Continuando, o reconhecimento ocorreria quando foi atingida uma “equivalência” numa categoria ou critério de relevância. Entendemos aqui, que essa relevância é “movida” num processo de “formação”, este último abordado por Honneth (2007, p. 138) como “polimento da particularidade”, que resulta num processo de “libertação”, o que nos interessa sobremaneira no estudo das mulheres no movimento espírita.
O amor teria uma função central no processo de formação da autoconsciência, sendo para Hegel, como já citamos, um “pressentimento da eticidade” (Honneth, 2009b, p. 79-80): “falar do amor como um "elemento" da eticidade pode significar em nosso contexto que a experiência de ser amado constitui para cada sujeito um pressuposto necessário da participação na vida pública de uma coletividade”. Tal consideração é importante para o desenvolvimento bem-sucedido do ego, sob certas condições emotivas, na qual ser reconhecido de forma intrínseca é fundamental.
Pode-se dizer que o amor recíproco, geraria o desenvolvimento da autoconfiança e, posteriormente, da identidade, capaz de confirmar o indivíduo em sua natureza instintiva particular. A consubstanciação do amor romântico (sexual) de Hegel, na finalização do “filho” oriundo dos amantes, dentro de nossa sociedade capitalista, não poderia ser entendida sob formas de cooperação criadoras da realidade social, do qual os sujeitos acabam desenvolvendo um sentimento afetivo, mesmo sobre realizações materiais? Não seria o caso quando um casal adquire um carro desejado, um cachorrinho entra na família, enfim, a projeção social do amor encontra ressonância na consubstanciação de qualquer “produto afetivo”, como formador de eticidade, guardadas as devidas proporções na questão do sentimento.
Honneth em Sofrimento de Indeterminação (2007, p. 138) mostra que Hegel estabelece a ligação com a ideia de “formação” já no parágrafo 6 de seu capítulo sobre a “sociedade civil”, na sua Filosofia do Direito. A transformação de carências particulares em interesses, ou seja, para a sublimação do instinto:
[...] também é necessária a capacidade de articulação dos próprios desejos particulares em uma linguagem que em geral seja suficiente para poder transmitir um interesse em face de outra pessoa. Esse “polimento da particularidade” […] o que Hegel descreve aqui como um “adentrar-se para formar” na necessidade externa e por sua vez, concebe como um processo de “libertação”: “Essa libertação é no sujeito o duro trabalho contra a mera subjetividade do comportamento, contra a imediatez dos desejos, assim como contra a vaidade subjetiva do sentimento e o arbítrio do capricho. É por esse trabalho de formação, porém, que a própria vontade subjetiva ganha dentro de si a objetividade na qual, unicamente, por sua parte, ela é digna e capaz de ser a efetividade da idéia” […]. Assim como a participação na vida da família exigia o aprendizado de um jogo de linguagem com características afetivas, a participação na esfera do mercado capitalista exige a formação de competências sociais da racionalidade com respeito afins; em ambos os casos, contudo, somente a participação na respectiva práxis de ação que leva a que os processos necessários de aprendizado possam ser efetivados e as respectivas capacidades aprendidas.
O processo acima descrito é reorganizado por Honneth (2007, p. 142) como uma indicação da necessidade de uma divisão democrática do trabalho, “que fornece aos sujeitos um sentido para a universalidade de suas atividades individuais”, dentro de uma forma de “liberdade pública”. Honneth (2007, p. 145) esclarece que Hegel teria sido mais efetivo ao emoldurar uma ordem moral capaz de assentar a liberdade nas esferas éticas da família, da sociedade civil e do Estado como relações de reconhecimento, assim a formação democrática da vontade, como esfera política, seria almejada na elaboração institucional dos espaços de liberdade.
Agora, compreendendo o amor como relevante no processo de formação da vontade democrática, pela sua viagem no desenvolvimento do indivíduo até a consolidação da liberdade na esfera do Estado, podemos supor que encontramos boa parte da razão da existência do Estado, que é o de fomentar relações morais capazes de impedir a reificação e proporcionar o maior reconhecimento possível, sobretudo nas relações afetivas. Para dirimir esta dúvida, perguntemos onde ocorrem os estupros, os homicídios, as violências arbitrárias com profundo impacto na vida do indivíduo, sobretudo nas relações primárias? Isso por si só confirmaria a primazia dos aspectos morais na autorrealização do indivíduo sobre os distributivos, não que os últimos sejam dispensáveis, evidentemente, mas apresentamos aqui a ideia de que existe um problema crasso na educação, cuja formação malsucedida do ego dos sujeitos estertora a busca por uma autorrealização patológica, levando inclusive a
naturalização do racismo, do machismo, da irrelevância da vida humana. Nesse sentido, pertinente lembrar citação de Honneth (2014, p. 175), que diz: “Bárbaro é [...] o conflito social hoje porque a luta por reconhecimento perdeu a tal ponto os seus fundamentos morais nas últimas décadas, que ela se metamorfoseou em um cenário de crescimento descontrolado da autoafirmação”.
Entre as propostas do desenvolvimento da eticidade de Hegel comentadas por Honneth (2007b) está a relevância do dever como “liberdade real”, ética. Essa junção entre liberdade e determinação, se dará por meio intersubjetivo, que se instaura a partir de uma intensa reelaboração dos impulsos humanos, experenciada, por exemplo, nas relações de amizade, amor como autodeterminação, como um ser-consigo-mesmo-no-outro (Honneth, 2007b, p. 61; 77-78).
Assim, os processos de “formação” da eticidade podem explicar o por quê em cenários sociais tão similares, existem diferenças tão acentuadas como no caso dos Estados Unidos e do Canadá, na questão de homicídios por arma de fogo (Nóvoa, 2006), citando um simples exemplo do documentário Tiros em Columbine, o que pode ser replicado para a condição diferente de vida das mulheres comparadas aos homens (da mesma religião, ainda mais, supondo que muitos são casais) no presente estudo, cujos conceitos foram construídos após a pesquisa de campo, com seis anos de investigação.
3.5 Relevância: âncora (memória) cognitivo-comunicativa em relações de