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A pesquisa abrange professores inseridos em contextos distintos, urbano e rural, vinculados aos anos iniciais da educação básica pertencentes à mesma rede municipal de ensino. Para nomeá-los, fizemos uso da seguinte codificação: P1Ui e P2RfI, compreendendo: P – professor (a) e a seguir o seu código ou número de identificação; a primeira letra maiúscula indica o local de atuação do professor: U – urbano e R – rural; em seguida apresenta-se em minúscula a modalidade de atuação: i – educação infantil e f – ensino

fundamental; e por fim o algarismo romano I, para o caso de atuar na etapa do ensino fundamental I ou II. Para os oito alunos do ensino fundamental II que complementaram a pesquisa utilizamos A1 a A8.

O universo pesquisado compreende 32 professores, mas no primeiro momento da pesquisa participaram aleatoriamente 27 para o mapeamento da realidade escolar da rede (23 professores da área urbana e 04 do meio rural). No segundo momento, foram selecionados também de forma aleatória 10 professores para a realização do grupo focal. Neste universo de 10 professores, 06 são da área urbana e os 04 restantes do meio rural.

Os 10 professores que foram selecionados no segundo momento da pesquisa foram divididos em dois grupos distintos: um grupo com 04 professores da área rural e outro grupo com 06 professores do meio urbano. Resolvemos fazer o grupo focal com estes dois grupos de forma separada, para atender aos objetivos de nossa pesquisa, que é analisar as representações sociais entre os grupos. No tópico seguinte (tópico 2.5) detalharemos como fizemos em cada etapa.

Em relação aos critérios de seleção, utilizamos os que aproximam e distanciam os professores. Quanto aos aspectos que os aproximam estão: a defesa por uma gestão escolar à frente do trabalho pedagógico como forma de contribuir para o seu fazer docente e o pensamento sobre os desafios da prática docente. Em relação aos aspectos que os distanciam, selecionamos dois: as atividades educativas e os espaços pedagógicos que o município proporciona, mas apenas a área urbana usufrui; e o comportamento dos professores que se diferem um do outro, ou seja, o grupo da área rural evidencia participar com menos intensidade nas discussões dos encontros pedagógicos, por estarem todos os professores do município reunidos. Em contrapartida, parecem participar melhor nas reuniões de planejamento por se reunir os grupos separados. Esta questão é melhor detalhada no capítulo 3, tópico 3.2.

Consideramos importante compreender os conteúdos representacionais sobre prática docente entre os dois grupos de professores, pois percebemos que estes, mesmo fazendo parte da mesma rede vivenciam situações que tanto os aproximam quanto os distanciam. Por isso, questionamos: como a prática docente é compreendida pelos professores da área urbana e rural? Que diferenças ou semelhanças existem na compreensão sobre prática docente entre estes dois grupos de professores? Estamos diante de uma única ou duas representações sociais? Quais elementos representacionais aparecem mais fortemente nos discursos dos professores? De que forma refletem na prática docente?

A tabela 4 apresenta o magistério da área urbana e rural da rede, contemplando o número de professores que compõe cada etapa e modalidade de ensino e a faixa etária.

Tabela 4

Magistério da Área Urbana e Rural por etapas e modalidade de ensino e faixa etária - 2010 Etapas e Modalidade de

Ensino

Faixa Etária TOTAL

20-29 30-39 40-50 51-56

Educação Infantil (Urbana) --- 4 3 --- 7

Educação Infantil (Rural) --- --- 2 1 3

Ensino Fundamental I (Urbana) --- 4 3 --- 7

Ensino Fundamental I (Rural) --- 3 --- --- 3

Ensino Fundamental II (Urbana) 4 2 2 2 10

EJA (Urbana) --- --- --- 1 1

EJA (Rural) --- --- 1 --- 1

TOTAL 32

FONTE: Questionário aplicado aos professores

De acordo com a tabela 4, vê-se que os profissionais do magistério totalizam em 32 professores, sendo 25 na escola do meio urbano e 07 distribuídos nas escolas da área rural. Embora a rede possua mais escolas na área rural, o número maior de professores está na escola do meio urbano nas etapas de ensino Fundamental I e II. A EJA é a modalidade que menos tem professores, tanto na área rural quanto na urbana, devido a pouca demanda de aluno. Do universo de 32 professores é relevante notar a presença feminina nas escolas do município com o total de 29 professoras, enquanto a masculina somente ocorre no Ensino Fundamental I da área rural com 02 professores e no ensino fundamental II com mais 02 professores. Quanto à faixa etária, percebe-se que na área urbana predominam os professores entre 40 e 50 anos de idade. Em relação ao grupo da área rural, prevalecem as duas faixas etárias: 30 e 39 anos e 40 e 50 anos.

O ingresso destes professores no magistério da rede de ensino foi através de concursos públicos, o que os torna efetivos no quadro de funcionários e que segue os termos conferidos pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB) no artigo 67 quando diz que os sistemas de ensino promoverão a valorização dos profissionais da educação assegurando-lhes o ingresso por concurso público de provas e títulos. Tornar os professores efetivos os mantém mais seguros no que diz respeito a certeza de um emprego fixo, uma vez que ao se trabalhar por meio de contrato sempre há o receio e a insegurança de permanecer ou não no trabalho.

Todo o magistério da rede municipal de ensino em foco tem o nível superior. Os da educação infantil, fundamental I e EJA, tanto da área rural quanto da urbana possuem

Licenciatura em Pedagogia. Quanto aos professores do ensino fundamental II, tem formação nas áreas específicas: Letras, Matemática, História, Geografia, Educação Física, Ciências Biológicas e Química. Este cenário cumpre com as disposições legais que instituem o artigo 87 da LDB, no qual determina em seu parágrafo 4° que ‘’até o fim da década da Educação somente serão admitidos professores habilitados em nível superior ou formado por treinamento em serviço’’. Sendo assim, a realidade do magistério do município demonstra que todos os professores possuem o nível de formação mínimo estabelecido pela lei.

Na tabela 5 compreendemos o tempo de serviço exercido na rede municipal de ensino por etapas e modalidade de ensino.

Tabela 5

Magistério da Área Urbana e Rural por etapas e modalidade de ensino e tempo de serviço na rede municipal de ensino

Etapas e Modalidade de Ensino

Tempo de Serviço na Rede

Municipal de Ensino TOTAL 2 a 9 10 a 16

Educação Infantil (Urbana) 2 5 7

Educação Infantil (Rural) --- 3 3

Ensino Fundamental I (Urbana) 2 5 7

Ensino Fundamental I (Rural) 1 2 3

Ensino Fundamental II (Urbana) 8 2 10

EJA (Urbana) --- 1 1

EJA (Rural) NR 1

TOTAL 32

FONTE: Questionário aplicado aos professores

Conforme a tabela 5, o tempo de serviço dos dois grupos de professores predomina entre 10 a 16 anos, tempo considerável para obter anos de experiências, formarem laços de convivência com os sujeitos e ter propriedade de conhecimento da realidade que trabalha.

A docência é a única profissão exercida pelos professores, com exceção apenas de 03 que trabalham com comércio, vendas de cosméticos e criação de cabras. O tempo de serviço no magistério leva a prática docente destes professores a não depender apenas dos conhecimentos científicos adquiridos nas formações, mas essencialmente pode depender das experiências de quem viveu e aprendeu ao longo dos anos de sala de aula. É nessa compreensão que reside o fundamento defendido por Tardif (2007), no qual busca demonstrar a relação que a ação docente tem com o seu decurso na vida enquanto profissional de ensino, denominado de saberes da experiência.

À medida que estes anos no magistério demonstrem experiências, as demandas do fazer docente requerem mais participações nos cursos de aperfeiçoamento e atualização que ainda é limitado principalmente para os professores do fundamental II. Estes professores acreditam ser importante para a sua atividade docente as formações, no entanto são os que menos participam de cursos de aperfeiçoamento e atualização, devido à falta de tempo já que lecionam em outras instituições, realizam atividades que já fazem parte de seu ofício e ainda ter que dar conta da vida pessoal.

Ainda que a LDB afirme que os sistemas de ensino devam promover o “aperfeiçoamento profissional continuado” (Art. 67, inciso II), no município existe diferentes concepções sobre o aperfeiçoamento e atualização: a SME dispôs e financiou cursos de atualizações, assegurou a metade do custeio com especializações em faculdades particulares, mas os professores alegam que estas formações devem oportunizá-los mais condições de enfrentamento dos desafios vivenciados na prática docente.

Esta ideia passa pelo pensamento de Nóvoa (1991), no qual percebe a escola enquanto lócus de formação continuada do educador, pois é o lugar onde surgem os saberes e as experiências do professor. Candau (1999) concorda, ao assinalar três eixos: que a escola deve ser vista como um lócus de formação continuada, valorizar os saberes da experiência docente e considerar o ciclo de vida dos educadores. Neste sentido, o professor se forma, estrutura novos conhecimentos, realiza novas descobertas e tenta sistematizá-las em seus fazeres docentes.

Ainda que o dia a dia dos professores esteja cada vez mais cheio de atividades – estudar, preparar aulas, corrigir atividades, trabalhos e provas ou trabalhar em mais de uma instituição – os professores ainda realizam suas atividades preferidas – assistir TV, passear, participar de atividades religiosas e leituras. Esta última atividade não pode deixar de ser mencionada. O grupo da educação infantil e fundamental I, tanto da área rural quanto da urbana, tendem a ler livros infantis, revistas para criança, livros da psicologia e didáticos com questões teóricas sobre a prática docente.

Do mesmo modo são os professores do ensino fundamental II, que em seu tempo livre também dão preferência a leituras relacionadas a assuntos escolares, principalmente específicos de suas áreas de atuação. A exemplo, temas históricos ou sociais são os prediletos da professora de História, livros e revistas religiosos são os da professora de Religião, o que não é diferente da professora de Química que gosta de livros de biologia, química e astronomia.

Diante do exposto, evidenciamos que os professores, mesmo em seus momentos de lazer, leem livros voltados à prática docente. O que mostra que mesmo estando fora de sala de aula, as questões do fazer docente ainda prevalecem fora do seu espaço de trabalho e mesmo que os professores não desfrutem de formações continuadas, através destas leituras os professores buscam aperfeiçoar a prática docente.