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A pesquisa parte da construção de um corpus enquanto princípio alternativo de coleta de dados segundo a proposta de Bauer & Aarts (2004), teóricos que nos baseamos para selecionar um material a ser trabalhado para o fim de análise. A construção deste corpus foi realizada em dois momentos.

No primeiro momento da pesquisa fizemos um estudo exploratório, pois a própria André (2005) diz que para optar pelo estudo de caso é preciso que o pesquisador mantenha contatos iniciais com o campo para mapear de modo geral a realidade. E foi o que fizemos, embora tivéssemos trabalhado no local, ainda procuramos conhecer melhor a rede municipal de ensino e as questões que envolvem a prática docente. Essa fase exploratória está de acordo com a abordagem teórico-metodológica das representações sociais, já que as questões da pesquisa não são enquadradas dentro da realidade, mas nasce da própria, afinal para gerar as representações sociais o objeto precisa ter relevância cultural e espessura social, de modo que se encontre implicado na prática do grupo, conforme apontamos anteriormente (SÁ, 2005).

Para este momento fizemos uso de um questionário aplicado a 27 professores (apêndice A) que antes de responder assinaram o termo de consentimento (apêndice B), no qual apresentava o objetivo da pesquisa e informava a participação livre e sigilosa de todos no estudo. O questionário tinha por objetivo reunir informações sobre a identificação, o perfil, a trajetória escolar, as condições de trabalho, sobre a gestão escolar e o gosto e estilo de vida dos professores. O questionário foi respondido pelos professores em distintos momentos: uns responderam durante os intervalos e nos horários vagos de suas aulas, outros preferiram levar para casa, enquanto alguns dos professores do ensino fundamental II responderam dentro do próprio ônibus durante as viagens ao município.

Neste primeiro momento ainda fizemos uso de duas técnicas que, conforme André (1995) e Jodelet (2001) são tradicionalmente associados ao estudo de caso do tipo

etnográfico: a observação e a análise de documentos. As atividades de observação nos direcionaram a fazer um registro acurado de todo o contexto físico, familiar, econômico, cultural, social e político, para ajudar a entender o fenômeno estudado. A ênfase na observação foi absorver o conhecimento local e a cultura por um período de tempo mais longo do que fazer apenas perguntas dentro de um período limitado (ANDRÉ, 2005), para compreender as representações sociais e “evitar trabalhar sobre o discurso social flutuante, sem assento nem referência sobre a prática, e apresentando, sobretudo o risco de ser falacioso” (JODELET apud SÁ, 1998, p.49).

Em sua pesquisa, Jodelet (2001) observou que as representações surgem nas práticas das pessoas, pois muitos dos sujeitos pronunciam em seus discursos uma posição ou opinião, mas na prática a atuação é outra. Desse modo, integrar ao estudo o pensamento social articulado as práticas sociais do grupo, evita trabalhar o discurso flutuante. Neste sentido, para ajudar a identificar as representações sociais sobre prática docente, é fundamental diagnosticar os valores, os comportamentos e as práticas que perpassam o grupo social (JODELET, 2001; ANDRÉ, 2005). Dessa forma não nos limitamos às entrevistas ou questionários que isolados torna o discurso flutuante, mas o uso da observação foi necessário à revelação das representações sobre a prática docente.

Na observação, buscamos as situações que se seguem:

a) Encontros pedagógicos e planejamentos semanais, em que observamos os conteúdos abordados nos encontros, quem e como administra o encontro, como acontece a participação dos professores e as relações entre os sujeitos;

b) Intervalo das aulas: observamos professores e alunos neste período e buscamos identificar em suas conversas indícios que nos direcionassem ao fenômeno prática docente;

c) Sala de aula: observamos o espaço físico, a postura do professor ao chegar à sala de aula, ao ministrar os conteúdos e atividades, os recursos pedagógicos utilizados e a interação com os alunos;

d) Relação entre professores e demais sujeitos da comunidade escolar: observamos a interação dos professores com seus colegas de trabalho, com a direção escolar, a coordenação pedagógica e a secretaria municipal de educação;

e) Viagens dos professores do ensino fundamental II ao município de Riacho de Santo Antonio: observamos o comportamento, as atitudes, a postura e as conversas durante as viagens.

Utilizamos uma ficha de controle que contemplava os elementos acima citados para auxiliar na observação (apêndice C). À medida que os fatos observados aconteciam, registrávamos em um diário de campo.

Como fontes de pesquisa, fizemos uso dos documentos das escolas para explicar ainda mais as questões voltadas à prática docente:

a) Projeto político pedagógico: identificamos as diversas dimensões conferidas à prática docente;

b) Questionário elaborado pela SME e aplicado para os alunos (anexo 1): verificamos as dimensões da prática docente a partir do que os alunos julgam ser necessários;

c) Ficha de acompanhamento e controle elaborada pela SME: analisamos o conteúdo da ficha e sua função dentro do espaço escolar.

No segundo momento da pesquisa fizemos uso da técnica grupo focal, uma estratégia de coleta na qual um grupo é solicitado a debater sobre temáticas voltadas para o objeto de estudo. A técnica do grupo focal torna possível um maior aprofundamento dos conteúdos representacionais sobre a prática docente nos diferentes grupos de professores envolvidos. Segundo Gatti (2005), a técnica possibilita

[...] Compreender práticas cotidianas, ações e reações a fatos e eventos, comportamentos e atitudes, constituindo-se uma técnica importante para o conhecimento das representações, percepções, crenças, hábitos, valores, restrições, preconceitos, linguagens e simbologias prevalentes no trato de uma dada questão por pessoas que partilham alguns traços em comum, relevantes para o estudo do problema visado. (GATTI, 2005, p. 11).

Conforme a definição de Gatti (2005), o grupo focal auxilia o pesquisador na busca das representações, logo nos permite criar condições para que os sujeitos participantes explicitem seus pontos de vista, façam críticas e questionem a problemática na qual foram convidados a conversar coletivamente.

Gaskell (2004) também comunga com o pensamento de Gatti (2005), ao afirmar que o grupo focal, busca fornecer de forma mais detalhada as crenças, as atitudes e os valores do grupo social específico. Afinal, segundo Gaskell (2004), a entrevista grupal pode gerar mais do que a “soma de suas partes, mas uma interação social”, em que há uma sinergia maior do que em uma entrevista a dois.

Nesta perspectiva, realizamos dois encontros distintos com os grupos, uma sessão para os professores da área urbana e outra sessão para o grupo do meio urbano, cada um com duração aproximadamente de uma hora. Em cada encontro, pedimos a permissão para gravarmos em áudio as discussões para em seguida ser feita as transcrições que serviram para as análises. O uso desta técnica permitiu uma melhor sistematização de questões já discutidas em diferentes momentos de encontros e conversas informais com os grupos.

Os eixos de análise propostos: sentidos de prática docente; dificuldades vivenciadas na prática docente; e como essa deveria ser realizada, procuram trazer ao debate o que se encontra mais compartilhado pelos sujeitos com relação à prática docente por eles exercidas. Neste sentido, percebendo a multidimensionalidade que a perpassa buscamos propor a emergência das dimensões mais significativas através das falas.

Fizemos uma sessão na sala dos professores e a outra no Centro Educacional aonde organizamos as carteiras em círculo ao redor de uma mesa. Em cima colocamos o gravador com o objetivo de facilitar nossa análise e discutimos os eixos de análise propostos. Em seguida, agradecemos a presença de todos os professores e explicamos a dinâmica desta técnica que era ouvi-los sobre o que pensam da prática docente e que todos poderiam falar à vontade e o que quiserem, afinal garantíamos o sigilo de cada professor.

Demos início às discussões, cujos debates acompanharam um guia de discussão com as questões norteadoras que se seguem:

a) Sentidos de prática docente para os professores - O que podemos chamar de prática docente? - O que a prática docente envolve e/ou exclui? b) Dificuldades vivenciadas

- Quais as dificuldades mais presentes no fazer docente tendo em vista os fatores administrativos, pedagógicos, familiares, pessoais?

- Como deve ser o fazer docente capaz de contribuir para a melhoria da educação no município?

O trabalho com os grupos foi agradável, os professores sentiram-se à vontade ao falar, em meio a risadas e degustação de bombons indicando a satisfação dos participantes. Todos os sujeitos convidados participaram das discussões e de forma comprometida, apenas o grupo da área rural demonstrou timidez e silêncio em determinados momentos ao se depararem com as questões propostas ou quando os colegas debatiam. Diferentemente do grupo do meio urbano, que partilhou os eixos norteadores com mais fluidez.

Ao concluirmos as discussões dos eixos, abrimos um espaço perguntando se os professores gostariam de falar algo mais sobre o assunto debatido. Ao final do grupo focal, os professores da área urbana partilharam ter gostado do momento de discussão e revelou o desejo de ao término deste estudo ser apresentado os resultados a todos das escolas como forma de refletir e buscar a mudança de certas práticas dentro dos espaços escolares. Despedimo-nos agradecendo novamente a participação de todos os envolvidos e em seguida, fizemos as transcrições das falas para iniciarmos as análises.