Joana de Cusa (na Palestina, Lucas 3:27), Santa Clara de Assis (na Úmbria), Sóror Juana (no México) seria Joanna de Ângelis, o espírito que prefere utilizar a personalidade feminina para se comunicar e que seria guia, inclusive mãe de Divaldo Pereira Franco na vida como Joana de Cusa, fundador da Mansão do Caminho, onde estivemos em 2012, Salvador e encontramos um “bairro espírita” com tudo que o Espiritismo considera relevante: escola formais, de música; maternidade modelo especializada somente em partos normais; editora de livros; centro espírita e muitos voluntários e funcionários técnicos (o espiritismo não admite atividades doutrinárias remuneradas, tampouco cobrança de direitos autorais por livros psicografados, fazer isso é cair em desgraça).
Divaldo Franco se aposentou no serviço público e só após passou a ter dedicação integral, é pai adotivo de 600 crianças que adotou durante 70 anos de atividade espírita e 90 de idade e mais duzentas obras psicografas. Estivemos com ele pelo menos duas vezes durante nos últimos dois anos. O jeito descontraído impressiona pela idade avançada. Uma das vezes, durante o 8º Congresso Espírita do Rio Grande do Sul, em 2015, nos disse que não bastava levar ajuda material sem apoio moral em referência a um projeto social que conversávamos a ser implementado em Torres, num bairro carente, aqui o mecanismo de coping religioso e hierarquia da capital moral frente ao capital distributivo fica evidente para ele. Noutra oportunidade, numa palestra do congresso, disse ao público que a crise do Brasil era moral, mas que o mundo estava melhorando e era preciso amar, seguir a Jesus.
O livro Encontro com a paz e a saúde (2014), que seria do espírito Joanna de Ângelis, “psicografada” por Divaldo Franco, especifica os critérios de relevância nas categorias de reconhecimento e/ou de reificação, entre os sexos, no mais psicológico dos “espíritos” do Espiritismo:
A predominância do ego sobre o Self responde pela crise de conduta, em razão da fragmentação do que deveria ser a unidade psicológica do ser, trabalhando impulsos descontrolados pela ambição do ter, ao invés da natural busca do ser. Nessa ocorrência, a sombra escura arquetípica projeta-se exteriormente, gerando instabilidade emocional, em face da perda do senso de elevação e de construção da individualidade sob o impacto da personalidade em desalinho (Franco/Ângelis, 2014, p. 50).
Apontando possíveis causas dos dilemas humanos a obra psicológica de Jonna de Ângelis (Divaldo Franco) é um dos eixos de estudo da Associação Médico-Espírita do Brasil (AME-Brasil), que inclui profissionais da saúde. Portanto, os textos são tratados como referência, uma metaciência, associando saúde e espiritualidade. Bernardo Lewgoy (2006) mostra que há uma luta por hegemononia de significado no sentido de definir ciência e religião, no qual os espíritas pelo sincretismo a que estão associados, bem como algum grau de destradicionalização, podem ir de um extremo ao outro de acordo com a pessoa a quem estiverem se dirigindo. Isso ficou evidente num continuum das palestras complexas da pedagoga Sandra Borba no 8º Congresso Espírita do Rio Grande do Sul até as mais simples, basicamente centradas na resiliência, do Caminho da Luz em Torres/RS.
Joanna/Franco (2014, p. 75 e ss.) abordam machismo, feminismo e direitos igualitários. Sendo que através de um espiritualismo associado à evolução das espécies desenvolve argumentos que sugerem processos atávicos do desenvolvimento de corpos e mentes, mas com ênfase no segundo: “um dos fatores que se encarregam de produzir conflitos
nos relacionamentos em geral e particularmente na área afetiva, é a imaturidade psicológica do indivíduo” (Franco/Ângelis, 2014, p. 75). De tal comentimento derivaria o problema dos grupos humanos, numa ideia bem honnethiana (2013c) de evolução moral.
Joanna (Franco) “escreve” sobre o machismo com uma verve bastante forte, como o faz com todas as propostas materialistas, do mundo capitalista ao comunista, e depõe que o machismo nasceu da figura mosaica de um Criador antropomórfico:
na condição de Pai instável, alimentando essa construção arquetípica, na pessoa de Adão, de quem fora retirada uma vértebra para produzir a mulher, mantendo-a como parte do seu corpo, tornando-a submissa em face de pertencer-lhe desde a origem (Franco/Ãngelis, 2014, p. 77).
Assim, segue na sua reconstrução do machismo, dizendo que ao consolidar a dependência da mulher, ela tornou-se objeto de uso masculino que lhe dispôs para fins sociais, domésticos e reprodutivos, sem qualquer consideração. O processo de formação (Bildung) na esfera da religião seria o framing marcante na construção da relevância (ou irrelevância) feminina:
Em decorrência, a partir daquele momento, prolongar-se-á, nas diversas religiões do oriente e do ocidente, a condição de inferioridade feminina, quando os seus profetas ou criadores de cultos, todos pertencentes ao sexo masculino, vedaram-lhe o direito a participar das celebrações, chegando mesmo ao absurdo de declarar que ela não possuía alma, num profundo desrespeito ao ser humano que é, tendo-se em vista que, mesmo os animais são portadores dessa essência ou psiquismo em desenvolvimento, transitando, nessa fase, com a denominação de alma (Franco/Ângelis, 2014, p. 78).
Nesse sentido vemos que o Espiritismo, se coloca como parte criticante do processo de construção histórica do papel da mulher (Franco/Ângelis 75 e ss.) no sentido das assimetrias na “esfera da estima”, conquanto ocorram divergências conceituais entre os critérios de degradação, vexação nas análises acadêmicas envolvendo relações entre os sexos. Na obra de Joanna de Ângelis (Franco) é criticada a postura de Santo Agostinho e Freud ao evitar/falar das mulheres. Segue sua verve enaltecendo a marcha de 8 de março de 1857, em Nova Iorque, que culminou na morte de 129 tecelãs. Critica a renda 60% menor, segundo “ela”, das mulheres em relação aos homens. Critica ainda, a intolerância na China na supressão das mulheres ao nascerem, como de governos imediatistas que implementam o aborto diante de tantas possibilidades de anticonceptivos (aborto e homicídio são equivalentes para o espiritismo). Esses aspectos constituem uma alteridade à moda espírita, construindo relevâncias que propõe alterar a estimas dos papéis femininos e incluí-los noutra ordem:
Ninguém pode obstar a marcha do progresso, impedir a luminosidade do Sol, e o machismo começou a ceder espaço à compreensão dos direitos femininos, quando
constatou que a sociedade é formada por ambos os sexos e o futuro, sem qualquer dúvida, alicerçar-se-á, desde hoje, na estrutura emocional, moral e cultural da mulher.
O “espírito” Joanna de Ângelis faz uma apologia às mulheres feministas que lutaram por seus direitos, afirmando que a biologia não é a fatalidade na definição da capacidade mental, cultural, quebrando as primeiras cadeias de intolerância (Franco, 2014, p. 84). Mas também, pede cautela ao “feminismo de revide”, sendo que a mulher tem um compromisso especial com a maternidade, então, ali, se unem as crenças espíritas com da reencarnação, com a transformação social por uma moral combativa da, e pela caridade. Segundo Aubrée e Laplantine (2009, p. 242, a acolhida a gestantes, sobretudo pobres, é uma características comum à maioria dos centros. Um outro fator, que dá ao feminismo das espíritas um caráter diferente, que se coaduna com a proteção de todas as formas de vida que a doutrina milita, é apontar uma causa da síndrome pós-aborto75 em mulheres que o provocam, atribuída em parte a mecanismos de obsessão espiritual, muitas vezes pelo próprio “espírito” abortado (Transição, 2013). Na frase de Marlene Nobre, então Presidente da Associação Médico- Espírita do Brasil (Transição, 2013, 23’44’’) a visão do comunitarismo espírita:
Uma civilização que não defende os fracos, os oprimidos, os simples, os indefesos, não é digna de ser chama civilização. Porque não entendemos o sentido da vida: o que é que nós estamos fazendo aqui, da onde nós viemos, qual a finalidade da vida, para onde vamos?
Com essa abordagem podemos ver que a dor e a sensibilização é estratégia de “desenvolvimento de equivalência” central para o espiritismo, na medida que, tocado pela dor do outro, se agiria de maneira diversa, independente da fórmula simples de dogma religioso ou crítico76 e a terepêtica será pela reforma íntima, segundo Joanna de Ângelis, a vida é puramente psicológica. O médium Divaldo Pereira Franco (Transição, 2013, 25’05’’) anui que ninguém pode gerar culpa uns nos outros, dessa forma tantas quanto cheguem ao movimento espírita deverão ser acolhidas, estimulando a reparação, sobretudo na prática do bem, cita que Jesus protegeu e não condenou a mulher adúltera.
75 Ver Anne Nordal Broen et al.: The course of mental health after miscarriage and induced abortion: a longitudinal, five-year follow-up study (2005).
76 Sugerimos a leitura do Capítulo 4 de Encontro com a paz e a saúde (2014, p. 75 e ss.), de D. Franco/J.