5. BÖLÜM: SONUÇ VE ÖNERİLER
5.1. SONUÇ
Conforme já foi bastante debatido, nos conceitos de bioética, bem como em seu âmbito de atuação, vislumbra-se a afirmativa de Potter no que se refere à demonstração de que a aludida disciplina pode ser entendida a partir da consideração do casamento entre os elementos: conhecimento biológico e valores humanos.
O primeiro pode ser entendido a partir do aprimoramento das técnicas da prática médico-científica, culminando no surgimento de ciências como a biotecnologia. Já o segundo, considera valores humanos, busca evitar que sejam causados, novamente, danos ao ser humano mediante a utilização irresponsável ou desmedida do primeiro elemento.
No intuito de destacar a aludida observância aos valores humanos, vale ressaltar que a bioética e o biodireito andam lado a lado com os Direitos Humanos, não podendo,
portanto, abster-se de interferir em determinada situação, quando constatadas injustiças contra a pessoa humana, causadas pelas tentativas e/ou pela aplicação das novas técnicas da biotecnologia. Utilizadas, sob a justificativa de se buscar alcançar o progresso científico, em favor da humanidade.
Uma vez que contraria as regras ético-jurídicas dos direitos humanos, deverá ser repudiado qualquer ato que ponha em risco a pessoa humana. Neste sentido, Maria Helena Diniz (2007. pp.18/19) nos chama a atenção para a importância de se manter uma constante e necessária observância quando da aplicação de práticas científicas envolvendo a vida, para que não haja violação dos direitos humanos.
As práticas das “ciências da vida”, que podem trazer enormes benefícios à humanidade, contêm riscos potenciais muito perigosos e imprevisíveis, e, por tal razão, os profissionais da saúde devem estar atentos para que não transponham os limites éticos impostos pelo respeito à pessoa humana e à sua vida, integridade e dignidade.
Em outras palavras, intervenções científicas sobre a pessoa humana, as quais podem acarretar riscos à sua vida ou à sua integridade, deverão sempre subordinar-se a preceitos éticos, não devendo ferir os direitos humanos.
As conjecturas de Van Rensselaer Potter sobre o vocábulo “bioética” destacam dois elementos considerados os mais respeitáveis para se conseguir uma prudência de ação neste campo científico, os quais julgam imprescindíveis, quais sejam: “o conhecimento biológico relacionado aos valores humanos.” (POTTER, 1971, p. 02). Essa proposta de Potter de agregar biologia8
Por um lado, um vultuoso desenvolvimento tecnológico despertou dilemas e discussões éticas imprevistos e inesperados. Por outro, o ano de 1960 constituiu, também, o momento da conquista dos direitos civis, fortalecendo o reaparecimento de e ética constitui o que atualmente se estabelece como a essência da bioética.
De qualquer modo, é importante reconhecer, a partir da consideração desses elementos quais foram as mudanças ocorridas nos anos 1960, sobretudo nas conjunturas social, política e tecnológica, e que estimularam o nascimento da bioética.
Durante a aludida década, afluiram dois consideráveis processos de mudança nas sociedades, os quais, definitivamente, assinalaram sua essência: o primeiro na área das ciências e o segundo na moralidade.
8 Biologia é percebida em sentido amplo, como o bem-estar dos seres humanos, dos animais não-humanos
movimentos sociais organizados, como: o feminismo, o movimento hippie e o movimento negro, entre diversos grupos de minorias sociais, causando, com isso, a restauração das discussões temáticas da ética normativa e aplicada. Esses diferentes movimentos sociais trouxeram à tona questões relacionadas à diversidade de opiniões, ao respeito pela diferença e ao pluralismo moral. (DINIZ & GUILHEM, 2008, pp. 15/17).
O advento da bioética pode ser focado, assim, como o basilar retorno, na área ética, a uma cadeia de acontecimentos ocorridos entre os anos 1960 e 1970. Ainda nesse momento inicial de surgimento, colaboraram para que a bioética fosse definida como um novo campo disciplinar as denúncias, cada vez mais constantes, relacionadas às pesquisas científicas com seres humanos, tema intensamente estimulado pelas histórias de barbariedades cometidas por pesquisadores, nos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial.
Além da progressiva abertura da medicina aos “estrangeiros”, David Rothman (1991) denominou, em seu livro Strangers at the Bedside: a History how Law and
Bioethics Transformed Medical Decision Making9
Os progressos científicos e tecnológicos começaram a ameaçar a tranquilidade do processo ético na tomada de decisões da prática médica, tendo em vista a gama de novas situações e questionamentos advindos da dimensão alcançada pelos progressos, situações que poderiam colocar em risco o ser humano.
: que, primeiramente os filósofos, os teólogos e os advogados e, depois, os sociólogos e os psicólogos passaram a opinar sobre a profissão médica, porém sob outras perspectivas profissionais. (DINIZ & GUILHEM, 2008, pp. 17/20). No decorrer da história da medicina, houve, de forma progressiva, o vultoso interesse de profissinais das mais variadas áreas pelo campo de atuação médica.
Neste diapasão, conforme verificado, constitui-se a bioética na preocupação em se harmozinarem as novas técnicas científicas adquiridas através da evolução do conhecimento biológico - com o advento e aprimoramento de biotecnologias - e a proteção do ser humano, evitando que este venha a sofrer danos ou abusos em sua integridade ou dignidade, em nome da aplicação das aludidas técnicas e conhecimentos.
Conforme preconiza George Sarmento (2002, p. 201), a bioética é uma prática que colabora para garantir e construir a dignidade dos seres humanos. Diante dessa
9 Estrangeiros à Beira do Leito: uma História de como a Bioética e o Direto Transformaram a Medicina.
afirmativa, pode ser entendida como importante instrumento de proteção dos seres humanos, tendo em vista que, em nome de sua observância, poderão ser evitados abusos à dignidade da pessoa humana, diante do advento e manejo de práticas médicas ou científicas que façam uso do processo da biotecnologia.
Em nome do progresso da ciência, muitos abusos já foram cometidos. Por esta razão, não se pode desconsiderar a importância da bioética, demonstrando o imprescindível casamento entre o conhecimento biológico e a observância dos valores humanos. Valores os quais se continuará a discorrer no capítulo subsequente.
1.2. Biodireito: a reação jurídica ao advento de novos procedimentos na área