Para que se possa ter uma visão clara em relação à atual situação no Brasil no que tange à proteção do trabalho doméstico e compará-la com o ideal internacional de proteção, faz-se necessário traçar um paralelo entre a Lei n. 5.859/72, que continua em vigor, a nova redação do parágrafo único do artigo 7º da Constituição Federal e os direitos e orientações conferidos pela Convenção 189 e pela Recomendação 201 da OIT, respectivamente.
A despeito de tais regulamentações, os artigos da Convenção e, posteriormente, da Recomendação serão analisados à guisa das garantias brasileiras.
No que tange à Convenção 189, cumpre esclarecer que os artigos 1º, 2º e 3º, por se tratarem da parte terminológica e do âmbito de aplicação da norma, não abarcarão este estudo teórico, ao passo que o artigo 4º principiará esta análise.
Por tratar da questão etária para o exercício do trabalho doméstico, o artigo 4º exige que os países não permitam que o trabalho doméstico seja regularizado em idades inferiores às exigidas para os demais tipos de trabalho. Em relação a este tema, o Brasil, em termos legais, está em harmonia com a OIT, uma vez que a Emenda 72 estendeu ao trabalho doméstico o inciso XXXIII do artigo 7º da Constituição, garantindo que os menores de 16 anos só possam trabalhar em condição de aprendiz, e que os que têm idade entre 16 e 18 não possam desempenhar tarefas em ambiente insalubre, perigoso ou em horário noturno.
O artigo 5º da Convenção 189 disserta sobre a proteção efetiva contra todas as formas de abuso, assédio e violência. Já o artigo 6º refere-se à noção de trabalho decente criada pela OIT. Não há em nosso ordenamento nada específico a respeito destes temas, salvo as garantias constitucionais básicas de todo cidadão.
O artigo 7º exige que os empregados domésticos tenham acesso fácil e claro às condições do emprego para o qual serão contratados. Outrossim, até hoje inexiste em nosso ordenamento jurídico matéria reguladora sobre o tema.
O artigo 8º versa quanto à proteção aos trabalhadores domésticos migrantes, tema sobre o qual nossas normas também não se manifestam.
O artigo 9º trata da questão relativa ao direito de escolha do empregado sobre residir ou não no local de trabalho, bem como da proibição de se exigir que o trabalhador permaneça no domicílio em seus dias de repouso ou férias. O ordenamento jurídico brasileiro apenas menciona a questão da moradia no artigo 2º-A da Lei n. 5.859/72, quando trata da vedação de descontos salariais. Desta forma, também não há correspondente para este dispositivo.
O artigo 10 conceitua a limitação de jornada de trabalho, garantia de repouso semanal e férias. Com a aprovação da Emenda Constitucional 72, o inciso XIII do artigo 7º passou a abranger também os trabalhadores domésticos, garantindo, assim, a jornada máxima de 8 horas diárias e 44 horas semanais. No tocante ao descanso semanal remunerado e às férias, estes já eram assegurados pelos incisos XV e XVII, mesmo antes da emenda, bem como pelo artigo 3º da Lei n. 5.859/72.
O artigo 11 preocupa-se com a garantia de um salário-mínimo a esses profissionais, o que já era garantido no Brasil pelo inciso IV do artigo 7º desde 1988.
O artigo 12 discorre acerca de regras de proteção ao salário, como a periodicidade, o pagamento em espécie e a limitação de parcelas in natura. No Brasil, como mencionado há pouco, tem-se apenas a vedação de descontos salariais.
O artigo 13 trata da questão relativa a um ambiente de trabalho seguro e saudável. Não há nenhum correspondente no ordenamento pátrio.
O artigo 14 preceitua quanto à proteção da seguridade social. No Brasil, em 1972, a Lei n. 5.859 estipulou em seu artigo 2º a necessidade de registro em carteira para os empregados domésticos; esta norma gerou, consequentemente, a inclusão desses trabalhadores no rol de proteção da seguridade social. Posteriormente, na Constituição de
1988, alguns direitos relativos à seguridade foram especificados, tais como: licença- maternidade, licença-paternidade e aposentadoria (incisos XVIII, XIX e XXIV do artigo 7º). Com a aprovação da Emenda 72, foram garantidos também: seguro-desemprego, salário- família, creche e pré-escola para filhos ou dependentes de até 5 anos de idade (incisos II, XII e XXV do artigo 7º).
O artigo 15 refere-se à questão das agências privadas de emprego e às regras que devem as reger. No Brasil ainda não existem normas equivalentes.
O artigo 16 cuida do acesso à justiça e a meios de solução de conflitos em geral. No ordenamento jurídico brasileiro há o princípio geral de garantia de acesso à justiça, presente no artigo 5º, XXXV da CF. Não há, no entanto, uma regra específica que garanta especialmente aos trabalhadores domésticos este direito.
No artigo 17 há informações sobre a inspeção do trabalho e demais medidas que assegurem o cumprimento das regras a respeito do labor doméstico. Até a presente data não há arcabouço teórico que normatize o assunto em nosso ordenamento pátrio.
Os artigos 18 a 27 tratam das formas de colocar a Convenção em prática e dos procedimentos para sua adoção, ratificação e implementação. Por essa razão, portanto, não são objetos desta análise.
Encerradas tais apreciações, dispor-se-á quanto ao conteúdo da Recomendação 201. O artigo 1º, que versa a respeito das funções da Recomendação, será suprimido deste campo de análise.
O artigo 2º conceitua a liberdade de associação e o direito à negociação coletiva. Com o advento da Emenda 72, o direito contido no inciso XXVI do artigo 7º da Constituição Federal foi estendido aos empregados domésticos, garantindo, dessa forma, o reconhecimento das convenções e os acordos coletivos de trabalho.
Os artigos 3º e 4º exprimem a possibilidade de se exigir determinados exames médicos do empregado doméstico. Tem-se no inciso III do artigo 2º da Lei n. 5.859/72 a possibilidade do empregador requerer atestado de boa saúde do empregado no momento da contratação. No
entanto, faz-se importante ressaltar que isso deve ocorrer sempre com respeito ao princípio da dignidade da pessoa humana e do direito à intimidade.
O artigo 5º normatiza a questão do trabalho infantil e do adolescente, reiterando e aprofundando as ideias contidas no artigo 4º da Convenção 189, que, conforme aludido, encontra correspondência no inciso XXXIII do artigo 7º da Constituição Federal de 1988.
No artigo 6º, a essência do artigo 7º da Convenção 189 é retomada ao fazer menções acerca das informações sobre o emprego e as disposições em contrato. No Brasil não há dispositivo correspondente.
O artigo 7º da Recomendação aprofunda as previsões do artigo 5º da Convenção, o qual elenca as formas de proteção dos trabalhadores domésticos contra abusos, assédio e violência. No ordenamento jurídico brasileiro não existem normas específicas que versem a respeito desta temática, limitando-se à existência das garantias constitucionais básicas, comuns a todos os cidadãos.
Os artigos 8 a 13 contêm regras atinentes à jornada de trabalho, abrangendo a questão da limitação, do registro das horas trabalhadas, dos períodos de descanso e do trabalho noturno. O artigo 10 da Convenção aborda a respeito do mesmo tema. É possível afirmar, então, que com a aprovação da Emenda Constitucional 72, o inciso XIII do artigo 7º passou a abranger também os trabalhadores domésticos, garantindo a jornada máxima de 8 horas diárias e 44 horas semanais. Já no que se refere ao descanso semanal remunerado e às férias, estes já eram garantidos pelos incisos XV e XVII, mesmo antes da emenda, bem como pelo artigo 3º da Lei n. 5.859/72. Vale frisar que o direito a pagamento de adicional noturno, previsto no inciso IX do artigo 7º, foi concedido também aos domésticos por força da emenda, mas este, no que concerne à sua efetividade, ainda aguarda regulamentação.
Nos artigos 14 e 15 há previsões em relação à remuneração e aos pagamentos in natura, limitando-os e vedando determinados descontos. Esta matéria também é objeto do artigo 12 da Convenção. No Brasil, o tema é tratado de modo sucinto no artigo 2º-A da Lei n. 5.859/72, que veda determinados descontos salariais e dispõe sobre a natureza de alguns benefícios.
O artigo 16 examina a proteção dos créditos salariais em caso de insolvência ou falecimento do empregador. Inexiste no Brasil dispositivo semelhante.
O artigo 17 esboça a respeito das condições adequadas para acomodação e alimentação dos empregados domésticos. Não há em nosso ordenamento jurídico norma que trate deste assunto.
O artigo 18 da Recomendação alude sobre os períodos razoáveis para que o trabalhador que mora no emprego e seja desligado encontre um novo lugar para morar. Mais uma vez, nada há a esse respeito nas normas brasileiras.
No artigo 19 encontram-se informações no que tange à saúde e à segurança no trabalho doméstico, assim como o artigo 13 da Convenção. Como já afirmado, não há dispositivo correspondente no Brasil.
O artigo 20 cuida da integração dos empregados domésticos à previdência social. No Brasil, o artigo XXIV do artigo 7º da Constituição Federal garante a esses empregados o direito à aposentadoria.
Nos artigos 21 e 22 são postuladas regras de proteção aos trabalhadores domésticos migrantes, bem como no artigo 8º da Convenção 189. Conforme mencionado anteriormente, inexiste em nosso ordenamento jurídico norma a despeito do tópico.
O artigo 23 versa a respeito das agências de emprego privadas, assim como o artigo 15 da Convenção. Não há, novamente, norma correlata em solo brasileiro.
O artigo 24 trata das inspeções do trabalho no ambiente doméstico, aprofundando o disposto no artigo 17 da Convenção. Não há regramento equivalente no Brasil.
No artigo 25 são relatados programas e políticas para qualificar os trabalhadores domésticos, assunto sobre o qual o Brasil também não se manifesta.
Por fim, o artigo 26 trata da cooperação internacional para proteção dos trabalhadores domésticos, razão pela qual não é analisado comparativamente.
Para facilitar a compreensão desse paralelo, seguem dispostos os dados analisados na tabela a seguir:
ARTIGO DA
CONVENÇÃO 189 MATÉRIA TRATADA
CORRESPONDENTE NO ORDENAMENTO JURÍDICO
BRASILEIRO
1º Terminologia Sem análise
2° Âmbito de aplicação Sem análise
3º Medidas internas para garantir a aplicação da convenção Sem análise
4º Idade mínima para o trabalho doméstico Artigo 7º, XXXIII da CF
5º Proteção contra abusos, assédio e violência Não há
6º Adequação à noção de “trabalho decente” Não há
7º Informações sobre as condições do emprego Não há
8º Proteção dos trabalhadores migrantes Não há
9º Regras sobre a residência no emprego Artigo 2º-A da Lei n. 5.859/72 (não esgota o tema) 10º Limitação de jornada e períodos de repouso Artigo 7º, XIII, XVI e XVII da CF e artigo 3º da Lei n. 5.859/72
11 Salário-mínimo Artigo 7º, IV da CF
12 Regras de proteção ao salário Não há (exceto vedação de descontos artigo 2º-A da Lei n. 5.859/72) –
13 Ambiente de trabalho seguro e saudável Não há
14 Seguridade social Artigo 2º da Lei n. 5.859/72 e artigo 7º, II, XII, XVII, XIX, XXIV e XXV da CF
15 Agências privadas de emprego Não há
16 Acesso à justiça Artigo 5º, XXXV da CF (princípio geral)
17 Inspeção do trabalho Não há
ARTIGO DA
RECOMENDAÇÃO 201 MATÉRIA TRATADA
CORRESPONDENTE NO ORDENAMENTO JURÍDICO
BRASILEIRO
1º Função da Recomendação Sem análise
2º Liberdade de associação e negociação coletiva Artigo 7º, XXVI da CF de 1988
3º Exames médicos Artigo 2º, III da Lei n. 5.859/72
4º Exames médicos Artigo 2º, III da Lei n. 5.859/72
5º Idade mínima para o trabalho doméstico Artigo 7º, XXXIII da CF de 1988 6º Condições de emprego e padrão de contrato Não há
7º Proteção contra abusos, assédio e violência Não há
8º a 13 Jornada de trabalho Artigo 7º, IX, XIII, XV, XVII da CF de 1988 e artigo 3º da Lei n. 5.859/72
14 Remuneração e proteção do salário Artigo 2º-A da Lei n. 5.859/72 (vedação de descontos) 15 Regras de proteção ao salário Artigo 2º-A da Lei n. 5.859/72 (vedação de descontos) 16 Proteção dos créditos salariais em caso de insolvência ou falecimento do
empregador Não há
17 Acomodação e alimentação Não há
18 Rescisão de contrato do empregado que reside no emprego Não há
19 Saúde e segurança no trabalho doméstico Não há
20 Integração à Previdência Social Artigo 7º, XXIV da CF de 1988
21 Proteção aos trabalhadores migrantes Não há
22 Proteção aos trabalhadores migrantes Não há
23 Agência privadas de emprego Não há
24 Inspeção do trabalho Não há
25 Políticas e programas para qualificar o trabalho doméstico Não há 26 Trabalhadores migrantes e cooperação internacional Sem análise
ARTIGO DA RECOMENDAÇÃO 201 MATÉRIA TRATADA CORRESPONDENTE NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO
1º Função da Recomendação Sem análise
2º Liberdade de associação e negociação coletiva Artigo 7º, XXVI da CF de 1988
3º Exames médicos Artigo 2º, III da Lei n. 5.859/72
4º Exames médicos Artigo 2º, III da Lei n. 5.859/72
5º Idade mínima para o trabalho doméstico Artigo 7º, XXXIII da CF de 1988 6º Condições de emprego e padrão de contrato Não há
7º Proteção contra abusos, assédio e violência Não há
8º a 13 Jornada de trabalho Artigo 7º, IX, XIII, XV, XVII da CF de 1988 e artigo 3º da Lei n. 5.859/72 14 Remuneração e proteção do salário Artigo 2º-A da Lei n. 5.859/72 (vedação de descontos) 15 Regras de proteção ao salário Artigo 2º-A da Lei n. 5.859/72 (vedação de descontos) 16
Proteção dos créditos salariais em caso de insolvência ou falecimento do
empregador Não há
17 Acomodação e alimentação Não há
18 Rescisão de contrato do empregado que reside no emprego Não há
19 Saúde e segurança no trabalho doméstico Não há
20 Integração à Previdência Social Artigo 7º, XXIV da CF de 1988
21 Proteção aos trabalhadores migrantes Não há
22 Proteção aos trabalhadores migrantes Não há
23 Agência privadas de emprego Não há
24 Inspeção do trabalho Não há
25 Políticas e programas para qualificar o trabalho doméstico Não há 26 Trabalhadores migrantes e cooperação internacional Sem análise