II. BÖLÜM
2.4. TURFAN SEFERLERİ
2.4.6. Seferler Sonucunda Yayınlanan Eserler
Embora a imprensa apresentasse o nazi-fascismo de forma positiva, havia igualmente espaço para matérias, compradas de agências internacionais, nas quais eram feitas denúncias e apontados questionamentos sobre o risco que representava o fortalecimento do nazi-fascismo, principalmente a partir da aliança entre Itália e Japão, algumas até mesmo – como a da Revista Vamos Lêr! de abril de 1939 – contextualizavam o leitor, explicando-lhe os verdadeiros motivos do incompreensível pronunciamento japonês em favor do antissemitismo.
Durante o ano de 1938 dois acontecimentos ocorreram que influíram fortemente na transformação do anti-semitismo nazista, fazendo-o passar de um movimento nacional para um movimento internacional. O primeiro foi a conversão do líder italiano, Benito Mussolinni, ao anti-semitismo. O segundo foi a conversão publicamente anunciada, dos japoneses ao mesmo credo. A maioria dos observadores não têm podido compreender esses acontecimentos e têm apreciado mal os seus efeitos. Na realidade, muitos observadores acharam comico o ato dos japoneses, porque não há judeus no Japão. Mas o anti-semitismo japonês não tem nada de engraçado. [...] A Italia e o Japão, seguindo as pegadas da Alemanha, estão se utilizando do anti-semitismo como de uma arma para a luta por uma partilha maior da superfície da terra. (Revista Vamos Lêr! 27 de abril de 1939)
Alternavam-se nas mesmas revistas, páginas contendo duras críticas ao regime de Hitler e Mussolini, e outras que se desdobravam em elogios às magníficas conquistas culturais, educacionais e econômicas, de italianos e alemães. Sobretudo a rígida disciplina, implantada pela educação nazista, bem como o culto ao corpo saudável e à educação física, fascinava aqueles que criam nesses métodos como eficazes, para a caminhada em direção aos novos tempos. Nesse sentido, destacamos a reportagem de W. S. Coogan, adquirida e publicada pela Vamos Lêr! de junho de 1939, a revista mesmo publicando textos que alertavam sobre os perigos do nazismo, frequentemente trazia textos apologéticos, sobre os “progressos do Estado Alemão”. Na reportagem, lia-se, em destaque, um pequeno texto motivador, acompanhado de uma frase do Führer alemão: “Nos países modernos preparam-se os moços para torna-los capazes de enfrentar, com espírito esportivo, a luta pela vida – ‘Quem tem mocidade tem futuro’, afirma Hitler”.
Em “Corpo e Alma da Juventude Contemporânea”, reportagem publicada na Vamos Lêr! em 1939, (figura 47) via-se em página dupla, ao centro, a imagem de três moças, em contra- plongée, durante a prática de um esporte, saltando, as três ao mesmo tempo em disputa pela bola. Movimento sincronizado, força, perseverança, habilidade, alegria (pois é possível notar um leve sorriso no rosto da moça que se coloca logo de frente para o leitor), ou seja, uma série de aspectos positivos, associados à juventude saudável, que o projeto dos governos autoritários desejava alcançar, estavam ali expressos.
Figura 47. Corpo e Alma da Juventude Contemporânea.
Fonte: Revista Vamos Lêr! 08 de junho de 1939, p. 36-37. Figura 48. Corpo e Alma da Juventude Contemporânea.2
Em quatro quadros menores, abaixo da imagem principal, vê-se a imagem de atléticos rapazes, em desfile, empunhando a bandeira, na prática de ginástica olímpica e realizando exercícios físicos de maneira sincronizada.
Nas duas páginas seguintes, novamente o destaque é à figura feminina (figura 48). A mulher disciplinada e de corpo ágil e saudável seria o símbolo de uma nova geração de cidadãos; não mais os ‘bichos de biblioteca’, mas jovens fortes e atléticos, preparados para a vida (e para a guerra).
Foi-se o tempo em que se pretendia habilitar a juventude para a vida com o auxílio único e exclusivo do livro, tendo-se em vista o ideal das gerações inteligentes e vivas. Pensava-se então em fazer dos homens uns bichos de biblioteca e o resultado é que, mal saídos da escola para o mundo, os jovens se chocavam contra um tipo de vida para o qual não se sentiam perfeitamente equipados e, via de regra se desesperavam na adaptação lenta e difícil, si a meio caminho não fracassavam.”[...] “Nos países modernos preparam-se os moços para torná-los capazes de enfrentar, com espírito esportivo, a luta pela vida – ‘Quem tem mocidade tem futuro’, afirma Hitler [...]” ‘O livro e o mosquete fazem um perfeito fascista’, é a expressão que Mussolini, por sua vez, define, em parte a ideologia da escola da nova Itália. O essencial é que tanto as nações totalitárias como as de índole democrática, conjugam os interesses da Escola com os interesses da vida moderna e estimulam a mocidade pelas atividades físicas e intelectuais em perfeita harmonia, para um destino diverso do de antigamente. Nasceu para o mundo o verdadeiro espírito sportivo. Queira Deus não seja ele aproveitado, amanhã, em espírito bélico[...] (Revista Vamos Lêr! 08/06/1939, p. 82)
No Brasil, não seria diferente, como explicava o próprio ministro Capanema, no Estado Novo, homens e mulheres deveriam estar preparados, deveriam ter uma formação educacional e física, para que pudessem exercer as funções que o Estado lhes definia como corretas: aos homens a defesa e o desenvolvimento da nação, às mulheres a formação da família. A frequência no uso da imagem das jovens moças nas matérias sobre educação, estaria mais associada à ideia de que todos deveriam se preparar para cumprir com excelência a sua “missão”, do que uma ideia de igualdade de gêneros107.
107 “Os poderes públicos devem ter em mira que a educação, tendo por finalidade preparar o indivíduo para a vida moral política e econômica da nação, precisa considerar diversamente o homem e a mulher. Cumpre reconhecer que no mundo moderno um e outro são chamados à mesma quantidade de esforço pela obra comum, pois a mulher mostrou- se capaz de tarefas as mais difíceis e penosas outrora retiradas de sua participação. A educação a ser dada aos dois há, porém, de diferir na medida em que diferem os destinos que a Providência lhes deu. Assim, se o homem deve ser preparado com têmpera de teor militar para os negócios e as lutas, a educação feminina terá outra finalidade que é o preparo para a vida do lar. A família constituída pelo casamento indissolúvel é a base de nossa organização social e por isto colocada sob a proteção especial do Estado. Ora, é a mulher que funda e conserva a família, como é também por suas mãos que a família se destrói. Ao Estado, pois, compete, na educação que lhes ministra prepará-la
À medida que os acontecimentos internacionais avançavam, o uso da disciplina para alimentar o “espírito bélico” ficou patente. Com a entrada da América na guerra, tanto a imprensa quanto o governo Vargas, por diversas razões, se viam inclinados ou mesmo obrigados a abandonar o tom de apoio e admiração à Alemanha, mas não exatamente a abandoná-la como modelo.
Embora, em 1942, tenhamos a fotorreportagem em página dupla, definindo a Juventude Hitlerista como um instrumento de destruição das relações familiares, “educação para a morte”, (figura 49) no ano seguinte, na mesma revista, vemos longa matéria apologética, ilustrada, sobre a Juventude Brasileira (figura 50), organismo criado pelo governo Vargas, nitidamente inspirado em sua versão original, alemã. Na observação das duas matérias, é possível notar que os elementos que as compõem são muito semelhantes: jovens em marcha desfilando, destaque para a figura feminina, a bandeira, o apoio popular, a postura atlética; na primeira, o texto se coloca numa relação disjuntiva às imagens, pois embora sejam apresentadas fotografias com imagens-ícone de uma juventude voltada para a disciplina, progresso e nacionalismo, o texto, os associa à preparação do cidadão para servir ao nazismo– e não à pátria. “A mulher não é mais um elemento da família, mas uma máquina de ter filhos”. “A Alemanha quer moças fortes para a maternidade estatal”. As frases são fortes, as denúncias são duras, mas as imagens mostram apenas rostos sorridentes, incluindo o de Hitler, que aparece abraçando uma jovem, em uma fotografia, legendada com: “Reconhecidamente inimigo das mulheres, Adolf Hitler, o ministro paranóico da Alemanha, fotografa-se assim, para efeito de propaganda” (Revista O Cruzeiro, 18 de setembro de 1943, p. 4-5). Lidos separadamente, texto e imagem, na figura 49, não comunicariam a mesma mensagem, pois os mesmos códigos de seleção e enquadramento utilizados para a construção positiva da Juventude Brasileira (figura 50), foram utilizados na montagem de ‘Educando para a morte’(figura 49). O Estado Novo no Brasil promoveu a criação de instrumentos de controle como o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), criado em 1938 e a Juventude Brasileira, que viriam para completar o projeto de identidade forjada pela homogeneização de princípios definidos e controlados arbitrariamente pelo Estado.
conscientemente para esta grave missão”. A fala é de Capanema, em Schwartzman, S. Tempos de Capanema. Rio de Janeiro: Paz e Terra; São Paulo: Edusp, 1984, p.107.
Figura 49. Educando para a morte.
Fonte: Revista O Cruzeiro, 30 de outubro de 1942, pp. 24, 25 e 34. Acervo CEDIC. Figura 50. O desfile da juventude.
Criada a partir do Decreto Lei de nº 2.072, em 08 de março de 1940108, que dispunha sobre
a obrigatoriedade da educação cívica, moral e física da infância e da juventude, a Juventude Brasileira corresponderia à instituição nacional responsável por ministrar tal disciplina, nas escolas e agremiações.
Seu objetivo era “criar no espírito das crianças e dos jovens o sentimento de que a cada cidadão cabe uma parcela de responsabilidade pela segurança e pelo engrandecimento da Pátria, e de que é dever de cada um consagrar-se ao seu serviço com o maior esforço e dedicação [...]”109. Ou seja, a Juventude Brasileira representava um braço do Estado, submetido diretamente ao Ministério da Educação e Saúde, com o poder de fiscalizar e intervirem questões ligadas à educação física e cívica – incluindo-se aí, a preparação elementar dos jovens, em idade escolar, como soldado – tanto nas escolas quanto em agremiações. Longas matérias, com grandes fotos chamativas, apresentando jovens sorridentes, em práticas esportivas eram publicadas nas revistas ilustradas mais vendidas da época, a fala apontava a associação entre saúde e progresso, mas numa perspectiva de “melhoria da raça”:
Pela primeira vez, já arregimentada, a Juventude Brasileira desfilou quarta-feira última, graciosa e marcial perante milhares de cariocas que quiseram testemunhar com sua presença a gratidão legítima pelos grandes esforços despendidos pelos organizadores do estado Novo, em prol de uma raça sadia e forte e um revigoramento da população nacional. (Revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 07 de setembro de 1940)
Vale lembrar que nesse momento de 1940, o governo Vargas já havia encampado o Jornal da Noite, do qual fazia parte a Vamos Lêr! que tornava-se assim, um veículo para a reafirmação da ideologia do regime vigente; por sua vez, até o início dos anos de 1940, O Cruzeiro, de Chateaubriand, também flertava, tal qual o governo varguista, com alguns dos princípios de desenvolvimento e melhoria da raça, presentes na ideologia tal como o do governo alemão.
Ainda sobre a Juventude Brasileira, ideais e princípios ligados ao nacionalismo e ao higienismo estariam nitidamente presentes em seus fundamentos:
108 Decreto Lei n. 2072 – de 08 de março de 1940 – Dispõe sobre a obrigatoriedade da educação cívica, moral
e física da infância e da juventude, fixa as suas bases, e para ministrá-la organiza uma instituição nacional denominada Juventude Brasileira. Boletim do Ministério da Agricultura, tópico Legislação. Publicado também na
Revista Vamos Lêr!, Rio de Janeiro, 14/03/1940, ano V, nº 189. 109 Revista Vamos Lêr!, Rio de Janeiro, 1940, nº 189.
Art 1º A educação cívica, moral e física é obrigatória para a infância e a juventude de todo o país, nos termos do presente decreto-lei.
Art 2º A educação cívica visará a formação da consciência patriótica. Deverá ser criado, no espírito das crianças e dos jovens, o sentimento de que a cada cidadão cabe uma parcela de responsabilidade pela segurança e pelo engrandecimento da pátria, e de que é dever de cada um consagrar-se ao seu serviço com maior esforço e dedicação.
Parágrafo único – É também papel da educação cívica formar nas crianças e nos jovens do sexo masculino o amor ao dever militar, a consciência das responsabilidades do soldado e o conhecimento elementar dos assuntos militares, e bem assim dá às mulheres o aprendizado das matérias que, como a enfermagem, as habilitem a cooperar, quando necessário, na defesa nacional. (Revista Vamos Lêr!, 1940, n. 189)
Além de gozar de total autonomia, atuando dentro das instituições de ensino, a Juventude Brasileira, possuiria seu próprio uniforme, brasão e hino. Ciência, higienismo, alimentação correta, corpos saudáveis, eis a imagem do progresso. A Juventude Brasileira podia ser identificada por seus uniformes e distintivos que deveriam ser usados por todos. Impossível não associá-los à Juventude Hitlerista, ativa entre os anos de 1922 e 1945, todavia, havia diferenças fundamentais entre ambas, como: para o caso alemão, a associação do órgão a funções e objetivos político- milicianos; a questão do jovem como controlador e delator do que fosse considerado como transgressão social; enquanto que para o caso brasileiro, a Juventude, conforme o decreto 2.072, vinculava-se ao Ministério da Educação e Saúde e não ao Ministério da Guerra como, aliás, constava no projeto de 1938, que não fora aprovado. Quanto às semelhanças, o treinamento para os esportes, a valorização da educação física e, principalmente, o apelo nacionalista para a formação de um cidadão-soldado, não podem deixar de ser percebidas110.
Interessante, também é observar uma clara definição dos papéis de gênero, bem como a valorização dos ideais higienistas:
(Art. 3º Parágrafo único) A educação moral procurará ainda formar nas crianças e nos jovens de um e outro sexo os sentimentos e os conhecimentos que os tornem capazes da missão de pais e de mães da família. Às mulheres, dará de modo especial a consciência dos deveres que as vinculam ao lar, assim como o gosto dos serviços domésticos, principalmente dos que se referem à criação e à educação dos filhos.
(Art. 4º Parágrafo único) – Buscará ainda a educação física dar às crianças e aos jovens os hábitos e as práticas higiênicas que tenham por finalidade a prevenção de toda a sorte de doenças, a
110 SCHWARTMAN, S; BOMENY, H; COSTA, V. Tempos de Capanema. São Paulo: Editora Paz e Terra e Editora da Universidade de São Paulo, 2000.
conservação do bem-estar e o prolongamento da vida. Será, neste particular, objeto de especial atenção o esclarecimento do papel que, na manutenção da saúde, desempenha a alimentação, e bem assim dos preceitos que sobre ela devem ser continuamente observados. (Boletim do Ministério da
Agricultura, 1940, ano 29, p. 95-96)
Eis aqui um momento importante para ser observado. O Estado, ao assumir publicamente este discurso, adota uma posição que aponta para uma compreensão de progresso associado, não mais a uma visão eugênica de oposição entre raças superiores e inferiores, mas aproxima-se de um discurso que aposta mais na ciência do que na raça, na busca pela formação de uma nação forte; seria, contudo, ainda o pensamento higienista, aliado a uma disciplina militar, que estariam na base desse projeto de educação para a juventude.