Finalmente, em 11 de dezembro de 1972, surge a Lei n. 5.859, cujo teor contempla o trabalhador doméstico, definindo-o como “aquele que presta serviços de natureza contínua e finalidade não lucrativa à pessoa ou à família“.
Esta lei conferiu aos trabalhadores domésticos a condição de segurado obrigatório da Previdência Social, determinando, também, a forma do custeio por parte do empregado e do empregador, bem como concedeu o direito a 20 dias de férias remuneradas por ano e instituiu o registro em Carteira de Trabalho.
Além disso, alguns outros foram instituídos posteriormente em seu texto, com o advento da Constituição de 1988 e outras leis, alterando a redação original. Alguns exemplos são a vedação de descontos por fornecimento de alimentação, vestuário, higiene ou moradia; o direito a férias anuais remuneradas e com um terço de acréscimo; a faculdade de incluir o empregado no Fundo de Garantia do Tempo de Serviço; a estabilidade da empregada gestante; além do direito ao seguro-desemprego.
3.2.5 Os trabalhadores domésticos na Constituição Federal de 1988
O texto original da Constituição Federal de 1988 assim previa no que tange ao artigo 7º:
Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:
I – relação de emprego protegida contra despedida arbitrária ou sem justa causa, nos termos de lei complementar, que preverá indenização compensatória, dentre outros direitos;
II – seguro-desemprego, em caso de desemprego involuntário; III – fundo de garantia do tempo de serviço;
IV – salário-mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender às suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim;
V – piso salarial proporcional à extensão e à complexidade do trabalho;
VI – irredutibilidade do salário, salvo o disposto em convenção ou acordo coletivo;
VII – garantia de salário, nunca inferior ao mínimo, para os que percebem remuneração variável;
VIII – décimo terceiro salário com base na remuneração integral ou no valor da aposentadoria;
IX – remuneração do trabalho noturno superior à do diurno; X – proteção do salário na forma da lei, constituindo crime sua retenção dolosa;
XI – participação nos lucros, ou resultados, desvinculada da remuneração, e, excepcionalmente, participação na gestão da empresa, conforme definido em lei;
XII – salário-família para os seus dependentes;
XIII – duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e quarenta e quatro semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho;
XIV – jornada de seis horas para o trabalho realizado em turnos ininterruptos de revezamento, salvo negociação coletiva;
XV – repouso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos;
XVI – remuneração do serviço extraordinário superior, no mínimo, em cinquenta por cento à do normal;
XVII – gozo de férias anuais remuneradas com, pelo menos, um terço a mais do que o salário normal;
XVIII – licença à gestante, sem prejuízo do emprego e do salário, com a duração de cento e vinte dias;
XIX – licença-paternidade, nos termos fixados em lei;
XX – proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei;
XXI – aviso-prévio proporcional ao tempo de serviço, sendo no mínimo de trinta dias, nos termos da lei;
XXII – redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança;
XXIII – adicional de remuneração para as atividades penosas, insalubres ou perigosas, na forma da lei;
XXIV – aposentadoria;
XXV – assistência gratuita aos filhos e dependentes desde o nascimento até seis anos de idade em creches e pré-escolas;
XXVI – reconhecimento das convenções e acordos coletivos de trabalho;
XXVII – proteção em face da automação, na forma da lei; XXVIII – seguro contra acidentes de trabalho, a cargo do empregador, sem excluir a indenização a que este está obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa;
XXIX – ação, quanto a créditos resultantes das relações de trabalho, com prazo prescricional de:
a) cinco anos para o trabalhador urbano, até o limite de dois anos após a extinção do contrato;
b) até dois anos após a extinção do contrato, para o trabalhador rural;
XXX – proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil;
XXXI – proibição de qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador portador de deficiência;
XXXII – proibição de distinção entre trabalho manual, técnico e intelectual ou entre os profissionais respectivos;
XXXIII – proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre aos menores de dezoito e de qualquer trabalho a menores de quatorze anos, salvo na condição de aprendiz;
XXXIV – igualdade de direitos entre o trabalhador com vínculo empregatício permanente e o trabalhador avulso.
Parágrafo único. São assegurados à categoria dos trabalhadores domésticos os direitos previstos nos incisos IV, VI, VIII, XV, XVII, XVIII, XIX, XXI e XXIV, bem como a sua integração à previdência social.
Do transcrito texto constitucional, tinha-se que aos trabalhadores domésticos somente eram conferidos os seguintes direitos: salário-mínimo; irredutibilidade salarial; décimo terceiro salário, descanso semanal remunerado; férias anuais acrescidas de um terço, licença à gestante no prazo de 120 dias; licença-paternidade; aviso-prévio proporcional ao tempo de serviço (mínimo de 30 dias); aposentadoria e integração à previdência social.
Alguns direitos já estavam previstos na Lei n. 5.859/72 e foram confirmados pela Carta Magna de 1988. Ainda assim, havia um assustador hiato entre os direitos conferidos aos empregados urbanos e rurais e os empregados domésticos. Os direitos conferidos aos domésticos não chegavam à metade daqueles garantidos aos demais tipos de empregados no Brasil.
O principal questionamento que fica a respeito dessa situação (que perdurou durante décadas) é: qual seria a justificativa para tal discriminação? Seria o trabalho doméstico um ofício de menor valor que os demais? Ou, quiçá, seria um labor menos árduo que os outros? A óbvia resposta para estas pergunta é não. Dadas tais negativas, seria, então, em virtude do fato de seus empregadores serem pessoas físicas, e não empresas, buscando aliviar-lhes dos encargos financeiros? De acordo com esse raciocínio, estaríamos legitimando a ideia de que o conforto de uns poderia –e deveria – custar os direitos, o sustento e, por que não dizer, a dignidade de outros?
O fato é que não se pode chegar a uma explicação lógica para essa violência que ocorreu durante anos com os trabalhadores domésticos por meio de jornadas infindáveis sem pagamento de horas extraordinárias, desamparo no momento da dispensa – uma vez que a inclusão no FGTS era facultativa (e ainda é, até que haja regulamentação do novo direito) –, dentre tantos outros direitos suprimidos.
É com o advento da PEC 66/2012 e de seu fruto mais direto, a Emenda Constitucional 72, de 2013, que o quadro principia mudanças de forma significativa e os empregados domésticos começam a ocupar o lugar que lhes cabe no cenário de trabalho no Brasil.
3.2.6 Aprovação da PEC 66/2012
A proposta da Emenda Constitucional 66/2012, que visava equiparar os direitos dos empregados domésticos aos dos empregados urbanos, conhecida como “PEC das domésticas”, foi aprovada pelo Senado em 26.03.2013. A PEC, de autoria da deputada Benedita da Silva (PT-RJ), destinava-se a revogar o parágrafo único do artigo 7º da Constituição Federal, deixando, assim, de discriminar o trabalho doméstico dos demais tipos de trabalho ao conferir-lhe uma série de direitos que, até o momento, eram subtraídos da categoria, quais sejam: os depósitos do FGTS; o pagamento de horas extras e de adicional noturno; jornada de trabalho de 8 horas diárias e 44 horas semanais; indenização em caso de despedida sem justa-causa; seguro-desemprego, em caso de desemprego involuntário; garantia de salário-mínimo para quem recebe remuneração variável; proteção ao salário, sendo crime retenção dolosa de pagamento; salário-família; observância de normas de higiene, saúde e segurança no trabalho; auxílio creche e pré-escola para filhos e dependentes de até 5 anos de idade; reconhecimento dos acordos e convenções coletivas; seguro contra acidente de trabalho; proibição de discriminação de salário, de função e de critério de admissão; proibição de discriminação em relação à pessoa com deficiência e proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de 18 anos.
Como já observado neste presente estudo, muito se discutiu acerca dessa mudança. Contudo, pouco foi discutido além de eventuais sobrecargas financeiras dos empregadores e de uma potencial redução da contratação de empregados domésticos, com consequente aumento da informalidade nesse âmbito.
No entanto, ocorre que não podemos reduzir a ciência do Direito do Trabalho a mero instituto a serviço dos interesses econômicos, seja de empregadores ou de empregados. O Direito do Trabalho, historicamente concebido, marca a posição política de um país, bem como define a postura da nação perante as necessidades de seus cidadãos. Sem perder de vista a relevância de uma economia saudável para a segurança de um país, mudanças na legislação trabalhista não podem ser encaradas como simples cálculo aritmético de lucros e prejuízos, pois são fatos históricos que marcam o avanço ou regresso da nação como um todo.
Por caracterizar-se como um país jovem e de colonização europeia, tem-se, no Brasil, uma forte cultura de admiração quanto ao que é estrangeiro. Os produtos importados, as línguas estrangeiras, os escritores, filmes, artes, restaurantes etc. são frequentemente tidos como melhores que os nacionais, independente do mérito que possa ou não haver nessa afirmação. A comparação é nítida em relação aos valores oriundos dos países da Europa. Seja na postura do governo, nas políticas públicas, ou no direito. Todavia é interessantíssimo que esse fenômeno seja relegado quando se fala em direitos trabalhistas. Toda a inspiração nos países com alto grau de qualidade de vida é deixada de lado. Chega-se ao ponto de entrar numa espinhosa de “zona de conforto” por parte da elite de um país onde há uma das maiores desigualdades sociais do mundo, na qual parece não haver grande desejo de mudanças, sob pena de encarecer a já tão barata mão de obra, ameaçando, com isso, o padrão de vida das nossas mais altas camadas da sociedade.
Justamente por tais considerações é que a aprovação da PEC 66/2012 representou um passo decisivo no posicionamento do Brasil como país em desenvolvimento social e legislativo. Como era de se esperar, a reação causada não foi das melhores, tendo em vista que o serviço doméstico tornou-se mais caro. Muitos afirmaram que isso ocasionaria aumento da informalidade ou que geraria um elevado nível de desemprego entre esses profissionais. Outros sustentaram que a fiscalização do cumprimento das alterações seria absolutamente inviável.
À parte isso, é sabido que todo processo de mudança inclui um árduo período de adaptação. Contudo, tal entendimento não pode justificar a ausência de mudanças nem a perpetuação de injustiças como a que vinha sendo cometida contra os trabalhadores domésticos no Brasil. Desta forma, encerra por corroborar que inexiste qualquer tipo de justificativa para a supressão de direitos, visto que se trata de trabalho de igual valor e grau de dificuldade como os demais.
3.2.7 O atual regime jurídico aplicável aos trabalhadores doméstico no Brasil – Emenda Constitucional 72, de 2013
A Emenda Constitucional 72, de 2013, fruto da aprovação da PEC 66/2012, altera a