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Como vimos pela trajetória católica de Charles Lavigerie, considerando o paradoxo de sua experiência no l’Oeuvre des Écoles d’Orient, a fundação dos institutos católicos em Argel, a reforma da Igreja de Sant’Anna em Jerusalém e o início da construção de uma Basílica em Cartago e sua posição eclesiástica na hierocracia até o cardinalato (SANCHIS, 2009), o mundo árabe e islâmico, com suas diversidades regionais e religiosas, tornou-se o germe da ação católica que seria reproduzida na Zâmbia. Se, por um lado, as ações refratárias à conversão ao catolicismo aparentavam minimizar a abrangência da inserção dos institutos, por outro, a experiência do diálogo inter-religioso credenciou suas ações como modelo católico de tolerância e perseverança, isto é, o ideal paulino de vida missionária diante do meio hostil a seus ensinamentos. Nesse sentido, o missionário deveria se ater a estar presente entre os árabes, falando a língua árabe, vestindo-se como eles, comendo com eles. Para tanto,

era necessária a contínua autovigilância, para que espelhasse a vivência do catolicismo romano sem o conforto da correspondência social, como ocorria nas paróquias europeias.

A forma que Charles Lavigerie havia encontrado, para responder às necessidades do Maghreb, foi instituir escolas, orfanatos e hospitais para atendimento imediato. Esses espaços tiveram destaque para a elaboração dos Rapports Annuels, que se tornaram uma categoria fundamental para a interpretação do tipo de abordagem católica nos postos missionários espalhados tanto no Maghreb, na África do Oeste, como na África Central.

Outro aspecto constitutivo da história do instituto foi ser o centro formador inicial de todos os Missionários da África e de manter, até a década de 1950, seu noviciado na Maison-

Cairrée. Isso significou que, antes de os candidatos serem enviados aos postos do interior africano, suas ações estavam sendo avaliadas pelos superiores entre as populações do Maghreb.

Com efeito, foram surgindo em Argel os sinais diacríticos desse instituto católico. Enquanto um sinal possuidor de um mesmo valor que outros na cultura eclesiástica, com uma identificação coletiva para designar o tipo de ação católica que representa – haja vista que, pelo caráter vinculativo romano, o surgimento de novos grupos com traços culturais específicos deve ser legitimado pela Santa Sé —, os sinais diacríticos representam a particularidade de um carisma ou, como aparece nos documentos eclesiásticos, uma índole própria:

Assim, a escolha dos tipos de traços culturais que irão garantir a distinção do grupo enquanto tal depende dos outros grupos em presença e da sociedade em que se acham inseridos, já que os sinais diacríticos devem poder se opor, por definição, a outros de mesmo tipo. [...]. (CUNHA, 2010, p. 238).

Por isso, podemos caracterizar a marca da índole própria ao fundador ou carisma do grupo eclesiástico pela convergência das disposições estruturantes nas quais o grupo se realizou catolicamente.

Outro evento importante nas ações dos Missionários da África foi a criação, em 1926, em Túnis, do Institut des Belles Lettres Arabes para instruir os religiosos implicados em territórios islâmicos e árabes. Esse, com o tempo, tornou-se um centro de formação católica sobre o mundo árabe até que, em 1997, sob a governança da Prefeitura da Congregação para a Educação Cristã, dos Missionários da África e do instituto Comboniano do Egito, tornou-se o

Pontificio Instituto di Studi Arabi e d’Islamistica (PISAI), 2012, responsável pela cientificidade católica a respeito das temáticas árabes e islâmicas. Como já dito, Charles

Lavigerie acompanhou as ações católicas nesses territórios. Esta inserção do catolicismo no território islâmico deve ser entendida pela concepção da inculturação shorteana de fidelidade dual: à fé católica e à cultura em questão. Portanto, isso significou o manuseio de ações humanitárias — cuidado com populações nas áreas de educação e saúde — mediando a reprodução do catolicismo.

Outra ênfase que observamos pela história desses missionários é o traço do heroísmo, caracterizado pela morte por assassinato enquanto praticavam o catolicismo. Isso se tornou um marco na história do instituto, quando, mesmo antes de conseguir a autorização da

Propaganda Fide para organizar o expansionismo na África Central em 1878, Lavigerie preparou uma segunda caravana, com três missionários para irem ao interior do continente, via Saara. A primeira e a terceira caravanas, antes que chegassem ao destino, sul do Sudão, tiveram seus membros, também com três missionários em cada uma, mortos no deserto por seus próprios guias. Inferimos que, mais que um ato contra os católicos, esses assassinatos podem ter ocorrido por motivações políticas, já que todos os missionários mortos eram franceses e seus guias estavam sob o jugo francês. Independente das motivações que os levaram à morte — pois, como Renault (1971; 1992) apontou, eram alegações sobre os eventos —, as disposições católicas, pela força centrípeta do habitus, atraíram para a órbita católica a compreensão de sua ocorrência. Para a história do grupo, ainda são eventos cruciais para rememorar, e ritualizar, o chamado divino para uma vida de sacrifício e abnegação, pelo ideal de expansão católica, podendo ser percebido seu efeito nas histórias daqueles que aderiram ao grupo em conformidade a essas histórias recontadas pelos mobilizadores de candidaturas de jovens, nos encontros pessoais ou nos noticiários católicos e obituários.108 Uma propaganda dolorosa às famílias e aos companheiros missionários, já que, por operar em uma lógica divinizada, ressaltava atitudes otimizadoras dos esquemas culturais das circunscrições do instituto, diferenciando a intensidade entre os jovens que queriam se tornar membro ou os que já faziam parte da rotina de inculcação109.

108 No site oficial dos Missionários da África é possível ter a cronologia daqueles que morreram por conta de seu trabalho missionário. Também em suas newsletters semanais há, nas primeiras chamadas, as notícias obituárias. Uma revista do instituto, Petit Echo, tem apresentado um obituário tendo como moldura o direcionamento de uma interpretação missionária da vida do membro retratado.

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Dentro dessa última, na circunscrição do instituto, a vigilância dos candidatos por parte dos superiores fazia essa força aglutinadora ser diferente da vivência dos legitimados, irmãos e padres, quando a autovigilância ocorria a partir do status de membro efetivo. Especificamente, a segurança de ser membro possibilita ao ator religioso assumir posições que antes poderiam ser julgadas impróprias pelos superiores, mesmo que estes viessem a exercê-las. Diante do perigo da expulsão por conta de uma inaptidão para se tornar membro do instituto católico, julgado por seus superiores, o candidato aprendia que em todo momento deveria ser vigilante de suas ações, seus pensamentos, seus sentimentos, suas falas em face de seus superiores, colegas de formação ou do mundo externo conhecedor de sua candidatura. Logo, a autovigilância católica seria enraizada durante os

Por outro lado, é relevante mencionarmos que, nas narrativas normativas, a presença do mundo árabe pouco aparece retratada sob a observância diante das populações subsaarianas, de seus chefes, de seu paganismo e dos poderes coloniais. Como frisou Bento XV, na encíclica Maximum Illud, em 1919, sobre a posição central da Igreja, como verdade para o mundo e o trabalho árduo dos missionários em terras distantes:

71. Porque ¿qué dificultad, molestia o peligro puede haber capaz de detener en el camino comenzado al embajador de Jesucristo? Ninguno, ciertamente; ya que, agradecidísimo para con Dios por haberse dignado escogerle para tan sublime empresa, sabrá soportar y aun abrazar con heroica magnanimidad todas las contrariedades, asperezas, sufrimientos, fatigas, calumnias, indigencias, hambres y hasta la misma muerte, con tal de arrancar una sola alma de las fauces del infierno.

Se a pastoral entre as populações do Maghreb era restrita, um serviço católico que deveria ser silencioso, foi nesse ambiente que os futuros missionários aprendiam a ser apóstolos e a lidar com a refração das populações para onde seriam enviados, na África negra. Parece assim, que o noviciado no Maghreb, para aqueles que seriam enviados para a África subsaariana teve uma função propedêutica pelo pouco intuito pastoral que seria desenvolvido com os árabes, mas culminando, de uma forma estrutural, no PISAI (Pontificio Instituto di Studi Arabi e d’Islamistica) para maximizar os jovens que permaneceram no Maghreb e no Oriente Médio, ou em outras regiões do Oeste africano e do Leste, onde haveria uma maior ênfase pastoral entre as populações islamizadas e árabes.