1. CUMHURİYETİN KURULUŞUNDAN ÖNCEKİ YAŞANAN KÜLTÜREL
1.3. Osmanlı’daki Kültürel Değişimlerin Sanat Ortamına Yansıması
3.1.1. Siyasi ve Ekonomik Ortam
– Le jeu est fait! – Gritou o crupiê. A roda girou e saiu
treze. Perdemos!
– Mais! Mais! Mais! Aposta mais! – gritava a vovó.
Deixei de contradizê-la e, dando de ombros, apostei outros doze
friedrichsdors. A roda ficou girando muito tempo. A vovó tremia
literalmente, acompanhando-a com os olhos. Mas será que ela espera ganhar mais uma vez no zero? – pensei, observando-a, surpreendido. Brilhava-lhe no rosto a certeza absoluta de ganhar, a espera infalível de que, pouco depois, iam gritar: zéro! A bolinha pulou no quadrado.
– Zéro! – gritou o crupiê.
– Então?!! – voltou-se para mim a avó, com ar frenético
de triunfo.
Naquele próprio instante, senti que eu mesmo era um jogador. Tremiam-me as pernas e os braços, o sangue afluiu-me à cabeça.
Fiódor Dostoiévski9
Refletir sobre os discursos enunciados em torno do jogo em Teoria da Literatura e em Crítica Literária ou, ainda, a partir dos campos da Estética e da Crítica das Artes, é deparar-se com uma rede de distintas manifestações, cuja variedade de perspectivas, metodologias e linhas de trabalho destaca a produtividade de um operador discursivo extremamente polissêmico. Atravessado por uma densa trama de significações, que partem de epistemologias absolutamente diversas, desde as elucubrações da filosofia platônica,10 perpassando a psicanálise freudiana,11 até alcançar
9
DOSTOIÉVSKI. Um jogador, p. 114
10 Na República (308 a.C), Platão condena o artista, tachado de imitador, por desconhecer a realidade e
se valer da aparência. As atividades do poeta ou do pintor, como práticas de imitação, estariam afastadas da verdade e, portanto, da realidade, o que lhes concederia o status de jogo, compreendido como gratuito, desprovido de seriedade e capaz de enganar e enredar a alma, pela sedução das sensações. Insurgente discípulo de Platão, Aristóteles desenvolve, em Ética à Nicômaco, na sexta sessão do Livro X, uma reflexão sobre o que é a felicidade, que a dissocia do jogo e da diversão. Embora o jogo seja uma atividade de caráter autotélico que contribua para a felicidade, representa, antes, um meio, não o fim, já que consiste em uma pausa, ocasião de descanso, de descontração, entre a execução de outras atividades.
as práticas e os mecanismos preconizados pela Teoria dos jogos,12 subárea da Matemática Aplicada, e que, contemporaneamente, não cessam de lhe expandir os sentidos, o jogo é, sobretudo, uma noção plural. E cada teórico estabelece com ele a sua própria partida, deslocando sentidos, conferindo contornos próprios ao jogo que se atreve a jogar. Não obstante, é possível observar que os enfoques da ideia de jogo tendem a oscilar entre o estrato concreto e o abstrato de que está imbuída a noção.
De modo geral, podemos divisar que prevalecem duas abordagens principais em relação à temática do jogo nos estudos críticos e filosóficos. Concebido como realidade concreta, o jogo compreende a arquitetura geral da obra, que desenha signos e desloca significantes, manobra sentidos, encena os jogos da linguagem. É responsável por encadear os mecanismos de expressão e de conteúdo que fundam a criação, no fértil entrecruzamento de estética e de engenho. Por outra parte, empregado como figura abstrata, em seu caráter metafórico, o jogo remete à obra enquanto processo criativo. Ele investe o autor do papel de jogador e alude a uma “disposição lúdica”, suscitada livremente pela atividade simbólica, que contamina o receptor e o insere no jogo. O pensamento teórico que se pauta pela primeira concepção desenvolve uma metodologia de análise que considera o jogo em si como objeto de estudo, em suas formas e circunstâncias de realização. Em contrapartida, a segunda abordagem diz respeito à metadiscursividade, que inquire o jogo em sua simbologia, analisa os lugares de inserção da noção nas ciências e determina as condições de existência de uma episteme lúdica.
11 Na obra de Sigmund Freud, prolífica em referências ao jogo, destaca-se o ensaio “A criação literária e
o sonho desperto” (1908), que propõe que o jogo infantil, a brincadeira, seria a origem da imaginação
artística exercitada pelo adulto. A criação estética seria análoga ao jogo ou, ainda, um continuum deste, porque a obra literária, como o sonho diurno, constituiria “uma continuação e um substituto do jogo infantil de outrora” (FREUD. Essais de psychanalyse appliquée, p. 79). Cabe mencionar a célebre metáfora do jogo do xadrez, que introduz as bases da terapêutica psicanalítica em “Novas
recomendações sobre a técnica da psicanálise I” (1913). Já em “Além do Princípio do prazer” (1920), o aparecimento/desaparecimento do carretel lançado pela criança (jogo do “fort-da”) é o ponto de partida
da análise da relação entre jogo, transferência e prazer, em que jogar constitui uma espécie de apoderamento do sofrimento. A partir da observação da brincadeira praticada por seu neto, de um ano e meio de idade, Freud se detém sobre a compulsão à repetição de ações que não representam prazer, o que o leva a questionar a função do princípio de prazer e a concluir que ele não determina todo o processamento mental. Segundo ele, nesse proceder lúdico, a criança que encena a ausência/ presença da mãe, simbolizada pelo desaparecimento/surgimento do carretel, abriria mão de uma posição passiva na experiência da brincadeira, para assumir um papel ativo no jogo, transferindo o aspecto negativo e
desagradável da brincadeira para o seu “companheiro de jogo”.
12 Criada nos anos de 1930, a Teoria dos Jogos propõe um instrumental para a escolha das melhores
ações e a tomada das decisões mais pertinentes em situações estratégicas, de grande competição e alto risco. Ela analisa o comportamento estratégico dos agentes envolvidos em decisões interativas, em vários domínios, como a Economia, as Ciências Naturais (como exemplo, a Teoria do Caos), a Psicologia e a Sociologia.
Cindido entre tais extremos de teorização, o jogo constantemente ressurge como temática de investigação e se reinventa sempre, atualizando-se em novos escritos teóricos, sem que, no entanto, seja jamais completamente circunscrito. Sob um aspecto, o jogo é astúcia, habilidade mental de especular, surpreender, blefar, iludir, jogar junto, inscrever e articular sentidos, que provocam quem com eles se depara. Contudo, por outro ângulo, o jogo constitui, também, uma práxis lúdica, que manipula diferentes estratégias no jogo em questão, significa a partir das expressões formais que gera e constitui um todo de sentido que pode ser digno de apreciação estética e capaz de suscitar a beleza. Na consideração dessa condição essencial do lúdico, além dos enfoques referidos, um posicionamento intermediário, que reúne as duas perspectivas metodológicas de enfoque do jogo, começa a irromper, sobretudo, a partir da Modernidade, que propicia o surgimento de um largo espectro de formas lúdicas da arte. Por acreditar na produtividade dessa terceira via de trabalho, que congrega a teorização em torno da noção de jogo e a abordagem do fenômeno do jogo propriamente dito, o presente estudo visa a constituir uma contribuição consoante essa perspectiva.
Refratário a qualquer tentativa de demarcação rígida de seus contornos, de cristalização de uma essência lúdica em conceito estrito,13 o jogo se converte em uma noção de trabalho que, imperativamente, ganha sentido em conformidade com cada abordagem teórica ou prática crítica proposta, segundo a metodologia adotada e os objetivos do estudo realizado. Nessa esquiva à determinação, que lhe assegura uma pluralidade de possibilidades expressivas, o jogo se assemelha a outros relevantes operadores conceituais desenvolvidos pela Filosofia, como as noções de espaço e de escritura. E não por casualidade, encontra-se no cerne das reflexões desenvolvidas por Jacques Derrida sobre a Desconstrução, dirigida a inquirir o descentramento estrutural produzido no seio da metafísica ocidental. Evento que subverte a ideia de um significado uno ou privilegiado e converte o campo e o jogo da significação em algo sem limites.14
13 Ao analisarem o lugar do conceito na Filosofia, Gilles Deleuze e Félix Guattari endossam a
desconfiança nietzschiana acerca dos conceitos que não foram cunhados por si: “Os conceitos não nos
esperam inteiramente feitos, como corpos celestes. […] Nietzsche determinou a tarefa da Filosofia quando escreveu: Os filósofos não devem mais contentar-se em aceitar os conceitos que lhe são dados, para somente limpá-los e fazê-los reluzir, mas é necessário que eles comecem a fabricá-los, criá-los, afirmá-los, persuadindo os homens a utilizá-los.” (DELEUZE; GUATTARI. O que é filosofia?, p. 13- 14.)
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DERRIDA. A estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências humanas. In: _____. A escritura e a
Na observação do acontecimento de ruptura, produtor de um deslocamento que conduz à mobilidade do centro – presença, origem, essência, existência – e, por conseguinte, de uma fratura da significação, antes tida como dotada de um sentido último e transcendente, Derrida identifica que a cisão epistemológica irrompe a partir da emergência do que denomina de “discursos destruidores”. Além das contribuições teóricas determinantes de Martin Heidegger e Sigmund Freud, ele ressalta, especialmente, a importância da crítica realizada por Friedrich Nietzsche da metafísica e dos conceitos de ser e verdade, substituídos pelas noções de jogo, interpretação e signo. A partir do horizonte teórico inaugurado pelo pensamento nietzschiano, Derrida argumenta que a falta de um significado transcendentalmente fixado ocasiona uma abertura, um movimento de jogo no campo da linguagem, o que corresponde ao manejo da significação motivado pela suplementaridade.15 Logo, somos impelidos, enquanto intérpretes, a buscar preencher de sentido algo que já se encontra completo, mas que se apresenta inacessível como significado conciliador. Dessa possibilidade de jogo, que reelabora a estrutura de significantes mediante distintas perspectivas, advém, portanto, a liberdade de manejo dos sentidos, que nos permite conceber distintas interpretações acerca das criações sobre as quais nos detemos.
Quando se dedica ao exame da obra de Claude Lévi-Strauss, Derrida igualmente se atém à noção de jogo, que lhe desperta a atenção, por se encontrar sempre em tensão com a história na obra do antropólogo. Ao afirmar a relevância das noções de acaso e descontinuidade, inerentes ao contexto lúdico, no tratamento da “estrutura das estruturas que é a linguagem”,16
Derrida reitera a concepção de significação como um jogo que se faz e se refaz, em cada contexto, em cada novo momento histórico. Perante o simbolismo irrestrito que lhe é intrínseco, a escritura constitui, portanto, espaço de livre jogo das remessas significantes de que se compõe a linguagem. Nesse ponto, em meio à indeterminação de uma totalidade da estrutura, tendo em vista que já não é mais possível recuperar a origem, estabelecer a ordem final, estabilizar o centro, o sentido das coisas parece residir exatamente em jogar, manipular o significante e, desse modo, fruir a alegria da brincadeira.
Sob tal perspectiva, o jogo pode ser elaborado, em analogia ao proposto por Derrida, como uma espécie de conceito “descentrado”. Ele conforma uma noção em
15 DERRIDA. A estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências humanas. In: _____. A escritura e a
diferença, p. 421.
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DERRIDA. A estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências humanas. In: _____. A escritura e a
intermitente deslocamento, cuja não-delimitação completa de sentido, longe de comprometer a sua apreensão, contribui para a sua polissemia, convertendo-a em uma temática de trabalho bastante instigante. Conforme salienta o filósofo, essa “ausência de significado transcendental amplia indefinidamente o campo e o jogo da significação”.17
Nessa dinâmica de escrita e reescrita, de delimitação e escape, toda nova intervenção teórica faz com que o sentido do jogo seja desconstruído, para que este possa, a seguir, ser recriado mediante novos termos, imbuído de novas acepções. Por sofrer, consecutivamente, o processo de desmontagem e de reelaboração, a noção de jogo se encontra propensa a adquirir continuamente novas adições de sentido, nos terrenos das Artes, da Filosofia e das Ciências Sociais.