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Gelsa é licenciada em Matemática (UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1970), mestre em Matemática (UFRGS, 1979), doutora em educação (UFRGS, 1995) e realizou o estágio pós-doutoral na Universidade Complutense de Madrid (2002)12. Na visão da pesquisadora, Etnomatemática transcende a cultura, pois está interessada em analisar as diferenças culturais presentes no contexto da Educação Matemática (KNIJNIK, et al. 2012). Além disso, ela trata da “importância da linguagem na constituição das coisas e, através disso,

sobre as possibilidades de existência de diferentes matemáticas.” (KNIJNIK; VARGAS, 2010, p. 106).

Em sua perspectiva Etnomatemática, interessa-se na política da identidade, no sistema educacional direcionado ao ambiente matemático, lugar permeado de diferença/identidade (ibid.). Devido ao ponto de vista de Knijnik (2009), ela considera a Etnomatemática heteroglóssica e busca mostrar a heterogeneidade presente em cada grupo cultural em relação aos outros, bem como dentro destes grupos.

Knijnik (ibid., p. 136) tem interesse “[...] em dar visibilidade a “outras” culturas, a outros modos, que não os hegemônicos, de matematizar”, e ainda alerta para o cuidado que se deve tomar para não transformar o outro em sujeito de governo do pesquisador, usando o termo governo referindo-se a Foucault, explicando que se trata de conduzir a conduta de outro indivíduo. Também se movimenta em defesa da “insurreição dos saberes (matemáticos) dominados” (ibid., p. 137) e do cuidado que os etnomatemáticos (as) devem ter para não realizarem uma pesquisa considerando apenas seus conhecimentos naturalizados pelas ciências eurocêntricas.

A Etnomatemática confronta o tradicionalismo educacional, valorizando a construção social produzida em meio à disputa política quanto ao que será considerado legítimo (KNIJNIK, 1996). A importância do pensamento etnomatemático está no espaço oferecido às demais formas de conhecimento que são sufocadas pelo processo de deslegitimação, ou emudecidas na escola (ibid., 2000).

Em sua entrevista à Miarka (2011), Knijnik se refere à Etnomatemática como uma caixa de ferramentas, onde se sente à vontade para questionar, analisar e pôr em questão o discurso da Matemática Acadêmica. “Considerar a Etnomatemática como uma caixa de ferramentas consiste, portanto, em operar com suas ideias para dizer o ainda não dito, parafraseando Nietzsche: ‘recolhê-las para enviá-las em outra direção’ (COM, p. 147).” (KNIJNIK, 2009, p. 138).

Desde o início da ideia de Etnomatemática, essa proposta tem sido considerada uma área que reconhece a produção de conhecimento das múltiplas culturas. Esses conhecimentos estão relacionados às formas de calcular, estimar, inferir, ou seja, modos de lidar matematicamente com o mundo (KNIJNIK; VARGAS, 2010). Knijnik (2009) ainda comenta,

baseando-se em D’Ambrosio, que a Matemática Acadêmica é uma forma de Etnomatemática, porém demonstra que a Matemática Acadêmica não abrange todas as formas de solucionar problemas práticos com que a sociedade se depara. Igualmente, não aceita a visão de uma linguagem Matemática universal, devido a sua concepção de Etnomatemática (KNIJNIK; VARGAS, 2010).

Para ilustrar tais situações Knijnik cita vários exemplos em que isso acontece, como no caso do Movimento Sem Terra – MST, em que os camponeses têm suas próprias formas de calcular áreas. Apesar desses cálculos não serem considerados exatos pela Matemática Acadêmica eles têm validade dentro do grupo cultural. Esse saber aqui descrito é um exemplo de saberes dominados dos quais ela trata.

Ao desenvolver suas pesquisas em Etnomatemática, Knijnik (2012, p. 35) objetiva “mostrar a existência de jogos de linguagem em formas de vida não escolares” que têm algumas relações com a matemática praticada na escola e por esse motivo são chamados jogos de linguagem. As regras apresentadas nesses jogos de linguagem referem-se às regras de oralidade, onde o uso de certas palavras pode apresentar significados maiores, como por exemplo uma ação ou as funções de arredondamento e aproximação utilizadas por alguns grupos em seus contextos culturais.

Knijnik (2000, s/p.) aponta a Etnomatemática como “[...] distintas visões de mundo [...] associadas a distintos modos de compreender o papel que a Educação Matemática pode desempenhar nos processos de mudança social.”. Ainda demonstra uma visão política de educação quando infere que a Etnomatemática deve ser vista socioculturalmente, considerando que as relações de poder minam o campo da Educação Matemática. Ao tratar dessa visão política, abordando o multiculturalismo defende o estudo das relações de poder com o intuito de prevenir o binarismo “dominante tolerante e dominado tolerado”. (KNIJNIK, 2000, s/p.).

Afirma que “[...] a Matemática Escolar se constitui como um corpo hierarquizado de conhecimentos, sustentado por pré-requisitos que acabam por instituir uma racionalidade específica” (KNIJNIK, 2012, p. 53) na escola. Nessa perspectiva, Knijnik (2008) interpreta a Matemática desenvolvida nas escolas como um conhecimento imposto pelos grupos dominantes.

Knijnik, ao assumir uma postura pós-moderna, articula seus estudos ao pensamento de Foucault e do segundo Wittgenstein, passando a conceber a Etnomatemática, como uma ‘caixa de ferramentas’, que possibilita o estudo dos

[...] discursos eurocêntricos que instituem as matemáticas acadêmica e escolar, analisando seus efeitos de verdade; discutir questões da diferença cultural na educação matemática, considerando as relações de poder que a instituem e examinar os jogos de linguagem que constituem as diferentes matemáticas e suas semelhanças de família. (KNIJNIK, 2009, p. 65).

Com essa perspectiva, Knijnik aborda a Etnomatemática a partir da concepção de jogos de linguagem, os quais permitem

[...] que se compreendam as Matemáticas produzidas por diferentes formas de vida como conjuntos de jogos de linguagem que possuem semelhanças entre si. Assim, não há superconceitos que se pretende universais e que possam servir como parâmetros para outros. (KNIJNIK et al., 2012, p. 31).

Isso permite uma abordagem mais ampla e implicações diferenciadas para o estudo da Etnomatemática.