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Segundo Gatti (2002, p. 9), “pesquisa é o ato pelo qual procuramos obter conhecimento sobre alguma coisa”. Desse modo, a busca por esse conhecimento recai em uma série de procedimentos que vão desde a definição do tipo de pesquisa a ser desenvolvida até a análise final dos dados coletados.

Nesta investigação, “Família e escola: uma parceria em busca da competência leitora de crianças da escola pública”, a abordagem metodológica utilizada configura-se como pesquisa qualitativa, do tipo pesquisa-ação.

A pesquisa qualitativa, segundo Bogdan e Biklen (1994), envolve a obtenção de dados descritivos adquiridos pelo pesquisador no contato direto com a situação investigada. Nesse tipo de pesquisa, há sempre uma tentativa de o pesquisador capturar a perspectiva dos participantes, e a ênfase é dada ao processo e não ao produto. As pesquisas implicadas na ação social, como a pesquisa-ação, preocupam-se com os problemas sociais de um ponto de vista que excede a análise quantitativa.

Essa proposição metodológica é coerente com a teoria dialética de compreensão dos fenômenos humanos, conforme descrevemos anteriormente.

Segundo Vigotski (2007), a aprendizagem pressupõe uma natureza social específica, bem como um processo, através do qual os menos experientes adentram a vida intelectual daqueles com os quais interagem. Para ele, o auxílio de estímulos extrínsecos, como os signos, ajudam a controlar o comportamento humano.

Toda forma elementar de comportamento pressupõe uma reação direta à situação-problema defrontada pelo organismo – o que pode ser representado pela fórmula simples (S R). Por outro lado, a estrutura de operações com signos requer um elo intermediário entre o estímulo e a resposta. Esse elo intermediário é um estímulo de segunda ordem (signo), colocado no interior da operação, onde preenche uma função especial; ele cria uma nova relação entre o S e R. O termo

“colocado” indica que o indivíduo deve estar ativamente engajado no

estabelecimento desse elo de ligação. Este signo possui, também, a característica importante de ação reversa (isto é, ele age sobre o indivíduo, e não sobre o ambiente) (Vigotski, 2007, p. 33).

Na pesquisa-ação, a inter-relação entre pesquisadores e atores da situação engajados em um mesmo propósito possibilita a construção e a reconstrução de conhecimentos por todos. Essa ideia corrobora com a premissa básica de Vigotski (2007), segundo a qual as funções mentais superiores são constituídas no social, em um processo interativo possibilitado pela linguagem e que antecede a apropriação pessoal. A construção do conhecimento é entendida como processo social compartilhado, gerador de desenvolvimento.

Orientada pela abordagem sócio-histórica, a pesquisa-ação constitui-se um procedimento de reflexão aplicada em virtude de uma situação real e particular a ser modificada na inter-relação entre pesquisadores e sujeitos da situação pesquisada.

Conforme Dionne (2007, p.69), pesquisa-ação “é uma técnica de ação e de investigação que se pratica em um campo concreto”. Porque este estudo propõe-se a modificar as práticas de leitura no ambiente familiar de crianças, pode ser caracterizado como uma pesquisa-ação. Para se melhor compreenderem os motivos pelos quais o percurso metodológico da presente pesquisa encaixouse nas características da pesquisa- ação que foram essenciais para atingirmos os objetivos de investigação, torna-se necessário salientar alguns pontos fundamentais, o que será feito a seguir.

A pesquisa-ação surgiu num contexto de crítica social na década de 1940, nos Estados Unidos, com vistas nas exigências geradas pelas condições de vida de uma grande parte da população, como a pobreza, a imigração, a marginalidade e a criminalidade.

Originou-se a partir das contribuições da pesquisa social de Kurt Lewin, psicólogo alemão e tem por base os estudos da microssociologia17 (DIONNE, 2007).

Uma vez que opera no plano dos acontecimentos, a pesquisa-ação está sujeita ao inédito, ao novo e se orienta por dois objetivos: um de pesquisa e outro de ação (intervenção). Como pesquisa, visa principalmente desenvolver conhecimentos, e sua validade se apoia em procedimentos metodológicos de caráter científico; já como estratégia de ação, visa à mudança de uma situação com base em processos de planejamento de diversas práticas.

Cada um desses aspectos apresenta, pois, suas especificidades. O objetivo prático, ou seja, de ação, visa contribuir para o melhor equacionamento possível do problema “considerado como central na pesquisa, com levantamento de „soluções‟ e propostas de ações correspondentes às „soluções‟ para auxiliar o agente (ou ator) na sua atividade transformadora da situação [...]” (THIOLLENT, 1988, p. 14). O objetivo de pesquisa, ou seja, voltado para a produção de conhecimento, “visa obter informações que seriam de difícil acesso por meio de outros procedimentos, para aumentar nosso conhecimento de determinadas situações (reivindicações, representações, capacidade de ação ou de mobilização etc.)” (THIOLLENT, 1988, p. 14).

Segundo Dione (2007), a maior dificuldade da pesquisa-ação consiste em distinguir e ajustar esses dois objetivos. Porém, a diferenciação entre as operações exigidas na pesquisa e na ação é bastante relevante. Para atender a seus propósitos, o pesquisador deve saber conciliar as duas operações, uma vez que

[...] uma é centrada na compreensão e na explicitação e a outra é centrada na modificação, na mudança de situação. Mesmo que, em si mesmo, não haja contradição entre as duas operações, nos fatos o ritmo da pesquisa e o da ação são muito diferentes. A pesquisa tende a prolongar a reflexão para bem dosar os fatores explicativos de um fenômeno; a ação se volta para a aplicação de uma solução e pretende evitar longa reflexão e análise. A ação se torna então meio de conhecimento (DIONNE, 2007, p. 60).

17 Criada por Kurt Lewin, a microssociologia tem por objetivo estudar e compreender as relações entre atores

sociais, quer entre indivíduos, quer entre grupos. Apoiado em valores democráticos, Kurt Lewin, propôs metodologias mais eficazes na busca de soluções, envolvendo a participação das pessoas. Critica a passividade dos sujeitos envolvidos na investigação, uma vez que considera relevante a participação dos mesmos. Kurt Lewin teve, entre outros, o mérito de reunir teoria e ação numa perspectiva de transformação social, vista como processo de resolução de problema.Para ele, nada é mais prático que uma boa teoria (DIONNE, 2007).

Para Thiollent (1988), a pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social com base empírica. Segundo esse pesquisador, ela “é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e participantes, representativos da situação ou do problema, estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo” (THIOLLENT, 1988, p.14).

Evidenciando esses aspectos, ressaltamos que a singularidade e a complexidade do objeto de investigação, bem como o caráter interativo e colaborativo entre pesquisador e sujeitos envolvidos, orientaram os procedimentos de coleta de dados. Daí justifica-se o cuidado que o pesquisador deve ter com a validação da pesquisa. Segundo Dionne (2007, p. 38), “o mais importante critério de validação da pesquisa é a elaboração da prova. Para chegar a suas conclusões, a pesquisa demonstra com rigor seus enunciados pela argumentação lógica e pela exposição de fatos”.

Dessa forma, os pontos acima elencados traduzem por que a pesquisa-ação se adequou satisfatoriamente ao objetivo maior desse estudo. Para manter o rigor em nossa pesquisa, os procedimentos utilizados na coleta de dados ocupam lugar privilegiado, pois a validade e a confiabilidade dos dados tornam-se fiáveis quando adquiridos por meio de diferentes instrumentos e analisados a partir de diferentes perspectivas. Como diz Kramer (2003, p. 61), no campo das ciências humanas, “é importante escutar/ouvir e observar/ver, considerando tanto a racionalidade como a sensibilidade, a fim de compreender a história e os acontecimentos”.