problemas internos cada vez mais gritantes. Nesse ano, acresce-se-lhe um outro império, igualmente vasto e igualmente a braços com diversos problemas e novas dinâmicas evolutivas. Por tal se compreende que tenha sido sentida a necessidade não apenas de centralizar o processo decisório dos negócios do ultramar português mas também de se fazer aconselhar por aqueles que, como veremos no capítulo dedicado aos membros do Conselho, estariam mais aptos a aconselhar o monarca na sua tarefa de desenhar políticas e medidas que salvaguardassem o bom governo destes territórios. A consolidação do paradigma da territorialidade, o desafio ao poder português no Índico e o ainda crescente desenvolvimento económico, produtivo e populacional do Brasil, fazem com que apenas um órgão centralizado pudesse garantir um despacho eficiente dos negócios, tendencialmente crescentes.

Se a coroa portuguesa nunca tinha criado um órgão de cariz centralizador das decisões relativas ao seu império, a monarquia hispânica encontrava-se dotada de diversos instrumentos consultivos, que se vinham desenvolvendo e conquistando um lugar primordial na dinâmica administrativa desde as suas bases. Estando Portugal tutelado pelo monarca castelhano, parece-nos natural que tenha sofrido alterações na sua estrutura administrativa, ainda que tal não seja necessariamente contraditório com a separação estabelecida pelas Cortes de Tomar. Portanto, o que pode ser visto como uma tentativa de castelhanização do sistema polissinodal português, pode também ser justificado de uma forma essencialmente prática, se tivermos em conta que uma homogeneização das práticas administrativas entre os diversos territórios da monarquia se associa a uma diminuição da complexidade, já por si, elevada, da tarefa coordenadora do poder central.

Além disso, mesmo que nos encontremos perante a aplicação de tradições administrativas castelhanas no reino de português, as exigências de Tomar mantêm-se salvaguardadas, uma vez que as bases de actuação destes novos organismos se mantêm de tradição portuguesa. O mesmo é dizer que o cariz consultivo do exercício de poder não se constituía como uma novidade em Portugal, ainda que aí acontecesse com menor força e organização do que no reino vizinho. O que o poder castelhano nos traz, não apenas através da criação do Conselho da Índia, mas também do da Fazenda, é,

42 efectivamente, o impulsionar e o formalizar de uma tendência previamente existente, mas pouco dinâmica.

Pelo que acabámos de explicitar, sentimo-nos em condições de afirmar que o Conselho da Índia tenha surgido apenas como uma resposta de tradição castelhana a uma necessidade portuguesa e do seu império, e não como um projecto elaborado no sentido de promover a castelhanização da administração portuguesa ou do seu império. No entanto, esta é apenas uma das formas pelas quais podemos encontrar uma resposta para esta questão que, como dissemos inicialmente, se encontrará presente ao longo de toda a nossa dissertação. No capítulo em que procedemos à análise dos percursos profissionais e de vida, bem como das ligações familiares daqueles que durante o funcionamento do Conselho da Índia o presidiram e compuseram, decerto poderemos formular uma conclusão mais sólida.

43

Capítulo III

Benzer Belgeler