O Direito do Trabalho surge num cenário de total abuso da mão de obra por parte de seus empregadores, por isso, trata-se de ciência que nasceu com a função de proteger o lado mais fraco da relação. Em que pese o fato das relações de trabalho terem evoluído ao longo do tempo, as desigualdades entre empregado e empregador sempre persistiram, o que outorga ao Direito do Trabalho a tarefa de conferir igualdade jurídica a uma relação em que inexiste igualdade natural.
Camerlynck e Lyon-Caen50 afirmam:
Le droit du travail est um Droit né de l’inegalité qui est au coeur des relations du travail. Donnant satisfaction à telle ou telle forme de revendication, Il corrige ou limite cette inégalité. Il est tout de protection pour le travailleur.51
A despeito do Direito do Trabalho ter sido construído integralmente sob a égide da dignidade da pessoa humana, duas óticas são possíveis quanto a essa noção: a primeira, de
50 CAMERLYNCK, G.H.; LYON-CAEN, G. Droit du travail. Paris: Dalloz, 1976, p.19.
51“O direito do trabalho é um Direito nascido da desigualdade que está no coração das relações de trabalho. Satisfazendo esta ou aquela reivindicação, ele corrige ou limita essa desigualdade. É de todo proteção para o trabalhador.” (Tradução nossa.)
que o indivíduo só será digno quando puder obter seus meios de subsistência, o que se alcança por meio do trabalho. Jorge Cavalcanti Boucinhas Filho52 postula que não há como se assegurar a alguém condições para uma vida saudável nem garantir sua participação nos destinos de sua própria existência se não lhe for possibilitado acesso ao emprego, tampouco for valorizado seu esforço em se capacitar para ele. Já a segunda ótica diz respeito às condições a que o trabalhador é submetido, segundo a qual o trabalho não pode ser degradante; frisa, ainda nesse quesito, que o trabalhador deve receber valores justos como contraprestação, uma vez que se parte do pressuposto de que não há como o indivíduo ser digno sem que o seu trabalho também o seja.
No entanto, como mencionado, para que essas premissas sejam efetivadas, é indispensável que a ciência do Direito do Trabalho seja integralmente pautada no princípio protetor, o qual será abordado a seguir.
O chamado princípio protetor também é conhecido como princípio protetivo, princípio tutelar ou, ainda, princípio tuitivo. Qualquer que seja a denominação a ele conferida, seu conceito se assenta na ideia de compensar a desigualdade existente entre empregado e empregador. A este respeito, Amauri Mascaro Nascimento pontua:
Sustentam que no direito do trabalho há um princípio maior, o protetor, diante da sua finalidade de origem, que é a proteção jurídica do trabalhador, compensadora da inferioridade em que se encontra no contrato de trabalho, pela sua posição econômica de dependência ao empregador e de subordinação às suas ordens de serviço. O direito do trabalho, sob essa perspectiva, é um conjunto de direitos conferidos ao trabalhador como meio de dar equilíbrio entre os sujeitos do contrato de trabalho, diante da natural desigualdade que os separa, e favorece uma das partes do vínculo jurídico, a patronal.53
52 BOUCINHAS FILHO, Jorge Cavalcanti. Discriminação por sobrequalificação. p. 35.
Em concordância com o exposto, Maurício Godinho Delgado54 sustenta que toda estrutura conceitual do Direito do Trabalho constrói-se a partir da constatação fática de que existe uma diferença tanto socioeconômica quanto – consequentemente – de poder entre os sujeitos da relação de trabalho.
Assevera, do mesmo modo, que nessa relação jurídica o sujeito empregador age naturalmente como um ser coletivo, ou seja, um sujeito cujas ações possuem a aptidão natural de produzir impactos na comunidade mais ampla. Por outro lado, no outro polo da relação está o empregado, que é sempre um ser individual, incapaz, via de regra, de produzir ações de impacto coletivo. Tal situação assimétrica faz com que não seja possível conceber um Direito do Trabalho que não conserve natureza protetora ao trabalhador.
Nesse intento, Santoro-Passarelli55 dialoga sobre a essência do Direito do Trabalho:
Tutto Il diritto del lavoro è ordinato caratteristicamente a questo fine, alla tutela della libertà, anzi della stessa personalità umana del lavoratore, legato da un vincolo, che, fra tutti i vincoli di contenuto patrimoniale, è Il solo a porre, sia pure per necessita istituzionale, um soggetto alle dipendenze di um altro soggetto. Quella tutela segna Il limite del rispetto dell’interesse dell’imprenditore.56
Disso, conclui-se então que o princípio protetor não age apenas em benefício do trabalhador, mas sim de toda coletividade, visto que impõe limites à atuação do empresário e exige do Estado prestações positivas a fim de tutelar os interesses desses indivíduos. Ademais, a estabilização das relações entre empregador e empregado é, indubitavelmente, um dos requisitos para o desenvolvimento econômico e social do país.
54 DELGADO, op. cit, p.40.
55 SANTORO-PASSARELLIi, Francesco. Nozioni di diritto del lavoro. Napoli: Casa Editrice Dott. Eugenio Juvene, 1972, p.13.
56 “Todo o direito do trabalho é ordenado caracteristicamente a este fim, a tutela da liberdade, voltada à própria personalidade humana do trabalhador, unido por um vínculo, que entre todos os vínculos de conteúdo patrimonial é o único a merecer destaque, pois, por necessidade institucional um sujeito é dependente do outro. Aquela tutela assinala o limite a que se submete o interesse do empreendedor.” (Tradução nossa.)