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Nos últimos tempos o cenário econômico mundial tem registrado uma série de iniciativas sob a figura do microcrédito, normalmente puxadas pela esfera pública, num movimento crescente, apesar de equívocos e distorções nessa trajetória, conforme o relato que se segue:

Na metade do século XX, governos do mundo inteiro decidiram apoiar iniciativas de fornecimento de crédito em larga escala para os menos favorecidos, especialmente em áreas rurais. Estratégias de redução da pobreza via crédito subsidiado foram abundantes entre as décadas de 1950 e 1980. Mas essa primeira tentativa de disseminação do microcrédito foi um fracasso generalizado, devido principalmente à ineficiência, a corrupção e a taxas de juros altamente subsidiadas, que acabaram gerando altíssimas taxas de inadimplência, custos crescentes dos subsídios, cooptação dos benefícios por aqueles politicamente mais favorecidos. (NERI, 2008, p. 27).

55 Das experiências com o microcrédito um caso de inegável de sucesso é o do Grameen Bank, em Bangladesh7·, durante a década de 70, por obra do professor de economia da Universidade de Chittagong, Muhamad Yunus, que mudou a forma de concessão desse tipo de financiamento:

A experiência do Grameen Bank foi um ponto de mutação nesse enredo. O Grameen fez importantíssimas contribuições metodológicas para o campo das microfinanças, hoje utilizadas por grande parte das instituições ao redor do mundo. Entre as principais estão a utilização de empréstimos solidários como mecanismos de seleção de tomadores e garantias, volumes de empréstimos adaptáveis e com termos sazonais, a visão de um banco proativo que “vai em direção às pessoas (Neri, 2008, p. 28).

Outras formas de operacionalização do microcrédito colocadas em prática, nacional e internacionalmente, podem ser visualizadas ao longo da história, conforme disposto no Quadro 6.

Quadro 6 – Indicações Históricas de Iniciativas de Microcrédito

Provedor e∕ou Regulador dos

Recursos Financeiros País de Origem Resumo da Iniciativa

Loan Fund (1836). Irlanda Impulsionou o crescimento de fundos de apoio a micro empreendimentos.

Associação do Pão (1846∕47) – por iniciativa do Pastor Friedrich

Wilhelm Raiffeisen. Alemanha

Financiava panificadores para compra de trigo, fabricação e comercialização de pães. Caísses Populares (1900, em

Quebec). Canadá Emprestava recursos aos mais pobres. Fundos de Ajuda e,

posteriormente, Liga de Crédito (1953, em Chicago) – por iniciativa de Walter Krump.

Estados Unidos Destinava-se a atender associados necessitados de uma metalúrgica. Projeto Uno (União Nordestina de

Assistência a Pequena

Organizações – 1973, em Recife) Brasil

Serviu de base para a construção da rede Ceape (Centro de Apoio ao Pequeno Empreendedor). Banco da Mulher (1990) Brasil Crédito em favor da mulher empreendedora. FENAPE (Federação Nacional

dos Pequenos Empreendedores - 1990) (1990)

Brasil

Efetivos financiamentos em favor de pequenos empreendedores geralmente sem acesso ao crédito institucional.

7 Bangladesh foi território da Índia até 1947, posteriormente ficou sob o domínio do Paquistão, após o que se tornou um país independente

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Quadro 6 – Indicações Históricas de Iniciativas de Microcrédito (continuação)

Provedor e∕ou Regulador dos

Recursos Financeiros País de Origem Resumo da Iniciativa

Portosol (1995, no Rio Grande de

Sul) Brasil

Realiza financiamentos para o desenvolvimento de pequenos empresários e pessoas que trabalham por conta própria. Vivacred (1996, no Rio de

Janeiro). Brasil

Atendimento em prol dos

microempresários urbanos,

comerciantes, artesãos e pequenos prestadores de serviços, integrados aos setores formal ou informal da economia.

Crediamigo (1997, em Fortaleza

– CE). Brasil Apoio econômicas informais urbanas. às micro atividades Fonte: Elaborado pelo autor com base em Guerra (2008).

Países vizinhos ou de influência latina também possuem iniciativas pioneiras, a exemplo do Banco Sol, na Bolívia; a Caja Social, na Colômbia, o MiBanco, no Peru e o Compartamos, no México (NERI, 2008, p. 28-29).

Ainda paira nas obras literárias certa confusão entre o que seja microfinanças e microcrédito, haja vista a utilização de qualquer desses termos em contextos variados.

Neri (2008), procurando esclarecer a questão, comenta:

O microcrédito se encaixa no campo das microfinanças e envolve o fornecimento de crédito a clientes não atendidos pelo setor bancário tradicional, abarcando apenas o setor de empréstimos. Já microfinanças referem-se a uma gama de serviços financeiros diversos, que incluem microcrédito, micropoupanças, microsseguros, crédito imobiliário, remessas de imigrantes, para citar apenas os principais (NERI, 2008, p. 29).

Como pode ser visto, o microcrédito está contido no campo das microfinanças e se restringe à concessão de crédito a um determinado público, segundo os requisitos e parâmetros definidos pelo seu operador, abrangendo, no caso brasileiro, atividades produtivas. Após o advento da revolução industrial é sabido que o trabalhador ficou a mercê da manufatura e uma vez que não contava com a propriedade, tinha em seu favor apenas sua expertise pessoal. Assim, subordinado ao progresso técnico, ficou impossibilitado de voltar às atividades artesanais e mesmo possuindo determinadas qualificações passou a enfrentar

57 dificuldades para se encaixar em alguma ocupação profissional. Isso os obrigou a trabalhar por conta própria, e, consequentemente, a fundar seus próprios microempreendimentos (COSTA, 2010).

Toda atividade econômica precisa de capital para se mostrar efetiva em suas finalidades, quer de cunho próprio, quer de terceiros, sendo o maior ou menor volume que estiver sob o seu controle o propulsor da sua dinâmica enquanto negócio.

Nem todos os agentes produtivos têm acesso ao crédito motivado por várias razões. Todavia, como pode se observar em livros e publicações que tratam sobre esta questão, isso se verifica com veemência no tocante aos empreendedores menos favorecidos, sem condições de levantar recursos em estabelecimentos bancários de grande porte, particularmente em função do que Neri (2008, p. 30-32) chama de Assimetria de Informações. Referido aspecto é traduzido como a falta de conhecimento que o credor tem perante as verdadeiras intenções do tomador de pagar o empréstimo, constituindo-se numa grande barreira, além de se revestir em preconceito e talvez a perda de lucros com a transação para ambos os lados.

Esse clima contribui para que os microempreendedores ainda fiquem nas mãos de agiotas ou se financiem com base em outras fontes de capital, como aposentadorias e programas governamentais de transferência de renda, a exemplo do Programa Bolsa Família, do Governo Federal Brasileiro.

O caminho de quebra desse paradigma veio da Ásia, através do Grameen Bank, quando foi comprovada a possibilidade de se emprestar a pobres pequenas quantias, estabelecendo confiança e dignidade àquelas pessoas, conforme fragmento de Costa (2010):

Yunus percebeu que as necessidades financeiras eram extremamente reduzidas. Podia-se emprestar pouco a muitos. As pequenas amortizações e o “aval solidário”, intra-grupo de devedores, garantiriam baixíssimo nível de inadimplência. Sua

revolução financeira foi dar crédito ao trabalho, quando sempre se deu ao capital.

Os “bancos dos pobres” não fornecem crédito direto aos consumidores. Seus empréstimos são dirigidos aos produtores. São créditos para investimentos em ferramentas e matérias primas. Os trabalhadores adquirem meios de produção. As mulheres, devedoras prioritárias, tornam-se as maiores responsáveis pelas finanças

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domésticas. Elas se emancipam. A revolução do microcrédito é também revolução

feminista contra o patriarcalismo. Logo adiante, prosseguindo o negócio, elas

necessitam de informações. Buscam educação. Torna-se, então, revolução cultural. (COSTA, 2010, p. 3).

Em sintonia com essa colocação Guerra (2008, p. 31) resume de maneira competente os objetivos do microcrédito que pairam na literatura:

Combater a pobreza e o desemprego, através do fortalecimento das atividades econômicas de pequeno porte, substituindo as formas assistencialistas de atender a população de menor poder aquisitivo. (TANURI, 1997).

Promover a experimentação, não lucrativa, de novos modelos sócio-produtivos e de sistemas alternativos de produção, comércio, emprego e crédito” que atendam a população de baixa renda, de forma a criar condições de sobrevivência, auto- sustentatabilidade, crescimento e formalização dos pequenos negócios (Lei 9.790, de 23.03.99, art. 3▫, alínea IX). (BRASIL, 1999).

Promover a implantação, a modernização, a ampliação e∕ou diversificação de atividades capazes de gerar e manter trabalho e renda, em bases auto-sustentáveis, com base em investimentos de pequeno valor, com respaldo principalmente no sistema de crédito solidário (Resolução n▫ 59 do CODEAFAT de 25 de março de 1994). (BRASIL, 1994).

Elevar a produtividade dos empreendimentos, através do incentivo fixo associado à capacitação técnico-gerencial do empreendedor, de forma a minimizar o risco do negócio, possibilitar o seu crescimento e estimular a formalização das microempresas. (SÃO PAULO, 1998).

De acordo com a legislação brasileira podem operar com microcrédito as seguintes instituições: Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs); Programas de Governo Locais (conhecidos como “bancos do povo”); Sociedade de Crédito ao Microempreendedor (SCMs); Programas de Bancos Comerciais; e Cooperativas de Crédito (GUERRA, 2008, p. 34).

Tal disciplinamento contribuiu para fomentar o crédito na direção dos microempreendimentos, abrindo o caminho para o registro oficial de muitos deles no ambiente fiscal do país e fazer desaparecer a resistência de algumas instituições financeiras

59 que não acreditavam na viabilidade de empréstimos concedidos a agentes produtivos que ainda atuam no berço da informalidade brasileira.

Benzer Belgeler