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3.3. Sosyal Hayat

3.3.5. Eş Seçimi

Vilém Flusser, em O mundo codificado, observa a imaterialidade. Segundo Flusser, a hylé (madeira/matéria) opõem-se à morphé8(“forma”) “... O mundo material (materielle

Welt) é aquilo que guarnece as formas com estofo, é o recheio (Fullsel) das formas...” (cf. p. 24). A matéria, segundo esta teoria do conhecimento, é um preenchimento transitório de formas atemporais. Conclui-se: “...O movimento percebido pelos sentidos (aquilo que é material nos corpos) é aparente e a fórmula deduzida teoricamente (aquilo que é formal nos corpos) é real...” (cf. p. 26). Para Flusser, o que prevalece hoje em dia é a morphé, esta é abrasada pelos equipamentos técnicos e representada em imagens ou fórmulas matemáticas. O império da forma se dá quando se projetam formas para conter a matéria.

A questão “abrasadora” é, portanto, a seguinte: antigamente (desde Platão, ou mesmo antes dele) o que importava era configurar a matéria existente para torná-la visível, mas agora o que está em jogo é preencher com matéria uma torrente de forma que brotam a partir de uma perspectiva teórica e de nossos equipamentos técnicos, com a finalidade de “materializar” essas formas. Antigamente, o que estava em causa era a ordenação formal do mundo aparente da matéria, mas agora o que importa é tornar aparente um mundo altamente codificado em números, um mundo das formas que se multiplicam incontrolavelmente. (2007, p. 31)

Flusser chama esta forma de não-coisa (cf. item 2.1.2), pois lhe falta a matéria, sendo esta “imaterial”. “A coisa” nos insere neste momento da humanidade, que por um lado traz angústias, mas por outro, grandes realizações, superando o tempo e o espaço. Por outro lado, a coisa dilui-se, gerando uma infinidade de símbolos e não constrói sentidos. “A coisa” traz para seu centro uma quantidade de informação ilimitada, ao mesmo tempo não

8 A decodificação das coisas em signos nos da a impressão que no sistema planetário de

comunicação tudo é volátil, tudo se dissipa, as coisas se compõem e se decompõem instantaneamente, constituindo característica do fenômeno comunicacional hodierno.

temos acesso a todas. Podemos afirmar que “a coisa” inaugura o ciclo cibernético. Neste ciclo cibernético, as coisas “da coisa” apenas são.

“A coisa” reveste-se de inúmeras realidades, conseqüentemente expande a própria realidade “da coisa”. São realidades matrizes. Quando estamos com a Alice no país das maravilhas, inseridos, mergulhados e embebidos deste mundo as coisas são aquilo que ali percebemos, com sentido e lógica. Alice assentando-se com a Lebre de Marco, o Chapeleiro e o Caxinguelê trava um diálogo interessante sobre o Tempo (cf. p. 67-75). O Chapeleiro, após discussão arrefecida, indaga “Que dia do mês é hoje”? Alice acha o instrumento de marcação engraçado, pois marca o dia do mês e não a hora. O Chapeleiro questiona o tempo de Alice, “... o seu relógio marca o ano?” “Não”. Responde Alice. Justifica o Chapeleiro: “...mas, é porque continua sendo o mesmo ano por muito tempo seguido” (p. 69). O Chapeleiro e Alice, embora “falando a mesma língua”, percebem e vivem em tempos diferentes. Os acontecimentos neste tempo são surpreendentes.

“E desde aquele momento”, continuou o Chapeleiro, desolado, “ele não faz o que peço! Agora, são sempre seis horas”.

Alice teve uma idéia luminosa. “É por isso que há tanta louça de chá na mesa?”, perguntou.

“É, é por isso”, suspirou o Chapeleiro; “é sempre hora do chá”, e não temos tempo de lavar a louça nos intervalos”.

“Então ficam mudando de um lugar para outro em círculos, não é?”, disse Alice. “Exatamente”, concordou o Chapeleiro, “à medida que a louça se suja”.

“Mas o que acontece quando chegam de novo ao recomeço?” Alice se aventurou a perguntar? (Lewis Carrol, Aventuras de Alice no país das maravilhas, 2002, p. 72)

Notemos que não estamos negando a existência das coisas na “coisa”. As informações, signos, imagens aí estão no ciberespace, telenovelas, jornais e outros meios de comunicação, porém estão ali diferentemente. Numa espécie de eterno contínuo “ficam mudando de um lugar para o outro em círculos”. Truman, no filme “O show de Truman”, desde sua infância, viveu em tempo e espaço, percebidos, sentidos e vividos por ele; constituindo seu ser de tal maneira que aquela era sua realidade. Até que em certo momento seu barco perfura este cenário, esta imagem, este signo e ele descobre outras realidades.

Trumam deixa de “mudar de um lugar para outro em círculos” (cf. filme “O show de Truman: o show da vida”, Paramount Pictures, 1998).

3.3.1 Imaginemos todas as coisas do mundo diluídas no sistema comunicacional planetário a “coisa”.  ฀     ฀       @ X # % ® ¬ ° © § ¤ ¢ ~ ó ± ¶ › Ω ∆ • ◊ ▒ … ¶        ฀       Ȓ Ǿ Ǹ ƾ ǃ Lj ƃ Ɣ Ȅ Ʋ ʁ ʉ ٵ ٭ ٭ ʟ ɿ ʙ ɭ ʧ ɒ ˙  ̓ ͍ ͇ ͇ Δ ϔ Ћ Ѝ Ψ Σ Ο ӭ خ ٷ ٺ ٳ ٯ و ڭ ڳ ס ת ڵ״ ە ۗ ۩ ش ۊ ถ ฦ ۰ ۪ Ṽ Ẁ Ẑ ẗ ắ ẩ ẵ Ỹ Ἅ ὦ ᾇ ὡ ό ₠ ∏ ∆ Ӫ Ω ‡ ₯ ₭ ∞ ≈ ◊ ◦   ฀ ⅛ ℓ ₪ ฀  Ω ฀  ﻦ ﺪ ﺍ ﮓ Ű þ † Ω ◊ ▒ ş œ ý ª ‡ È Õ Ł Ç ^ ž à ř þ ø ź õ · × ` z 9 = 0 [ \ , m y j l ‘ / . , \ [ ; * & ^ % $ ϔ Ћ Ѝ Ψ Σ ϔ \ , m y Ћ Ѝ

Em expansão, a cultura comunicacional generalizada rompe limites, totalmente virtual, espaço e tempo seriam categorias em suspensão. Somente o presente eterno. Cada símbolo representa um mundo e em cada mundo, outros mundos. Por exemplo, o “quadrado” representa o mercado de compra e venda de veículos no planeta. Os “círculos”, os meios radiofônicos de comunicação. O “m” as universidades, o “X” as obras clássicas. O “T”, filmes pornográficos. Enfim, o mundo conhecido estaria disponível mediante uma plataforma digital mundial.

Os navegadores da grande “coisa” estariam educados nesta linguagem universal. Nós nos determinaríamos como sujeitos plugados do eterno presente. Ora, existir significa estar nesta grande máquina. O planeta dar-se-ia no entrelaçamento desta grande sociedade de comunicação. A economia planetária move-se por esta esteira tecnológica comunicacional. Enfim, teríamos uma sociedade e um ser humano composto por esta grande máquina oracular.

3.3.2 Gianni Vattimo destaca como sintoma dos tempos a “sociedade de comunicação generalizada, a sociedade dos mass media”. Marca a passagem de um período da história humana para outro, como se convencionou: modernidade à pós-modernidade (cf. 2.0).

Pois bem, eu considero, pelo contrário, que o termo pós-moderno tem um sentido; e que este sentido esta ligado ao facto da sociedade em que vivemos ser uma sociedade de comunicação generalizada, a sociedade mass media. (Sociedade transparente, 1992, p. 7)

Nesta era da “imaterialidade”, as formas (Flusser) tendem a multiplicar-se, porém, desejam a “carne” ou a matéria. Buscam manifestar-se, ter uma existência, pois a matéria (corpo) lhe é ausente.

Podemos ter no futuro, bem pouco tempo, qualquer coisa como 500 canais de televisão. E que isto é realmente notável, digamos do ponto de vista sei lá, do que quiser, divertimento, conhecimento, informação, cultura digamos. Podemos imaginar até, embora eu tenha dúvidas sobre isso. E Eu disse pois: acho isso importantíssimo realmente. Vamos imaginar que recebamos em casa 500 jornais todos os dias. Se eu fizesse uma coisa destas as pessoas diriam que eu estava louco. Como posso ler 500 jornais todos os dias? Que conclusão tiro eu da leitura de 500 jornais todos os dias? Claro, impossível! Nem eu tenho tempo para isso, nem teria proveito nenhum se me entrassem em minha casa até 500 jornais. (José Saramago, “Janela da alma”, 2003, 00:59:02‟ – 00:59:53‟).