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4. DENEYSEL SONUÇLAR VE DEĞERLENDİRME

4.3. Başlıca Kaplama Karakteristiklerinin Numuneler Üzerindeki Etkileri

Neste processo de aumento do peso do Atlântico na balança imperial portuguesa, há então que posicionar o Índico. Filipe II rapidamente percebeu, tal como D. Manuel havia percebido anos antes, o potencial do Estado da Índia como “área de pressão contra o Mediterrâneo oriental”82 e, consequentemente, passível de ser utilizado contra o

avanço do poder otomano na Europa. Nas palavras de João Paulo Oliveira e Costa, tal demonstra que “o respeito pela individualidade lusa não impedia o monarca de encarar os seus novos domínios como peças de uma estratégia maior, onde o império português podia ser usado, e sacrificado, em prol dos interesses maiores da Monarquia Católica”83.

A execução desta política foi de novo tentada no reinado de Filipe III. Em nenhum dos casos as autoridades de Goa acataram as ordens do poder central, percebendo que as consequências – negativas – da reabertura da guerra contra os Turcos serviam um interesse que não o seu.

De facto, ainda que se afirme uma certa falta de capacidade por parte dos monarcas hispânicos para conceberem o Estado da Índia como uma peça individual, incapazes de aí encontrar os benefícios advindos do seu império americano, a verdade é que aquando a anexação de Portugal à monarquia hispânica, era aí que “donde residía el simbolismo planetario de la casa de Avís”84. O mesmo é dizer que, ainda que a

territorialidade ganhasse peso e o Atlântico se tornasse cada vez mais dinâmico, a Índia continuava a constituir-se, para os portugueses, como a jóia da coroa, que significava

82 João Paulo Oliveira e Costa e Vitor Luís Gaspar Rodrigues, Portugal y Oriente: el proyecto indiano del Rey Juan, Madrid, Mapfre, 1992, p. 322.

83 João Paulo Oliveira e Costa, História da Expansão .... op. cit., 2014, p. 170. 84 Rafael Valladares, Castilla y Portugal en Asia .... op. cit., 2001, p. 2.

29 muito mais que o interesse erudito ou a respeitosa indiferença que significava para os castelhanos85.

Além disso, não foi apenas no Atlântico que o paradigma da territorialidade ganhou relevo. No Índico, seguindo as palavras de Luís Filipe Thomaz, “a tendência para a territorialidade acentua-se, porém, gradualmente (...). A extensão dos territórios (...) ampliara-se, pelo que não podia deixar de ser maior o seu peso no conjunto; amentara, devido à política de casamentos mistos, o número de portugueses radicados na terra, enquanto a acção dos missionários integrara, por assimilação religiosa, na comunidade portuguesa vultosos núcleos da população local”86. Para Maria Augusta

Lima Cruz, esta crescente territorialização no Índico encontrava-se essencialmente ligada a uma mudança do paradigma de império, iniciada no reinado de D. João III e seguida por D. Sebastião. Defendia-se cada vez mais o afastamento da coroa relativamente às actividades comerciais e mercantis e, por tal, sentia-se a necessidade de tornar o império menos marítimo e mais semelhante ao castelhano, ou seja, mais territorial, prevendo-se “o controlo das populações locais, e logo da mão-de-obra, da produção agrária e das reservas mineiras”87.

Esta não é uma tese que anule ou entre em confronto com a de Filipe Thomaz, que defende que o incremento do poder territorial português no Estado da Índia acontece numa tentativa de compensação pelo aumento da concorrência e, em ligação directa, pela sua crescente perda de poder naval88.

Por sua vez, esta crescente perda de poder naval marcará definitivamente a conjuntura no Índico ibérico logo desde o final dos anos de quinhentos. Contrariamente à tendência de crescimento que encontramos no Brasil e nas redes de comércio de escravos africanos, às décadas de sessenta e setenta, as de maior sucesso tanto para a Carreira da Índia como para a Nau do Trato, nas quais se contaram pouquíssimas perdas, seguiram-se eventos que, na década de noventa trouxeram consigo “perdas materiais e económicas”89 bastante relevantes, bem como a perda de grande parte do

comércio marítimo que os portugueses controlavam até então. Não estando o império

85 Ibidem, p. 3.

86 Luís Filipe Thomaz, De Ceuta a Timor, s.l., Difel, 1994, p. 217. Cf. João Paulo Oliveira e Costa, História da Expansão .... op. cit., 2014, p. 135.

87 Maria Augusta Lima Cruz, D. Sebastião, Lisboa, Temas & Debates, 2009, p. 179 88 Cf. Luís Filipe Thomaz, De Ceuta a Timor .... op. cit., 1994, p. 217.

30 português dependente apenas dos potentados asiáticos e africanos e do resgate dos produtos de que estes dispunham, mas também da rede de consumo europeia, e da aquisição de produtos europeus a ser utilizados como moeda de troca nos mercados africano e asiático, as boas relações com a Europa precisavam de ser mantidas, em nome dos lucros que os reis portugueses retiravam do comércio asiático-africano- europeu. Tanto que assim é, que os portugueses preferiram ignorar a “heresia” dos Países Baixos, de forma que pudessem manter os seus contactos comerciais90. A manutenção desta posição por parte das autoridades portuguesas tornar-se-á impossível após a união ibérica. Na verdade, não podemos afirmar que o estabelecido por Tordesilhas em 1494 não tenha sido contestado, e até desafiado, mas a verdade é que poucos efeitos concretos tiveram estas contestações, e raramente se materializaram. Só assim se compreende que até 1580, a estabilidade do comércio, a segurança da navegação e o poder territorial português no Índico tenham estado em grande parte assentes numa quase total ausência de concorrência.

Escreve Manuel Faria e Sousa que a união de coroas que em 1581 se consolidou parece ter tido o poder de, nos Países Baixos, apagar “as memórias do antigo decoro

com que ela [a Holanda] costuma reverenciar os seus nomes e agradecer os seus benefícios”. Continua, frizando que os Países Baixos haviam sido até à união ibérica senhores de uma economia essencialmente agrícola, com cujos produtos “vinha [a Holanda] procurar os nossos em nossas casas e as drogas orientais nas nossas alfândegas”, adoptando então uma postura diferente, convertendo “os arados em proas, as aguilhadas em piques e as sementes em balas para sulcar os nossos mares e para infestar as nossas conquistas asiáticas, africanas e americanas”91.

Não obstante ser necessário um esforço para relativizar esta afirmação, que quase nos leva a supor que a viragem da Holanda dos campos para o mar acontece apenas depois da união de coroas e exclusivamente com o propósito de atacar o império português, não contando o autor que ainda antes de 1581 já os holandeses se encontravam nos mares e detinham diversas feitorias, a verdade é que a união de Portugal a Castela alterou substancialmente o método de alianças dos portugueses, até aí tendentes a procurar amizades com quem Castela tinha querelas. Será fácil constatar que

90 Cf. Joaquim Romero Magalhães, “Os limites da expansão asiática”, in História da Expansão Portuguesa .... op. cit., Volume 2, 1998, pp. 10-11.

91 Manuel de Faria e Sousa, Ásia Portuguesa, editado por M. Lopes de Almeida, 6 Volumes, Porto,

31 Portugal não se encontrava preparado para ver contra si as forças daqueles que sempre se encontraram do seu lado92.

O grande catalisador do conflito directo com os holandeses foi quando em 1595 Filipe II decretou o encerramento dos portos portugueses ao comércio com os Países Baixos. Nas palavras de Joaquim Romero Magalhães, os holandeses viram aqui, naturalmente, uma oportunidade de avançar directamente para a fonte dos produtos, “cortando os altos ingressos ao soberano hispânico e trazendo os produtos asiáticos directamente para os seus países”93. Estrangulando o comércio asiático português,

esperariam os “rebeldes” piorar a já por si grave situação das finanças hispânicas e dessa forma obrigar Filipe II a abrandar o ímpeto militar.

As acções dos neerlandeses que tinham em vista a concretização deste objectivo foram desenvolvidas tanto pela via do corso e da perturbação da navegação portuguesa como pelo ataque directo a possessões territoriais de domínio português e a tentativa de estabelecimento de alianças com os locais, com o intuito de enfraquecer a aceitação destes relativamente à presença lusa.

Como referimos nas páginas iniciais, a historiografia portuguesa tendeu durante muito tempo a obscurecer o período de união de Portugal à monarquia hispânica, e a história da Carreira da Índia não foi excepção, “muito em particular pelo grande acréscimo dos ataques de pirataria inglesa e holandesa ao longo da rota do Cabo e pelo início da concorrência externa no acesso ao Índico”94. No entanto, os efeitos do corso

têm vindo a ser alvo de uma cuidada revisão historiográfica, concluindo André Murteira, cuja dissertação de Mestrado versa precisamente sobre o corso neerlandês e a Carreira da Índia entre 1595 e 1625, que, apesar de não ser correcto subestimar os seus efeitos, não devemos também dar-lhes um lugar central, uma vez que “os efeitos observáveis do corso, directos e indirectos, embora não negligenciáveis, foram

92 Os mecanismos de defesa do Estado da Índia estavam até então assentes numa “estrutura militar muito

limitada, mas perfeitamente ajustada às [suas] necessidades (...). Desde 1498 até ao início dos anos 90, nenhum estratega português poderia ter ponderado que a rede de fortalezas e o sistema naval do Estado da Índia deviam ser organizados para enfrentar o ataque holandês”, João Paulo Oliveira e Costa, História da

Expansão .... op. cit., 2014, p. 175.

93 Joaquim Romero Magalhães, “Os limites ....”, in História da Expansão Portuguesa .... op. cit., 1998, p.

11.

94 Paulo Guinote, Eduardo Frutuoso, António Lopes, Naufrágios e outras perdas da «Carreira da Índia». Séculos XVI e XVII, Lisboa, 1998, p. 107.

32 fundamentalmente esporádicos, não se justificando a importância que lhe tem sido atribuída”95.

Grande valorizador dos efeitos indirectos da presença holandesa nos mares de domínio ibérico, Magalhães Godinho não só calculou que quatro quintos das perdas totais foram causadas de forma indirecta, reservando apenas um quinto das perdas para acções directas de corso e pirataria, como elenca ainda uma completa lista dos mesmos, na qual se encontram, por exemplo, a obrigação no sentido de desvios nas rotas, as partidas tardias de Goa para Lisboa para evitar encontros da Carreira da Índia com embarcações holandesas ou inglesas, mas também os próprios bloqueios comerciais a Lisboa (1598 e 1606) e Goa (1623).

Por sua vez, Bentley Duncan acrescenta a esta lista a impossibilidade de os navios escalarem na Ilha de Santa Helena e os custos originados pela necessidade de maior proteção às embarcações da Carreira e ao desgaste financeiro da concorrência europeia96. Rui Godinho, além de referir o excessivo carregamento das naus, evoca também que o considerável poder político e comercial da VOC constituiu para Portugal e para as estruturas do seu império uma mistura explosiva e letal, considerando uma falha grave a falta de adaptação dos portugueses à mentalidade económica e a incapacidade das suas instituições administrativas para fazer face aos novos problemas97.

De uma análise dos motivos que provocaram naufrágios entre 1497 e 1650, Paulo Guinote, Eduardo Frutuoso e António Lopes chegam à conclusão que o ataque directo de inimigos foi a causa de apenas 10,5% do total, mas notando-se um aumento significativo: 2,5% entre 1497 e 1550, 8,5% entre 1551 e 1600 e 21% entre 1601 e

95 André Murteira, A Carreira da Índia e o corso neerlandês, 1595-1625, Tese de Mestrado apresentada à

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2006, p. 160.

96 Cf. ibidem, pp. 6-8.

97 Cf. Rui Landeiro Godinho, A Carreira da Índia: aspectos e problemas da torna-viagem (1550-1649),

33 165098. As causas desconhecidas apresentam-se nestes três períodos como maioritárias, constituindo um total de 84%99.

Não obstante estes dados nos permitirem esbater os efeitos do corso holandês, durante muito tempo apresentados como totalmente catastróficos, convém ter em conta que os ataques holandeses e a sua presença no Oriente foram sem dúvida suficientes para preocupar os seus contemporâneos. Neste sentido, em 1609, um tenente-general nas Filipinas afirma que se aos ataques dos holandeses “no se le pone remedio, muy de raiz i com tiempo, crecerá em breve tanto, que después no le pueda tener”100.

No mesmo sentido temos a reacção do vice-rei D. Francisco da Gama quando chegam a Goa, em Agosto de 1597, as primeiras notícias da presença de embarcações holandesas em Moçambique: “com estas novas se alvoroçou o Conde e toda a cidade por ser cousa nova, e nunca estas gentes terem passado a estas partes”. Imediatamente se começa a preparação de uma armada, composta por “dois Galeões, três Galés, e dez Fustas com quinhentos homens, que era Armada bastante pera segurar aquelas partes, e buscar as naus Holandesas, e dar guarda às da China, e de outras partes”, partindo na sua missão apenas um mês após a chegada das notícias do avistamento dos neerlandeses101.

Por outro lado, a ameaça territorial ganha particular ênfase após 1602, aquando a criação da VOC, Companhia das Índias Orientais holandesa, fruto da fusão de diversas pequenas companhias comerciais que optam pela união de recursos, numa primeira fase com motivações económicas, mas havendo rapidamente um aproveitamento político do cabedal militar de que esta dispunha102.

Os ataques territoriais perpetrados pelos rebeldes da VOC podem ser divididos em duas conjunturas, diferenciadas pelo empenho dos inimigos dos portugueses na sua

98 André Murteira afirma, sobre este assunto, que “os primeiros navios das Províncias Unidas que foram

ao Oriente estiveram até 1603 quase sempre proibidos de atacar sem mais os portugueses e castelhanos que encontrassem, sendo autorizados a recorrer à violência apenas em legítima defesa”, André Murteira, “O Estado da Índia e as companhias das Índias Orientais Neerlandesa e Inglesa no Índico Ocidental, 1600-1635”, in Santiago Hernández Martínez (dir.), Governo, Política e Representações do poder no

Portugal Habsburgo e nos seus territórios ultramarinos (1581-1640), Lisboa, CHAM, 2011, p. 177.

99 Cf. Paulo Guinote, Eduardo Frutuoso, António Lopes, Naufrágios e outras perdas .... op. cit., 1998, pp.

116-123.

100 Citado por Francisco Mendes da Luz, O Conselho da Índia .... op. cit., 1952, p. 271. 101 Diogo do Couto, Da Ásia .... op. cit., Década XII, Livro 1, Capítulo VII.

102 Cf. Cf. André Murteira, “O Estado da Índia e as companhias das Índias Orientais ....”, in Governo, Política e Representações .... op. cit., 2011, p. 177.

34 empresa, a primeira indo até aos anos trinta do século XVII e caracterizando-se por ataques descontinuados às possessões portuguesas. A iniciar-se segunda metade da década de trinta encontramos uma nova conjuntura, que traz consigo ofensivas mais sustentadas e continuadas, tendo resultados muito mais relevantes e consequências bem mais graves para a presença portuguesa nas terras do Oriente, como a tomada de Malaca em 1641 e o ataque a Ceilão.

O Conselho da Índia é contemporâneo da primeira conjuntura que referimos. Apesar de ser contemporâneo também do estabelecimento da Trégua dos 12 Anos, um dos resultados mais relevantes da política pragmática desenvolvida pelo monarca e pelo seu valido, os interesses hispânicos saíram frustrados relativamente às negociações de retirada dos neerlandeses do Índico, pelo que tal pacificação de relações não é estendida aos domínios do Estado da Índia. Lê-se nos capítulos quarto e quinto da paz estabelecida:

“Os sujeitos e habitantes em os lugares dos ditos senhores rei, arquiduques e Estados terão entre si toda a boa correspondência e amizade durante a dita trégua, sem se ressentirem das ofensas e danos que receberam pelo passado. Poderão também frequentar e ficar em os lugares um do outro, e exercitar ali seu tráfego e comércio com toda segurança, assim por mar e outras águas; o qual todavia o dito senhor rei entende ser restringido e limitado em os reinos, lugares, terras e senhorios que tem e possui em Europa e outros lugares e mares d’onde os sujeitos dos reis e príncipes que são seus amigos e aliados têm o dito tráfego por vontade; e quanto aos lugares, vilas, portos e surgidouros que tem fora dos limites sobreditos, que os ditos senhores Estados e seus sujeitos não poderão exercitar ali algum tráfego sem permissão expressa do dito senhor rei”103.

Assim, apesar da Trégua entre a monarquia hispânica e as Províncias Unidas, em cima da mesa de trabalho do Conselho está sempre a preocupação com as investidas dos “rebeldes”. Joaquim Romero Magalhães afirma que, ao contrário da estratégia desenvolvida pelos portugueses aquando a sua chegada à Índia um século antes – por Calecute, centro do comércio do Índico –, os holandeses deliberadamente começaram por fragilizar as periferias, “arruinando o comércio português antes de o substituir”104.

Escolhem, por isso, atacar as Ilhas de Maluco, Moçambique e Malaca, mas nunca os

103 Cópia dos capítulos 4º e 5º da Trégua com as Províncias Unidas de Flandres, Bruges, 22 de Março de

1609, in DRI, Volume 1, p. 252.

104 Joaquim Romero Magalhães, “Os limites ....”, in História da Expansão Portuguesa .... op. cit., 1998,

35 pontos centrais do Estado da Índia, como Goa105 ou Cochim, não obstante a preocupação das autoridades portuguesas que tal pudesse vir a acontecer. A motivação dos holandeses em atacar estes locais é passível de ser facilmente compreendida se tivermos em conta a sua importância geográfica, estratégica e comercial.

Nesta primeira fase dos ataques holandeses, apenas nos territórios indonésios a empresa teve os resultados desejados pelos “rebeldes”, mantendo-se Moçambique e Malaca, pontos fulcrais do império oriental português na posse de Filipe II. Tal leva-nos a perceber que a presença lusa nesses locais se encontrava suficientemente bem consolidada para não ser demolida pela primeira investida inimiga.

Ainda assim, e não obstante a inexistência de conflitos armados recorrentes na parte Ocidental do Índico nesta primeira fase da guerra, é um facto inegável que os holandeses marcaram a sua presença, nomeadamente em territórios como Guzerate, onde mantiveram uma rede de feitorias mas não ergueram fortalezas nem contaram nesse local com forças navais permanentes, não interferindo, por isso, de forma ofensiva com o Estado da Índia106. Outra forma de ganhar terreno foi a política de alianças, já anteriormente desenvolvida pelos portugueses nos primórdios de quinhentos, com vista a consolidar a sua presença no Índico, mas agora estabelecida entre os holandeses e o reino de Calecute ou o sultanato de Johor, tradicionalmente inimigos dos portugueses107. Esta consolidação passava também por manter em boas condições o sistema de fortalezas que vinha sendo edificado desde o reinado de D. Manuel I, e no qual assentava grande parte do poder português nas águas do Índico. Tal explica que nas ordens enviadas de Lisboa para Goa, seja visível não apenas uma constante preocupação das autoridades competentes relativamente à presença dos holandeses nas ilhas de Maluco e à defesa de Moçambique e Malaca, mas também à manutenção das boas relações com os reis locais e ao bom provimento das fortalezas do Estado da Índia.

105 “É verdade que em 1604, 1607 e 1608, três das primeiras frotas enviadas a oriente pela V.O.C.

bloquearam temporariamente a barra de Goa, mas fizeram-no apenas durante algumas semanas, e a sua acção não pode, portanto, ser comparada com a das frotas subsequentes, que permaneceram na barra durante a maior parte da estação do ano propícia à navegação”, http://www.fcsh.unl.pt/cham/eve/content.php?printconceito=784, acedido a 1 de Junho de 2015, 02h13m. Sobre o assunto, cf. André Murteira, “Os primeiros bloqueios neerlandeses de Goa: expedições da VOC contra a Carreira da Índia no Índico Ocidental, 1604-1623”, in Revista de Cultura, Nº 36, Outubro de 2010, pp. 124-144.

106 Cf. André Murteira, “O Estado da Índia e as companhias das Índias Orientais ....”, in Governo, Política e Representações .... op. cit., 2011, p. 184.

36 No entanto, importa notar que mesmo perante a perda do monopólio da navegação no Índico, a multiplicação dos ataques perpretados pelos “rebeldes” às possessões portuguesas, o aumento da concorrência comercial e os problemas económico- financeiros daí advindos, o Oriente português mantinha-se nesta altura, como o grande pólo de atractividade do império.

Era no Estado da Índia que desejava servir o fidalgo que saía do reino em busca da manutenção do seu status familiar. Esta supremacia do simbolismo do Oriente relativamente ao Brasil é demonstrada, também pelo título dado aos representantes máximos do rei português num e noutro território: enquanto em Goa, a partir de 1548, encontramos sempre vice-reis em funções, excepto quando o cargo era obtido pela abertura das vias de sucessão, no Brasil houve apenas Governadores, até à data da restauração da independência108.

Benzer Belgeler