A pesca no lago de Tucuruí figura como uma das atividades mais importante na região, servindo como principal fonte de renda para milhares de famílias que ocupam as ilhas que formam o lago. Estudos realizados por Alves e Barthem (2008), Almeida, N. (2015), Cintra et al (2009), mostram que a pesca no lago, especialmente na RDS Alcobaça ocorre durante todo o ano, ora no período em que as águas encontram-se em nível elevado (de Dezembro a Maio), ora no período de seca na RDS (de Junho a Novembro), o que determina o tipo de pesca, os petrechos utilizados e consequentemente as espécies capturadas.
Dessa forma, levando em conta os dois períodos, de seca e cheia, das águas do lago, como pode ser evidenciado no com maiores informações no quadro 5, esta seção opta por descrever a organização social a partir das relações de parentesco no período de seca, usando como caso a pesca do tucunaré (Cichla spp.) Ainda que o período da seca seja o foco central da descrição, é importante apenas situar a pesca no período de cheia evidenciando de forma geral como ela é realizada.
A pesca em período de cheia envolve no máximo 3 pescadores, pois o petrecho utilizado frequentemente é a malhadeira, usando a técnica de rede de espera (o pescador estende a rede em determinado local do lago e depois de algumas horas verifica para fazer a despesca) ou rede de emalhar ( o pescador joga a rede e depois de alguns minutos puxa para fazer a despesca). Já no período de seca no lagoa pesca é feita exclusivamente por anzol na captura do tucunaré (Cichla spp.), sendo que a rede é utilizada apenas para capturar as iscas (ALVES; BARTHEM, 2008; ALMEIDA, N., 2015).
Nesse sentido, para essa atividade os pescadores se reúnem em grupos e se deslocam para determinada área dentro da RDS para realizar a pesca do tucunaré (Cichla spp.) que dura em torno de 3 a 4 dias. Nesse tipo de atividade pesqueira o que determina o tempo da pesca é o gelo usado para a conservação do pescado. A organização para a realização da atividade parte do dono do barco a motor, na região todos os pescadores possuem uma canoa a remo, mas são poucos os que têm barco a motor.
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Essa descrição parte do pescador Arú23 (dono de barco a motor) que organiza um grupo de 8 pescadores para a pesca do tucunaré (Cichla spp.). O critério de seleção repousa na relação de parentesco com os demais pescadores, ora por consanguinidade, ora por afinidade, mas o que determina a escolha é o parentesco. Aqui são considerados parentes consanguíneos aqueles que se originam na família do dono do barco, e os afins são aqueles que se originam da família da esposa do dono do barco.
No diagrama 4 podem ser observado 8 pescadores escolhidos pelo Sr. Arú para realizar a pesca do tucunaré (Cichla spp.), compondo o parentesco por consanguinidade destacam-se: o irmão mais velho, o primo paralelo da cunhada que é a esposa do irmão mais velho, o esposo da sobrinha que é o genro do irmão mais velho e o filho do primo paralelo. Na relação de parentesco por afinidade destacam- se: 2 primos da esposa e 2 cunhados – irmãos da esposa. O diagrama a seguir permite uma visualização sinótica sobre a relação descrita.
Para o dono do barco o que determina essas escolhas são essencialmente a relação de parentesco, pois essa relação permite um processo de confiança, respeito e compromisso. Tal contexto pode ser entendido por Augé (1975, p. 20), uma vez que “o parentesco não se reduz à família conjugal, mas preside, totalmente ou em parte, à formação de grupos sociais e à relação entre os mesmos, mas é uma parte que convém manejar com precaução”. De acordo com o Sr. Arú, nesse sentido, para ser selecionado para a pesca, não basta ser parente, tem que ter compromisso e responsabilidade, pois a pesca é um tipo de casamento e se não houver trocas justas nas alianças, a atividade pesqueira pode não ter lucro.
Dessa maneira, é necessário que todos colaborem para a compra do óleo para o motor do barco e o gelo para a conservação do pescado. Quando Chernela (1997) destaca a pesca e a hierarquização entre grupos indígenas no Alto Uaupés, a autora destaca a importância do casamento entre indivíduos do mesmo status para manter o grupo no topo social, mas também ressalta a importância da descendência no processo hierárquico para manutenção do grupo no topo da pirâmide social. Essa observação pode ser válida, também, para o caso da RDS, pois geralmente a venda do pescado fica por conta do dono do barco ou do irmão mais velho, que passam
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Com o intuito de resguardar o sigilo da identidade dos entrevistados, optou-se em criar nomes fictícios a partir de apelidos comuns na região.
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mais confiança para o grupo e têm um bom relacionamento com os compradores no momento da comercialização. Do total de pescado vendido, já é retirado o valor para a compra do óleo e do gelo para a próxima pescaria e o restante é dividido entre os 9 pescadores. O lucro do Sr. Arú como dono do barco, além da divisão da venda do pescado, vem com um valor de R$ 80,00 por pescaria, pois cada pescador lhe oferece R$ 10,00 pelo uso do barco.
Diagrama 4 – Organização social na atividade pesqueira no lago de Tucuruí, RDS
Alcobaça, a partir das relações de parentesco do dono do barco com os demais pescadores.
Fonte: Pesquisa de campo (2013, 2014, 2015, 2016).
Embora essas relações pareçam simples, em muitas sociedades tornam-se o grande problema pelas relações de troças24. O dono do barco relatou que já teve
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“A relação de troça autoriza e nalguns casos até obriga uma pessoa (ou os membros dum grupo) a troçar doutra (ou dos membros doutro grupo) sem que esta se possa ofender. Esta relação pode ser assimétrica, na qual cada uma das duas pessoas (ou grupo) troça uma da outra, ou assimétrica, se só uma das pessoas (ou um dos grupos) está autorizada ou tem obrigação de troçar da outra, não podendo esta ultima se ofender. Nalguns casos, aa troça é apenas verbal, mas pode ir para insultos e à obscenidade, e noutros entra em cena um elemento de brutalidade”. (AUGÉ, 1975 p. 58).
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problemas com parentes consanguíneos e afins que foram banidos do grupo da pesca por utilizar a relação de troça. Vale explicitar em detalhe. Para Augé (1975) e Radcliffe-Brown (1978) a troça em algumas sociedades é permitida sem que o indivíduo troçado possa se ofender, mas atualmente esses parentes troceiros não são permitidos no grupo de pesca do tucunaré (Cichla spp.), pois alguns parentes já foram banidos do grupo, dado que a relação pedeu o controle, ao passo que se degenerou. Assim, esses pescadores troceiros se aliaram a outros grupos até mesmo fora da RDS.
Augé (1975) ainda destaca dois polos extremos nas relações de parentesco. O primeiro onde a troça onde é permitida (principalmente entre o marido e a esposa) e o evitamento caracterizado como respeito (destacado pelo autor na relação entre sogra e genro, onde é evitado o contato social e por esse evitamento a troça não é permitida). No caso da pesca do tucunaré (Cichla spp.) na Alcobaça, a troça só é permitida se o pescador aceitar ser troçado e o evitamento é manifestado a partir do respeito uns com os outros e a confiança entre o grupo formando um sistema. Baseado nesse contexto, Radclifffe-Brown (1978) aponta que “a realidade de um sistema de parentesco, como parte de uma estrutura social, consiste nas relações sociais reais de pessoa a pessoa, conforme demonstrado pelas suas interações e pelo comportamento de uma com respeito à outra” (RADCLIFFE-BROWN, 1978, p. 70).
Desta forma, para a organização da pesca na RDS Alcobaça as relações de parentesco são fundamentais obedecendo todos os critérios de descendência, filiação, alianças, trocas justas, troças, evitamento e respeito para a formação do grupo.