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Serbest Nazımın İki Kolu: Ercüment Behzat ve Nâzım Hikmet

Os Missionários da África, em seus primórdios, faziam parte de uma tradição religiosa cuja burocratização tornava comum a utilização de arquivos e registros sobre seu funcionamento, para o acompanhamento de quais ações poderiam ser legitimadas. Nessa mesma linha, os registros, como cartas e relatórios utilizados entre Lavigerie e seus missionários, criavam uma identidade que deveria ser preservada, para que qualquer adequação exigida nos postos pudesse operar como traço agregado à instituição. Embora essa concepção possa parecer algo fixo ou estagnado, compreendemos que seu significado institucional era o da continuidade, isto é, o mesmo grupo institucional que, por circunstâncias

anos de formação, resultando em um ator religioso apto a reproduzir o catolicismo mesmo sem a presença de seus superiores, por ser reconhecido e se reconhecer continuamente como tal, mais do que apenas uma função executável durante alguns momentos do dia ou da semana.

diferentes necessitava se adaptar para manter sua existência de acordo com sua função religiosa (ANDERSON, 2005). Nesse sentido, alguns traços culturais relativos às ações de educar os africanos, até as primeiras décadas de 1900, eram uma das formas de subsidiar economicamente as missões, mas não as principais; por isso, deixar de ter o domínio das escolas pode ter sido uma dificuldade para os missionários que ali estavam acostumados e construíram seu vínculo identitário na ação educacional. Para o instituto, a decisão de mudança de práticas e de remoção de missionários de um posto para outro era uma questão de estratégia para a sobrevivência sua, exemplificando a racionalidade da burocracia apresentada por Weber (1947). Por meio desta interpretação, poderemos analisar as pressuposições sociais e econômicas do instituto, que constituíram os direcionamentos do tipo de ações designadas a seus atores pelas autoridades internas, em relação aos órgãos eclesiásticos da Congregação para a Propagação da Fé e a função das narrativas em relação a suas práticas.

A compreensão da Igreja Católica Romana como produtora de valores de reconhecimento e de autoafirmação, normas e anseios, um capital simbólico próprio — de acordo com suas prescrições e proscrições durante a formação de seus atores e da distribuição de seus cargos — correspondeu à estruturação de uma burocracia religiosa. Seu funcionamento burocrático adequava-se às negociações diplomáticas do século XIX, relativas à partilha da África. Inclusive cargos como o de Núncio Apostólico passaram a representar os interesses diretos de Roma com poderes eclesiásticos e diplomáticos durante convenções e tratados. A partir do trabalho de Weber (1947), podemos compreender a presença de elementos nacionalistas, a primazia da racionalidade, distribuição de cargos por características de experiência, relação entre superiores e subalternos, hierarquização do poder e dos diferentes órgãos em sua execução, separação de territórios e relação com determinados cargos para a representação da autoridade eclesiástica. Tornava-se prescritivo, como em outros organismos sociais ou estatais, a utilização de narrativas documentais como instrumento de verificação das ações religiosas no que tangia a sua legitimidade vinculativa ao papado. Esse tipo de cobrança era exigido sobre todos os poderes católicos, independente, de sua circunscrição.

Charles Lavigerie compreendeu a necessidade de enraizar a hierocracia regrada em seus próprios seminaristas, já que seus missionários seriam lançados em disputas simbólicas com muçulmanos, fetichistas, reformistas e agentes coloniais, sem esquecer o desafio que representavam as línguas, costumes, doenças e fome, como traços cotidianos da África. Deste modo, o arcebispo escolheu a rigorosidade da iniciação inaciana para delinear a construção da identidade católica, com um padre jesuíta, um sulpiciano e um lazarista no início do instituto

de Lavigerie, cada um com um carisma: fé, sacerdócio e humildade, respectivamente. O iniciante deveria perder sua própria cultura para, mediante a nova identidade, compreender a cultura do outro. O contato direto com a alteridade levaria o futuro missionário à “temível experiência”, de abandono identitário ao mundo e apego absoluto ao catolicismo, movido para traços culturais vinculados à instituição (PERRIER, 1995; AGNOLIN, 2006), que corresponderiam à visão lavigeriana de não mudar os africanos para se parecerem europeus, como assim desejava a Association Internationale Africaine (AIA); mas, ao contrário, o ator modificar-se-ia intencionalmente, sacrificando toda sua vida exterior, para o africano não precisar destituir-se de seus hábitos materiais e assim aderir à verdadeira fé (LAVIGERIE, 1927). Nesse sentido, enquanto sinal diacrítico, a internacionalização da Sociedade dos Missionários da África deve ser entendida em termos de cultura com aspas, como matriz formativa para proporcionar uma heterogeneidade mundana, que Lavigerie acreditava ser missão da Igreja (CUNHA, 2010). Pela experiência constante da alteridade cultural, línguas, nacionalidades, costumes etc., o postulante seria forçado a criar significados vinculados ao catolicismo, para ser agregado a tal universalidade: “Il n’y a pas ni juif, ni grec, tous vous ne faites qu’um dans le christ”110, versículo que Lavigerie usava como mediação exortativa para que missionários e futuros missionários minimizassem os centros de atração externos às circunscrições para estabelecer um pacto simbólico com a população.

O noviciado do instituto concentrou postulantes da Bélgica, Alemanha, Itália, Holanda, Suíça, Malta, Luxemburgo, Espanha, Áustria e Canadá. Prever a disputa entre as potências coloniais rivais, associada aos preconceitos trazidos pelos postulantes em relação a seus vizinhos, durante a formação, era de extrema importância à formação. Nessa situação o candidato aprenderia a manter o convívio internacional fomentando uma única identidade – a católica romana — nos postos africanos (PERRIER, 1995). Minimizar a história individual, em prol desse universalismo, disciplinava o noviço a se remodelar no heroísmo católico: paciência, obediência, humildade, catolicismo incondicional e sacrifício pessoal. Assim, em 1890, com as particularidades políticas, a fé católica e uma irmandade universal deveriam ser internalizadas como um sinal superior à vida mundana. Lavigerie recomendava, em 29 de junho de 1890, à nona caravana enviada à África Equatorial, que:

Sans doute, il faut aimer d’abord as prope patrie; c’est la loi de la nature. Mais il faut savoir s’élever au-dessus de cette loi et confondre toutes les nations dans le même amour: c’est la loi de l’Évangile, qui ne vas pas contre

110 “Não há nem judeu, nem grego... pois vocês são todos um em Cristo Jesus” (BÍBLIA SAGRADA DA

la nature, mais qui l’élève à une sphère plus haute, la sphère surnaturelle à laquelle Dieu nous appelle (1927)111.

A vida comunitária, além de ser uma característica identitária obrigatória, postulava-se como um direito de todo membro da Sociedade nas circunscrições eclesiásticas, dando-lhe condições de fazer parte dessa órbita divina, sobrenatural. Como uma forma de proteger os preceitos do fundador e assegurar a reprodução dos esquemas católicos em qualquer posto africano, a Constitution de 1938, artigo 3, reforçou a regra de que nunca um posto deveria ter menos de três membros:

Jamais, dans aucun cas et son aucun prétexte quel qu’il soit, les Missionaires ne porront être moins de trois ensemble, Pères ou Frères, dans leur diverse résidences. On refusera, plutôt que de manquer à cette règle, les offres les plus advantageuses, les plus urgentes, et l’on renoncera plutôt à l’existence de la Société qu’à ce point capital112.

Para continuar com esse esquema ativo em todas as casas, os missionários avigoraram uma concepção da família celeste durante a formação dos seminaristas contra o apelo ao individualismo, para que os postos missionários e as casas de formação não se parecessem a casas de hotelaria, mas uma comunidade cristã. O Superior Geral do instituto, entre os anos de 1936 a 1947, Mgr. Joseph-Marie Birraux, em uma carta de 3 junho de 1942, fez esse pedido aos responsáveis pela casa de formação: para instituir uma vida comum, por meio da humildade, subordinação e amor aos superiores e aos outros membros de convívio. As orações em comum, refeições, atividades, estudos e práticas missionárias, com o intuito de desenvolver a santificação mútua, seriam ações para manter o convívio por um ideal de Jerusalém celeste na Terra. Pelo trabalho de Goffman (1975), podemos entender que o individualismo ou o particularismo em uma sociedade de vida apostólica poderia ser um perigo se tal instituição tivesse como um de seus sinais diacríticos a vida comunitária. Nesse caso, o interesse deveria ser estritamente subordinado ao da Sociedade e, por ela, todas as ações deveriam ser vinculadas, para se conectarem à hierocracia. Se tomarmos por base o conceito de Benedict Anderson (2005) sobre a comunidade imaginada, devemos inverter, parcialmente, o aplicado para a nação. Esta não teria a pretensão ou interesse de todos os

111 “Sem dúvida, é preciso primeiro amar a própria pátria: é a lei da natureza. Mas é preciso saber se elevar

acima dessa lei e confrontar todas as nações nesse amor: é a lei do Evangelho, que não vai contra a lei da natureza, mas que se eleva a uma esfera mais alta, a esfera sobrenatural para qual Deus nos chama” (tradução nossa).

112 “Jamais, em caso algum e sobre algum pretexto qualquer que seja, os Missionários poderão ser menos de três juntos, Padres ou Irmãos, nas diversas residências. Negarão, ao invés de violar esta regra, as ofertas mais vantajosas, mais urgentes e renunciarão a existência da Sociedade ao invés deste ponto capital.” (tradução nossa).

povos se juntarem a ela. Diferente era o projeto dos atores eclesiásticos que, por ser imaginada como ideal, perpetuou e expandiu esse propósito nos postos missionários. Com o tempo, pelo número de casas de formação, os diversos postos pela África e o conhecimento real de todos falecidos, a concepção da comunidade apegava-se à homogeneidade do carisma, ao invés das ações de seus membros.

A formação de seus atores deveria reforçar nos seminários seus ditos e escritos, para que o jovem fosse impregnado do projeto lavigeriano e reconstruísse, de acordo com este, uma identidade vinculada ao instituto católico. Figuram-se como fontes narrativas as cartas de Charles Lavigerie aos diversos postos e aos superiores de seminários e vicariatos, sendo o texto-mor dessa identidade as Premières instructions aux Missionnaires de l’Afrique

Equatoriale de 1878, carta 32, que, se de um lado é agregador da memória do grupo, de outro, minimiza os confrontos pelos quais foi produzido: as disputas territoriais católicas com os combonianos perante a Propaganda Fide, disputas com autoridades coloniais reformistas de Leopoldo II pela governança da luta antiescravagista e o desconhecimento do funcionamento do reino de Mtéça, rei de Buganda. Essas instruções tinham o caráter de guiar, animar e assegurar o sucesso do seu projeto expansionista entre os indigènes do interior africano.

Pouco antes de enviar a carta, em janeiro, Lavigerie tinha enviado o Mémoire Secret sobre seu interesse nas jurisdições do interior. Depois de receber a autorização da

Propaganda Fide para enviar seus missionários, em 24 de fevereiro, puderam embarcar em Marseille para Zanzibar os missionários Padres Livinhac, Girault, Barbolt, Lordel e o Irmão Armans, rumando para o interior, na região do Pró-Vicariato do Nyanza. E para o de Tanganyika, os padres Pascal, Delaunay, Dromaux, Augier e Deniaud (este último já havia desembarcado no mês de março). Charles Lavigerie repete a eles as prescrições e setores proscritivos pelos quais seriam cobrados: “sejam mártires, e não Robinsons”. O texto autoinstitui-se por uma autoridade dupla: da centralidade de Lavigerie e de suas normativas serem justificadas por trechos bíblicos efetivos na circunscrição do instituto. Esse texto está dividido em cinco partes:

I – disposições espirituais: fidelidade inviolável à letra das regras do instituto. A santificação das almas dependeria primeiramente da própria santificação, posto que as disposições espirituais mantinham a atenção dos missionários sobre suas atitudes, uma autovigilância. Por isso, era uma atitude extremamente antagônica ao missionário, um sacrilégio, não obedecer aos superiores, arruinando a missão, como havia sido provocado na desobediência do homem a Deus no paraíso, o pecado original de toda a humanidade;

II – ser verdadeiramente um pescador de homens. Tomando o livro de João, cap. 17 e versículo 17, Lavigerie identifica sua autoridade com a de Jesus: “Eu consagro-Me por eles, a fim de que também eles sejam consagrados na verdade”; e em Mateus, cap. 28, versículo 19: “Portanto, ide e fazei com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (BÍBLIA SAGRADA DA CNBB, 2012). A forma para se chegar ao espírito dos africanos seria pelas verdades acessíveis a todos os homens, instigando a fé demonstrada pelos antigos patriarcas, como Noé e Abrãao, que abnegaram de sua vontade para fazer aquilo que seria loucura aos olhos dos homens, como o apóstolo Paulo havia escrito aos Hebreus, cap. 11 (BÍBLIA SAGRADA DA CNBB, 2012). Essa crença residia na propriedade metafísica do cristianismo, como verdade universal que, por já ter estado presente na África, entre os séculos II e III, por Tertuliano e Cipriano, seu poder atingiria a alma dos africanos.

Para que os africanos, para a concepção lavigerieana, se sentissem atraídos ao catolicismo, os missionários deveriam agir como uma família e serem atenciosos também com as populações locais, para que todos percebessem que a união manifestada pelos católicos seria melhor do que a que eles tinham. Além disso, outra estratégia para atingir os negros era com aspectos religiosos, que tomavam como sendo as grandes verdades acessíveis ao espírito de todos os homens: primeiro dizer sobre a existência de deus, a punição e a recompensa da outra vida; depois, e brevemente, para causar uma boa impressão, falar sobre Jesus Cristo, a Igreja e os principais atos do culto cristão. Deveriam evitar desenvolver um discurso racional ou filosófico, mas enfatizar o lado sobrenatural da religião, seus milagres, seus prodígios, os maravilhosos efeitos da oração e os sacramentos. É possível que a pastoral africana seguisse as narrativas devocionais e hagiográficas, apelando ao espírito fantasioso que também atraía a população europeia. Embora as atitudes culturais, como a poligamia, eram o grande obstáculo à assimilação da verdade católica, os atores deveriam conquistar primeiramente a confiança dos chefes e se esforçarem em todo momento possível para aprender a língua indígena.

A aprendizagem da língua indígena era imprescindível para a conversão dos africanos. Supondo a distância cultural entre seus missionários, seria mais adequada e eficiente a criação da base do clero local. Por isso, fundar uma escola de médico-catequista, com os jovens africanos em Malta, como pedido à Propaganda Fide, seria imprescindível. Lavigerie acreditava em dois critérios básicos para a seleção dos alunos: terem por volta de 12 anos e serem extraordinariamente inteligentes para a aprendizagem moral e científica. Essa cautela seria, como ele afirmava, condizente com a prática de conversão ilustrada por Mateus, cap.

12, versículo 20: “Não esmagará a cana quebrada, nem apagará o pavio que ainda fumega, até que leve o julgamento à vitória” (BÍBLIA SAGRADA DA CNBB, 2012). O instituto de Malta não perdurou após a ausência de Charles Lavigerie: depois de 2 anos de sua morte, em 1884, o Conselho Superior decidiu fechá-lo, avaliando os custos e a viabilidade real do interesse dos nativos em colaborar com a proposta expansionista. Diante das informações que chegavam dos exploradores, o fundador acreditava reinarem na África sociedades bárbaras, sem religião, e infiéis, muçulmanos. Para Cabaço (2009), a denominação de infiéis era atribuída apenas aos muçulmanos que, monoteístas, adotaram uma fé falsa. Entretanto, nos escritos de Lavigerie não está claro se apenas os muçulmanos eram definidos como infiéis ou se também o paganismo da África negra seria visto da mesma maneira. Em auxílio à inserção dos missionários nos territórios do interior, ele incentiva-os a lerem as obras de Stanley, Burton e, principalmente, Livingstone, para conhecerem e verificarem o que acontecia na região para onde haviam sido enviados.

Quanto à presença dos reformistas, como dos agentes da Sociedade Internacional de Bruxelas e os missionários, o tratamento deveria ser cordial e caridoso, porém prudente, significando resguardar a distância deles. Lavigerie determina, assim, não se estabelecerem próximos aos institutos laicos ou heterodoxos; deveriam ficar, ao menos, com 120 km de distância, nem permitir-lhes fixarem-se em seu território, pois esse poder ele, Lavigerie, havia recebido na posição de delegado da Santa Sé, desde 1868;

III – cuidados para com a saúde. Os missionários deveriam cuidar para manter o hábito e serem prudentes ao receber indígenas em suas tendas, o que já estaria diferenciando das missões do Maghreb, pois essa prática era proibida aos muçulmanos. O sucesso da missão: pesquisar para se fixarem em lugares saudáveis e populosos. Explorar o país, mas não viajar sozinho. As casas devem ser como das pessoas ricas e honoráveis, ao modo do país, assim como a alimentação, de acordo com o país. Impedimento de caçar, mas permitir que os negros caçassem para eles. As vestimentas poderiam ser modificadas de acordo com o país, porém que guardassem o rosário, símbolo de sua pequena sociedade. Essa aparente flexibilidade de Lavigerie é ratificada, provavelmente pela formalidade do cardinalato, mas que ele procurava entender a partir do que seus missionários descreviam sobre o meio ambiente no interior do continente africano. Escreveu em 1883 ao padre francês Bridoux, quando esse era o Vigário Geral, reclamando de o Conselho não ter acompanhado seu pensamento sobre o uso das paramentas católicas em todos os postos missionários. Ele falava do uso que caracterizava a identidade eclesiástica de seu instituto: gandourra, rosário, chapéu e chéchia, que, em uma

região tropical, além de pouco prático, era prejudicial à saúde dos missionários que percorriam dias em regiões úmidas próximas aos aquíferos e em meio às florestas.

O superior deveria fazer com que houvesse a constância do diário, com informações convenientes às principais circunstâncias, o qual, depois, de revisado, poderia servir para ser publicado a serviço da honra da Igreja e da missão;

IV – missionários eram pesquisadores de almas, e não estudiosos. Os relatórios não deveriam ultrapassar 20 minutos descrevendo a cultura e a geografia local. Comparativamente aos escritos dos exploradores, seria uma rica fonte de informações sobre a África Equatorial; V – aos superiores manter a união nas comunidades pelo conselho semanal, prescrito pela Constituição. A substituição do superior seria por aquele que o Conselho indicasse ou, salvo caso em que não houvesse previsão como doença, momentaneamente pelo mais velho da missão;

Essas instruções traziam a força centrípeta do habitus católico, pois o fundador exigia de seus missionários que as lessem durante os retiros mensais, como leituras espirituais para direcionarem a vigilância da missão sobre pensamentos ou estados de ânimos contrários ao propósito do expansionismo, maximizando sua posição catalizadora; era necessário que cada um deles tivesse uma cópia escrita de próprio punho. Reforçaria, com essa atitude o sentimento de pertença ao grupo, de vínculo ao papado e de luta em nome da salvação dos homens em terras distantes.

Nas outras Instructions aux Missionnaries, Charles Lavigerie enfatizou a importância de seus missionários fazerem um diário cotidiano sobre o que vivenciavam, desde suas tentativas de conversão até dados culturais. De uma forma mais pontual, em 1879, depois de já ter algumas notícias do andamento da missão, Lavigerie compõe a Nouvelles instructions

aux Missionnaires de l’Afrique Equatoriale (carta 37) e descreve seis regras para a confecção dos diários no item IV, tendo como um dos elementos o modelo dos diários de David Livingstone e Henry Stanley. Essas regras eram:

1) serem descritivos e tornarem-se interessantes aos leitores europeus, mesmo industriais e comerciantes, como feito pelos exploradores;

2) ao escrever sobre a história das populações, investigarem semelhanças que apontassem para a união da humanidade, como descritos pelos Santos Livros — Bíblia, hagiografias e tratados religiosos — e os ensinamentos do cristianismo; também apresentar descrições geográficas que poderiam ser obtidas de viajantes;

3) as observações científicas deveriam ter um espaço reservado para sua exposição. Dois