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A Análise Textual dos Discursos de Jean-Michel Adam constitui-se como uma proposta para a análise dos textos, pois apresenta uma reflexão epistemológica e uma teoria do conjunto. Para o autor,

o texto é, certamente, um objeto empírico tão complexo que sua descrição poderia justificar o recurso a diferentes teorias, mas é de uma teoria desse objeto e de suas relações com o domínio mais vasto do discurso em geral que temos necessidade, para dar aos empréstimos eventuais de conceitos das diferentes ciências da linguagem, um novo quadro e uma indispensável coerência (ADAM, 2008, p. 25).

Neste momento do trabalho, apresentamos os conceitos desenvolvidos por Adam (2008) que estão na pauta atual dos estudos linguísticos do Brasil, pois apresentam a proposta de uma Análise dos Textos nos Discursos. Sua importância é indiscutível, pois o autor estabelece diferentes sequências que se constituem, atualmente, como uma categoria de análise muito utilizada nas descrições e nos trabalhos com os textos, que não envolvem apenas o ensino, mas de maneira ampla, todos os que se preocupam com esta tarefa.

O objetivo do autor é a articulação entre o texto, o discurso e o gênero, redefinindo os campos da Linguística Textual e da Análise do Discurso. Para Adam, a Linguística Textual deve ser concebida como uma teoria da produção co(n)textual de sentido, fundamentada na análise de textos concretos. Por isso, em sua proposta, há uma relação entre os níveis de análise do discurso e os níveis da análise textual, pois, ao trabalhar com as operações de contextualização, o autor estabelece categorias de análise segundo os elementos que estabelecem o elo de ligação entre os enunciados.

O autor entende que a Análise Textual dos Discursos se coloca como um subdomínio, com o objetivo de

teorizar e descrever os encadeamentos de enunciados elementares no âmbito da unidade de grande complexidade que constitui um texto. Ela tem como tarefa detalhar as ”relações de interdepência” que fazem de um texto uma “rede de determinações” (WEINRICH, 1973, p.174).

A linguística textual concerne tanto à descrição e à definição das diferentes unidades como às operações, em todos os níveis de complexidade, que são realizadas sobre os enunciados (ADAM, 2008, p.63).

Para Adam, o nível discursivo ocorre na interação social e a partir de uma formação discursiva dada, utilizando o dialeto social e o gênero discursivo como elemento mediador entre o discurso e o texto. Para este trabalho interessa, principalmente, os estudos de Adam (2008) dos níveis e das unidades textuais: as proposições, os períodos, as sequências e os planos de texto.

No que se refere às proposições, Adam entende que a frase não pode ser a unidade elementar de análise, mas sim a “proposição-enunciado ou proposição- enunciada”, que corresponde a “uma unidade textual de base, efetivamente realizada e produzida por um ato de enunciação, portanto, como um enunciado mínimo” (ADAM, 2008, p.106). É, ao mesmo tempo, uma microunidade sintática e de uma microunidade de sentido em co(n)texto. Em síntese, pode ser expressa como uma unidade de predicação. Assim, as unidades textuais de base, que são

as proposições-enunciados, estão sujeitas a dois grandes tipos de agrupamentos que as mantêm juntas: os períodos e as sequências.

No que se refere aos períodos, um termo adotado por Adam e que não estabelece relação com o conceito tradicional gramatical, são as unidades mais complexas e que entram diretamente na composição de partes de um plano de texto; as sequências são as unidades textuais complexas, compostas de um número limitado de conjuntos de proposições-enunciados, as macroproposições. São unidades de estruturação textual e resultam de variadas formas de ligação.

Já o período é uma unidade linguística que possui sentido completo, garantido pelas conexões gramaticais, pelo sentido ou conjunções e ritmo. A noção apresentada por Adam tem sua origem na retórica oratória, que apresenta a vantagem de estar ligada à oralização da escrita. Para as obras de retórica havia a definição, então, de que o período era uma frase complexa, cujo conjunto formava um sentido completo e para cada proposição constituía um membro, o último formando um fechamento ou cláusula.

Assim, os períodos podem ser entendidos como estruturas rítmicas sem conectores, com ritmo simples, se ocorrer de na mesma posição sintática, uma sequência sintagmática for interrompida pela interação de dois, três ou quatro termos; ritmo composto, cada vez que ocorrer um retorno para uma posição sintática anterior.

Para Adam, a macroproposição é uma espécie de período cuja propriedade fundamental é a de ser uma unidade ligada a outras macroproposições, ocupando posições definidas dentro do todo ordenado da sequência textual. Cada uma delas adquire seu sentido em relação às outras, na unidade hierárquica complexa de sequências. Elas entram na composição de uma sequência dependendo de combinações pré-formatadas de proposições.

No que se refere às sequências,

são unidades textuais complexas, compostas de um número

macroproposições. A macroproposição é uma espécie de período cuja propriedade principal é a de ser uma unidade ligada a outras macroproposições, ocupando posições precisas dentro do todo ordenado da sequência. Cada macroproposição adquire seu sentido em relação às outras, na unidade hierárquica complexa da sequência (ADAM, 2008, p.204).

As macroproposições, que entram na composição de uma sequência, dependem de combinações pré-formatadas de proposições. Essas diferentes combinações são definidas como narrativa, argumentativa, explicativa, dialogal e descritiva.

Partindo dos períodos e das sequências, que para Adam configuram-se como unidades composicionais de um texto, o autor afirma que “a descrição não comporta uma ordem de agrupamento das proposições-enunciados em macroproposições ligadas entre elas” (ADAM, 2008, p.215), e, justamente por isso, tem uma frágil caracterização sequencial, além de ter sido depreciada em sub-categorias assim descritas: descrição de pessoas – dividida em retrato moral (etopeia) e retrato físico (prosopografia); descrição de coisas, lugares (topografia e paisagem); tempo (cronografia) e animais de plantas.

Para fugir desse modelo limitador, Adam apresenta, em primeiro lugar, as operações de tematização pelo descritivo. Para ele, é a macrooperação principal: “dá unidade a um segmento e faz dele um período tão fortemente característico que aparece como uma espécie de sequência” (ADAM, 2008, p.216). Tal operação pode ser aplicada de três maneiras distintas e fundamentais para a construção do sentido:

1. Pré-tematização ou ancoragem: é uma denominação imediata do objeto que abre um período descritivo, e a partir daí, inicia um todo. 2. Pós-tematização (ou ancoragem diferida): é uma denominação adiada

do objeto, que apenas nomeia o quadro da descrição no curso ou ao final da sequência.

3. Retematização (ou reformulação): é uma nova denominação do objeto que reenquadra o todo, encerrando o período descritivo.

Em seguida, Adam apresenta as operações de aspectualização, como sendo macrooperações apoiadas nas tematizações e que podem ser agrupadas em duas operações: a fragmentação (seleção das partes do objeto da descrição) e a qualificação (que evidencia as propriedades do todo e/ou das partes selecionadas pelas operações de fragmentação).

Já para as operações de relação, duas macrooperações são descritas: relação de contiguidade (situação em um tempo histórico determinado e especial, que contempla o objeto do discurso e outros objetos) e relação por analogia (que é a assimilação comparativa ou metafórica).

Por último, as operações de expansão por subtematização, quando a descrição básica é expandida pelo acréscimo de outras operações.

Já para a sequência narrativa, Adam (2008, p.224) destaca que

por um sentido amplo, toda narrativa pode ser considerada como a exposição de “fatos” reais ou imaginários, mas essa designação geral de “fatos” abrange duas realidades distintas: eventos e ações.

A distinção é de que a ação pode ser caracterizada pela presença de um agente, que pode provocar ou evitar uma mudança. Já o evento ocorre sob o efeito de causas, sem a interferência intencional de um agente. Por esta razão, as possibilidades de construção das narrativas dependem do seu grau de narrativização, que pode variar de uma simples enumeração de uma sequência de ações, com baixo grau de narrativização ou até de tramas com alto grau de narrativização.

Para Adam, a aplicação de um esquema requer um processo interpretativo de construção de sentido e, citando Todorov e Larivaille (ADAM, 2008, p.224), “o autor retoma a estrutura hierárquica dos autores constituída de cinco macroproposições narrativas de base”: antes do processo (m1), o início do processo (m2), o curso do processo (m3), o fim do processo (m4) e depois do processo (m5).

Finalmente para a estrutura argumentativa, Adam afirma que uma sequência argumentativa coloca em evidência dois movimentos importantes: demonstrar e justificar uma tese e refutar uma tese ou certos argumentos de uma tese adversa. Neste caso, o movimento é o mesmo, pois parte-se de premissas que, se comprovadas, implicam reconhecer determinada conclusão-asserção.

Partindo do princípio dialógico, Adam assevera que defender uma tese ou uma conclusão sempre coloca em discussão outras teses ou conclusões. Por esta razão, sua proposta de sequência argumentativa contempla a contra- argumentação.

Basicamente, seu esquema comporta dois níveis:

1. Um nível justificativo – a estratégia argumentativa é dominada pelos conhecimentos apresentados.

2. Um nível dialógico ou contra-argumentativo – a argumentação é negociada com um contra-argumentador.

Neste capítulo apresentamos um panorama geral dos estudos fundamentados na Linguística Textual por acreditar que tal vertente teórica é essencial e deve servir de referencial para os estudos e as propostas a serem implantadas e discutidas no Ensino Superior, sob pena de, inclusive nesta fase do ensino, continuarmos formando futuros professores que minimamente dominam o processo de leitura.

CAPÍTULO 4 - UMA PROPOSTA INTEGRADA DE LEITURA E A FORMAÇÃO

Benzer Belgeler