4. DENEYSEL SONUÇLAR VE DEĞERLENDİRME
4.1. Test ve değerlendirme sonuçları
4.1.4. Mikroyapı Değerlendirmesi
No que ao Atlântico diz respeito, há essencialmente que notar a existência, desde o reinado de D. João III, de diversas iniciativas com vista ao incremento da presença portuguesa no Brasil. Refiram-se o estabelecimento do Governo-Geral em 1549, a formação de enclaves do poder português ao longo de toda a zona costeira do Brasil
24 compreendida entre São Vicente e a Foz do Amazonas, a fundação de São Paulo, a definitiva expulsão dos franceses da Guanabara em 1565 e o avanço para o sertão com o desenvolvimento dos movimentos bandeirantes e o consequente aumento da zona explorada pelos portugueses. O Brasil é, a partir dos anos vinte do século XVI, um espaço em evolução, que começa a demonstrar o seu dinamismo.
Este processo será posteriormente acelerado e consolidado no tempo da união ibérica, em parte devido à tradição da expansão castelhana e à conjuntura externa da monarquia hispânica69, mas também pela atracção dos negociantes portugueses relativamente à prata que vinha da América espanhola70. Foi esta uma preocupação claramente visível nos capítulos apresentados pelo Terceiro Estado nas Cortes de Tomar. Reivindica-se, por um lado, que o ouro ou prata advindos de qualquer território da monarquia hispânica pudessem ser cunhados em Portugal, com as armas do reino71 e, por outro, que os portugueses passassem a estar habilitados a ir às conquistas ultramarinas de Castela72. A resposta do monarca a ambas as petições não é negativa, mas sim ambígua. De qualquer das formas, é inequívoco que o poder de atractividade do Atlântico aumentou consideravelmente após a anexação de Portugal à coroa de Filipe II, e a verdade é que Potugal foi inserido nos territórios da monarquia hispânica numa fase em que o Estado da Índia oferecia demasiados problemas, quando comparado com a florescente América espanhola, que dava e prometia soluções73.
Por associação, simultaneamente causa e efeito desta fixação, a produção agrícola no Brasil entra numa fase de expansão, com a produção açucareira a tornar-se cada vez mais relevante na balança comercial da coroa portuguesa. O mesmo é dizer que para falar de economia e produção agrícola é fundamental que se fale dos homens e do peso do seu número, uma vez que estes são simultaneamente consumidores e produtores.
As fontes de que o historiador dispõe para estudar este substracto demográfico, apesar de mais completas que as que se referem às populações indígenas, africanas e mestiças, são ainda de difícil análise e percepção, tornando-se impossível avançar com
69 Cf. João Paulo Oliveira e Costa, História da Expansão .... op. cit., 2014, p. 172.
70 Cf. Fernando Bouza Álvarez, Portugal en la Monarquía Hispánica .... op. cit., 1987, p. 639. 71 Cf. Ibidem, p. 640.
72 Cf. Ibidem, p. 640.
73 Cf. Rafael Valladares, Castilla y Portugal en Asia, 1580-1680: declive imperial y adaptación, Leuven,
25 um número concreto. Tenhamos em conta as obras de Gândavo (1570) e Anchieta (1585).
Total de vizinhos Baía Pernambuco Itamaracá
Gândavo (1570) 3400 1100 1000 100
Anchieta (1585) 4010 2000 1100 50
Em primeiro lugar, há que explicar que o termo “vizinhos” é um termo que, não tendo por detrás qualquer intuito de contabilidade demográfica efectiva, remete-nos apenas para aqueles que detinham responsabilidades militares e de governança e, nesse sentido, deve assumir-se que o número de vizinhos seria certamente inferior ao da população efectiva, uma vez que exlui as mulheres, as crianças e os mais idosos.
De um modo geral, o que podemos extrair da leitura destas fontes é o facto de serem consensuais relativamente à existência de uma tendência evolutiva da população, mas também no que toca às tendências de concentração populacional. Nos quinze anos que separam ambas as obras, a população de origem europeia aumenta no Brasil quer no seu total, quer nas capitanias mais povoadas da Baía e de Pernambuco. Por outro lado, encontramos Gândavo e Anchieta em concordância também no que diz respeito aos casos de insucesso, sendo o despovoamento de Itamaracá, Ilhéus e Porto Seguro algo assumido.
A tendência ascendente é também encontrada no substracto demográfico composto pelos africanos, sendo na mão-de-obra escrava que estava assente o funcionamento dos engenhos de açúcar. Para James Walvin, o primeiro momento em que encontramos escravatura negra com uma expressão suficientemente relevante nas Américas é coincidente com o desenvolvimento do comércio do açúcar brasileiro74. As plantações de açúcar são vistas pelo autor supracitado como “uma conjunção inovadora de processos agrícolas e industriais interdependentes, impulsionados por uma nova forma de trabalho: a escravatura (...) numa forma altamente organizada e disciplinada”75. Apesar das dificuldades relativas à contagem demográfica deste grupo –
contando ainda com menos fontes coevas do que o caso dos indígenas –, no início do
74 Cf. James Walvin, Uma história da escravatura, Lisboa, Tinta da China, 2008, p. 108. 75 Ibidem, p. 109.
26 século XVII havia já quem dissesse que se estava a criar uma nova Guiné no território brasileiro, pela “grande multidão de escravos vindos dela”76.
Contrariamente, o grupo autóctone do Brasil sofrerá uma grande diminuição. Traçar um número preciso da população indígena não é tarefa fácil, dada a inexistência de fontes directas e a raridade de vestígios arqueológicos. Havendo teorias que apontam para a existência de pouco menos de dois milhões e meio de índios aquando a chegada dos portugueses ao território, este número desceu bastante, em virtude quer das campanhas de subjugação de índios, quer das doenças epidémicas que chegaram ao território com as populações europeias, como a varíola e o sarampo. Entre 1560 e 1580, segundo dados fornecidos por uma carta atribuída ao padre Anchieta, a população indígena aldeada passou de cerca de quarenta mil para três mil e quinhentos.
Resultaria destes três grupos demográficos – indígenas, europeus e africanos – a formação de uma sociedade luso-brasileira, resultante de um processo de moldagens étnicas derivadas, por um lado, de uniões estáveis (entre grupos étnicos não brancos) e, por outro lado, de uniões essencialmente extra-maritais temporárias, mas também as havendo estáveis, entre o colonizador europeu e os restantes grupos étnicos. Ainda que do ponto de vista exclusivamente demográfico esta miscigenação tenha fornecido contingentes essenciais à população brasileira no século XVI, não se cansaram os jesuítas de combater e censurar moralmente o hábito da mancebia entre portugueses e índias. Quando o Padre Manuel da Nóbrega chegou à Baía em 1549, constatou que grande parte da população branca que aí morava – essencialmente referindo-se aos homens – tinha cedido àquilo que considerava ser um pecado mortal.
Como se nota, todo o processo de povoamento da América portuguesa se desencadeou em estreita associação com o desenvolvimento agrícola, algo que é evidenciado, por exemplo, por uma desigual distribuição populacional, estando cerca de 70% da população concentrada nas capitanias de Pernambuco e da Bahía, onde no final do século XVI, segundo as informações que nos são dadas por Fernão Cardim, se encontravam em funcionamento 102 dos 115 engenhos de açúcar do Brasil77. O que encontramos, pois, é uma dinâmica de concentração produtiva em torno de dois grandes
76 Joaquim Romero Magalhães, “A construção do espaço brasileiro”, in História da Expansão Portuguesa
.... op. cit., Volume 2, 1998, p. 35.
77 Stuart Schwartz, “A “Babilónia” colonial: a economia açucareira”, in História da Expansão Portuguesa
27 centros78, associada a um decréscimo do crescimento populacional e produtivo de capitanias como Itamaracá, Ilhéus, Porto Seguro e São Vicente. Segundo nos mostram textos coevos, entre 1570 e 1583 o número total de engenhos no Brasil sobe de 60 para o dobro. Chegando a 1612, os engenhos em funcionamento seriam já perto de duzentos, dos quais 140 se encontravam nestas duas capitanias. Nota-se nesta altura um grande desenvolvimento no Rio de Janeiro, que passa de 3 engenhos em 1583 para 14 em 161279. Nas vésperas da invasão neerlandesa em Olinda, os engenhos de açúcar seriam totalizados em cerca de 350, dos quais a maior parte continuaria em Pernambuco, com 150 e na Bahia, com 80 engenhos80.
Podemos então perceber que a presença portuguesa no Brasil, bem como a economia do cultivo e exportação de açúcar, se encontravam ainda em crescendo nos primeiros anos do século XVII, apesar de ser uma tendência que se vinha desenrolando desde as primeiras décadas do século anterior. O mesmo é dizer que esta vertente territorial e atlântica do império português é uma nova realidade, num império até então essencialmente assente nas águas do Índico e numa cuidada rede de fortalezas e feitorias. Nova realidade essa que, pouco mais de cinquenta anos volvidos sobre o lançamento das suas bases, vinha ainda sendo experimentada, procurando o seu lugar no sistema político-administrativo português e, posteriormente, da monarquia hispânica, mas também nas redes de comércio do açúcar e do tráfico de escravos que lhe estava associado. Situação contrária, pois, à do Estado da Índia, que contava desde muito cedo com um sistema de representação do rei português e de funcionamento político e administrativo que no século XVII se encontrava já consolidado81.
78 Esta concentração acontece, em grande parte, por três factores decisivos. Em primeiro lugar, por
motivos de defesa, uma vez que quanto maior o núcleo português, mais facilmente seria defensável; de ataques de índios; em segundo lugar, para evitar processos de dispersão da população portuguesa em solo americano, uma hipótese que sempre preocupou as autoridades portuguesas, uma vez que a dispersão da população pelo território punha em causa o projecto português de domínio territorial naquele espaço, uma vez que impediria a formação de redutos portugueses e eventualmente fomentaria a aculturação dos portugueses junto dos indígenas; por fim, há que ter em conta a existência de uma cultura urbana, que se reproduziu naturalmente no Brasil.
79 Cf. Stuart B. Schwartz, “A «Babilónia» colonial .... ”, in História da Expansão Portuguesa .... op. cit.,
Volume 2, 1998, p. 215.
80 Ibidem, p. 215.
81 Tal discrepância em termos de desenvolvimento acontece não apenas devido ao imediato interesse das
autoridades lusas na Índia, com o qual o Brasil só competirá mais tarde, mas também em grande parte devido à distância de que um e outro território se encontravam do centro de decisão política, tornando muito mais necessário na Índia o estabelecimento de bases efectivas que pudessem funcionar tendo em conta a demora de fecho do circuito da rota dos papéis e, por isso, de forma mais autónoma do rei.
28 Estamos por isso perante anos em que o volume dos negócios associados ao império português cresceu significativamente, com o desenvolvimento de uma nova economia e de um novo bem de produção que rapidamente se tornou muito relevante, mas também com o início de um trabalho sistemático por parte dos jesuítas, com o aumento populacional em terras distantes, e com a própria dilatação territorial.