Entre os anos 2010 e 2011, antes de entrar em vigor a Convenção 189, a OIT dedicou- se ao estudo do trabalho doméstico na América Latina e no Caribe, levantando dados estatísticos e delineando diretrizes para uma maior proteção dos trabalhadores dessa área.
Foram elaboradas quatro notas32 a respeito de diferentes temas, quais sejam:
Nota 1: Um trabalho decente para as trabalhadoras domésticas remuneradas do continente;
Nota 2: Salários dignos para as trabalhadoras domésticas remuneradas;
Nota 3: Erradicar o trabalho infantil doméstico;
Nota 4: Ampliar a proteção da seguridade social para as trabalhadoras domésticas remuneradas.
Pautadas tais diretrizes, este estudo apresentará uma breve análise do conteúdo de cada uma delas, que tiveram papel decisivo na elaboração da Convenção 189 e da Recomendação 201 da OIT.
A primeira nota trata da noção de trabalho decente aplicado à esfera do trabalho doméstico remunerado. Afirma-se, no âmbito da América Latina e do Caribe, que:
Em cada 100 mulheres que trabalham, 14 são trabalhadoras domésticas. Do ponto de vista numérico, é a ocupação mais importante para as mulheres na América Latina. Na realidade, esta cifra poderia ser ainda maior, já que frequentemente as estatísticas não captam as trabalhadoras que trabalham por hora ou por dia, as trabalhadoras não registradas, as migrantes sem documentos e as meninas que realizam trabalho infantil doméstico.
São levantados uma série de dados estatísticos acerca da mão de obra doméstica local, além de gráficos que detalham melhor a situação. Deve-se dar destaque a um dos gráficos que demonstra o quão inferior é o rendimento das mulheres que trabalham no âmbito doméstico se comparadas às que trabalham em outras esferas. O estudo busca apontar as causas para essa
32 Disponível em: <http://www.oitbrasil.org.br/content/notas-da-s%C3%A9rie-da-oit-%E2%80%9Ctrabalho- dom%C3%A9stico-remunerado-na-america-latina-e-caribe%E2%80%9D-trazem-info>. Acesso em: 10 fev. 2014.
disparidade, bem como trabalhar com elementos que poderiam mudar tal situação, conforme pode-se extrair do excerto a seguir:
Trabalho doméstico, desigualdade social, de gênero, de raça ou etnia e pobreza estão fortemente relacionados. Enfrentar este fenômeno requer aumentar o grau de escolaridade e formação técnica das trabalhadoras, melhorar suas condições de trabalho, promover em todos os âmbitos a igualdade de direitos entre homens e mulheres (e as reformas necessárias para assegurá-los). Também é necessário valorizar o trabalho da mulher, as tarefas domésticas e o trabalho de cuidado dos lares e dos seres humanos.
Esses são requisitos indispensáveis para superar as situações de desigualdade que sofrem as mulheres, especialmente em ocupações como o trabalho doméstico. São passos necessários e possíveis para avançar rumo à igualdade, à erradicação da pobreza na região e a um trabalho decente para todas as pessoas.
Verifica-se, do exposto, que essa primeira nota procurou apenas explanar a situação e demonstrar sua relevância, sobretudo no contexto latino-americano e caribenho. Problemas mais pontuais e potenciais soluções serão explorados posteriormente.
A segunda nota entra de forma específica na questão da remuneração das trabalhadoras domésticas. Constata, logo de início, um dado interessante:
As trabalhadoras domésticas ocupam os graus mais baixos na escala de remunerações nos países e recebem, em média, salários inferiores ao total de trabalhadores. Esta diferenciação é maior nos países em que a força de trabalho tem maior escolaridade (Argentina, Brasil e Costa Rica, por exemplo), onde a remuneração do trabalho doméstico corresponde a cerca de um terço da média total das remunerações das demais ocupações. Nos países mais pobres, a diferença é menor (entre 60,9%, no Equador e 70,4%, no Peru), mas os salários são também mais baixos.
Em seguida, completa a ideia afirmando que os fatores de discriminação também estão presentes no trabalho doméstico, uma vez que as trabalhadoras negras, indígenas e migrantes recebem remunerações inferiores. Destaca, ainda, que a remuneração das trabalhadoras domésticas não alcança os mesmos níveis recebidos pelos poucos homens que trabalham no mesmo setor, inclusive quando desempenham tarefas similares.
Também há gráficos demonstrando a questão dos rendimentos desses trabalhadores em diferentes países da América Latina e do Caribe. No que compete à proteção do salário, alguns pontos merecem destaque:
Também é importante garantir que o salário seja pago de forma regular (no mínimo uma vez ao mês), em moeda corrente local e ampliar a prática de entrega regular de recibos de pagamento que indiquem com clareza os valores e descontos realizados.
Uma prática comum é o pagamento in natura, isto é, um desconto nos salários de itens de habitação, alimentação e higiene, que corresponde ao cálculo do empregador ou empregadora sobre o que fornece à trabalhadora nessas rubricas. Nesses casos, é importante estabelecer qual é a proporção máxima da remuneração que poderá ser paga in natura, e também que o cálculo do valor pecuniário dessas prestações seja realizado com base em critérios objetivos e somente com relação aos itens claramente de uso pessoal das trabalhadoras. Por fim, a nota atesta que, nos últimos anos, apesar da crise econômica, a região viveu um período de importante crescimento econômico com geração de emprego e elevação dos salários reais, acompanhado de medidas de combate à pobreza. Ainda assim, há muito a ser melhorado, na medida em que:
Prosseguir na regulação e no incremento da remuneração das trabalhadoras domésticas do continente é um passo fundamental para ultrapassar as discriminações e desigualdades que cercam esta ocupação, elevando o padrão de vida e trabalho destas mulheres e de suas famílias.
A terceira nota trata do trabalho infantil. Afirma, a princípio, que o trabalho infantil doméstico em casa de terceiros é uma das formas mais comuns e tradicionais de trabalho
infantil. Com isso, coloca a questão de que essas crianças e adolescentes são “trabalhadores invisíveis”, pois seu trabalho é realizado no interior de casas que não são as suas, sem nenhum sistema de controle e longe de suas famílias. Conclui que esse grupo é provavelmente o mais vulnerável e explorado, bem como o mais difícil de proteger. Preocupa-se, então, em definir trabalho infantil e trabalho doméstico infantil:
Trabalho infantil é toda atividade econômica realizada por meninos e meninas que estão abaixo da idade mínima para o trabalho permitida pela legislação nacional. Para o caso de adolescentes (acima da idade mínima, mas menores de 18 anos), são consideradas como trabalho infantil todas as atividades que interferem em sua educação, que se realizam em ambientes perigosos e/ou em condições que afetem seu desenvolvimento psicológico, físico, social e moral, ou seja, todo trabalho que priva meninos e meninas de sua infância, sua educação e sua dignidade.
O trabalho infantil doméstico em casa de terceiros se refere a todas as atividades econômicas realizadas por pessoas menores de 18 anos fora de sua família nuclear e pelas quais podem ou não receber alguma remuneração. São meninas, em sua maioria, que levam prematuramente uma vida de adulto, trabalhando muitas horas diárias em condições prejudiciais à sua saúde e desenvolvimento, por um salário baixo ou em troca de habitação e/ou educação.
A forte carga cultural está intimamente ligada à exploração do trabalho infantil no âmbito doméstico, assim como o combate à pobreza na América Latina e Caribe está ligado à questão. A oferta e ampliação de educação de qualidade a todas as meninas, meninos e adolescentes seria uma das formas mais eficazes e naturais para sanar esse problema.
São as situações de pobreza no campo e na cidade que geram situações como a das “criaditas”, “ahijadas”, “filhas de criação”, “restàvek” etc., i.e., meninas que desde muito cedo os pais enviam ou “dão” para uma família que se encarregará de seu cuidado em troca de habitação e educação, na esperança de que isso as conduza a melhores condições de vida. Essas meninas, em um enorme número de casos, não formam “parte da família”, mas atrás dessa denominação se transformam em pequenas trabalhadoras domésticas, sem
oportunidades de estudo e de uma infância e adolescência saudáveis. São também vítimas frequentes de assédio moral e sexual e maus-tratos.
Por mais que seja difícil mensurar quantos meninos e meninas estão submetidos ao serviço infantil doméstico na América Latina e no Caribe, a OIT calcula que o número ultrapasse a marca de dois milhões, dos quais quase 90% são meninas.
A OIT estima, inclusive, que em todo o planeta há mais meninas menores de 16 anos empregadas no trabalho doméstico do que em qualquer outra forma de trabalho. Tal cenário se deve à persistência da crença tradicional de que as tarefas domésticas são inerentes às mulheres e, portanto, empregá-las desde cedo nessa atividade poderia prepará-las para um adequado exercício de sua função como adultas.Quanto aos avanços alcançados nesse tema nos últimos anos, a nota frisa:
Na região, a grande maioria dos países ratificou a Convenção 138 sobre a idade mínima para admissão ao trabalho, estabelecendo geralmente que meninos e meninas menores de 14 anos não podem trabalhar. Com esta medida, o trabalho de domicílios de terceiros realizados por crianças menores que a idade mínima nacional fica fora da lei.
Também conta com alto nível de ratificação a Convenção 182 sobre as piores formas de trabalho infantil. Isto levou os países a estabelecer uma relação de trabalhos considerados perigosos, ou seja, aquele trabalho que, por sua natureza ou pelas condições em que se realiza, é provável que prejudique a saúde, a segurança ou a moral dos/as menores de 18 anos. Em muitos países da região, o trabalho infantil doméstico já foi incluído na relação de trabalhos perigosos ou foram estabelecidas condições especiais para a proteção para o grupo que se situa entre a idade mínima e os 18 anos. Isto tem especial relevância para o grande número de adolescentes no trabalho doméstico remunerado, já que obriga os países a complementar a normativa legal com políticas de fomento à permanência dos jovens na escola e na capacitação profissional e a desenvolver programas de atenção integral às famílias e às adolescentes para que possam se afastar desta atividade.
A ação normativa dos países, as medidas e programas desenvolvidos na região mostram que as soluções são variadas e o caminho é longo, mas que é possível atuar de forma a romper com as causas e as consequências negativas do trabalho infantil doméstico para meninos, meninas e adolescentes. Com o apoio da OIT, muitos dos países da América Latina e do Caribe desenvolveram ações com o objetivo de reduzir o uso da mão de obra infantil no contexto do trabalho doméstico. São elas:
- Campanhas para promover mudanças culturais nas comunidades e famílias que enviam ou recebem meninas, meninos e adolescentes para o trabalho infantil doméstico e para a sociedade em geral, visando sensibilizar educadores, gestores públicos, operadores de justiça e legisladores.
- Programas e políticas, além de intervenções localizadas, para a prevenção da inserção e apoio às meninas, meninos e adolescentes e suas famílias para a saída do trabalho infantil doméstico.
- Um grande esforço de geração e disseminação de conhecimentos estatísticos, legais, médicos e psicossociais para melhor conhecer e informar sobre as consequências do trabalho infantil doméstico.
- Ações para o fortalecimento das instituições envolvidas na erradicação do trabalho infantil doméstico, desde o nível nacional até as regiões e municípios, para apoiar a implementação dessas ações.
Por fim, a quarta nota trata da questão relativa ao acesso à seguridade social para as trabalhadoras domésticas. A nota demonstra, seguramente, que o tema é relevante na medida em que um imenso número de trabalhadoras domésticas ficam em total desamparo em situações de velhice ou maternidade por não contarem com a seguridade social:
O grau de cobertura da proteção social para a população ocupada na América Latina e no Caribe é bastante heterogêneo. Porém, o acesso das trabalhadoras domésticas à proteção social é sempre muito menor do que o do conjunto da população assalariada. A média regional de trabalhadoras domésticas que contribuem para o sistema de pensões e aposentadorias é de apenas um terço do total das mulheres ocupadas.
O Uruguai, que sempre ocupou posição de vanguarda em matéria de direito, iniciou, em 2005, por meio do Banco de Previdência Social do Uruguai, uma campanha para aumentar a cobertura de proteção social das trabalhadoras domésticas. No ano de 2006, foi aprovada uma lei sobre o trabalho doméstico no país e a campanha de informação se orientou para a difusão dos novos direitos. Foram instalados serviços telefônicos gratuitos, distribuídos folhetos e montadas obras de teatro de rua. A campanha multimídia incluiu também a entrega de informação sobre os requisitos e a forma de realizar o registro das trabalhadoras através da página do Banco de Previdência Social na internet. Como resultado, a contribuição à proteção social aumentou 50% nos seis anos que antecederam à edição da nota e um número importante de trabalhadoras obteve o seguro-desemprego. Espera-se, então, que os demais países da América Latina e do Caribe sigam na linha do referido país sul-americano, trabalhando para que a cobertura de proteção previdenciária seja cada vez mais estendida no intuito de alcançar os trabalhadores domésticos.
Pouco tempo depois, houve aprovação da Convenção 189 e da Recomendação 201 da OIT, aprofundando e reforçando as ideias veiculadas nas quatro notas. As questões do trabalho decente, dos salários dignos, da erradicação do trabalho infantil doméstico e da ampliação da seguridade social são abordadas cuidadosamente no texto da Convenção e da Recomendação, difundindo tais premissas para todos os seus membros.
2.4 Estudo da OIT sobre trabalhadores domésticos no mundo: estatísticas