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Como vimos, na sua proposta de historiografia da ciência Kuhn afirma que a análise das fontes históricas depende da teoria ou dos pressupostos adotados pelo historiador. Por ser possível adotar diversos pressupostos a partir dos quais analisar as fontes que posteriormente serão usadas na narrativa histórica da ciência há possibilidade de o historiador interpretar os textos científicos do passado de modos diferentes, dando origem à pluralidade de leituras de texto. Assim, dependendo do pano de fundo em que baseie a leitura, a narrativa histórica que resulta será diferente. Um dos pressupostos da análise do desenvolvimento da ciência proposto por Kuhn é, como vimos, o da centralidade do paradigma. Desta maneira, o paradigma é o principal objeto a ser analisado pelo historiador, tornando necessário definir a amplitude ou mesmo a perspectiva segundo a qual os paradigmas científicos serão analisados, devido à questão acima mencionada da pluralidade de leituras de texto.

Obviamente, para que estejamos em conformidade com a proposta filosófica de Kuhn, não é possível oferecer critério único que possa ser aplicado pelo historiador na análise das comunidades científicas do passado, do presente e do futuro, pelo fato de que cada paradigma determinará o objeto, métodos e problemas científicos a serem resolvidos por aquela comunidade científica em particular e, portanto, cada paradigma deve ser tratado particularmente. Neste sentido, a historiografia da ciência de Kuhn apresenta em grande parte princípios gerais da atividade historiográfica e muito pouco de elementos metodológicos que possam guiar mais diretamente a atividade do historiador da ciência. Tal é o caso dos pressupostos da (1) relação entre ciência, história e filosofia da ciência, da (2) pluralidade de leituras de texto e (3) da centralidade do paradigma, bem como do postulado da história real como objeto (neste sentido aproximando-se da concretude do objeto) e como objetivo da ciência, mesmo que não seja possível avaliar a aproximação das narrativas em relação à história real. Do mesmo modo que os pressupostos já vistos, no ensaio A história da ciência (Kuhn, 1989; originalmente publicado em 1969), Kuhn apresenta, ao relacionar duas perspectivas históricas, outro

pressuposto que, segundo sua consideração, são efetivamente utilizadas pelos historiadores da ciência: a perspectiva interna e a perspectiva externa. Veremos a seguir estas duas perspectivas históricas sobre a ciência, bem como sua aplicação para a análise do desenvolvimento da ciência.

Kuhn afirma que a nova historiografia da ciência que, como vimos, é a abordagem da história da ciência por ele defendida e praticada, na segunda metade do século XX ainda está concentrada na questão da evolução das ideias e dos instrumentos científicos, sejam eles matemáticos, observacionais ou experimentais. Assim, mesmo os melhores praticantes desta nova historiografia, tal como Koyré, da forma como é visto por Kuhn ainda atribuem pouca importância aos aspectos não intelectuais do desenvolvimento da ciência, tais como as questões econômicas e institucionais. Esta dualidade entre aspectos intelectuais e não intelectuais no desenvolvimento da ciência dão origem a duas perspectivas históricas diferentes: a interna, que considera o conhecimento a substância da ciência, e a externa, que considera a atividade científica inserida na cultura mais ampla. Finalmente, Kuhn conclui que o maior desafio da nova historiografia da ciência é unir estas duas abordagens (cf. Kuhn, 1989, p. 148).

É interessante notar que, seguindo mais adiante no ensaio A história da ciência, estas duas abordagens encontram circularmente sua justificativa no modelo de desenvolvimento da ciência proposto por Kuhn, pois nos estágios iniciais, que denominamos anteriormente de estado pré-paradigmático da ciência, este autor considera que os valores cumprem um papel relevante na definição dos problemas a que a comunidade científica irá se dedicar. Por outro lado, após a passagem para o estado paradigmático, Kuhn considera que a comunidade científica configura uma subcultura especial, utilizando as mesmas teorias e técnicas instrumentais, matemáticas e verbais (cf. Kuhn, 1989, p. 158). Vemos, deste modo, que as abordagens externa e interna da história da ciência são complementares, explicitando um dos elementos do modelo de desenvolvimento da ciência proposto por Kuhn, que é o surgimento das diversas especialidades científicas através do desenvolvimento e posterior fechamento da comunidade científica em torno do mesmo padrão de pesquisa científica. Deste modo, a partir do momento em que uma ciência se torna ciência madura,

Os problemas em que estes especialistas trabalham já não são apresentados pela sociedade externa, mas por um desafio interno a aumentar o alcance e a precisão do ajustamento entre a teoria existente e a natureza. E os conceitos usados para resolver estes problemas são normalmente parentes próximos dos fornecidos pela educação prévia

para a especialidade. Em suma, comparados com outras carreiras profissionais e criativas, os praticantes de uma ciência madura estão efetivamente isolados do meio cultural em que vivem as suas vidas extraprofissionais (Kuhn, 1989, p. 158).

No entanto, a autonomia e a aparente autossuficiência da abordagem interna, por mais que possa ser fundamentada na ideia do fechamento da comunidade científica55, Kuhn a considera enganadora, pois existem aspectos relacionados ao desenvolvimento do conhecimento científico que permanecem sem explicação quando utilizamos apenas a perspectiva interna da história da ciência. Por conseguinte, elementos tais como a oportunidade do conhecimento científico, a atratividade que a especialidade científica exerce e a comunicação entre comunidades científicas, o que, por sua vez, leva a influências entre diferentes comunidades, são questões condicionadas por fatores externos à pesquisa científica propriamente dita (cf. Kuhn, 1989, p. 159). Estes elementos externos, no entanto, não são considerados relevantes para outras análises do desenvolvimento da ciência. Esse é o caso do falseacionismo sofisticado de Imre Lakatos, apresentada no ensaio Falsification and the methodology of scientific research programmes (1974b). Abordaremos neste item a proposta de Lakatos inicialmente em seus aspectos epistemológicos, por oferecer um contraponto interessante à visão de Kuhn sobre o desenvolvimento da ciência e, logo depois, retornaremos a questões relacionadas mais diretamente com a historiografia da ciência e com a relevância que cada autor atribui à história interna e externa da ciência. Vejamos, então, alguns pontos da argumentação filosófica de Lakatos, que tem como consequência a defesa da história interna da ciência.

Em termos filosóficos, Lakatos afirma sua epistemologia como sendo herdeira do falseacionismo metodológico de Karl Popper. Lakatos, no entanto, apresenta uma versão renovada da perspectiva epistemológica de Popper, chamando-a de falseacionismo sofisticado. Para nosso atual objetivo, apresentaremos algumas diferenças explicitadas por Lakatos entre o falseacionismo metodológico de Popper e o seu falseacionismo sofisticado, especialmente quanto ao progresso científico. Lakatos afirma que o falseacionista metodológico considera que o critério de demarcação entre conhecimento científico e não-científico está na própria possibilidade de ser falseado pelo experimento, ou seja, a falseabilidade das teorias é critério de cientificidade. Além disso, adotando algumas das conclusões do convencionalismo, o falseacionismo popperiano defende que

55 Tratamos da questão do fechamento da comunidade científica no Capítulo 2, itens 2.3.1 e 2.3.3, bem

mesmo as teorias que foram “falsificadas”, ou seja, aquelas teorias em que durante o experimento se presenciou uma ou mais consequências negadas pela teoria, podem mesmo assim ser verdadeiras56. Por este motivo, segundo Lakatos, a decisão dos cientistas representa papel importante na metodologia de pesquisa defendida por Popper, pois a escolha entre teorias científicas não é definida exclusivamente pelo experimento (cf. Lakatos, 1974b, p. 112-4), já que este último está submetido ao problema do holismo, ou seja, a verificação das hipóteses particulares através do teste é sempre dependente do sistema total da teoria e, portanto, o teste não será decisivo na escolha entre teorias científicas mais ou menos corroboradas.

Por outro lado, a perspectiva epistemológica de Lakatos, que este autor denomina falseacionismo sofisticado, descreve outro critério de demarcação entre conhecimento científico e não-científico, bem como afirma, ao contrário do falseacionismo popperiano, que a pluralidade de teorias pode ocorrer independentemente de as teorias mais antigas já terem passado exaustivamente pelo experimento. Desta maneira, o falseacionismo sofisticado proposto por Lakatos considera científica a teoria que apresenta maior conteúdo empírico que sua rival, levando à descoberta de novos fatos (cf. Lakatos, 1974b, p. 116-7). Neste sentido, o progresso científico é definido do seguinte modo:

Digamos que uma série teoricamente progressiva de teorias será também empiricamente progressiva (ou “constituirá uma transferência de problemas empiricamente progressiva”) se parte desse conteúdo empírico excessivo for também corroborado, isto é, se cada teoria nova nos conduzir à descoberta real de algum fato novo. Finalmente, seja-nos permitido chamar progressiva à transferência de problemas se ela for, ao mesmo tempo, teórica e empiricamente progressiva, e degenerativa se não o for (Lakatos, 1974b, p. 118).

Assim, enquanto para o falseacionismo metodológico o progresso científico é medido pela refutação e substituição de uma teoria por outra, o falseacionista sofisticado considera que a pluralidade de teorias ocorre independentemente do fato de as teorias aceitas terem sido refutadas, ou mesmo que os cientistas passem por um período de crise, tal como prescrito pela abordagem kuhniana do desenvolvimento da ciência (Lakatos, 1974b, p. 121-2). Apesar de a crítica de Lakatos atingir tanto o falseacionismo popperiano, quanto a abordagem kuhniana do desenvolvimento da ciência, no contexto da análise de Kuhn o progresso científico não é compreendido como sucessão de teorias

56 Vimos no início do Capítulo 3, item 3.1, este problema foi tratado a partir da tese do holismo no teste de

teorias científicas, pois mesmo quando uma teoria falseável é submetida a testes rigorosos e apresenta um experimento que nega sua hipótese, não é possível determinar qual parte da teoria se encontra, a partir de então, falseada.

científicas com maior conteúdo empírico, nem como transferência de problemas ao longo do desenvolvimento da ciência. Além disso, Kuhn reconhece que a situação em que é possível ver a pluralidade de paradigmas acontece nos períodos pré-paradigmáticos e nos períodos de crise que antecedem as revoluções científicas. Por estes dois motivos, precisamos relembrar o significado de progresso na obra de Kuhn, depois do que será possível observar a descrição parcial que Lakatos faz da filosofia da ciência proposta por Kuhn.

Como vimos, Kuhn considera que a pesquisa científica lida ao mesmo tempo com elementos teóricos e empíricos, sem que haja preferência ou mesmo primazia de um aspecto em relação ao outro57. De modo que a afirmação de que houve ou não desenvolvimento do conhecimento científico depende dos critérios da comunidade científica analisada e não de um critério único, o qual se pretende aplicar indistintamente a todas as comunidades científicas. Quanto à questão da adoção de critério único de cientificidade, parece-nos que é justamente essa a proposta de Lakatos, uma vez que esse autor define o aumento do conteúdo empírico, ou seja, a parte da teoria que pode ser verificada ou testada58, como o indício de progresso científico. Assim, a análise kuhniana sobre o progresso da ciência está condicionada, em primeiro lugar, ao paradigma, o que significa dizer que os pressupostos compartilhados de pesquisa não serão os mesmos em cada comunidade científica considerada, o que torna mais complexa a análise do progresso pelo historiador e filósofo da ciência.

No Capítulo 2 de nossa dissertação, procuramos mostrar que o progresso científico ocorre de dois modos distintos na teoria kuhniana, pois diferentemente da filosofia tradicional da ciência, que considerava a acumulação de conhecimento científico como critério principal de avaliação do progresso, Kuhn esclarece que o desenvolvimento da ciência também passa por momentos de quebra com esta acumulação. No entanto, as duas situações são consideradas por esse autor como progresso científico: a primeira, quando há acumulação, que é própria do período de ciência normal, e a segunda, quando não há acumulação de conhecimento a partir do paradigma compartilhado na comunidade científica e que, portanto, é própria dos momentos de revolução científica. Assim, como

57 A consideração de que a ciência lida com elementos teóricos e empíricos foi tratado no Capítulo 1,

quando abordamos como atividades principais da ciência normal a resolução de problemas e a articulação do paradigma. O resumo de nossas ideias é apresentado na figura 2.

58 Rosa & Lepore explicam que para Quine o sentido de um enunciado é o método de empiricamente

confirmá-lo ou refutá-lo, isto é, é o seu conteúdo empírico. Essa concepção sobre o sentido, que segue a tradição empirista e positivista, explica a relação entre o holismo de confirmação e o holismo de sentido (cf. Rosa & Lepore, 2006, p. 66-7), que chamamos anteriormente de holismo semântico.

afirmam Mendonça & Videira (2007), o progresso paradigmático leva ao aprofundamento do conhecimento e o progresso revolucionário à ampliação do conhecimento59. Deste modo, diferentemente de Lakatos, Kuhn não estabelece o ganho de conteúdo empírico como central na consideração do progresso da ciência, apesar de aceitar que a atividade de pesquisa lida diretamente com elementos teóricos e empíricos. A seguir apresentamos o quadro 6 com as principais diferenças filosóficas entre Kuhn e Lakatos.

(1) Critério de demarcação (2) Pluralidade de teorias (3) Progresso científico Lakatos - nova teoria deve corroborar

teorias anteriores e abarcar fato novo

- pode ocorrer por toda a

pesquisa científica - maior conteúdo empírico-explicativo

Kuhn - não há, mas para ser

considerado científico deve apresentar o paradigma

- ocorre quando há nova teoria, mas terá que se ajustar ao paradigma

- paradigmático (acúmulo) e revolucionário (ruptura)

Quatro 6: apresentação das diferenças entre as propostas filosóficas de Lakatos (falseacionismo sofisticado) e de Kuhn (filosofia histórica da ciência). Enquanto Lakatos estabelece como (1) critério de demarcação do conhecimento científico o aumento do conteúdo empírico das teorias, que diferentemente de Popper estava na testabilidade da teoria, Kuhn não está preocupado a demarcação entre científico e não-científico, mas, em todo o caso, podemos afirmar que devido a relação que Kuhn estabelece entre ciência normal e o paradigma, que este último pode ser considerado o elemento característico da atividade científica. Com relação à possibilidade de a ciência lidar ao mesmo tempo com a (2) pluralidade de teorias, Lakatos considera que isso faz parte da pesquisa científica, não sendo suficiente o teste para provocar o abandono da teoria. Por outro lado, considerando que a proposta de Kuhn trata do paradigma mais que das teorias científicas, mesmo no caso de surgimento de uma nova teoria, ela terá que se ajustar ao paradigma vigente e, portanto, não seria consistente manter teoria oposta ou conflitante com o mesmo. Finalmente, com relação ao (3) progresso científico, para Lakatos ele está relacionado ao próprio critério de demarcação que estabelece, ou seja, haverá progresso sempre que uma teoria nova adotada pelos cientistas além de corroborar o conteúdo da teoria anterior, apresentar explicação de novo fato. No caso de Kuhn, o progresso é entendido ora como paradigmático, ora como revolucionário, mas os critérios para avaliação do progresso são variáveis segundo a comunidade científica considerada.

Neste sentido, é possível observar as relações entre a noção de progresso e a historiografia da ciência, pois, como vimos, para Kuhn a filosofia e a história são disciplinas que devem atuar de modo interdisciplinar na análise da ciência. Há pelo menos três situações em que a interdisciplinaridade entre filosofia e história da ciência se expressa na obra de Kuhn: (1) na defesa que este autor faz em favor da manutenção dos seus métodos, objetivos, forma de composição de textos e papel da crítica na filosofia e

na história da ciência, considerado por Kuhn como essencial à atividade filosófica60; (2) também é possível observar a relação entre filosofia e história da ciência na formação específica dos alunos em cada disciplina e pelo uso posterior que segue, já na atividade de pesquisa histórica, pois Kuhn considera que a atividade histórica exige o uso ora da história, ora da filosofia da ciência; finalmente, há no pensamento de Kuhn uma terceira perspectiva em que se pode observar esta relação, que é na (3) circularidade entre fonte e imagem da ciência, já que o historiador da ciência pode ser inadvertidamente levado a adotar a imagem de desenvolvimento cumulativo, tal como Kuhn identifica nas obras pedagógicas utilizadas pelos cientistas na formação dos neófitos61. Essa interdisciplinaridade adquire, na obra de Kuhn, o estatuto de pressuposto, já que o fato de este autor propor uma nova imagem da ciência é equivalente a afirmar que propõe uma nova filosofia da ciência, pois é esta nova imagem da ciência que oferece os pressupostos historiográficos para análise dos fenômenos relativos à ciência. Suas conclusões sobre as revoluções científicas, no entanto, não derivam de uma ordem lógica, no sentido de que a teoria sobre a análise da ciência precedeu a observação dos fatos históricos, pois foi o estudo da ciência, mais especificamente de textos científicos do passado, que fez com que Kuhn gradualmente modificasse sua imagem do desenvolvimento da ciência e, desta maneira, dando surgimento a nova historiografia da ciência62.

Assim, além de ter como pressuposto a relação entre filosofia e história da ciência, a historiografia da ciência kuhniana propõe que o progresso científico ocorre ora por aprofundamento do conhecimento, ora por ampliação do conhecimento, neste último caso, com o surgimento de novas especialidades científicas (item 2.2). Por outro lado, Lakatos, em sua defesa do progresso científico, propõe a continuidade no desenvolvimento da ciência, pois, mesmo quando assume a possibilidade de substituição de teorias mais empiricamente corroboradas, esta substituição de teorias seria um critério de progresso. Mas, como é possível deduzir, em uma narrativa histórica da ciência baseada nos pressupostos de Kuhn, a substituição de uma teoria científica por outra poderia ser interpretada como nova fase do progresso daquela ciência e não como continuação. Assim, Lakatos prefere interpretar a substituição de teorias científicas mais

60 Analisamos detidamente a relação entre filosofia e história da ciência nos ensaios de Kuhn no Capítulo 1,

item 1.1. O resumo das relações entre estas disciplinas pode ser encontrado no quadro 1.

61 Tratamos do conceito de imagem no pensamento kuhniano no Capítulo 1, item 1.2.

62 A nova historiografia da ciência, bem como a transição de Kuhn de preocupações científicas para

empiricamente corroboradas como processo de continuidade da pesquisa científica em relação aos mesmos problemas, neste caso, fazendo parte da série progressiva de desenvolvimento da ciência.

Pelos motivos acima indicados, consideramos que Lakatos utiliza um critério único para interpretar a mudança científica como progressiva desconsiderando, deste modo, as possíveis diferenças entre os critérios de avaliação entre teorias nas comunidades científicas. Assim, Lakatos retorna ao que Kuhn identificou como problema na análise da ciência, que é o pressuposto da unidade metodológica na pesquisa científica. Segundo Kuhn, é próprio da perspectiva da historiografia tradicional da ciência, que, por sua vez, representa o desenvolvimento científico como a-histórico63, pois supõe que diferentes comunidades científicas realizam suas pesquisas segundo o mesmo conjunto de pressupostos, sendo as teorias científicas do passado relevantes apenas naquilo em que contribuíram para as teorias compartilhadas no presente.

Portanto, no contexto da imagem de ciência proposta por Lakatos, herdeira que é do que Kuhn denominou historiografia tradicional da ciência, justifica-se a defesa da história interna, pois o critério estabelecido de cientificidade das teorias científicas (teoria mais empiricamente corroborada) não observa o que Kuhn identifica como fechamento das comunidades científicas. Como vimos, Kuhn considera que o fechamento da comunidade está diretamente relacionado ao paradigma adotado na prática científica desenvolvida em cada comunidade. Esse fechamento, no entanto, não é absoluto, pois, quer nos períodos pré-paradigmáticos, quer na chamada crise de paradigma, os elementos externos, tais como os valores sociais, podem influenciar a escolha dos cientistas por esta ou aquela definição de seu objeto de estudo. Assim, é apenas a partir do momento em que o paradigma da comunidade científica é definido para aqueles cientistas, que a atividade científica se torna esotérica ou, em outros termos, a