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A. İktisatta Para Kavramı

3. Para Sistemleri

O poder dos proprietários de terra no Brasil esteve amparado por decisões na esfera do Estado, desde o início da colonização, como já foi mostrado. A instituição do sistema de sesmarias implicava em um processo de doação de grandes propriedades e até o século dezenove não houve uma legislação que regulamentasse a posse ou outra forma de propriedade da terra. Isto não significou a ausência total de apropriação de pequenas propriedades sob a forma de posse, por homens livres, que se dedicavam a produzir alimentos para sua subsistência e para o mercado interno. Entretanto, o sistema de posse não recebeu suporte da esfera pública, ao contrário, a perspectiva de extinção do trabalho escravo provocou a discussão em torno de uma legislação que definisse os critérios de ocupação de terras, do que resultou a Lei de Terras (lei número 601, de 1850). Por essa lei, as terras já ocupadas podiam ser regularizadas como propriedade privada, porém, daí em

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diante, as terras só poderiam ser ocupadas por compra e venda (ou por autorização da autoridade constituída). Terras não ocupadas passavam a ser propriedade do Estado e não poderiam ser adquiridas através do mecanismo da posse.

Essa legislação garantiu uma grande margem de poder aos grandes proprietários de terra, por ocasião do fim do sistema escravocrata e do início da imigração de trabalhadores livres para o país. Antepunha-se, assim, um obstáculo à transformação de ex-escravos e de imigrantes em agricultores estabelecidos em pequenas propriedades, sob a forma de posse, nas áreas tradicionais da agricultura brasileira. Desta forma, a dinamização do mercado doméstico em finais do século dezenove, na seqüência da expansão da economia do café, não se fez acompanhar de um correlato desenvolvimento no mercado de trabalho. Na transição para o trabalho livre, os plantadores de café, amparados por programas de imigração (dotados de subsídios governamentais, como destaca Reis, 1979), foram bem sucedidos em sua política de importação de trabalhadores estrangeiros.49. O enorme poder social e político dos proprietários e a legislação restritiva tinham como contrapartida uma baixa capacidade de defesa, por parte dos não proprietários, de seus próprios interesses. Nesse contexto, os trabalhadores imigrantes eram submetidos a condições ruins de trabalho, de tal forma que a Itália baniu a migração subsidiada para o Brasil em 1902, o mesmo fazendo a Espanha em 1910.

Por outro lado, o sucesso da imigração de trabalhadores estrangeiros, provendo o fornecimento de grande quantidade de força de trabalho, criou obstáculos para o desenvolvimento de um mercado de trabalho para brasileiros pobres e ex-escravos, inclusive para possíveis trabalhadores nordestinos que eventualmente poderiam se deslocar para a área do café. Assim, na transição para o trabalho livre, os proprietários agrários, sobre a base da grande propriedade de terra, mantiveram seus recursos de poder em situação de excepcional desigualdade em relação a outras classes sociais da atividade agrícola, tanto no Centro-Sul do café quanto no Nordeste da cana de açúcar. Como destaca

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A maioria dos imigrantes era originária da Itália, país que, na época, passava por sérias adversidades econômicas (REIS, 1979).

Reis (1979), embora a República tenha sido inaugurada, de início, por meio de uma coalizão ampla de elementos heterogêneos, logo em seguida haveria de ficar claro que os principais beneficiários da mudança política eram os grandes proprietários de terra, os quais, inclusive, tinham ampliado seu controle sobre o aparato burocrático do Estado.

Dentro da elite agrária, os plantadores paulistas tinham se tornado o setor mais organizado. No final da década de 1900, o Governo Federal tinha assegurado a obtenção de empréstimos internacionais para o setor do café (lei de dezembro de 1908) e passara a garantir preços mínimos para os cafeicultores (REIS, 1979). Para se ter uma idéia da estrutura ocupacional agrícola da época, podemos recorrer a Singer (1981), para quem a estrutura sócio-econômica da agricultura como um todo, por volta de 1930, compunha-se de uma classe de grandes proprietários, à qual se opunha uma massa de pequenos proprietários, parceiros, agregados, colonos e trabalhadores temporários, todos muito pobres, caracterizando-se uma desigualdade extrema na repartição da renda. Essa situação se agrava pela constatação de que, com relação a dados de 1940, cerca de dois terços da população do país estavam inseridos no setor agrícola (SINGER, 1981).

Mesmo com a Revolução de 1930 e a importância crescente do setor industrial, os recursos de poder dos grandes proprietários foram mantidos, uma vez que não apenas a estrutura de propriedade da terra permaneceu intocada, como, ainda, os direitos conquistados pelos trabalhadores urbanos, como “salário mínimo, licença saúde, assistência médica, fundos de aposentadoria e direitos associativos” (REIS, 1979) não foram estendidos aos trabalhadores agrícolas. Portanto, de uma forma generalizada, os fazendeiros/grandes proprietários mantinham seu poder de influência junto ao Estado, no sentido da preservação de seus interesses. Por um lado, o Estado colaborou para a manutenção de um suprimento de força de trabalho barata, especialmente sob a forma de trabalhadores em caráter permanente (vivendo no interior das fazendas e daí retirando seu sustento), na medida em que lhes foram negados os direitos sociais já conquistados por trabalhadores urbanos. Ao mesmo tempo, não se desenvolveu uma política voltada para os agricultores das pequenas propriedades (muitos deles na condição de posseiros), não sendo

implementada nenhuma política visando qualquer mudança na distribuição de terras. A intervenção do Estado ocorreu de uma maneira fortemente conservadora, dada uma maior capacidade das elites agrárias de exercerem influência sobre a esfera pública.

Entretanto, existe um consenso em torno da idéia segundo a qual a Revolução de 1930 marca o começo do período moderno no Brasil, sendo o período de 1930-1945 claramente caracterizado por mudanças modernizantes (REIS, 1979; SINGER, 1981). Não obstante o considerável grau de continuidade dessa modernização em relação ao conservadorismo do período anterior, com o tempo os interesses dos grandes proprietários de terra e fazendeiros perderam espaço de poder, não apenas para outros grupos sociais (em especial o dos industriais) como, também, em relação ao próprio Estado. A expansão do setor industrial e da vida urbana, com seus desdobramentos em termos da diversificação de atividades econômicas, teve como correlato o crescimento da população urbana e, dentro dela, do segmento dos industriais, das classes médias e dos trabalhadores urbanos. A década de 1930, portanto, inaugura um período de crescimento, em termos de importância, dos grupos sociais ligados à industrialização.

Não obstante, como ressalta Reis (1979), apesar da redução relativa do poder do setor agrário, ele não foi removido da aliança de poder e esse período de modernização excluiu a força de trabalho agrícola. Em linhas gerais, a estrutura social agrícola no país manteve-se inalterada. Como destaca a autora, sob a liderança do Estado, as elites agrárias dividiam o poder com as elites industriais. Em suas palavras, “sob Vargas um processo de modernização pelo alto foi implementado sob a égide de um estado fortemente centralizado, o qual acomodou tanto a mudança quanto a continuidade e preveniu uma real ruptura com o passado” (REIS, 1979, p.262). Assim, movimentos sócio-políticos reivindicatórios em torno do tema da reforma agrária se defrontavam com o disposto na Constituição de 1946, que estabelecia a indenização como condição para possíveis desapropriações de terra. É nesse contexto, entretanto, que surgem as Ligas Camponesas, em 1955, a partir, especialmente, da expansão do assalariamento nas regiões da cana-de- açúcar no Nordeste, conforme José de Souza Martins (1981). Logo em seguida, surgiria um

forte movimento de sindicalização rural na região, embora não reconhecido legalmente pela Consolidação das Leis do Trabalho (de 1943) e em dezembro de 1963 foi criada a Confederação dos Trabalhadores na Agricultura - CONTAG (MARTINS, 1981).

Pouco antes do início do regime militar inaugurado em 1964, no contexto dos movimentos de reivindicação de reforma agrária, a proposta do governo de transformar em terras públicas as faixas circundantes de rodovias federais, ferrovias e açudes, sinalizava para uma ação do Estado no sentido da mudança no padrão de propriedade da terra no país, o que, porém, não haveria de ocorrer no contexto do novo regime político, quando todos os movimentos reivindicatórios foram reprimidos. Isso não impediu que, em 1964, fosse elaborado o Estatuto da Terra, que permitia a desapropriação para fins de assentamento agrário. Em 1969, por meio de uma Emenda à Constituição de 1967, era admitida a desapropriação mediante pagamento em títulos da dívida pública. O Estatuto da Terra seria a primeira lei de reforma agrária do país, a qual forneceria o quadro legal para futuras ações de reforma, sendo, porém praticamente desconsiderado durante as duas décadas de governo militar (ZYLBERSZTAJN, 1994). Para José de Souza Martins (1981), pelo Estatuto da Terra a reforma agrária passava a ser definida em termos da “modernização” (aspas do autor) agrária, no âmbito de uma estratégia de desenvolvimento capitalista em que adquiria relevância a ampliação do mercado interno. Pelo Estatuto admite-se, como ponto essencial da redefinição fundiária, a colonização de novas áreas, na fronteira da região amazônica e de partes do Centro-Oeste, por agricultores desalojados pela concentração da propriedade ou removidos de áreas de tensão (MARTINS, 1981). Entretanto, como ressalta o autor, apenas dois anos após a promulgação do Estatuto, o governo federal estabeleceu uma política de subsídios para estimular a implantação de empresas industriais e agropecuárias na região amazônica.

Uma reforma agrária massiva nunca foi feita no país, porém Singer (1981) considera que, após 1930, a estrutura de dominação latifundiária foi abalada, principalmente nas antigas zonas da cafeicultura paulista (não obstante a ausência de uma política de redistribuição da propriedade). Singer (1981) cita exemplos de dispersão da

propriedade da terra em São Paulo e em áreas novas como a do norte do Paraná. Nessa linha de discussão, Elisa Reis (1979) argumenta que, não obstante a permanência da estrutura de grandes propriedades em mãos dos proprietários de terra, os anos de urbanização e de expansão industrial foram responsáveis pelo enfraquecimento dessa classe social. Reis (1979) aponta para uma mudança na orientação do Estado no que se refere ao setor agrícola, na linha da discussão que foi feita nos capítulos anteriores. A autora considera que as estratégias de modernização acabaram por reduzir a capacidade dos grandes proprietários de fazer prevalecer sua dominação social, na medida em que o Estado se tornou mais presente no campo, através das agências governamentais que, progressivamente, assumiram funções públicas antes exercidas de forma privada por aquele estrato social.

3.1.3. Política de modernização econômica e mudanças na estrutura social da